A Copa do Mundo não aconteceu
- INCT Futebol
- 3 de jul.
- 8 min de leitura
Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)
No texto abaixo, a autora relata, a partir de viagens recentes e em curso, a (não) mobilização gerada pela Copa do Mundo de 2026 na França, nos Estados Unidos e na Espanha.

Nós que moramos na América do Sul temos a tendência de imaginar que as Copas do Mundo são lugares de festa, com pessoas reunidas durante os jogos, de ocupação do espaço público das ruas com as cores nacionais, bandeiras nos carros e nas janelas. Todos assistindo e comemorando, mesmo quando as vitórias são pouco significativas, como no caso do Brasil contra o Haiti, que suscitou celebrações no Recife, em Olinda, em muitas capitais do Brasil. Ou a vitória contra o Japão, festejada com pulos até por freiras que viralizaram no Instagram. Não é assim. A Copa do Mundo passa praticamente desapercebida na região francesa da Bretanha, onde estive recentemente.
É verdade que, no hotel, havia menções à seleção francesa, com a televisão sendo enfeitada por balões coloridos nas cores nacionais (imagem 1). E nos supermercados e nas ruas, há (poucas) publicidades com os jogadores da seleção francesa e de outros países, como uma de Lamine Yamal anunciando copos com sua foto distribuídos pelo McDonald’s (imagem 2). Mas vi mais camisetas da seleção brasileira, não oficiais, nas ruas de Langueux, Yffiniac e Hillion do que as da seleção francesa – eram vendidas no supermercado Carrefour por 14,99 euros (imagem 3). Ou seja, no geral, a vida continua com a banalidade do cotidiano quase intacta, sem que o acontecimento Copa do Mundo venha a perturbar o dia a dia, mesmo em dias de jogos da seleção francesa. Jogos da Copa, aliás, são transmitidos em aberto apenas por um canal, o 6, que não é um dos principais, e geralmente mostra apenas dois jogos por noite (imagem 4).
Um torneio como a Champions League parece ter ganhado proeminência em relação à Copa – pelo menos até que ocorra algo realmente grandioso, como uma vitória dos comandados de Deschamps na final. Os dias que antecederam e que procederam a vitória do Paris Saint-Germain na Liga dos Campeões, a segunda vitória em dois anos – que clube e torcedores chamaram de Back2Back – tiveram um grande número de camisetas do clube pelas ruas de Paris. Portadas por homens, claro. Mas este ano também, e pela primeira vez em grande número, por mulheres e por crianças, e não apenas pelos jovens da periferia que, há anos, são torcedores do clube. Parisienses, de modo geral, exibiram orgulhosamente seu pertencimento ao PSG do Qatar. Ora, quando se sabe que na França é muito difícil se comprar uma camiseta de um clube clandestinamente – ao contrário do Brasil, ou de Madri, onde os camelôs as vendem nas ruas e nos corredores do metrô – e que as compradas nas lojas e nos pontos oficiais do clube custam uns 600 reais (100 euros), pode-se imaginar o quanto o PSG lucrou com essa efervescência de sentimento.
A Copa do Mundo, historicamente, não provoca na França (e em muitos outros países), pelo menos nos seus momentos iniciais, o mesmo fervor que na América Latina. Testemunhei isso pela primeira vez em 1998, na Copa disputada na França. Os primeiros jogos vencidos pela seleção francesa não foram comemorados na rua, como é comum no Brasil. Não havia buzinas ou carros embandeirados desfilando na Champs-Élysées. Foi só a partir da partida de oitavas de final, contra o Paraguai, vencida na prorrogação por um magro um a zero, que os franceses começaram a colocar, timidamente, bandeiras nas janelas. Penso que houve uma certa pedagogia do torcer, como diriam o Gustavo Bandeira e o Fernando Seffner (2024) e a Thaís Almeida (2026), transmitida pelos brasileiros que estavam na França, e que esses sim, desde os primeiros dias, já tinham bandeiras verde-amarelas nas janelas dos edifícios e andavam com a camiseta do Brasil por todos os lados. Bandeiras brasileiras eram vendidas na Champs-Élysées. Eu mesma comprei uma antes da final. E, depois de cada vitória brasileira, muitos iam para as avenidas, com seus carros a festejar como se estivessem em São Paulo ou Recife.
É claro que essa timidez em brandir símbolos patrióticos estava ligada a uma associação forte entre a bandeira francesa e o nacionalismo que era vista (e até hoje o é, pelo menos por parte da população), como perigosa, por terem sido os sentimentos nacionalistas que levaram às guerras mundiais. Esses símbolos, depois das guerras, ficaram associados à direita e, hoje, foram sequestrados pela extrema-direita. Como me disse um amigo na época, para celebrar a vitória na Copa de 1998, foi preciso “tirar as bandeiras do baú”, onde descansavam desde a retomada de Paris por De Gaulle, e perder a vergonha de exibi-las.
Há também em jogo o fato de, na França, se valorizar enormemente o local, o terroir, e isso ter como consequência uma estima menor para o que é o conjunto do país. Não estou querendo dizer que a França não se construiu como nação, absolutamente. Mas nós, estrangeiros, temos tendência a ver mais a nação do que o local. Falamos em vinho francês – eles falam em Bérgerac, Saint-Émilion, Côte-Roannaise e assim por diante. A maior parte dos meus amigos, ao se aposentarem, voltou a residir no lugar onde nasceu, muitos na casa da sua família de origem. Uma família que pode estar naquele lugar por gerações e gerações – durante um jantar em Roanne, a minha companheira de mesa disse ter conseguido remontar a genealogia da sua família por 15 gerações. Imaginem, ia até o ano 1100! O que foi facilitado pelos registros serem locais, por terem ficado ali a vida toda.
Em 1998, como sede da Copa, a França estava dando as boas-vindas para todos os países e se colocando como mais uma participante. Nas ruas – me lembro bem, por exemplo, da Rue Mouffetard –, o que se via eram bandeirinhas colocadas pela prefeitura com as cores dos diferentes participantes da Copa. A da França era apenas uma entre as outras, sem merecer um destaque maior.
Foi só depois, como disse, da vitória contra o Paraguai e da perspectiva de realmente ganhar a Copa do Mundo, que as coisas mudaram. Para se ter uma ideia, no principal programa de televisão esportivo em 1998, quem aparecia como ícones de papelão enfeitando o estúdio eram o Ronaldo Fenômeno, na época muito admirado aqui, e Pelé, que já não jogava há anos. Nenhum jogador do país local. Quando se viu a possibilidade real da França chegar à final, tiveram que fazer às pressas um ícone de Zidane.
Quem anda pelas ruas, em Paris ou da Bretanha ou da Auvergne-Rhône-Alpes, região de Lyon, não se dá conta de que está acontecendo o torneio de futebol mais importante do planeta. Mbappé, Olise, Barcola e Dembélé bailam com harmonia, nos encantando como há anos não acontecia, sem que isso mereça comemorações efusivas. Há uma maior visibilidade dos jogadores da seleção local do que havia em 1998, certo, mas ela é incomparavelmente menor do que no Brasil, onde ídolos de ontem e de hoje estão na tela a cada cinco minutos, muitos deles publicizando bets e álcool, sem pudor.
Mil novecentos e noventa e oito foi o marco, a França deixou de se encabular e passou a comemorar com a sua seleção. E, na noite do 18 de julho, poucos conseguiram dormir. Certamente acontecerá o mesmo se vencer, favorita que é, a Copa deste ano, no 19 de julho. Mas até lá...
A Copa do Mundo não aconteceu na França.
E não aconteceu em outros lugares. Estive em Nova Iorque, em maio, a menos de um mês do início da Copa do Mundo, e não parecia que haveria no país uma Copa. Nenhum sinal de Copa na TV, nos outdoors, nas ruas – exceto em lojas de esporte e por algumas bandeiras em pubs ou bares étnicos (irlandeses, mexicanos). A loja Pelé Soccer, por exemplo, que fica na Sétima Avenida em Nova Iorque, na altura da Time Square, tinha, sim, referências à Copa do Mundo, e ali se vendiam camisetas de diversas seleções participantes. Mas em outros lugares, nada. A única menção explícita ao torneio encontrei no aeroporto John Fitzgerald Kennedy, antes de embarcar para a França, em cartazes com fotos da Estátua da Liberdade chutando uma bola. Mas eram apenas três cartazes, na proximidade de uma enorme bandeira americana que não estava ali significando a seleção de futebol (imagem 5).
Os repórteres brasileiros que foram aos Estados Unidos cobrir a Copa dão depoimentos muito semelhantes, em que não há grande interesse local em relação ao torneio. Vi uma entrevista de Olise dizendo que, durante a folga, costuma andar de bicicleta pela rua. Ele que está concentrado próximo a Boston, Massachusetts. Ora, isso é impensável num país que estivesse realmente voltado para o torneio e dando atenção aos seus protagonistas.
É possível que, se a performance positiva da seleção norte-americana continuar, vá se ver um ambiente mais festivo e alusivo à Copa. Mas esse ainda é um aprendizado. É claro, o futebol não é, como sabemos, o esporte favorito dos norte-americanos. Nova Iorque comemora, sim, o recente título dos NY Knicks na NBA. Quando da lamentável visita da seleção da Argentina à Casa Branca, Trump contou a Messi que o seu filho lhe havia dito: “Pai, você sabe quem estará aqui hoje na Casa Branca? O Lionel Messi.” E Trump recrutou: “Mas quem é Lionel Messi?” O diálogo de pai e filho mostra, primeiro, a grande ignorância do narcisista atualmente na presidência, e depois, o quanto não é tão importante assim a Copa e seus astros para os americanos.
A Copa não aconteceu nos Estados Unidos.
Mas o futebol é, de longe, o esporte preferido dos espanhóis, e a Copa também não aconteceu na Espanha. No lotado aeroporto de El Prat, as camisetas que vi foram todas de clubes, espanhóis, ingleses... nenhuma da seleção roja. Tampouco a loja oficial do Barcelona do aeroporto as tinha à venda (imagem 6). Apenas um canal de TV transmite os jogos em aberto, e, assim mesmo, um ou, no máximo, dois por dia. Nos jornais televisivos, como na França, o espaço para a Copa é mínimo. Na manhã do jogo da Espanha contra a Áustria, desci para ler no café o jornal local, o Diari de Tarragona. Das 52 páginas, só uma foi dedicada à seleção espanhola, e outra à Copa em geral, com a tabela de jogos em destaque. Nos jornais esportivos, claro, é diferente. O Marca dedicou a capa à seleção roja, com grande foto de Lamine Yamal, mas o Sport destacou foi o Barcelona, com a manchete sobre a possível contratação de Dest. A Rambla President Lluís Companys, uma das principais da cidade de Tarragona, estava enfeitada com muitos cartazes esportivos, com dizeres em catalão de incentivo: “Tout Pots”, “Endavant!” e “Vinga! Vinga! Vinga!” (imagem 7), este num cartaz com bolinhas vermelhas.
Encorajamentos à seleção roja? Nada, nos cartazes predominava o amarelo, pois anunciavam o Tour de France, que este ano iniciará em Barcelona e passará pela cidade de Tarragona no sábado.







Referências
ALMEIDA, Thaís. Mulheres torcedoras de futebol: pertencimento, protagonismo e resistência. Tese de doutorado. Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas, UFSC, 2026.
BANDEIRA, Gustavo; SEFFNER, Fernando. Pedagogias do futebol e do torcer. Porto Alegre: Cirkula, 2024.
Transcrição: Adriana Eidt.
Sobre a autora
Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).
Carmen Rial vem publicando outros textos sobre a Copa do Mundo de 2026 no Bate-Pronto. Se gostou deste, leia também: A nação, o humano e Afan Cizmic
A Copa do Mundo não aconteceu © 2026 by Carmen Rial is licensed under CC BY-NC 4.0




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