Entre o silêncio de Berlim e a explosão marroquina na França: a Copa vista da Europa
- INCT Futebol
- há 5 dias
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Amurabi Oliveira (UFSC)
No texto abaixo, o autor conta suas impressões sobre a torcida (ou a ausência dela) em jogos da Copa de 2026 na Alemanha, na Espanha e na França. Em meio a certa apatia testemunhada nesses países, a celebração da comunidade marroquina na França se destacou.

A comunidade marroquina celebrou a vitória contra o Canadá na Place Masséna, em Nice. Imagem: Irene Grassi/Wikimedia Commons¹
Inicio este texto confessando que não sou exatamente um amante de futebol, ainda que guarde fortes memórias de Copas. Na Copa de 2002, quando o Brasil foi penta, eu estava no último ano do ensino médio e assistia aos jogos a caminho de Salvador, em uma excursão de férias. Quando chegamos à capital baiana, o clima parecia o da virada do milênio, pois, além de tudo, naquele ano, a seleção contava com quatro jogadores baianos: Dida, Júnior Nagata, Edílson e Vampeta. Recordo-me bem do Farol da Barra em festa, assim como das pessoas todas muito animadas, buzinando, gritando, mandando beijos e mostrando a bunda pela janela – talvez o clima fosse um pouco carnavalesco também.
Saltemos para a atual Copa, a de 2026. Neste ano, estou longe do Brasil, realizando um estágio pós-doutoral na Alemanha, porém, tive a oportunidade de estar presente em três diferentes países durante o torneio, o que me permitiu colecionar diferentes impressões sobre essas partidas.
Comecemos pela Alemanha, meu ponto de partida. Para a infelicidade dos alemães, o primeiro jogo caiu em um domingo, algo muito relevante aqui, uma vez que o domingo é o dia do silêncio. Normalmente, os supermercados e serviços estão fechados, e não se pode nem ao menos passar o aspirador de pó em casa, muito menos reunir pessoas para assistir a um jogo, gritar e sair por aí buzinando. Este veio a ser o jogo no qual os alemães tiveram o melhor desempenho, reaplicando o fatídico 7 a 1, dessa vez contra Curaçao. Por fim, a Seleção foi eliminada contra o nosso vizinho, o Paraguai. As ruas ficaram silenciosas como se domingo fosse.
Ainda sobre a Alemanha, vale dizer que houve certa polêmica no país devido ao fato de os jogos da Turquia não terem sido transmitidos em TV aberta. A comunidade turca é bastante expressiva no país; basta lembrar que a versão moderna do döner kebab foi inventada em Berlim, na década de 1970. Em um país no qual os moradores pagam uma taxa de rádio e TV – mesmo quem não possui os aparelhos em casa –, isso gerou um intenso debate sobre representatividade. O tema tornou-se especialmente sensível por mexer, ao mesmo tempo, com paixões como o futebol e com a política do ódio que tem rondado o país por meio de ondas de xenofobia.
O terceiro jogo que acompanhei foi o da Seleção Espanhola, quando estávamos em Tarragona. Era aniversário de Mariane Pisani, especialista e entusiasta de futebol, e ela e outras quatro amigas queriam ver o jogo da Espanha contra a Áustria. A primeira surpresa se deu na dificuldade de encontrar um local para assistir à partida; caminhamos bastante pelas ruas de Tarragona até achar um bar com televisão. Encontramos o local, mas o clima não se parecia com o dos bares no Brasil: nada de bandeirinhas, de pessoas aglomeradas dispostas a abraçar estranhos na hora do gol, tampouco ar-condicionado em meio ao calor. O silêncio das ruas – mesmo diante de uma vitória de 3 a 0 – em parte se explica pelo fato de estarmos na Catalunha, que possui tensões políticas e culturais históricas com a representação nacional. É difícil esperar bandeiras espanholas em uma comunidade autônoma onde o mais comum é ver a bandeira catalã nas varandas.
Por fim, chegamos a Nice, no sul da França. Nesta cidade, tive a oportunidade de ver dois jogos. Retomemos o meu ponto inicial: não sou um grande fã de futebol. Ao chegar ao aeroporto de Nice, deparei-me com uma cena incomum: mesmo desembarcando de um voo vindo do Espaço Schengen, houve controle de passaporte, o que indica o crescimento das tensões em torno das fronteiras nacionais no país.
Estava em meio às minhas andanças pela cidade – linda, por sinal – quando passava em frente a um restaurante de comida libanesa. Por um golpe do destino, no exato momento em que eu caminhava por ali, o Marrocos fez seu primeiro gol contra o Canadá. Então, pela primeira vez nesta Copa, presenciei algo inédito na Europa: gritos de alegria e comemorações vibrantes. Ouvia-se de dentro do restaurante aquele som vocal agudo conhecido como zagrouda – que teve certa repercussão no mundo dos esportes quando a cantora colombiana de ascendência libanesa Shakira o reproduziu no show do intervalo do Super Bowl –, demarcando também uma expressiva presença de mulheres.
Na qualidade de cientista social – antropólogo e sociólogo –, senti-me impelido a acompanhar mais de perto o que se passava. Creio que o que mais me chamou a atenção foi a questão de gênero. Nunca havia percebido em uma torcida uma presença tão massiva de mulheres; claro que elas estão presentes em outras torcidas nacionais, mas, nesse caso, eram a maioria em alguns espaços. Muitas delas vestiam a camisa da seleção – em alguns casos com o véu, e em outros sem –, enquanto outras traziam a bandeira do Marrocos nas costas, enroladas nela como em um manto. Havia explosões a cada gol, e foram três no total contra zero do Canadá.
A forte presença marroquina na França é bastante conhecida e, como em outros casos, relaciona-se ao passado colonial, afinal, o protetorado francês no Marrocos durou de 1912 a 1956. Apesar de os comerciantes de Marraquexe serem conhecidos por negociarem em qualquer idioma, se você puder utilizar o francês, conseguirá se comunicar melhor, pois as marcas coloniais ainda são visíveis no país. Muitos astros da seleção francesa são de ascendência marroquina, assim como Lamine Yamal, craque da seleção espanhola que comemora seus gols fazendo com as mãos o número 304 – código postal do bairro em que cresceu, Rocafonda, que possui uma expressiva população de migrantes.
O auge desse processo foi a celebração da vitória do Marrocos, quando as ruas foram tomadas. Havia sobretudo jovens, que não apenas celebravam, como também filmavam tudo e transmitiam as comemorações em suas redes sociais. A Place Masséna e a Fontaine du Soleil estavam tomadas pelo vermelho intenso das bandeiras marroquinas. Muitos motoristas diminuíam a velocidade ao se aproximarem dos torcedores, começavam a buzinar e a gritar, e frequentemente sacavam e balançavam bandeiras pela janela; amiúde, outros torcedores iam para a frente dos carros sacudir os panos.
Em dado momento, no entorno da Fontaine du Soleil, surgiu um caixão com uma bandeira do Canadá desenhada e colada nele. Os torcedores o sacudiam e gritavam; nesse instante, a única coisa que me perguntava era: de onde veio esse caixão? Certamente havia um clima de subversão social: migrantes e filhos de migrantes, recorrentemente discriminados em território francês, podiam expressar um orgulho nacional, algo potencializado por terem vencido um “país do Primeiro Mundo”.
Voltando à questão de gênero, ao contrário do que muitos brasileiros aprenderam com a novela O Clone (2001), o Marrocos é um dos países mais progressistas do mundo muçulmano, em que pese ainda haver problemas a serem enfrentados, como a criminalização da homossexualidade. Atualmente, há seis mulheres em ministérios de primeiro escalão no Marrocos – mais do que nos governos Temer ou Bolsonaro, por exemplo. A combinação do véu com a camisa da seleção deixava claro que havia vários arranjos possíveis para articular tradição e modernidade.
Retornando à já clássica interpretação de Roberto DaMatta de que há celebrações de reafirmação da ordem e outras de subversão dela, parece-me que a Copa pode ser acionada potencialmente como um instrumento subversivo. Países como Brasil, Paraguai, Equador e Marrocos alcançaram vitórias contra nações do chamado Norte Global. Jovens de origem pobre muitas vezes se tornam ídolos nacionais – ainda que alguns tenham mais consciência de classe do que outros (pensemos em Neymar e Mbappé) – e passam a ser referência também para aqueles que lutam pela sobrevivência cotidiana na Europa.
Para além das celebrações, havia certa solidariedade do Sul Global, materializada na ideia de indivíduos de países como o Marrocos torcerem pelo Brasil. De fato, no mesmo restaurante libanês em que vi o primeiro gol marroquino, também vi pessoas com a camisa da Seleção Brasileira conversando em árabe no dia do jogo entre Brasil e Noruega. Infelizmente, a torcida e a solidariedade do Sul Global não foram suficientes, e Nice, após a derrota brasileira, ficou silenciosa como Berlim em um dia de domingo.
Sobre o autor:
Amurabi Oliveira é doutor em sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco, Livre Docente em Cultura e Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é professor da Universidade Federal de Santa Catarina e pesquisador visitante na Universidade de Humboldt com bolsa CAPES Humboldt. É pesquisador do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências e da Global Young Academy.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
OLIVEIRA, Amurabi. Entre o silêncio de Berlim e a explosão marroquina na França: a Copa vista da Europa. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3 n. 30, 2026.
O tema das torcidas (ou a ausência delas) nas Copas do Mundo tem sido abordado em outros textos do Bate-Pronto. Se você se interessa por esse assunto, leia também: Final de copa (in)visível em Manhattan (Nova York).
¹ CC BY-SA 2.0.
Entre o silêncio de Berlim e a explosão marroquina na França: a Copa vista da Europa © 2026 by Amurabi Oliveira is licensed under CC BY-NC 4.0




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