top of page
Buscar

Um amor delicado: reflexões sobre futebol a partir da Copa de 2026

Leda Maria da Costa (UERJ)


No texto abaixo, a autora conta como sua paixão pelo futebol foi posta à prova durante a Copa do Mundo de 2026, devido aos conflitos belicosos e casos de violência sexual que marcaram a competição.


O futebol foi capaz de despertar emoções contraditórias na Copa de 2026. Imagem: Harald Giersing/Wikimedia Commons¹ (editado com IA Pixelcut)
O futebol foi capaz de despertar emoções contraditórias na Copa de 2026. Imagem: Harald Giersing/Wikimedia Commons¹ (editado com IA Pixelcut)

 Não tem sido fácil gostar de futebol nos últimos tempos. E essa dificuldade não se relaciona ao meu clube de coração, Vasco da Gama, que há anos coleciona fracassos esportivos e de gestão. Eu amo futebol para além do Vasco. A paisagem sonora da minha casa tem miados de gatos e muitos sons vindos das várias transmissões televisivas que assisto ou ouço.

 

Para quem possui esse tipo de obsessão, a Copa do Mundo masculina é uma diversão. Assistir aos melhores jogadores do mundo em campo e às diferentes culturas torcedoras festejando nas arquibancadas é uma oportunidade que, de quatro em quatro anos, gosto de aproveitar. Isso sem mencionar o potencial dramático de uma competição curta, com vários confrontos decisivos que se configuram como cenários perfeitos para narrativas épicas ou trágicas. Narrativas derivadas da falação esportiva dos meios de comunicação, contra a qual Umberto Eco (1984) colocava diversos senões, mas que sempre me cativou, porque minha relação com o futebol é indissociável da verborragia midiática, das mesas-redondas e dos programas esportivos de rádio passados no domingo à tarde.

 

Porém, estou cansada. Meu amor pelo futebol se tornou delicado. O futebol tem me colocado diante de dilemas que me perturbam e que, nesta Copa de 2026, atingiram seu ápice, pelo menos para mim, enquanto mulher, pesquisadora e torcedora. Creio que não seja a única pessoa a estar nesta situação, por isso compartilho meu incômodo.

 

A Copa das guerras

 

Os EUA já haviam se candidatado para a Copa de 2022, mas foram preteridos pela Rússia. Nessa época, a Fifa era presidida por Joseph Blatter, que, em 2015, renunciou ao cargo em meio ao chamado Fifagate, conduzido pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos e pelo FBI.

 

Em 2018, a Fifa anunciou a escolha da candidatura de EUA, México e Canadá como sedes da Copa do Mundo de 2026. Na época, Donald Trump exercia seu primeiro mandato como presidente dos EUA, e Gianni Infantino já estava à frente daquela federação desde 2016, no cargo em que se mantém até hoje. Frequentemente, Infantino manifesta apoio a Trump, como aconteceu durante os processos de impeachment pelos quais esse presidente passou em seu primeiro mandato.

 

Em mais uma demonstração de apoio, a Fifa criou extraordinariamente o Prêmio da Paz, que foi concedido a Donald Trump. Segundo consta na página da Fifa, o presidente estadunidense recebeu o prêmio pois: “desempenhou um papel fundamental na obtenção de um cessar-fogo e na promoção da paz entre Israel e a Palestina, tendo também buscado ativamente o fim de outros conflitos.”²


 

Esse perfil é pouco compatível com Trump. Sob o comando desse presidente, os EUA gastaram mais de 100 bilhões em apoio militar a Israel para promoção de ataques a Gaza. Em fevereiro de 2026, os EUA deram início a uma série de ataques contra o Irã sob pretexto de “defender o povo americano, eliminando as ameaças iminentes do regime iraniano”.³ Nesse mesmo ano, Nicolás Maduro foi abduzido em uma operação militar dos EUA e ainda é mantido preso no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, em Nova York.

 

Paz não é o forte do governo Trump, marcado pelo empenho em ampliar o poderio dos EUA e rechaçar publicamente quem for considerado como um potencial inimigo desse objetivo. Entre esses inimigos, estão os imigrantes, que sofrem com as políticas anti-imigração adotadas no país. Alguns profissionais da Copa foram alvo desse problema, como veremos adiante.

 

É nesse contexto inóspito que se insere a Copa do Mundo de 2026, realizada nos EUA, Canadá e México, países contra os quais, aliás, o governo Trump já dirigiu algumas ameaças. Mesmo que tenha havido manifestações de oposição e até mesmo ameaça de boicote, no final das contas, todas as 48 seleções participaram do evento.

 

Estudos como o de Norbert Elias e Eric Dunning (1992) demonstraram o caráter agonístico dos esportes, ressaltando que essa prática se constituiria como uma forma simbólica e lúdica de substituir a guerra por algo que a simulasse, sobretudo, no que se refere ao embate entre adversários.

 

Na Copa de 2026, entretanto, a relação com a guerra esteve longe do simbólico. Além do número de seleções, há o fato inédito de termos um país sede da Copa envolvido diretamente em uma guerra. Os EUA são um dos atores principais de conflitos militares internacionais que ocorrem nos últimos anos. É válido lembrar que a Rússia, por conta da invasão à Ucrânia, não pode ter seus clubes e seleção participando de competições oficiais.

 

De modo insólito, tivemos, em 2026, a participação de uma seleção cujo país sofre ataques bélicos do país sede da Copa. Me refiro à presença do Irã na Copa do anfitrião, EUA.

 

A Seleção Iraniana precisou se hospedar no México por conta do atraso na emissão dos vistos para jogadores e comissão técnica. O deslocamento entre territórios não foi fácil. O atacante Mehdi Taremi e o auxiliar Saeid Alhouei chegaram a ser retidos no aeroporto de Los Angeles, quando retornavam para Tijuana, no México.

 

O árbitro somali Omar Abdulkadir, convocado pela Fifa, teve seu visto negado mesmo portando um passaporte diplomático. O capitão da Seleção Iraquiana, Aymen Hussein, autor do gol que classificou o Iraque para a competição da qual não participava há 40 anos, foi detido e interrogado por cerca de sete horas, ao desembarcar no Aeroporto Internacional O’Hare, em Chicago.

 

A relação entre esporte e políticas autoritárias não é nova. Ao contrário, temos alguns exemplos contundentes no decorrer da história. Porém, isso está longe de ser um consolo.

 

A Copa e a cultura do estupro

 

Não bastasse esse entrelaçamento entre futebol e guerras, a Copa de 2026 foi aquela em que novamente o futebol – federações locais, Fifa etc. – deu mais exemplos do quanto é condescendente com casos que envolvam violência contra a mulher. Pelos gramados do evento esportivo, que é assistido por milhões de pessoas no planeta, passaram cinco jogadores acusados de estupro. São eles: Junya Ito e Kaishu Sano (ambos do Japão), Achraf Hakimi (Marrocos), Thomas Partey (Gana) e Ryan Mendes (Cabo Verde).

 

Junya Ito foi cortado da Copa da Ásia de 2024 por conta da investigação aberta no Japão após duas mulheres o denunciarem por violência sexual. Ito as acusou de falsas denúncias e, ao que parece, a palavra do jogador foi mais convincente que a das duas mulheres. As investigações cessaram, e o Ministério Público do Japão arquivou o caso, considerando que não havia provas contra o jogador.

 

Seu companheiro de seleção, Kaishu Sano, em 2024, chegou a ser preso em Tóquio sob acusação de agressão sexual contra uma mulher em um hotel. Porém, seu retorno à seleção se deu após um pedido público de desculpas, em 2025. O jogador sequer foi condenado pela Justiça Japonesa e retornou à seleção para a disputa da Copa do ano seguinte.

 

Um dos casos que mais espanta é o de Thomas Partey, que responde a SETE acusações de estupro no Reino Unido. Ele não conseguiu participar da estreia de Gana na Copa, porque teve seu visto negado no Canadá por conta da investigação dos referidos crimes. Mas o jogador participou normalmente da segunda partida de Gana, na qual enfrentou a Inglaterra em Boston, e assim seguiu até a eliminação.

 

Hakimi, um dos jogadores mais caros do futebol e que atua no Paris Saint-Germain, irá a julgamento na França sob acusação de estupro ocorrido em 2023. O jogador nega a acusação, mas esse tipo de negação é o que mais vimos no futebol mundial.


Por fim, temos o caso de Ryan Mendes, que ostentou a faixa de capitão de Cabo Verde, a seleção que cativou a simpatia de muita gente. Cabo Verde deu uma trabalheira gigante às tradicionais Espanha e Uruguai. Josimar José Évora Dias, o Vozinha, foi um dos nomes da Copa. Seu apelido, sua história de vida e suas defesas arrojadas formaram a base para a composição de um personagem com forte poder de repercussão midiática. E foi o que aconteceu com o goleiro, que, de 50 mil seguidores, passou a ter 7 milhões, após uma campanha feita pela CazéTV, que pediu para que os brasileiros passassem a seguir Vozinha nas redes sociais.

 

Em meio a tantas seleções compostas por astros milionários e globais, Cabo Verde alimentou o imaginário de um futebol ainda capaz de guardar em si o imponderável, algo que tem sido, frequentemente, escamoteado pela ânsia mercadológica.

 

Cabo Verde me forçou a concordar com a Fifa, afinal, foi o aumento do número de seleções participantes da Copa que viabilizou sua presença na competição.

 

E foi divertido enquanto durou acompanhar essa seleção.

 

Porém, o encanto perdeu suas forças, porque não foi fácil continuar a torcer para uma seleção cujo capitão – essa figura tão emblemática em um time – estava envolvido em uma acusação tão grave de estupro. A Seleção de Cabo Verde proibiu que jornalistas fizessem perguntas ao jogador sobre o caso, e o pacto de silêncio dos homens a respeito de violências praticadas contra mulheres mostrou novamente sua força.

 

Considerei o fato de se tratar de uma seleção africana e de um país que falava português. Me apeguei a imagens das comemorações da torcida de Cabo Verde, buscando, na sua alegria, algum motivo para me alegrar também.

 

Tentei não levar para o todo o que era responsabilidade de uma parte. Mas o encanto com Cabo Verde nunca mais foi o mesmo na Copa.

 

Existem questionamentos necessários. As copas são vitrines de negociação de jogadores, são palcos de momentos únicos em uma carreira atlética. Por que a Fifa permitiu que jogadores como Ryan Mendes e os outros casos aqui mencionados pudessem fazer parte de uma Copa do Mundo, um evento de imenso alcance midiático? Por que os programas esportivos, pelo menos no Brasil, pouco comentaram sobre o envolvimento de atletas com um crime tão abominável contra as mulheres?

 

A Fifa não possui, ainda, uma regra que estabeleça algum tipo de sanção à inscrição de jogadores que respondam judicialmente a processos gerados por acusação de estupro ou agressão sexual. De acordo com matéria do ge, a Fifa tem adotado a postura de respeitar os trâmites jurídicos de cada país, e caberia às federações nacionais a decisão final pela convocação ou não de algum jogador.⁴ 

 

A Fifa e a Federação de Cabo Verde também alegaram a necessidade de se adotar o princípio de presunção de inocência. Esse é um argumento comumente usado no mundo futebolístico e, obviamente, em termos legais, ele tem seu fundamento. Creio que pessoas que ainda não tenham sido condenadas em julgamento devam ter assegurado seu direito ao trabalho. Nesse caso, clubes e federações poderiam manter, de algum modo, a vinculação trabalhista desses jogadores. O que não entendo é que esses jogadores continuam a atuar livremente pelos campos.

 

Um evento como uma Copa do Mundo é uma oportunidade que se oferece a um jogador acusado de estupro de “lavar a sua imagem” diante do público, o que pode gerar interferência no seu processo de julgamento. O simples fato de serem atletas mundialmente conhecidos já forma uma barreira a mais na condução de processos judiciais, mas quando se oferece ao jogador um palco capaz de construir histórias heroicas, essas barreiras se multiplicam.

 

Hakimi, por exemplo, foi o capitão de Marrocos, seleção que chegou às oitavas de final da Copa. Kaishu Sano foi o autor de um gol contra a Seleção Brasileira na fase de 16-avos da Copa. Rayan Mendes estava em campo no histórico jogo de Cabo Verde contra a Argentina.

 

É fundamental que se evite que os “estupradores virem heróis”, como ocorreu com jogadores da equipe do Grêmio, como denunciado por Carmen Rial e Miram Grossi (1987).

 

Por que e como continuar a gostar de futebol?

 

Eu acompanhei a Copa, a despeito de todos esses absurdos que compartilhei aqui.

 

Idealmente, eu pensava que o correto seria dar as costas para a competição e fazer uma espécie de boicote solitário.

 

Isso me faz lembrar do sequestro da camisa verde e amarela da Seleção Brasileira. Durante um tempo, muitos de nós passamos a não usar mais a Canarinho, por ela ter sido associada à extrema-direita. No artigo de Simoni Guedes e Edilson Almeida (2019), esse fenômeno foi analisado, e uma das considerações feitas pelos autores é bastante útil para refletir sobre os dilemas que o futebol nos traz. Em relação à decisão de não usar mais a camisa verde e amarela, os autores comentam:

 

Mas abandonar os símbolos nacionais terá sido uma boa estratégia dos setores progressistas? Há controvérsias. Não há dúvida de que vivemos num país extremamente diversificado do ponto de vista sociocultural e, como demonstram os últimos acontecimentos, no qual valores muito distintos orientam diferentes grupos e camadas sociais. Os símbolos nacionais, entretanto, representam que existe algo maior que nos une, mesmo que por um processo de “esquecimento” como diz Renan (2010 [1898]). Se não são compartilhados, apesar das diferenças e das divergências, estaremos nos negando como nação. (2019, p. 11)

 

Abandonar o futebol é uma boa estratégia?

 

Deixar o futebol de lado seria abdicar de algo muito caro à nossa história. E não só. Significaria entregá-lo livremente nas mãos de quem detestamos e de quem nos detesta.

 

No decorrer da história desse esporte, várias foram as tentativas de deixá-lo sob domínio de poucos. E, se o futebol ainda existe, é porque muitos insistiram em não permitir que nos tomem o direito de gostar e participar desse esporte tão querido.

 

O futebol não é propriedade exclusiva da Fifa e de quem ocupa os seus mais altos cargos de poder.

 

Abandonar o futebol significa o risco de entregá-lo de vez a quem com ele pouco se importa. E, se hoje vemos uma Copa com tantos absurdos, creio que eles seriam muito maiores caso não houvesse manifestação alguma de denúncia ou contrariedade.

 

Além de tudo isso, o futebol é um jogo divertido demais, até mesmo quando é ruim.

Futebol é bom para pensar e expressar nossos dilemas acerca do mundo.

 

E que venha a Copa das mulheres em 2027.

 

Referências

 

ECO, Umberto. Viagem na irrealidade cotidiana. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984.

 

ELIAS, Norbert; DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa: Memória e Sociedade, 1992.

 

GUEDES, Simoni Lahud; ALMEIDA, Edilson Márcio. O segundo sequestro do verde e amarelo: futebol, política e símbolos nacionais. Cuadernos de Aletheia, La Plata, n. 3, 2019.

 

RIAL, Carmen; GROSSI, Miriam. Os estupradores que viraram heróis. Mulherio, v. 32, p. 3-4, 1987.

 

Sobre a autora:

 

Leda Maria da Costa é Professora Adjunta da Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). É doutora em Literatura Comparada pela mesma instituição. É pesquisadora do LEME - Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (UERJ).

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

COSTA, Leda Maria da. Um amor delicado: reflexões sobre futebol a partir da Copa de 2026. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 42, 2026.

 

Os problemas políticos que se destacaram durante a Copa já foram tema de outros textos do Bate-Pronto. Se você se interessou por esse assunto, leia também: Cosmopolitismos e nacionalismo: comentários sobre o excepcionalismo estadunidense


¹ CC0.


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page