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Durante a Copa do Mundo na Sicília, um arancino no prato valeu mais do que a bola em campo

Carla Pires Vieira da Rocha (UFSC/INCT Futebol)


No texto abaixo, a autora compartilha a experiência de estar na Sicília (Itália) durante a Copa do Mundo de 2026, demonstrando o grau de (des)interesse da população local pelo evento.


O arancino siciliano. Imagem: Flickr/Stijn Nieuwendijk¹
O arancino siciliano. Imagem: Flickr/Stijn Nieuwendijk¹

Na manhã do sábado em que aconteceria a partida final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha, eu caminhava pelo centro de Palermo, na Sicília, na expectativa de observar como a cidade estava se preparando para o grande duelo pela taça. À primeira vista, nenhum sinal de que, em poucas horas, aconteceria o momento decisivo do maior evento futebolístico e o mais assistido do planeta. A capital siciliana parecia indiferente ao campeonato, seguindo com seu ritmo usual: a população local cruzando as calçadas a passos lentos ou circulando pelos pequenos comércios sem pressa, enquanto os turistas lotavam os cafés saboreando despreocupadamente uma granita com brioche para aliviar o calor matinal já sufocante de um dos verões mais quentes e extremos na Europa.

 

Segui em direção ao Mercado del Capo, o segundo mercado de rua mais popular de Palermo, onde também se concentram alguns bares e pequenos restaurantes. Nenhum cartaz, bandeira, adesivo, camiseta de seleção ou qualquer outro traço do Mundial competia com os cartazes das bancas de peixes, verduras, frutas, legumes e demais alimentos que dominam a maior parte daquela área durante as manhãs.

 

Em Messina, terceira maior cidade da Sicília e principal ponto de ligação entre a ilha e a parte continental da Itália, o cenário não era diferente. Às nove da noite, o horário europeu da maioria das partidas decisivas, nada indicava qualquer furor com os times em campo. O silêncio só era alterado pelo ronco do motor de algumas motos ou carros e pelos latidos dos cães que ecoavam pelas redondezas. Nem mesmo o vizinho dos gritos espalhafatosos durante as partidas da UEFA se manifestava.

 

Durante os dias do campeonato, nas ruas, nos comércios ou aos finais de semana, nas praias de Capo Peloro e Torre Faro (as mais movimentadas de Messina no verão), como de regra, era quase impossível deixar de ouvir as conversas acalarodas entre os moradores. Imaginar que a Copa em curso pudesse render alguma discussão foi em vão. Parece que o campeonato foi bem menos interessante que o arancino da nova rosticceria da Via Garibaldi, a focaccia tradicional da Via Palermo, o cannollo da pasticceria Doddis e tudo mais que envolvesse comida, um dos assuntos preferidos entre messineses.

 

Nos principais jornais da Sicília, a cobertura da Copa aparecia com um mínimo de destaque, quase como uma pauta a mais a ser cumprida. Espremidas entre as imagens e notícias sobre os principais times de futebol locais, sobretudo o Palermo FC (o time mais importante da Sicília), algumas notas menores sobre a programação dos jogos e os principais resultados do Mundial. O pedido escandaloso de Donald Trump ao atual presidente da FIFA, Gianni Infantino (filho de imigrantes italianos na Suíça), para que fosse revisto o cartão vermelho recebido por Folarin Balogun (atacante do time estadunidense), ganhou mais destaque do que as partidas finais do campeonato. Talvez seja algo justificável após as rusgas mais recentes entre a primeira-ministra Giorgia Meloni e o presidente norte-americano.

 

Tudo indica que a pouca expressividade deste Mundial não foi algo exclusivo da Sicília. Na última semana de junho, enquanto eu almoçava em um dos restaurantes vizinhos à Ponte Mílvia, em Roma, a única menção ao campeonato que presenciei foi numa conversa de balcão entre o operador do caixa e uma cliente. Tive a impressão de ouvir a palavra “Brasil”, e me aproximei da dupla discretamente. Mesmo ciente de que a opinião de duas pessoas seria pouco representativa, eu estava curiosa para ter qualquer ideia sobre a percepção dos romanos a respeito da seleção brasileira atual. Imaginei que o país pentacampeão e com mais títulos da história do mundial seria motivo para uma troca de palavras (ainda que ínfima), mas nem isso. Ambos faziam comentários aleatórios sobre o horário dos jogos e sobre a falta de expectativa para a partida entre Canadá e Marrocos, que aconteceria algumas horas mais tarde.

 

Não é de surpreender a falta de entusiasmo dos italianos com esta Copa do Mundo. Afinal, foi a terceira edição consecutiva em que a Itália ficou fora do Mundial, um período suficiente para agravar a crise no futebol italiano e o desânimo de torcedores. Em uma página do Facebook dedicada à Sicília, foi lançada a pergunta: “Já que a Itália não está na Copa, para quem você vai torcer?”. A resposta de um dos seguidores talvez traduza o sentimento de um país que se apega à ideia de autenticidade até mesmo na escolha de uma pizza (la vera pizza!): “Os verdadeiros italianos não torcem por outra seleção, mesmo quando a Itália está fora da Copa do Mundo”.

 

Na Sicília, no entanto, a falta de entusiasmo pela Copa não deve ser confundida com falta de entusiasmo pelo futebol. Muito pelo contrário: a autoestima dos sicilianos com o seu futebol não é pouca. A região é a única no país com uma Federação Nacional – Federazione Siciliana Calcio (FSC). Em 2023, justificando que o crescimento da Seleção Siciliana já não era compatível com a permanência na CONIFA, a federação anunciou sua saída definitiva dessa organização.

 

No imaginário de seus apoiadores, permanece a aspiração de que, um dia, a Seleção Siciliana represente a Sicília em uma Copa do Mundo. Trata-se, contudo, de uma possibilidade remota, já que a ilha integra a República Italiana e não constitui um Estado independente. Provavelmente, esse imaginário é também alimentado pela memória de Totò Schillaci, jogador palermitano que se transformou em uma lenda, após entrar como reserva da Seleção Italiana na Copa de 1990 e terminar como artilheiro e melhor jogador da competição, com seis gols.

 

Sonhar não custa nada, mas, ao menos enquanto a Itália não voltar a disputar uma Copa do Mundo, os sicilianos parecem mais interessados em um arancino no prato do que em uma bola rolando em campo neste Mundial.

 

Sobre a autora:

 

Carla Pires Vieira da Rocha é jornalista, doutora em Ciências Humanas e pesquisadora do INCT Futebol e do NAVI (Núcleo de Antropologia Visual e Estudos da Imagem da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC).

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

ROCHA, Carla Pires Vieira da. Durante a Copa do Mundo na Sicília, um arancino no prato valeu mais do que a bola em campo. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 41, 2026.

 

O grau de (des)interesse pela Copa em outros lugares do mundo já foi tema de outros textos do Bate-Pronto. Para ler sobre como o evento foi vivido em outros países, acesse: A Copa do Mundo não aconteceu.


¹ Arancini”. CC BY-NC-ND 2.0.




 
 
 

2 comentários

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Tulia
14 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que delícia de cardápios que tem por aí! Fiquei com fome só de ler

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Convidado:
13 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Quero a receita desse arancino! E saber mais sobre como os italianos estão vendo a crise da FIFA.

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