O ano da virada: futebol de mulheres no Brasil rumo à Copa do Mundo de 2027
- INCT Futebol
- há 5 dias
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Eric Alves Azeredo (UVV)
No texto abaixo, o autor discute as expectativas para a Copa do Mundo de mulheres que irá ocorrer no Brasil, em 2027.

Em 24 de junho de 2027, pela primeira vez na história, uma Copa do Mundo Feminina de Futebol será realizada em solo sul-americano. O Brasil, país que já sediou dois Mundiais masculinos (1950 e 2014), recebe agora o principal torneio do futebol de mulheres, com jogos distribuídos por oito cidades: Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Recife, Salvador e Porto Alegre (CBF, 2026; Zanlorenssi, 2026). Mais do que um evento esportivo, o torneio representa o ápice simbólico de décadas de luta por espaço, reconhecimento e investimento no futebol praticado por mulheres naquele que é considerado o “país do futebol”.
Um esporte que foi proibido
Para dimensionar o momento atual, é necessário recordar a origem do futebol de mulheres brasileiro. Entre 1941 e 1979, mulheres foram oficialmente proibidas de jogar futebol no Brasil por decreto federal, sob a justificativa de que a prática seria incompatível com a “natureza feminina”. A revogação da proibição, no fim dos anos 1970, não trouxe consigo estrutura, patrocínio ou visibilidade. O esporte permaneceu marginal por longo período, sustentado por times amadores e pelo esforço individual de atletas que enfrentavam preconceito dentro e fora de campo.
A virada começou a ganhar contornos mais nítidos a partir dos anos 2000, impulsionada por nomes como Marta, seis vezes eleita a melhor jogadora do mundo pela FIFA, e pela geração que levou a Seleção ao vice-campeonato mundial em 2007, até hoje a melhor campanha do Brasil em Copas do Mundo. Ainda assim, por muitos anos, a distância entre o talento individual das jogadoras e a estrutura oferecida pelos clubes e pela Confederação permaneceu expressiva.
Crescimento acelerado na última década
Os números mais recentes divulgados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) mostram uma mudança de patamar. Entre 2021 e 2026, o número de competições femininas nacionais organizadas pela entidade cresceu 50%, passando de seis para nove torneios. No mesmo período, a quantidade de clubes envolvidos em disputas femininas, entre categorias adultas e de base, saltou de 58 para 79, enquanto o volume total de partidas disputadas aumentou 79%, de 398 para 712 jogos (Estado do Pará Online, 2026).
O calendário nacional também se consolidou. O Campeonato Brasileiro Feminino, criado em 2013, ganhou uma segunda divisão (A2) em 2017 e uma terceira (A3) em 2022. A Copa do Brasil Feminina, disputada entre 2007 e 2017 e posteriormente retirada do calendário, retornou em 2025 com formato renovado, reunindo equipes das três divisões nacionais em uma disputa única (Estado do Pará Online, 2026). Paralelamente, a CBF reajustou os valores distribuídos às equipes: o campeão da Série A1 passou a receber R$ 2 milhões, o dobro do valor anterior de participação por clube na primeira fase, e a Supercopa Feminina de 2026, decidida entre Corinthians e Palmeiras, com título palmeirense nos pênaltis, distribuiu R$ 1 milhão ao time campeão (Estado do Pará Online, 2026; Ge, 2026).
Ainda assim, os números de público revelam o tamanho do desafio remanescente. A média de comparecimento nos estádios na temporada de 2026 do Brasileirão Feminino A1 ficou em torno de 487 torcedores por partida, com picos de pouco mais de 5 mil pessoas em jogos de maior apelo, como Corinthians e Fluminense (Wikipedia, 2026). Trata-se de um contraste evidente com a repercussão internacional que a Seleção Brasileira vem conquistando fora de campo.
Uma seleção em ascensão
Sob o comando do técnico Arthur Elias desde 2023, a Seleção Brasileira Feminina viveu, em 2025, uma de suas temporadas mais expressivas. A equipe conquistou o nono título da Copa América, venceu a Seleção dos Estados Unidos em solo americano após 14 anos sem triunfar sobre as norte-americanas e superou a Inglaterra, bicampeã europeia, por 2 a 1, em Wembley (Guerra, 2025). Os resultados elevaram o Brasil à quarta colocação do ranking FIFA, a melhor classificação do time desde 2013, posição da qual a equipe recuou para o sexto lugar, segundo a atualização de abril de 2026 (Guerra, 2025).
A equipe combina experiência e renovação. Ao lado de Marta, que segue como referência mesmo após a despedida das Olimpíadas de Paris 2024, despontam nomes como Kerolin, Gabi Portilho, Ary Borges, Angelina e Duda Sampaio, integrantes de uma geração que amadureceu mentalmente em confrontos diretos contra as principais potências do futebol mundial (Guerra, 2025). Segundo Cris Gambaré, coordenadora de seleções femininas da CBF, os amistosos realizados em 2026 contra Costa Rica, Venezuela e México integraram a preparação específica para o Mundial em casa, servindo como testes contra diferentes estilos de jogo (Agência Brasil, 2026).
O tamanho do impacto econômico
Estudo conduzido pela Embratur em parceria com a Fundação Getúlio Vargas estima que a Copa do Mundo feminina de 2027 deve movimentar R$ 8,8 bilhões na economia brasileira e gerar cerca de 74 mil empregos, considerando turismo, infraestrutura, serviços e a cadeia produtiva ligada ao evento (Silva, 2026). O impacto se soma ao legado físico deixado pela Copa do Mundo masculina de 2014: dos 38 centros de treinamento definidos para as 32 seleções participantes do Mundial feminino, divulgados em abril de 2026, a maior parte já era utilizada há mais de uma década pelas equipes masculinas (Zanlorenssi, 2026).
Para a Conmebol, a escolha do Brasil como sede também possui peso simbólico. Nenhum país da confederação sul-americana havia sediado até então uma Copa do Mundo feminina, e a expectativa das entidades esportivas é de que o torneio sirva como catalisador para o desenvolvimento do futebol praticado por mulheres em toda a região, não apenas no país-sede (Conmebol, 2023).
O que ainda falta
Apesar dos avanços, especialistas e agentes do próprio meio esportivo reconhecem que a distância entre o futebol de homens e o de mulheres no Brasil permanece considerável, seja em salários, cobertura da mídia, patrocínio ou infraestrutura de clubes menores, sobretudo fora do eixo Rio-São Paulo. O crescimento recente é real e mensurável, mas parte de uma base histórica reduzida, o que explica por que os saltos percentuais em número de competições e partidas ainda convivem com públicos modestos nos estádios.
A realização da Copa do Mundo em casa é vista como uma oportunidade de reduzir essa distância em ritmo mais acelerado do que o observado até aqui, à semelhança do que ocorreu em outros países-sede, como no caso da edição de 2023, disputada na Austrália e na Nova Zelândia, que bateu recordes históricos de público, audiência e interesse comercial para o torneio (Zanlorenssi, 2026).
Uma geração que joga por uma estrela
A um ano da abertura do Mundial, a Seleção Brasileira segue movida por um objetivo específico: conquistar o primeiro título mundial de sua história, superando o vice-campeonato de 2007, que permanece, há quase duas décadas, como a maior conquista da equipe (Zanlorenssi, 2026). Jogar em casa, diante de um público que deve lotar arenas como o Maracanã e o Mané Garrincha, coloca as atuais jogadoras da Seleção diante do desafio de transformar em título aquilo que gerações anteriores construíram como resistência, visibilidade e talento, muitas vezes sem o apoio institucional que o esporte finalmente começa a oferecer.
Se o torneio consolidará essa mudança de patamar, ou se os números de crescimento permanecerão restritos a relatórios e levantamentos, é uma questão que somente o pós-Copa poderá responder. Em 2027, pela primeira vez, o Brasil terá a oportunidade de verificar, em casa, se o futebol de mulheres nacional conseguirá finalmente estar à altura do talento das mulheres que o praticam.
Referências
AGÊNCIA BRASIL. Seleção feminina fará amistosos contra Costa Rica, Venezuela e México. Agência Brasil, 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2026-02/selecao-feminina-fara-amistosos-contra-costa-rica-venezuela-e-mexico. Acesso em: 21 jul. 2026.
CBF. Falta 1 ano: Brasil se prepara para receber a Copa do Mundo Feminina da FIFA em 2027. CBF, 2026. Disponível em: https://www.cbf.com.br/selecao-brasileira/noticias/selecao-feminina-principal/a/falta-1-ano-brasil-se-prepara-para-receber-a-copa-do-mundo-feminina-da-fifa-em-2027. Acesso em: 19 jul. 2026.
CONMEBOL. Conmebol apoia candidatura do Brasil para sediar Copa do Mundo feminina de 2027. Conmebol, 2023. Disponível em: https://www.conmebol.com/pt-br/noticias-pt-br/conmebol-apoia-candidatura-do-brasil-para-a-copa-do-mundo-feminina-de-2027/. Acesso em: 21 jul. 2026.
ESTADO DO PARÁ ONLINE. CBF aponta crescimento do futebol feminino no Brasil antes da Copa do Mundo de 2027. Estado do Pará Online, 2026. Disponível em: https://estado do paraonline .com/cbf-aponta-crescimento-do-futebol-feminino-no-brasil-antes-da-copa-do-mundo-de-2027/. Acesso em: 20 jul. 2026.
GE. Supercopa Feminina 2026: Palmeiras leva prêmio milionário com título. Ge, 2026. Disponível em: https://ge.globo.com/sp/ribeirao-preto-e-regiao/futebol/futebol-feminino/supercopa-do-brasil-feminina/noticia/2026/02/07/supercopa-feminina-2026-palmeiras-leva-premio-milionario-com-titulo.ghtml. Acesso em: 20 jul. 2026.
GUERRA, Carol. O marcante ano de 2025 para a seleção brasileira feminina e o que esperar de 2026. Trivela, 2025. Disponível em: https://trivela.com.br/futebol-feminino/selecao-feminina-brasil-2026-historico-analise/. Acesso em: 20 jul. 2026.
SILVA, Clara. Copa do Mundo Feminina de 2027 deve gerar R$ 8,8 bilhões para a economia do Brasil. Diário do Turismo, 2026. Disponível em: https://diariodoturismo.com.br/copa-do-mundo-feminina-de-2027-deve-gerar-r-88-bilhoes-para-a-economia-do-brasil/. Acesso em: 21 jul. 2026.
WIKIPEDIA. Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino Série A1. Wikipedia, 2026. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/2026CampeonatoBrasileiro_de FutebolFeminino_Serie_A1. Acesso em: 21 jul. 2026.
ZANLORENSSI, Gabriel. Os países classificados para a Copa do Mundo Feminina de 2027. Nexo, 2026. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/gráfico/2026/07/20/copa-do-mundo-feminina-2027-classificados-paises-selecoes. Acesso em 19 jul. 2026.
Sobre o autor:
Eric Alves Azeredo é mestre em Sociologia Política pela UVV-ES, com MBA em Administração de Empresas pela FGV/RJ. Especialista em Contratos e em Direito Desportivo. Está líder do Grupo de Empreendedorismo e Gestão do Comitê de Qualidade e Competitividade (CQC) do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (IBEF) do ES. E-mail: eric.azeredo@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/6302062204477504.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
AZEREDO, Eric Alves. O ano da virada: futebol de mulheres no Brasil rumo à Copa do Mundo de 2027. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 45, 2026.
A Copa do Mundo de mulheres de 2027 irá preceder a Copa do Mundo de homens ocorrida neste ano. Para ler uma reflexão sobre ela, acesse: Um amor delicado: reflexões sobre futebol a partir da Copa de 2026.
O ano da virada: futebol de mulheres no Brasil rumo à Copa do Mundo de 2027 © 2026 by Eric Alves Azeredo is licensed under CC BY-NC 4.0




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