Etnicidade em campo: os Pataxó no Campeonato Nacional de Futebol Indígena
Pedro Diniz Marques Vieira (UFRJ)
No texto abaixo, o autor discute a importância do futebol para as identidades indígenas, a partir da participação de uma seleção Pataxó no Campeonato Nacional de Futebol Indígena.

Não são só os onze que estão entrando. Está entrando o nosso povo ali. Estão entrando os nossos que já se ancestralizaram. Os nossos guerreiros que tanto lutaram. Como Tururim, Benedito Cacique e outras grandes lideranças. Este é o momento em que a gente tem que honrar aqueles que lutaram por nós. Isso é o que eu falo com o meu time. A gente tem que aproveitar. Porque muitos queriam estar aqui onde eles estão. Hoje, então, é um momento único na vida da gente.
Foi assim que Tauano, capitão da Seleção Pataxó de Coroa Vermelha, definiu a importância da participação Pataxó no Campeonato Nacional de Futebol Indígena. A fala foi registrada durante o trabalho de campo da minha pesquisa de doutorado, em que investigo o engajamento da etnia Pataxó em competições esportivas. Ela nos faz pensar sobre o estatuto da participação de uma equipe indígena em um campeonato como esse, em que toda uma memória coletiva de um povo se atualiza no momento em que os jogadores entram no gramado sob um emblema comum.
A pesquisa se desenvolveu na aldeia Coroa Vermelha, no extremo sul da Bahia, onde acontecem os Jogos Indígenas Pataxó, objeto central da minha tese, em fase final de escrita. Ao longo da etnografia, acompanhando a preparação de equipes para os Jogos, conheci interlocutores que também participavam de um time de futebol local e estavam se preparando para uma grande competição entre equipes indígenas, em Brasília. A partir desses encontros fortuitos, incorporei à etnografia a observação dos treinamentos dessa equipe, o que posteriormente me levou a Brasília para acompanhar o evento.
Este texto busca expor essa experiência etnográfica, colocando em questão a relação entre identidade étnica dos povos indígenas e as competições futebolísticas a partir do engajamento Pataxó no evento em questão. Antes de adentrar no relato, apresento brevemente o Campeonato Nacional de Futebol Indígena e a Seleção Pataxó de Coroa Vermelha dentro de uma contextualização sintética sobre essa etnia e aldeia.
O Campeonato Nacional de Futebol Indígena
Em linhas gerais, a competição é uma iniciativa da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares do Brasil (CONAFER), que envolveu 92 equipes de dezenas de etnias indígenas de todo o território nacional. Dada a magnitude da competição, houve fases locais, estaduais e regionais, em que as equipes vitoriosas se classificavam progressivamente, culminando em uma final nacional entre os campeões das cinco grandes regiões do Brasil.
As finais aconteceram entre os dias 11 e 13 de abril de 2025, no estádio Bezerrão, casa da Sociedade Esportiva do Gama, tradicional agremiação do Distrito Federal. As cinco equipes classificadas foram:
· Huni Kuin FC (etnia Huni Kuin) – Região Norte
· Clube Esportivo Aldeia Brejão de Nioaque (etnia Terena) – Região Centro-Oeste
· Terra Indígena Ivaí (etnia Kaingang) – Região Sul
· Seleção Pataxó de Coroa Vermelha (etnia Pataxó) – Região Nordeste
· Imbiruçu FC (etnia Pataxó) – Região Sudeste
A patrocinadora do evento construiu relações com etnias indígenas a partir de sua atuação no fomento à agricultura familiar. Ao conversar com um dos diretores da entidade presente no evento, ouvi que a ideia surgiu de duas percepções geradas pela ação nos territórios. Por um lado, a observação do caráter agregador de um evento de modalidades esportivas tradicionais apoiado na Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, na Bahia. Por outro, a difusão quase inequívoca de campos de futebol nas diversas aldeias indígenas do país. Diante disso, a promoção do evento surge como forma de angariar capital político, nas relações entre a organização e os povos indígenas, e capital simbólico, pela visibilidade que um evento que promove a prática esportiva entre povos indígenas poderia ter na mídia e em diferentes estratos sociais. Nesse sentido, o evento não surge no vácuo, mas dentro de interesses econômicos, fundiários e políticos nos quais os povos indígenas nunca deixam de estar emaranhados.
A Seleção Pataxó de Coroa Vermelha
Durante a pesquisa de campo, foi quase instantânea a percepção da importância da formação de equipes de futebol para a vida comunitária. Isso vale para os Pataxó, mais especificamente, mas se estende a todo o contexto regional do extremo sul baiano. A região possui um circuito robusto de futebol de várzea, no qual existem equipes Pataxó de diferentes aldeias participando. A Seleção Pataxó de Coroa Vermelha é um destes coletivos, produzido por indígenas das cidades de Santa Cruz Cabrália e Porto Seguro (onde está a Terra Indígena Coroa Vermelha) para participarem dessas competições locais, mas também como ambiente de sociabilidade dentro da comunidade. Por conseguinte, quando souberam da competição, fizeram a inscrição e passaram por todas as etapas, tornando-se campeões da Bahia e do Nordeste.
A formação de coletivos esportivos Pataxó é inseparável de um movimento mais amplo que meus interlocutores chamam de retomada da cultura. Isto é, um processo histórico de reação ao colonialismo em que os Pataxó reivindicam sua continuidade enquanto povo originário dessa região, buscando desenvolver novas práticas que promovam uma identidade comum a partir de pesquisas sobre suas raízes ancestrais. Retomada que não pode ser compreendida dentro de uma grade dicotômica entre natureza e cultura, pois retomar a cultura é indissociável da retomada territorial na luta por demarcação de terras. O futebol é mais um instrumento dentro desse horizonte mais amplo.
O povo Pataxó tem um histórico de centenas de anos de contato. Há relatos da administração colonial ainda no século XVIII, que registram episódios de interação com os colonos, e relatos de viajantes, que os tematizam no início do século XIX. Após as chamadas “guerras justas” contra os povos indígenas do litoral, passaram pelo aldeamento forçado e catequização ao longo desse século, de modo que a presença do etnônimo se torna rara nas documentações disponíveis. Processo comum a muitas etnias indígenas do nordeste brasileiro.
A partir das décadas de 1950 e 1960, uma série de eventos críticos marcam sua reaparição na cena pública, no sentido dado pela antropóloga Veena Das à expressão, em que há uma “quebra do cotidiano” que institui “uma nova modalidade de ação histórica” (Das, 1995, p. 5), ensejada em reação à violência do Estado. Primeiro, o evento conhecido como Fogo de 51, narrado pelos Pataxó como um massacre realizado pela Polícia Militar na aldeia Barra Velha, que causou a dispersão de seus habitantes. E, em seguida, a criação da área de preservação ambiental do Parque Nacional do Monte Pascoal, que limitava a circulação no território, pois seriam ameaças à reprodução de biodiversidade por hábitos predatórios.
Interlocutores da pesquisa relataram que a origem da aldeia Coroa Vermelha está ligada à migração ocasionada por esses episódios de violência. Ao longo dos anos, a área se tornou conhecida por seu potencial turístico e se desenvolveu exponencialmente, sobretudo a partir de sua integração ao restante do país, pela construção da BR-101. A região passa a construir seu marketing turístico em torno do slogan de ser a “costa do descobrimento”, enquadrando os Pataxó dentro de uma arena comercial na qual poderiam servir a uma imagem idílica da formação da nação. Ou como “berço da civilização brasileira”, como uma placa de Santa Cruz Cabrália proclama orgulhosamente.
Uma das primeiras questões que se apresentaram na pesquisa em Coroa Vermelha foi a deslegitimação da identidade indígena por parte da população local, utilizando termos pejorativos como “misturados” ou “aculturados”, em discursos que associam as ações indígenas a um interesse econômico que teriam ao reivindicar uma identidade que não se sustentaria mais. Uma espécie de performance da identidade para que pudessem reivindicar terras e se beneficiar economicamente na indústria turística.
Evidentemente, pelo tempo de contato colonial, os traços fenotípicos de parte da população Pataxó não correspondem ao imaginário social sobre os povos indígenas. Para muitos dos meus interlocutores, o racismo é duplo. Se estão sem os trajes indígenas e pintura corporal, sofrem racismo por serem negros. Quando os colocam e pintam suas peles com jenipapo, são discriminados por serem indígenas. Ou, no movimento inverso, é negada qualquer forma de identidade.
Os Pataxó reagem a esses discursos de diferentes formas. Ao que nos cabe aqui, basta sinalizar que as expressões esportivas também são vetores da crítica indígena e de sua resistência. Isso se torna evidente no momento das competições, em que os jogos se tornam plataforma para a reivindicação de seus direitos e denúncia da violência colonial. Isso se tornou claro antes mesmo da viagem para Brasília. No embarque da delegação no ônibus, a esposa de um dos jogadores lembrou a todos. “Muitos olham diferente para nós porque não correspondemos aos estereótipos de indígenas. Então, nós temos que ir lá e mostrar para eles e para o Brasil que, no extremo sul da Bahia, tem indígenas sim!”. Fala que foi recebida com aplausos e balanço dos maracás.
Durante o campeonato, a voz da Seleção Pataxó de Coroa Vermelha se juntou a outra equipe da etnia Pataxó, da aldeia Imbiruçu de Minas Gerais, classificada como campeã da região Sudeste. Na cerimônia de abertura, cada equipe deveria entrar no campo entoando um canto e/ou performance corporal considerada tradicional. As equipes entraram juntas, com cantos em Patxohã e com cartazes denunciando a invasão de territórios. Com as cinco equipes perfiladas, estendeu-se uma faixa contestando a lei do marco temporal.

Logo após, começa a preparação da equipe para a partida contra os Huni Kuin. No vestiário, o clima de descontração aos poucos dá lugar a uma atmosfera mais tensa. Os sorrisos se silenciam e os semblantes comunicam a concentração. Alongamentos, aquecimentos, ativações, instruções táticas e discursos motivacionais tomam a cena. A estética do vestiário Pataxó vai se constituindo pelos diferentes elementos das iconografias indígenas e cristãs que se espalham pela sala. Tambores, cocares, maracás, cruzes, imagens de Nossa Senhora, chuteiras, bolas, pranchetas, cones, cartazes de denúncia contra invasões das terras indígenas. Materialidades e significados sobrepostos.
Todos, inclusive eu, nos juntamos em uma roda no centro do vestiário. Discursos inflamados das lideranças relembram a trajetória na competição: “Foi na luta, como é sempre para o nosso povo”. Um Pai Nosso, uma Ave Maria e uma oração em Patxohã. O grito de guerra é entoado, e vão para o jogo.
No campo, vitória por 3 a 1. A equipe avançou para as semifinais, mas acabou eliminada nos pênaltis para a Terra Indígena Ivaí, da etnia Kaingang, terminando a campanha no Campeonato Nacional de Futebol Indígena com a terceira colocação.

Futebol, etnicidade e política
Como a literatura da Antropologia dos Esportes bem demonstra, as práticas esportivas se constituem na tensão entre aspectos conjuntivos e disjuntivos. A produção de um “nós” e um “outro”. Nesse sentido, o Campeonato Nacional de Futebol Indígena também é produtor da etnicidade, a partir do momento em que se formam times que representam suas etnias e comunidades de origem. A fala de Tauano na abertura do texto sintetiza bem a proposta da competição, ao afirmar que, ao entrarem em campo, entram também seus anciãos, ancestrais e todo um povo que se reafirma continuamente enquanto população etnicamente distinta.
Mas há mais. Para além de promover identidades étnicas diferenciadas entre as equipes, o evento celebra sua identidade comum, enquanto povos indígenas. Não custa lembrar, recorrendo à conhecida definição de Manuela Carneiro da Cunha, que comunidades indígenas são “aquelas que, tendo uma continuidade histórica com sociedades pré-colombianas, se consideram distintas da sociedade nacional. E índio [sic] é quem pertence a uma dessas comunidades indígenas e é por ela reconhecido” (Carneiro da Cunha, 1987, p. 111). Assim, os povos indígenas se encontram na capital federal para praticar o futebol competitivo, mas celebrando a união necessária em um horizonte comum de lutas.
Para concluir, chamo a atenção para a necessidade de mais pesquisas que acompanhem de perto a relação entre os povos indígenas e o esporte. Domínio ainda pouco explorado e que incita novas reflexões valiosas para nosso esforço coletivo de pensar o futebol enquanto instituição social diversa e multifacetada.
Referências
CARNEIRO DA CUNHA, Manuela. Critérios de indianidade ou lições de antropofagia. In: Antropologia do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.
DAS, Veena. Critical events: an anthropological perspective on contemporary India. Nova Deli: Oxford University Press, 1995.
Sobre o autor:
Pedro Diniz Marques Vieira é doutorando em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Etnografia e Crítica Cultural da UFRJ, com bolsa CAPES. Mestre em Sociologia (com ênfase em Antropologia Cultural) pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ e bacharel em Ciências Sociais pela UERJ.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
VIEIRA, Pedro Diniz Marques. Etnicidade em campo: os Pataxó no Campeonato Nacional de Futebol Indígena. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 46, 2026.
O futebol indígena é um dos temas da linha de pesquisa “Futebol de mulheres, de indígenas, paralímpico e LGBTQIA+”, do INCT Futebol. Para ler mais sobre esse tema, acesse: Cosmologia e cultura na Liga de Futebol Mbya Guarani – SC.
Etnicidade em campo: os Pataxó no Campeonato Nacional de Futebol Indígena © 2026 by Pedro Diniz Marques Vieira is licensed under CC BY-NC 4.0




Muito importante a visibilidade para o futebol praticado por povos indígenas! Parabéns Pedro! Abraço Thaís Almeida
Sim, concordo, muito importante outros estudos sobre Futebol indígena - e tbm sobre o futebol praticado pelas mulheres indígenas. Legal a relação que fazes entre os jogos e as manifestacões políticas. Estamos incrementando essa area de pesquisa no INCT.🎈Carmen Rial