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A Copa do Mundo de Futebol FIFA/2026 e as (novas) midialidades em debate na “Terra da Rasteira”

Silvan Menezes dos Santos (UFAL/INCT Futebol)

Cristiano Mezzaroba (UFS/INCT Futebol)

 

No texto abaixo, os autores fazem uma avaliação retrospectiva do evento Copas do Mundo de Futebol e (Novas) Midialidades, realizado pelo INCT Futebol em junho, à luz dos acontecimentos que puderam ser observados durante a Copa do Mundo de 2026.

 

As novas mídias foram apenas um dos novos elementos observados no futebol durante a Copa de 2026. Imagem: PxHere¹
As novas mídias foram apenas um dos novos elementos observados no futebol durante a Copa de 2026. Imagem: PxHere¹

Fecham-se as cortinas do grande palco do espetáculo futebolístico global, a Copa do Mundo de Futebol de homens da FIFA em 2026. Mas não cessam os impactos socioculturais da 23ª edição desse megaevento esportivo. As reflexões e aprendizados a serem produzidos a partir dele e sobre ele estão apenas em início de elaboração.

 

Em Alagoas, nordeste brasileiro, ou na “Terra da Rasteira[i]”, as análises crítico-reflexivas sobre a Copa do Mundo de 2026 começaram antes mesmo de abrirem-se as cortinas do espetáculo midiático-futebolístico, lá no norte da América, na quinta-feira, 11 de junho. De 8 a 10 de junho, na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o INCT Futebol reuniu pesquisadoras e pesquisadores do futebol brasileiro para o evento “Copas do Mundo de Futebol e (Novas) Midialidades”. Foram três dias de atividades que rechearam a programação com conferências, mesas redondas e uma oficina, todas atividades acadêmicas focadas nas relações explícitas e implícitas do futebol com as diferentes formas de midiatização produzidas na sociedade contemporânea. Portanto, agora, olhando em retrospectiva, nós que estávamos em Maceió/AL e participamos do evento, podemos dizer: “Eu já sabia!”

 

Longe de fazermos exercícios de futurologia ou produzirmos previsões de resultados, como é tão característico da falação midiático-esportiva, não nos reunimos na capital alagoana para especular o bicampeonato mundial dos espanhóis, confirmado no domingo, 19 de julho. Tampouco nos encontramos para elocubrar possíveis interferências político-comerciais do novo imperialismo estadunidense sobre o futebol, tal como no caso da suspensão do cartão vermelho do atacante Balogun ou no show do intervalo da final, quando durou inéditos 30 minutos o período de descanso entre o primeiro e o segundo tempos da partida, simulando o show do intervalo do Super Bowl, a liga de futebol americano (NFL), com apresentações de Madonna, Shakira, Justin Bieber, BTS e Chris Martin da banda Coldplay.

 

Também não nos mobilizamos para estarmos juntos durante três dias para antecipar que vivenciaríamos uma virada significativa no consumo midiático-esportivo das(os) brasileiras(os), com o advento maciço do fenômeno “CazéTV” nos lares e bares do país, assim como na palma da mão, com os smartphones pessoais, durante os 39 dias de Copa do Mundo.

 

Sobre o evento

 

O evento em Maceió (AL), promovido pela linha de pesquisa “Mídias e movimentos antirracistas” do INCT Futebol/CNPq e realizado pelo grupo de estudos Remix – Observatório de mídias, tecnologias digitais e práticas corporais, do Instituto de Educação Física e Esporte da UFAL, aconteceu no Auditório da Reitoria da universidade. Contou com a participação de pesquisadoras e pesquisadores da UFPE, da UFS, da UFRJ, da UFPR, da FEEVALE e da UFSC, todos com atuação consolidada em seus campos de estudos sobre esporte e futebol, na interseção com as Humanidades e, sobretudo, com a Comunicação Social.

 

Ao longo da programação, debatemos temas emergentes de um marco histórico-social tal como é uma Copa do Mundo, como, por exemplo: o papel do futebol no conjunto de práticas e significações da cultura e política brasileira; as transmissões esportivas e a economia do futebol; o futebol sob a perspectiva da semiótica; a cobertura midiática e formas de compreensão a partir das lentes conceituais e metodológicas do agendamento midiático-esportivo (agenda setting) e do enquadramento (framming); as questões de gênero e étnico-raciais que se evidenciam em momentos como este, de ampla evidência de todas essas questões em decorrência da grande visibilidade do megaevento esportivo.

 

Metodologicamente, o evento estruturou-se com uma conferência de abertura no primeiro dia, seguida de duas mesas-redondas distribuídas no segundo e terceiro dia da programação, e uma oficina, dividida em duas partes, realizadas no segundo e terceiro dia, no período matutino. Todas as atividades do programa contaram com transmissão pelo canal oficial do INCT Futebol/CNPq, na plataforma YouTube, e estão reunidas em uma playlist².

 

O evento contou com 143 (cento e quarenta e três) inscrições, de um total de 200 (duzentas) vagas disponibilizadas, de acordo com a capacidade total do auditório onde ele ocorreu. Teve participação consolidada de 90 (noventa) pessoas ao longo da programação, as quais receberam certificado. Portanto, alcançou 62,93% dos inscritos. Destes, a oficina sobre futebol e semiótica recebeu, nas suas duas partes, um total de 50 (cinquenta) pessoas, a maioria estudantes de graduação de diferentes cursos.

 

Reflexões correlacionando futebol e humanidades a partir da Copa 2026

 

Agora, passado o evento em Maceió e encerrada a Copa do Mundo 2026, podemos correlacionar questões manifestas durante todo o período de realização da Copa, caracterizada pela intensa pulsação midiático-futebolística, com dados, perspectivas teóricas e reflexões trazidas pelos(as) palestrantes que vieram à capital alagoana no início de junho.

 

Vimos, como nos termos do nosso conferencista de abertura, Prof. Dr. Anderson David Gomes dos Santos (UFAL), a mercadorização do futebol se estender e se intensificar, não por subsunção total dele aos ditames do capital, mas por criação de novos tempos-espaços no jogo para intervalos comerciais, como a famosa e tão falada “pausa (comercial) para hidratação”.

 

Observamos, mais uma vez, o tema da imigração e os desdobramentos contemporâneos das colonizações serem debatidos nas redes sociais por conta da diversidade fenotípica constituinte de muitas equipes nacionais, tal como a França, a Inglaterra, o Canadá, a Suíça e a própria equipe vencedora, a Espanha.

 

São os “pés-de-obra” negados socialmente, mas aceitos futebolisticamente, expressando aquilo que Anderson Santos reforçou como principal mecanismo de acumulação interna da indústria do futebol contemporâneo, a saber, a exploração da força de trabalho de crianças e jovens por todo o mundo como alimentadora do espetáculo midiático a ser vendido e consumido globalmente. Afinal, as(os) críticas(os) à composição dos selecionados com imigrantes e/ou descendentes deles são elas conservadoras? A indústria do futebol compreendeu a potência dessa diversificação de corpos e se apropriou de um novo modelo de exploração dos “pés-de-obra”? Ou são as duas coisas ao mesmo tempo?

 

Vivemos, nesta última Copa do Mundo, a experiência de sermos, mais do que nunca, convidados a ficarmos em nossos sofás e nos contentarmos com esse confortável, cômodo, porém antissocial locus domiciliar, desfrutando da paixão pelo futebol. Com os ingressos sendo comercializados à luz do dia, sem nenhum pudor e resistência, por milhares de dólares, com os estádios obtendo média de 99% de ocupação ao longo do megaevento, e com as transmissões dos jogos forradas de publicidade de casas de apostas, as famosas bets, o público torcedor foi bem embalado como mercadoria, também como nos apresentou Anderson Santos, e bem separado para as prateleiras do supermercado do espetáculo futebolístico.

 

Para a burguesia global, destinou-se a experiência torcedora das arquibancadas. Para as classes trabalhadoras de todo o mundo, os sofás de casa ou as “seis polegadas” dos smartphones como experiência de consumo, tendo ainda que lidar com os inúmeros estímulos patrocinados em direção à ludopatia. No Brasil, a CazéTV precisou recuar na publicidade das bets, após abertura de investigação pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), do Ministério da Justiça, por publicidade enganosa ou abusiva.

 

Nesta Copa de 2026, vimos o racismo ordinário “babar como a cadela do fascismo” mais uma vez, tal como trazido ao debate pelo Prof. Dr. Daniel Machado da Conceição (SEED/SC; INCT Futebol/CNPq) no nosso evento. Ele, o racismo, bradou na revista seletiva e restrita às delegações e pessoas advindas da América Latina, da África e do Oriente Médio, ainda na pista de pouso dos aviões, na chegada em território estadunidense. O mesmo não se viu no México e no Canadá, outros dois países que estiveram na organização da Copa.

 

O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan foi barrado de trabalhar na competição e retornou ao seu país por uma indefinida “inadmissibilidade” do seu visto. Foi a ordem racista do imperialismo estadunidense manifestando-se no futebol e, ainda que a “Lei Vini Jr.” de protocolo antirracista tenha valido e sido acionada durante a Copa no jogo entre Paraguai e Turquia, foi a FIFA sendo conivente, mais uma vez, com os desmandos dos donos da Copa de 2026, guardando o seu fair play no bolso.

 

E, no caso da Seleção Brasileira, qual o vilão negro desta vez? Como nos disse Daniel Conceição, somente em 3 das 18 derrotas do selecionado do país, os vilões eleitos não eram negros. O peso dado ao gol perdido por Endrick no segundo tempo da partida contra a Noruega é o mesmo destinado ao pênalti não convertido por Bruno Guimarães no início do jogo? Como foi a responsabilização do treinador italiano pela postura pouco combativa do time na marcação da posse de bola norueguesa? Quanto e como estão sendo responsabilizados Endrick, Danilo e Gabriel Magalhães pela marcação na construção e finalização da jogada do primeiro gol convertido por Haaland? E, no caso do volante Éderson, de família materna originária da Aldeia Bananal, do povo Terena, em Aquidauana, Mato Grosso do Sul, convocado às pressas para substituir o lateral Wesley cortado por lesão, como foi a construção noticiosa sobre a participação dele na derrota do time para a Noruega? Essas são questões a serem respondidas por estudos e análises do discurso midiático brasileiro após a eliminação do Brasil para os nórdicos nas oitavas de final.

 

No entanto, como dito por Daniel Conceição, em Maceió, a tendência revelada pela história social do país é a negritude levar a conta do resultado negativo nas costas, como se jogassem sozinhos o jogo de 16 jogadores possíveis mais as dezenas de técnicos e auxiliares técnicos que ficam à beira do gramado.

 

E a mídia, que papel teve na visibilidade do evento e nas transmissões esportivas?

 

A edição de 2026 da Copa do Mundo de futebol de homens registrou, de uma vez por todas, a mudança de lógica nas transmissões futebolísticas do país. Ainda que o Prof. Dr. Gustavo Roese Sanfelice (FEEVALE) tenha nos informado que as transmissões online iniciaram já na edição de 2018, foi agora, oito anos depois, que vimos a CazéTV atingir o pico de 24,2 milhões de dispositivos conectados simultaneamente para assistir à semifinal entre França e Espanha, transmitida com exclusividade pelo canal do YouTube para o território brasileiro.

 

Também como dito pelo mesmo palestrante, a saída de cena (ou recuo?) do Grupo Globo e a emergência deste novo modelo manifestam a complexificação do ecossistema comunicativo esportivo do país. Tal complexidade contempla, inclusive, tentativas de apagamento da agenda de jogos por parte do tradicional jornalismo da Globo, para não promover o trabalho do canal concorrente, bem como conjuga as críticas aos modos de narrar e de comentar das equipes de transmissão da CazéTV, seja pelos gritos de exaltação e emoção do narrador Luís Felipe Freitas, o Luisinho, ou pelos xingamentos recorrentes do próprio Casimiro Miguel e demais comentaristas.

 

As modificações por vir na midiatização da Copa do Mundo que se avizinhava também foram destacadas, na última mesa-redonda do evento, pelo Prof. Dr. Cristiano Mezzaroba (UFS). Em especial, ele ressaltou a lógica da memetização (utilização dos memes, uma nova cultura visual que vai sendo intensificada pela cultura digital e que produz outras formas de comunicar) dos conteúdos jornalísticos do futebol como forma de geração de engajamento ao fenômeno midiático-futebolístico nas redes. Ele nos apontava, e vimos se confirmar, que a produção e circulação de memes deixou de ser apenas uma expressão da criatividade e ressignificação de narrativas por usuários comuns da internet e passou a ser uma das linguagens comunicativas adotadas por veículos oficiais da mídia esportiva, tal como a Ge TV do Grupo Globo e a CazéTV. Ou seja, a memetização se tornou mais uma estratégia de agendamento midiático-esportivo, agora como mecanismo de acumulação, consonância e onipresença da mídia futebolística nas redes sociais, inclusive, com a utilização da inteligência artificial (IA).

 

Os memes, figurinhas, stickers e charges sobre futebol e Copa do Mundo, por sinal, povoaram os nossos aplicativos de mensagens rápidas e pessoais nos últimos meses. Desde a novela pela expectativa da convocação de Neymar Júnior para compor a seleção brasileira, até os vídeos-montagens feitos com suporte de IA generativa de símbolos da Copa, tal como Vini Júnior e Haaland dançando juntos antes do jogo das oitavas de final, não pararam de circular na internet.

 

O entrecruzamento intenso desses signos internos e externos do fenômeno global foi tema da oficina “Futebol e Semiótica”, ofertada pelo Prof. Dr. Fábio de Carvalho Messa (UFPR), durante duas manhãs do evento em Maceió. A título de exemplo, foi a partir dos exercícios de análise dos significantes presentes em memes sobre a “pausa para hidratação” da Copa que nos foi possível hipotetizar o que há de óbvio e de obtuso na infosfera deste debate, sobretudo como forma de satirizá-lo e criticá-lo por uma suposta falta de necessidade técnica dessa novidade implementada nesta edição do megaevento.

 

A Copa 2026 terminou, mas a Copa 2027, das mulheres, é no Brasil! E está logo ali...

 

Encerramos a Copa de 2026 vendo o início imediato do agendamento da Copa do Mundo de Futebol de mulheres de 2027, a ser realizada no Brasil, nos canais do Grupo Globo e na CazéTV. Na televisão aberta, especialmente, a Globo saltou na frente e colocou a “Rainha Marta” para convocar a torcida brasileira para acompanhar e assistir à competição no ano que vem.

 

Trata-se do “efeito sanfona” da visibilidade do futebol de mulheres e da Seleção Brasileira delas, recorrente na mídia nacional, como nos adiantou a Prof.ª Dr.ª Soraya Maria Bernardino Barreto Januário (UFPE), sendo acionado midiaticamente para este próximo quadro de um ano de “falação esportiva” sobre elas.

 

Resta-nos seguir observando e analisando criticamente essa prática de visibilização esporádica, condicionada comercialmente, para que saia da “lógica sanfoneira” e se mantenha como “cordas sempre esticadas e afinadas” para ampliar cada vez mais o alcance e a incorporação cultural do futebol de mulheres no Brasil.

 

Alguma dúvida sobre como o futebol e as Copas do Mundo são um atrativo para além do jogo jogado ou do jogo transmitido? O jogo do “desvelamento” das questões socioculturais no futebol é rico em potencialidades!

 

Sobre os autores:

 

Silvan Menezes dos Santos é doutor em Educação Física (UFPR), professor do Instituto de Educação Física e Esporte na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação Profissional em Educação Física em Rede Nacional (PROEF/UFAL). Coordena o Remix – Observatório de mídias, tecnologias digitais e práticas corporais na UFAL e é membro pesquisador da linha de pesquisa “Mídia e movimentos antirracistas” no INCT Estudos do Futebol Brasileiro/CNPq. E-mail: silvan.santos@iefe.ufal.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/2939008930884704.

 

Cristiano Mezzaroba é doutor em Educação (UFSC), professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe (DEF/CCBS/UFS) e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/UFS). Coordena a linha de pesquisa “Mídia e movimentos antirracistas” no INCT Estudos do Futebol Brasileiro/CNPq. E-mail: cristiano_mezzaroba@yahoo.com.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1835801891069733.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

SANTOS, Silvan Menezes dos; MEZZAROBA, Cristiano. A Copa do Mundo de Futebol FIFA/2026 e as (novas) midialidades em debate na “Terra da Rasteira”. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 43, 2026.

 

Outras análises políticas sobre a Copa de 2026 já foram postadas no Bate-Pronto. Se você se interessa por esse tema, leia também: Cosmopolitismos e nacionalismo: comentários sobre o excepcionalismo estadunidense


¹ CC0.

² Referência ao documentário produzido em 2013 por Thalles Gomes e pela Subvídeos Produções sobre a história do futebol em Alagoas. Disponível em: https://youtu.be/oNGLPzAkuB8?si=GUTWZ5ckNy5Im4ls. Acesso em: 20 jul. 2026.




 
 
 

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