Copas do mundo: tatuagens e cicatrizes
- INCT Futebol
- há 3 dias
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Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC)
No texto abaixo, a autora compartilha suas memórias afetivas em torno das Copas do Mundo que vivenciou desde a infância, de 1958 a 2026.

Fui uma menina criada em Lages, sob as ondas de rádio, até 1970. Por causa da Copa do Mundo daquele ano, meu pai comprou a primeira televisão em preto e branco. Mais do que isso: fui uma menina criada com pai gauche na vida e torcedor do América do Rio, mãe vascaína e um irmão apaixonado pelo Fluminense. Esse último, com seus jogos de futebol de botão, que, em geral, jogava sozinho, debruçado sobre o chão da sala. O goleiro era sempre uma caixa de fósforos. Os jogadores de linha, uma mistura de botões “oficiais” comprados no Bazar Danúbio, com escudo de time e tudo, e botões arranjados nas caixas de costura das avós costureiras.
Minha influência maior, porém, foi a avó materna, viajante, que tinha apenas uma mala e, desde a viuvez, transitava entre seu irmão em Joinville, sua cunhada em Itajaí e suas duas filhas: minha tia em Florianópolis e minha mãe em Lages. Meu quarto sempre teve duas camas à espera ou para a permanência dela, que poderia ser de quinze dias, um mês, muitos meses. Aquela mala xadrez e dura, sua única propriedade, tinha, colada na parte interna da tampa, a foto colorida do Flamengo Tricampeão Carioca de 1955, que ela recortara das páginas centrais da Manchete Esportiva Ilustrada. E sobre as roupas, cuidadosamente emoldurada em cartolina e papel celofane, a Carta Testamento de Getúlio Vargas, a quem ela era extremamente grata, pela existência do IAPTEC (Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Estivadores e Transportes de Cargas), de quem recebia a pensão que lhe deixara o marido, de morte tão precoce, o que tinha lhe dado a base sobre a qual criara minha mãe e minha tia.
Cresci, assim, flamenguista entre a diversidade das paixões. Mas, hoje, quero fazer uma homenagem ao meu irmão jornalista, pesquisador e professor como eu. Em 1958, ainda menina curiosa e leitora, ouvia a conversa do meu pai com ele sobre a derrota de 1954 e a esperança desmedida com a Copa que viria em 1958. Meu irmão, ainda pré-adolescente, melhor aluno do Coleginho São José só de meninos, se convenceu de que a irmã, aluna de um colégio só de meninas, um pouquinho mais nova, tinha que ser também sua interlocutora, me fazendo decorar a seleção de 1958, que até hoje digo de cor: Gilmar, De Sordi, Bellini, Zito, Orlando e Nilton Santos, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo. Mas não só: na última hora, De Sordi saiu, e ele me fez decorar com este complemento. E eu, então, tinha que dizer: Gilmar, De Sordi, Bellini, Zito, Orlando e Nilton Santos, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo, De Sordi foi substituído por Djalma Santos. Era importante para ele não excluir a expectativa do De Sordi. E o nome do Pelé, do Garrincha e de tantos deles ficaram marcados a partir da primeira vitória.
Daí, veio o bicampeonato de 1962, com buzinas acanhadas pelas ruas de Lages. Mas a lembrança dessa Copa ficou mais marcada pelo furgãozinho cinza com rádio com que meu pai trabalhava vendendo macarrão, e eu escutando a partida final com ele nos fundos da casa. Lembro de suas lágrimas, da sua felicidade, dos vizinhos vindo ao nosso encontro. Depois, o tricampeonato em 1970 (comemorado com a televisão nova!). Em 1966, tínhamos ficado em um vergonhoso 11º lugar. Em 1970, tricampeonato, comemorado nas frentes das casas. De lá para cá, veio 1974 (4º lugar), 1978 (3º lugar), 1982 (5º lugar), 1986 (5º lugar), 1990 (9º lugar).
Tenho lembranças dessas Copas, dispersas e misturadas, algumas fotografadas. Uma delas, a de 1986, marcada por meu tempo de doutorado na PUC/Rio de Janeiro, bandeira na janela e minha mini TV em preto e branco comprada no Paraguai. Mais claras estão as lembranças de 1994 – eu já era professora da UFSC – e das minhas peregrinações a cada jogo. Um dia na minha casa, no outro na casa de amigos, no outro na casa de prima. Até a final em que decidi ficar em casa com meu pai, sempre torcedor do América, com minha mãe vascaína e com minha avó flamenguista. Registrei lá de baixo do edifício os três comemorando com a sacada decorada por mim e pela minha mãe (um tempo tão bom, quando não tínhamos vergonha de bandeiras do Brasil na janela).
Nesse mesmo ano de 1994, minha avó flamenguista partiu. Em 1996, minha mãe vascaína partiu. Fiquei com meu pai assistindo às copas de 1998 e 2002. Sempre ele e eu. Acho que nunca deixei meu pai sozinho. Em 2005, ele partiu sem nunca admitir que não valeu a pena ser torcedor do América e que cantar seu lindo hino, de autoria de Lamartine Babo, era a glória: Ei de torcer, torcer, torcer, ei de torcer até morrer, morrer, morrer / pois a torcida americana é toda assim / a começar por mim.
Tenho, então, além dessas marcas, ora tatuagens, ora cicatrizes, lembranças do vice-campeonato de 1998, cenas de 2006 (5º lugar), imagens de 2010 (6º lugar), registros de 2014 (4º lugar). Não lembro em detalhes, como eu desejaria, com quem estava e aonde fui durante a maioria desses jogos que atravessaram minha adolescência e toda minha vida adulta. Lembro, sim, da minha esperança equilibrista postada nas redes em 2014, agora trazida de volta pelo Facebook (sim, eu uso Facebook). A triste Copa sediada no Brasil entre 12 de junho e 13 de julho, em que o Brasil terminou na quarta colocação, marcada pela histórica derrota para a Alemanha na semifinal. Nessa Copa, vi alguns jogos com minha família em Brasília.
Minhas redes sociais estiveram plenas da Copa do Mundo de 2018, com a França derrotando a Croácia e conquistando o bicampeonato. E veio 2022, uma Copa disputada no final do ano por causa das altas temperaturas no Oriente Médio, ainda viva na minha memória tão recente. Nessa, a Argentina foi campeã e nós perdemos para a Croácia nas quartas de final. Já estávamos acostumadas com as derrotas. Assisti à maioria em casa entre idas à cozinha, algumas trocas, ida ao banheiro, ao quarto e muitas postagens nas redes compartilhando destinos. Agora, em 2026, foram muitos posts com memes, com ironia, espécie de defesa de quem sabia que não valia mais ter a esperança no hexa, aquele sonho desde a sacada enfeitada como em 1994, ou melhor, com a alegria de comemorar como em 1958 (Suécia), em 1962 (Chile), em 1970 (México), em 1994 (Estados Unidos); em 2002 alegremente comemorada com meu velho pai (Coréia do Sul e Japão).
Enfim, este meu próprio texto parece revelar como a memória afetiva foi se misturando e desaparecendo e como passou a ser registros geográficos e históricos, sem envergonhadas bandeiras na janela, mesmo que ecoem na minha cabeça trilhas sonoras como: Mostra a tua força, Brasil, e amarra o amor na chuteira... ou mesmo que, desde ontem, 5 de julho de 2026, eu queira apagar na memória a trend da escalação da Seleção tão coreografada pelas iludidas crianças brasileiras: A seleção brasileira chegou: Vini Junior, Raphinha, Alisson, Casemiro, Militão, Marquinhos, Fabinho, Alex Sandro, Paquetá, Wesley, Matheus Cunha, Martinelli, Endrick, Estevão, respeitem o manto... O rei não voltou.
Sobre a autora:
Tânia Regina Oliveira Ramos é professora titular da UFSC. Atualmente, integra como voluntária o Programa de Pós-Graduação em Literatura, atuando como pesquisadora e orientadora das linhas Crítica Feminista e Memória e Subjetividades.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
RAMOS, Tânia Regina Oliveira. Copas do mundo: tatuagens e cicatrizes. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3 n. 31, 2026.
As memórias sobre as Copas anteriores são acionadas a cada novo campeonato. Para ler mais sobre isso, acesse o texto: Final de copa (in)visível em Manhattan (Nova York)
Copas do mundo: tatuagens e cicatrizes © 2026 by Tânia Regina Oliveira Ramos is licensed under CC BY-NC 4.0




Saudades destes três queridos.😍😍😍