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Final de copa (in)visível em Manhattan (Nova York)

Gustavo Lins Ribeiro (UAM)


No texto abaixo, às vésperas da decisão da Copa de 2026, o autor relembra a final da Copa de 1994, realizada nos Estados Unidos, assim como a atual. O jogo em questão aconteceu no dia 17 de julho, há exatos 32 anos. Diferentemente da Copa atual, o Brasil estava na final do torneio e levou o título. Mas, assim como ocorre agora, a população do país anfitrião não se engajou tanto no evento quanto os torcedores estrangeiros.


A Nova York dos anos 1990 testemunhou uma final de Copa com o Brasil em campo. Imagem: Aimee Dars Ellis/Flickr¹


Era julho de 1994, quando saiu o Plano Real, que supervalorizou a moeda brasileira. Um dólar chegaria a valer 82 centavos de real. Pensei: essa é uma boa ocasião para viajar no verão dos Estados Unidos que, subitamente, se tornaram um país barato para viajantes brasileiros. Fiz meu doutorado na Universidade da Cidade de Nova Iorque e tinha saudades de lá. A Copa do Mundo de 1994 se desenrolava nos Estados Unidos e sua final seria em 17 de julho, quando ainda estaria em Manhattan, em um bem situado apartamento no Upper West Side.

 

A Copa não existia em NYC. Tudo se dava como se nada estivesse acontecendo no planeta futebol. Mas eu conhecia um bar brasileiro onde tinha escutado o Naná Vasconcelos ao vivo e onde provavelmente se transmitiria o jogo da final: Brasil x Itália. Não sei se ainda existe o S.O.B (Sounds of Brazil), uma brincadeira com a sigla de um xingamento em inglês, son of a bitch. Com uma grande quantidade de torcedores brasileiros dispersos pela cidade, enchemos tanto o lugar que mal se via o telão onde se desenrolava a partida dramática. Com um casal de brasileiros que se juntou na última hora, abandonamos o S.O.B. no intervalo para ver o segundo tempo no apartamento alugado. Na esperança de chegar a tempo no nosso destino, tomamos, nervosamente, um táxi no trânsito pesado de Manhattan, que mantinha sua impávida rotina. O motorista era um sikh, com turbante laranja, que notou nossa excitação. Lhe disse:

 

– Meu amigo, não sei se você entenderá o que isso significa para nós, mas estamos no meio da decisão da copa mundial de futebol e nossa seleção nacional está jogando! Por favor, vá o mais rápido possível.

 

O motorista, apesar de ser provavelmente um torcedor de cricket, o esporte favorito que os colonialistas ingleses deixaram na sua área do mundo, acelerou fundo. Subimos as quatro escadas do edifício, e o Brasil ganhou nos pênaltis. Haja coração! Com a vitória, a brasileirada se uniu, para surpresa de todos os novaiorquinos (inclusive da polícia), e compareceu massivamente ao quarteirão da Rua 46, conhecido como Little Brazil. Aí rolaram samba, carnaval e muita cerveja tomada na rua – o que é ilegal em NYC –, frente a um batalhão de policiais que, extasiados com a alegria brasileira, tinham fechado a rua para que a festa se desenrolasse.

 

Mais tarde, exausto pela tensão, alegria e comemoração, pensei em quantos campeonatos mundiais de diferentes esportes devem ser vividos em Nova Iorque por torcedores de vários países sem que a cidade se dê conta. Por outro lado, diante da maravilhosa diversidade étnica que experimentam cotidianamente, os seus habitantes gostam de dizer que a cidade, hoje uma ilha socialista em um país governado pela ultradireita, é “território livre”. Só assim se pode entender a aceitação de repentinas explosões massivas de alegria, como aquela dos brasileiros em plena Midtown Manhattan após o (in)visível jogo que transformou o Brasil em tetracampeão mundial de futebol.

 

Texto inspirado no artigo “A Copa do Mundo não aconteceu” de Carmen Rial.

 

Sobre o autor:

 

Gustavo Lins Ribeiro é doutor em Antropologia pela Universidade da Cidade de Nova Iorque. É Professor Titular do Departamento de Estudos Culturais da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), em Lerma, no México.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

RIBEIRO, Gustavo Lins. Final de copa (in)visível em Manhattan (Nova York). Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3 n. 29, 2026.



 
 
 

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