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A morte na Copa: derrota e elaboração do luto no futebol

Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)

 

No texto abaixo, a autora trata a eliminação da Seleção Brasileira e de outras seleções nacionais na Copa do Mundo de 2026 como um processo de morte e luto, que pode ser elaborado de diferentes formas.


O gesto da Argentina durante a premiação da Espanha na final da Copa teve relação direta com a forma como a equipe lidou com o luto pela derrota. Imagem ilustrativa gerada com DALL-E¹
O gesto da Argentina durante a premiação da Espanha na final da Copa teve relação direta com a forma como a equipe lidou com o luto pela derrota. Imagem ilustrativa gerada com DALL-E¹

 

Às vezes, a derrota em uma Copa do Mundo de futebol de homens é vivida como uma morte. Toda a emoção construída ao longo de semanas – a expectativa, a preparação, o entusiasmo e a esperança que alimentam o torcer – é abruptamente interrompida. O sentimento que permanece é o da perda, de uma perda absoluta, pois não há pontos a recuperar como em um campeonato. Fala-se em “mata-mata”, colocando a morte no centro.

 

Mas há mortes e mortes. Como mostra Louis-Vincent Thomas (1985), existem “boas” e “más” mortes. Já discutimos essa distinção em outro momento, ao tratar da morte de Ayrton Senna (Rial, 2025). A morte de 1950, quando do chamado Maracanaço, foi uma morte má, experimentada como uma tragédia nacional, talvez mais profundamente do que os 7 a 1 sofridos diante da Alemanha em 2014. E a derrota brasileira na Copa de 2026? Ela foi percebida como uma morte ruim. Diferentemente de seleções como Cabo Verde, Haiti, Senegal e mesmo Marrocos, eliminadas ao longo da competição, cujas derrotas assumiram outro significado. No retorno aos seus países, os jogadores foram recebidos com celebrações, especialmente os cabo-verdianos, que, aliás, não perderam nos 90 minutos para os dois finalistas da Copa, Espanha e Argentina. A eliminação das seleções africanas foi eclipsada pelo reconhecimento do desempenho diante de adversários muito mais poderosos. Foram festejados na chegada, houve comemoração como se morte não tivesse havido. A derrota converteu-se em conquista simbólica².

 

O que chama atenção no caso brasileiro não é apenas a eliminação, mas a forma como ela foi administrada publicamente. O pós-morte foi marcado pela ausência de um velório – que, na nossa sociedade, é um rito de passagem, uma instituição que irmana num mesmo sentimento de despedida aqueles que de algum modo sofreram com a perda, um momento de liminaridade (Turner, 1974). O avião que deveria trazer de volta jogadores, comissão técnica e dirigentes chegou praticamente vazio. Não trouxe os corpos daqueles que haviam protagonizado a campanha. Apenas o capitão retornou, em silêncio, sem entrevistas ou manifestações públicas que permitissem compartilhar a dor com os torcedores.

 

Toda morte exige elaboração. O luto depende de narrativas, explicações, pedidos de desculpas, demonstrações públicas de consternação. São esses gestos que permitem transformar a perda em memória e abrir caminho para um recomeço. Nada disso ocorreu. O treinador, o mais bem remunerado entre todos os técnicos da Copa, partiu imediatamente para o Canadá. Houve quem foi passear de lancha em Ibiza e quem foi jogar pôquer em Las Vegas, publicizando isso sem pudor nas suas redes sociais.

 

Não se trata de afirmar que não sofreram. É provável que tenham sofrido. Mas, publicamente, a dor quase não foi performada. O que predominou foi a impressão de distanciamento. E poucas atitudes são mais difíceis de aceitar, diante de uma morte, do que a indiferença. A CBF rapidamente substituiu a elaboração da derrota pela promessa de um novo ciclo – “daqui a quatro anos será diferente” – sem que houvesse qualquer exercício consistente de autocrítica.

 

Houve sim quem sofresse profundamente. Penso sobretudo nas crianças que colecionaram figurinhas, vestiram a camisa da seleção, acompanharam cada partida e pediram, quase como uma súplica infantil, a convocação de seu ídolo Neymar. Talvez, esta venha a ser lembrada justamente como a Copa da campanha pelo retorno de Neymar – como esperança da volta de um futebol arte (Alves; Lisboa, 2026) para alguns, como modo de garantir a visibilidade de marcas para outros, como uma forma de manter no alto um possível cabo eleitoral para outros ainda.

 

As interpretações da derrota reproduziram a clivagem que já se desenhara desde sua convocação. De um lado, estavam jornalistas especializados; de outro, influenciadores digitais e ex-jogadores comentaristas ligados à Globo e à CazéTV, apoiados por patrocinadores, setores da classe política e por uma parcela expressiva da opinião pública.

 

Para muitos jornalistas, a eliminação decorria, sobretudo, de problemas técnicos e táticos. Afastar-se do chamado “estilo brasileiro de jogar” teria custado caro. As substituições promovidas pelo treinador italiano na partida contra a Noruega, quando o placar ainda estava empatado, passaram a simbolizar esse diagnóstico. A nacionalidade do treinador voltou a ser enfatizada, como se a derrota também representasse uma derrota de um projeto estrangeiro de futebol.

 

Outros, entre os jornalistas, apontaram o excesso de individualismo. A discussão de Neymar com o goleiro após a cobrança do pênalti foi frequentemente citada como evidência da ausência de espírito coletivo: em vez de perder tempo reclamando, deveria ter retomado imediatamente o jogo, ainda havia minutos para buscar o empate. Alguns poucos evocaram a falta de “garra” – de “futebol testosterona”, diria Rigo (2026).

 

Em todos esses casos, havia responsabilização dos protagonistas imediatos e, em última instância, da própria CBF, pela contratação do treinador e pela permeabilidade às pressões econômicas e políticas que levaram um ex-jogador ainda em atividade à Copa. Mas essa responsabilização esteve longe da violência simbólica dirigida a Barbosa após 1950 ou das interpretações que transformavam derrotas esportivas em provas de um suposto “complexo de vira-latas” brasileiro. A derrota de 2026 não carregou o mesmo peso identitário que marcou 1950 – e nem a mesma dor.

 

Já entre aqueles que defenderam a convocação de Neymar e alimentaram a expectativa do hexa, a derrota assumiu outro registro. Não foi interpretada como consequência de escolhas esportivas, mas como resultado de forças externas. Em vez de uma morte natural, previsível, tratou-se como se tivesse sido um assassinato. E o principal responsável por esse assassinato acabou sendo, curiosamente, a Argentina.

 

Generalizações sobre o caráter nacional argentino passaram a circular intensamente. Memes proliferaram nas redes sociais. Canções depreciativas foram compartilhadas, e argentinos foram descritos em posts como racistas, nazistas [sic!], arrogantes, trogloditas, indignos. O apoio de Trump (favorável a Milei e contrário ao socialista Pedro Sanchez) e de Netanyahu (em resposta à bandeira Palestina empunhada por Lamine Yamal) poderia circunscrever essas críticas à extrema-direita, mas também no campo da esquerda essas críticas proliferam. E, de fato, manifestações racistas e homofóbicas da parte dos argentinos existiram – imitações gestuais racistas de torcedores isolados ou, anteriormente, os cânticos da torcida argentina questionando a nacionalidade dos jogadores franceses por causa da origem de suas famílias, replicados pelos jogadores da seleção³. Mas esses episódios foram rapidamente convertidos em atributos de uma suposta identidade nacional argentina. E a xenofobia correu solta, com episódios isolados de violência física contra argentinos no Brasil.

 

A decisão dos jogadores argentinos de virar as costas para a cerimônia de premiação produziu rara unanimidade entre jornalistas, comentaristas e influenciadores. Falaram-se em antidesportividade, desonra, vergonha, incapacidade de aceitar perder. E, sem dúvida, teria sido elegante da parte dos argentinos retribuir o corredor de honra formado pelos espanhóis para homenagear os vice-campeões.

 

O que praticamente ninguém observou, porém, foi que, ao virar as costas para o palco da premiação, os argentinos voltavam-se para sua própria torcida. Mais do que ignorar a Espanha, a FIFA ou Donald Trump, dirigiam-se aos milhares de torcedores que os acompanharam durante toda a competição. Repetiam exatamente o mesmo gesto realizado após as vitórias anteriores. A diferença é que, desta vez, as lágrimas eram de tristeza. E que estava se desenrolando uma premiação da qual deveriam participar enquanto espectadores. Os argentinos preferiram ficar irmanados, partilhando a dor da perda.

 

Tinham sido claramente superados pelo jogo bonito dos espanhóis. As estatísticas – nunca uma Copa produziu tantos gráficos e indicadores de desempenho (Rial, 2026) – confirmavam a superioridade espanhola. Ainda assim, o futebol preservou sua imprevisibilidade: a Argentina chegou a flertar com o empate em um chute de Messi, que atingiu violentamente um defensor.

 

O ponto importante que quero destacar aqui, entretanto, é outro. A derrota não produziu distanciamento entre a equipe e a torcida argentina. Ao contrário: a torcida entoou seus cânticos (lindos, e dessa vez, sem racismo algum⁴) e, diante dela, com os olhos nela, estavam os jogadores da seleção. Enquanto os torcedores cantavam, os jogadores permaneciam diante deles, compartilhando o mesmo sofrimento, como num velório, reafirmando alianças e preparando-se para a estrutura após a ruptura provocada pela derrota, pela morte futebolística. Irmanados na mesma dor, uma dor que era coletiva, repartida, ritualizada.

 

Bem diferente do que fizeram a torcida e os jogadores brasileiros ao caírem para a Noruega no pior resultado brasileiro em uma Copa do Mundo nos últimos anos. A eliminação diante da Noruega terminou sem um ritual público de luto. Não houve um momento de comunhão entre jogadores e torcedores que permitisse elaborar simbolicamente a perda. Talvez tenha sido essa ausência – mais do que a derrota em si – que tornou tão difícil iniciar o caminho para o próximo ciclo.

 

Transcrição: Adriana Eidt.

 

Referências

 

ALVES, Beatriz de França Alves; LISBOA, Lucas Vinicius Araujo. Herói ou vilão? Neymar e o imaginário brasileiro de como criar ídolos. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 13, 2026.

 

RIAL, Carmen. Senna: o nascimento de um herói brasileiro. Bate-pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 2, n. 18, 2025.

 

RIAL, Carmen. Trionda: uma Copa do pós-humano?. Bate-pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 18, 2026.

 

RIGO, Luiz Carlos. Final da Copa 2026: futebol coletivo 1 X 0 futebol testosterona. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 32, 2026.

 

THOMAS, Louis-Vincent. Rites de mort: pour la paix des vivants. Paris: Fayard, 1985.

 

TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Petrópolis: Vozes, 1974.

 

Sobre a autora:

 

Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

RIAL, Carmen. A morte na Copa: derrota e elaboração do luto no futebol. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 38, 2026.

 

A eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 já foi tema de outro texto publicado no Bate-Pronto. Acesse: A festa acabou


¹ Gerada a partir de registros fotográficos da FIFA divulgados nos veículos jornalísticos após a final da Copa 2026.

² Vimos isso no webinário do INCT Copa 2026: Brasil, Cabo Verde e a Circulação Internacional de Atletas, transmitido online no dia 24 de julho no canal do Youtube do INCT Futebol.

³ Estes são os cânticos racistas: “Escuchen/Corran la bola/Juegan en Francia/Pero son todos de Angola/Qué lindo es/Van a correr/Son come trabas/Como el puto de Mbappé/Su vieja es nigeriana/Su viejo, camerunês/Pero en el documento/Nacionalidad: francês”.

“La cuarta estrella”: Soy hincha de la selección.

La aliento con el corazón.

Ganamos la tercera con Lionel.

Queremos ser campeones otra vez.


 
 
 

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