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A construção do futebol em Cabo Verde observada de perto

 Guilherme da Silva Magalhães (UFPel/INCT Futebol)


No texto abaixo, o autor compartilha sua experiência no V Colóquio Internacional INCT Futebol, ocorrido em Cabo Verde, e comenta os conhecimentos e percepções que teve sobre o futebol cabo-verdiano durante o evento.

 

Estádio Nacional de Cabo Verde. Imagem: Wikimedia Commons¹
Estádio Nacional de Cabo Verde. Imagem: Wikimedia Commons¹

 

Os primeiros dias do mês de junho de 2026 entraram para a história do INCT Futebol. Houve uma expansão entre os diálogos sobre o futebol e o largo campo de estudos que esse esporte proporciona. Se uma importante relação entre futebol e sociedade se faz presente em diversos países, isso também pode ser observado em muitas nações do continente africano, embora a África tenha sediado uma Copa do Mundo pela primeira vez somente em 2010, quando a África do Sul recebeu o Mundial – difícil não lembrar da “Copa das Vuvuzelas”.

 

No primeiro semestre de 2026, o INCT Futebol realizou seu V Colóquio Internacional em Cabo Verde, um arquipélago ao oeste da África, com aproximadamente quinhentos mil habitantes. O evento simbolizou um marco para todos que pesquisam o futebol e o enxergam como uma ferramenta de transformação e de compreensão social. O Colóquio reuniu pesquisadores de diversos países, como Brasil, Cabo Verde, Espanha e França. Esse evento possibilitou estreitar as relações e diálogos acadêmicos entre entidades brasileiras e cabo-verdianas.

 

Como graduando, pude participar do Colóquio tanto na posição de organizador, auxiliando na logística de transmissão das atividades, como também apresentando trabalhos nas comunicações orais científicas. Foi o terceiro colóquio internacional do INCT Futebol do qual tive o prazer de participar. Este, especificamente, me trouxe muita reflexão sobre um povo apaixonado por futebol e que, pela primeira vez em sua história, estava sentindo o gosto de jogar uma Copa do Mundo. O evento ocorreu na cidade da Praia, capital de Cabo Verde, na Ilha de Santiago, às vésperas do início do Mundial, culminando em um clima de festa e de expectativa inenarrável por todos os cantos do país.

 

Em Cabo Verde, um país pequeno e geograficamente isolado, o futebol ocupa um lugar de destaque na cultura e na vida social. O esporte, presente no arquipélago desde o período colonial português, foi introduzido por meio das conexões marítimas que ligavam as ilhas ao continente africano, a Portugal e também a outras regiões do Atlântico. Ao longo do século XX, o futebol se consolidou como uma das principais formas de sociabilidade e lazer da população cabo-verdiana, tornando-se parte importante da identidade cultural do país. As particularidades geográficas de Cabo Verde influenciaram diretamente o desenvolvimento da modalidade. Formado por dez ilhas distribuídas no Oceano Atlântico, o arquipélago viu surgir competições organizadas inicialmente em âmbito regional, uma vez que os deslocamentos entre as ilhas eram limitados pelas condições de transporte. Dessa forma, os campeonatos insulares desempenharam papel fundamental na consolidação do futebol cabo-verdiano e na formação de clubes que se tornaram referências locais.

 

Depois da independência do país (1975), o futebol passou a assumir uma nova dimensão no contexto nacional. A organização das estruturas esportivas, o fortalecimento da Federação Nacional e a ampliação das participações internacionais contribuíram para o crescimento da modalidade. Ao mesmo tempo, a expressiva diáspora cabo-verdiana espalhada por diferentes países, especialmente em Portugal e em outras nações europeias, favoreceu o surgimento de jogadores com vínculos ao arquipélago que passaram a integrar a Seleção Nacional.

 

Nas primeiras décadas do século XXI, Cabo Verde alcançou projeção inédita no cenário futebolístico africano. A seleção nacional, conhecida como os “Tubarões Azuis”, conquistou resultados expressivos em competições continentais e obteve sua primeira classificação para a Copa Africana de Nações, em 2013. O desempenho surpreendente da equipe evidenciou o crescimento do futebol cabo-verdiano e contribuiu para ampliar a visibilidade internacional do país, demonstrando a capacidade de uma pequena nação insular de competir em alto nível no continente africano.

 

Esse processo de fortalecimento do futebol nacional também esteve associado a investimentos em infraestrutura esportiva. Nesse contexto, destaca-se o Estádio Nacional de Cabo Verde, localizado na cidade da Praia, na ilha de Santiago. Inaugurado em 2014, o estádio representa um marco na modernização das instalações esportivas do país. Com capacidade para aproximadamente quinze mil espectadores, ele se tornou a principal casa da Seleção Cabo-Verdiana e um dos mais importantes espaços para a realização de competições nacionais e internacionais. O estádio foi o palco, em outubro de 2025, do jogo de classificação de Cabo Verde para a Copa do Mundo de 2026, sediada na América do Norte, diante da seleção do Essuatíni.

 

Mais do que uma infraestrutura destinada à prática esportiva, o Estádio Nacional simboliza as transformações vividas pelo futebol cabo-verdiano nas últimas décadas. Sua construção expressa o esforço de consolidação de uma estrutura capaz de atender às exigências das competições internacionais e de fortalecer a presença do país no cenário esportivo africano. Além disso, o estádio constitui um espaço de encontro, celebração e construção de pertencimentos, reunindo torcedores de diferentes regiões do arquipélago em torno de uma identidade nacional compartilhada.

 

A trajetória do futebol em Cabo Verde acompanha, em muitos aspectos, a própria história do país. Desde sua introdução durante o período colonial até a afirmação internacional dos Tubarões Azuis, o esporte consolidou-se como um importante elemento da cultura cabo-verdiana. Nesse percurso, o Estádio Nacional emerge como um símbolo material desse desenvolvimento, representando não apenas o crescimento da modalidade, mas também as aspirações de uma nação que encontrou no futebol uma importante forma de expressão, reconhecimento e projeção internacional.

 

Ao longo do Colóquio, houve conferências, apresentações orais de trabalhos e sessões de mesas redondas, pautando diversas temáticas sobre o futebol contemporâneo na sociedade, expressando a todo momento um diálogo direto brasileiro e cabo-verdiano. Além dessas atividades, houve a visita dos participantes do evento ao Estádio Nacional de Cabo Verde, proporcionando um momento de vivências e novos conhecimentos a respeito do futebol cabo-verdiano e africano de modo geral.

 

No último dia em que eu estive em Cabo Verde, com o evento tendo sido encerrado no dia anterior, ainda fui ao Estádio da Várzea, também localizado na cidade da Praia, para acompanhar a partida entre Boavista (Praia) e Atlético (São Nicolau), válida pelo Campeonato Nacional de Cabo Verde. O formato do torneio nacional cabo-verdiano não foge muito do que estamos acostumados a ver em competições do cenário do futebol mundial. Como o país é um arquipélago formado por dez ilhas, são disputadas primeiramente fases preliminares em cada uma, com os campeões de cada região sendo classificados para a segunda e decisiva fase, em que os melhores times de cada ilha duelam entre si pelo Campeonato Nacional. A partida que eu assisti colocou frente a frente o atual bicampeão cabo-verdiano, o Boavista, da Praia, e o Atlético, da Ilha de São Nicolau. O jogo foi bem movimentado e disputado, com um desenrolar positivo para o time da casa.

 

O Estádio da Várzea é menor e mais modesto do que o Estádio Nacional, mas não fica para trás quando o quesito é a importância e relevância para a história do futebol cabo-verdiano. Localizado no bairro da Várzea, na cidade da Praia, ele é um dos espaços esportivos mais tradicionais de Cabo Verde, com suas origens remontando à década de 1950, quando foi inaugurado como Estádio Municipal da Praia, tornando-se rapidamente o principal palco do futebol cabo-verdiano durante boa parte do século XX. Antes da construção do Estádio Nacional, o Várzea era a principal casa da seleção cabo-verdiana e recebia partidas internacionais, jogos das eliminatórias africanas e competições regionais. Foi também palco de confrontos da Taça Amílcar Cabral, importante torneio das seleções da África Ocidental, e de partidas de clubes cabo-verdianos em competições continentais africanas. O estádio atualmente comporta oito mil torcedores e continua sendo um dos centros do futebol nacional. Diversos clubes históricos da capital utilizam o espaço para mandar os seus jogos. Além do próprio Boavista da Praia, o Sporting da Praia, o Académica da Praia e o Travadores, alguns dos mais tradicionais do arquipélago, também utilizam o Várzea.

 

A seleção de Cabo Verde estreou em Copas representando o sentimento de toda uma nação apaixonada por futebol e que esperou décadas por esse momento. O grupo sorteado para os Tubarões Azuis para o Mundial era complicado, contendo dois campeões mundiais, Espanha e Uruguai, além da endinheirada Seleção Saudita, mas a seleção do país entrou em campo com todo o sangue e bravura de um povo que esbanja resiliência, orgulho e capacidade de superar adversidades. Afinal de contas, em um arquipélago moldado pelo Oceano Atlântico, a luta sempre fez parte da travessia.

 

Como um graduando apaixonado pelo futebol, que ainda está iniciando no universo da pesquisa, conhecer Cabo Verde e acompanhar um pouco da sua trajetória esportiva foi mais uma experiência particularmente enriquecedora. Em meio ao grande fluxo de informações que privilegia sempre os mesmos protagonistas, voltar a nossa atenção para o futebol africano, pouco midiático, é reconhecer a existência de outras histórias, outros modos de viver o esporte e outras formas de pertencimento. Os Tubarões Azuis não estavam entre os favoritos do Mundial, longe disso, mas representaram algo igualmente valioso: a capacidade do futebol de conectar pessoas, atravessar fronteiras e produzir narrativas que desafiam os limites impostos pela geografia, pela economia e pela visibilidade internacional. É justamente por isso que Cabo Verde merece ser visto, estudado e celebrado.

 

Sobre o autor:

 

Guilherme da Silva Magalhães é graduando em Educação Física pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), bolsista de iniciação científica e membro do INCT Futebol.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

MAGALHÃES, Guilherme da Silva. A construção do futebol em Cabo Verde observada de perto. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 44, 2026.

 

A participação de Cabo Verde na Copa de 2026 já foi comentada em outro texto do Bate-Pronto. Leia também: El Mundial como espejo del mundo.


¹ CC0.


 
 
 

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