Final da Copa 2026: futebol coletivo 1 X 0 futebol testosterona
- INCT Futebol
- 24 de jul.
- 7 min de leitura
Luiz Carlos Rigo (UFPel/INCT Futebol)
No texto abaixo, o autor reflete sobre a final da Copa do Mundo de 2026, apontando as diferenças entre os estilos de jogo da Argentina e da Espanha.

O fim da Copa é um momento propício para pensarmos sobre alguns acontecimentos evidenciados por esse megaevento, que acontece de quatro em quatro anos e, através do futebol, mexe com nossos sentimentos, nossas emoções e constitui nossas subjetividades.
Nesta Copa de 2026, especificamente, emergiram vários acontecimentos políticos e futebolísticos dignos de problematizações, como, por exemplo, o caso que envolveu o futebolista Folarin Balogun, dos EUA, que teve a sua suspensão automática para o próximo jogo anulada, depois de uma interferência direta e explicitada de Donald Trump perante a FIFA. Os efeitos desse episódio foram minimizados graças à vitória por 4 x 1 do Selecionado Belga perante a boa Seleção Americana. Parece que a intempestiva intervenção de Trump, mais uma vez, ajudou mais os seus adversários que a seleção de seu país.
Entre os inúmeros acontecimentos da Copa, a final merece um destaque especial. De um lado, a Argentina, de outro, a Espanha. Duas seleções campeãs mundiais: Argentina a atual campeã sul-americana, e Espanha a atual campeã europeia. Um cenário propício para termos um histórico espetáculo futebolístico, capaz de agradar aos amantes do futebol e também aos interesses econômicos e financeiros da FIFA.
Costumo dizer que, diferente do que muitos pensam, a FIFA e os interesses capitalistas que circulam e constituem o futebol moderno estão sim preocupados com um bom e belo futebol. Quanto melhor e mais belo for o espetáculo futebolístico, mais ele vai capturar nossas subjetividades, mais adeptos ele terá e melhor será para os interesses econômicos da FIFA. Um futebol falido e feio, que não agrada a quase ninguém, não interessa à FIFA.
Antes da final da Copa, as falações futebolísticas movimentaram as redes sociais, inclusive nos países que não estavam representados naquela partida. No Brasil, se produziu uma guerra de narrativas entre aqueles que iriam torcer para a Espanha e aqueles que iriam torcer para a Argentina. Produziu-se uma enxurrada de argumentos de diferentes naturezas: alguns mais no campo político e outros mais restritamente relacionados aos aspectos técnicos e táticos do futebol e também sobre a rivalidade futebolística existente entre Brasil e Argentina.
Mais uma vez, a final foi decidida apenas na prorrogação, com uma vitória simples da Espanha por 1 a 0. O fato de o gol ter ocorrido somente no começo do segundo tempo da prorrogação manteve a tensão emocional até o último minuto. Mas, para quem assistiu à partida ou mesmo quem olha os lances após o jogo, não ficam maiores dúvidas sobre a supremacia espanhola e a sua merecida vitória. Fato que pode ser percebido nas finalizações: 20 a favor da Espanha contra 2 para a Argentina. Ou, ainda, na posse de bola: 65% para a Espanha e 35% para a Argentina.
Todavia, mais do que os dados estatísticos do jogo, quero aqui problematizar algumas marcas do futebol jogado por cada uma das duas seleções. Marcas que apareceram na final, mas também nos outros jogos de ambas.
Com um futebol focado na posse de bola e troca de passes, a Espanha de 2026 relembrou o jeito de jogar da Seleção Espanhola que, em 2010, encantou a muitos e venceu pela primeira vez uma Copa, consagrando os jogadores espanhóis daquela geração. Entretanto, além do toque de bola e do “futebol coletivo”, a Espanha de 2026 e a de 2010 também têm em comum alguns traços estruturais do futebol espanhol, especialmente o investimento que certos clubes espanhóis fazem em suas canteras¹.
Provavelmente, o exemplo mais emblemático desse investimento, que serviu de base tanto para a seleção de 2010 como para a de 2026, são os futebolistas formados na cantera do F.C. Barcelona. Em 2010, sete futebolistas da seleção tinham passagem pela cantera do Barcelona (Victor Valdés, Pedro, Puyol, Piquet, Busquets, Xavi e Iniesta)². Já na seleção de 2026, esse número subiu para nove: sete que atualmente atuam no clube (Lamine Yamal, Gavi, Pau Cubarsí, Eric Garcia, Dani Olmo e Pedri) e dois (Alejandro Grimaldo e Marc Cucurella), que, no momento, não jogam pelo F.C. Barcelona. Ou seja: tanto a seleção de 2010 como a de 2026 trazem consigo um DNA de “La Masia”, centro de formação de jogadores do F.C. Barcelona.
Além dos jogadores oriundos de “La Masia”, no elenco da seleção de 2026, também merecem destaque a presença de Unai Simón, Aymeric Laporte e Nico William, os três formados na “Lezema”, cantera do Athletic Club de Bilbao. Assim como o Barcelona, o Athletic Bilbao também tem uma tradição de compor sua equipe principal com jogadores provenientes da cantera (Rigo, 2015)³.
Aos menos iniciados nos aspectos táticos e técnicos do futebol, o “futebol coletivo” jogado pela Seleção Espanhola pode parecer fácil. No entanto, ele demanda um forte senso de conjunto, uma sintonia apurada entre os jogadores e uma formação futebolística que prioriza troca de passes nos diferentes setores do campo. Um futebol que tem, entre os seus méritos, valorizar o coletivo preservando as qualidades individuais, sem gerar uma dependência maior de um ou outro jogador. Na Seleção Espanhola, isso pode ser notado na maneira que ela jogou e nos resultados que alcançou, apesar do desempenho aquém do esperado de Lamine Yamal, um dos seus principais futebolistas.
Enquanto a Espanha trouxe para esta copa o “futebol coletivo”, qual foi o futebol que a Argentina mostrou? Ou, ao menos, que mais mostrou na final? Em primeiro lugar, mostrou um futebol dependente das jogadas providenciais do Messi – curiosamente, um futebolista também formado na “La Masia”, do F.C. Barcelona. Messi, por sua vez, teve o grande mérito de, mesmo com 39 anos, ser o protagonista da equipe e arrastar uma seleção mediana para a final da Copa. Algo similar ao que fez Maradona em 1990, quando levou para a final também uma seleção nada excepcional, que foi superada pela Alemanha por 1 a 0.
Mas os companheiros de Messi também tiveram um papel a desempenhar em campo e fora dele. Fora do campo, infelizmente, optaram por não se posicionar perante as posturas racistas de torcedores argentinos que viralizaram nas redes sociais. Esse silêncio, ao menos em parte, talvez esteja relacionado à sintonia que existiu entre os jogadores e a torcida argentina, conforme fora exaltado por boa parte da mídia. Um comprometimento mútuo, bastante questionável, que apareceu também nos pós-jogo, quando todos os jogadores argentinos ficaram de frente para a sua torcida e de costas para a Seleção Espanhola, enquanto esta recebia a sua premiação.
Dentro de campo, assim como a Espanha, a Argentina também mostrou ter um senso de coletividade que aglutinou seus jogadores. Mas, diferente da Espanha, na Argentina, a unidade estava menos em como jogar e mais em como não deixar jogar, até porque, na final, a Argentina pouco teve a bola. No jargão do futebol, tratava-se de “furar a bola”. Um pouco parecido com aquilo que fez a Seleção do Paraguai no jogo contra a França, em que foi derrotado por 1 a 0.
O estilo “futebolístico” que a Seleção Argentina trouxe para esta Copa, elogiado por muitos como um futebol com “garra” e com atitude, consistia basicamente em fazer faltas (foi a equipe que cometeu o maior número de faltas na competição), pressionar a arbitragem, simular lesões e, principalmente, provocar e tentar intimidar os seus adversários. Um kit completo de um ultrapassado “futebol testosterona”.
A entrada maldosa de Enzo Fernández no jovem zagueiro espanhol Paul Cubarsí (eleito o melhor jogador jovem da Copa de 2026), que ocasionou sua merecida expulsão, assim como a bola jogada no campo pelo banco de reserva da Argentina no jogo contra a Inglaterra, para impedir uma cobrança rápida de um arremesso de lateral da equipe inglesa, são parte de um leque de recursos que a Argentina não hesitou em lançar mão, sempre que julgou necessário.
O futebol testosterona argentino mostrou a sua cara e alcançou o seu ápice após o termino da partida, com as agressões físicas feitas por Leandro Paredes, Nunes Medina, Thiago Almada e mais alguns colaboradores aos futebolistas espanhóis. Posteriormente, o “macho” Paredes justificou-se dizendo que os jogadores espanhóis haviam ofendido Messi e que, ofensas ao Messi, ele não aceitava.
Assim como a Seleção Belga teve um importante papel político/futebolístico ao ganhar da Seleção dos EUA, ao vencer a Argentina, a Espanha nos felicitou com um sopro de estética no futebol. Em um momento que aplaudimos a expansão do futebol feminino e que se faz necessário um futebol menos violento e antirracista, seria lamentável se o ultrapassado futebol testosterona da Argentina vencesse a Copa de 2026.

Referências
GONZÁLEZ, J.; HERRERA, M.; MOYA, M. (Orgs.). Els nens de la Masia. Barcelona: Ediciones B, 2011.
RIGO, L. C. Cantera e categorias de base: considerações sobre a formação, o pertencimento clubístico e a circulação de jogadores espanhóis e brasileiros. In: Futebol, linguagem, artes, cultura e lazer. CORNELSEN, E. L.; AUGUSTIN, G. H.; SILVA, S. R. (Orgs.). Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2015. p. 111-124.
Sobre o autor:
Luiz Carlos Rigo é doutor em Educação pela Unicamp, Professor Titular da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas. Pesquisador do INCT Estudos do Futebol Brasileiro.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
RIGO, Luiz Carlos. Final da Copa 2026: futebol coletivo 1 X 0 futebol testosterona. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3 n. 32, 2026.
A formação de atletas de outra seleção também já foi abordada em um texto do blog Bate-Pronto. Leia também: Banlieue, celeiro de craques: a bela e rebela seleção nacional francesa.
¹ Cantera é o termo utilizado para designar a formação de futebolistas no próprio clube.
² Para maiores considerações especificamente sobre os jogadores oriundos da cantera do F.C. Barcelona que fizeram parte da Seleção Espanhola de 2010, ver Gonzáles, Herrera e Moya (2011).
³ Tanto o F.C. Barcelona como o Athletic Bilbao, além da equipe principal, mantêm uma equipe B, que disputa a segunda ou terceira divisão da Liga Espanhola e serve como porta de entrada para os jogadores mais jovens dos clubes, principalmente aqueles oriundos de suas respectivas canteras (Rigo, 2015).
Final da Copa 2026: futebol coletivo 1 X 0 futebol testosterona © 2026 by Luiz Carlos Rigo is licensed under CC BY-NC 4.0




Fugindo do tema da thread, o que me ocupa agora é a distribuição de APK fora de loja oficial e a cadeia de verificação que isso exige. Sem assinatura conferida via hash e sem checagem do certificado do pacote, instalar build lateral é assumir risco desnecessário, ainda mais quando o fluxo envolve cadastro com CPF e verificação documental posterior. Estive lendo material em Tigre Sortudo site oficial porque reúne, num só lugar, guias sobre cadastro, verificação, PIX, modo demonstrativo e instalação do app, mesmo que a redação seja genérica e não trate de detalhes como jurisdição, licenciamento ou política de retenção de dados. O modo demo aparece descrito como caminho de teste sem depósito, o que ao menos permite aval…
Gostei muito do mote do texto e do título "futebol testosterona". Que bom que os espanhóis nos oferereram outras possibilidades (inclusive de sermos humanos) que não as mesmas deste mundo-cão, representadas pelos testosteronados e agressivos argentinos!