A nação, o humano e Afan Cizmic
- INCT Futebol
- há 4 dias
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Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)
No texto abaixo, a autora reflete sobre como sentimentos nacionalistas são capazes de gerar interações e acontecimentos nas Copas do Mundo que superam expectativas algorítmicas e de tentativas de controle político desses eventos.

Esta é uma Copa das nossas piores distopias: está sendo disputada com o fascismo no poder num dos seus países-sede, com a tecno-direita (Ribeiro, 2026) plantando guerras entre as nações e com interferências no mundo do futebol – exclusão de torcedores em estádios elitizados e vigilância total sobre os que conseguem ingressar (Rial, 2019), controle sobre imigrantes, travel ban para países escolhidos a dedo por um psicopata. Será a Copa da Trionda, a bola grávida de tecnologia, e de outros usos intensivos de inteligência artificial que aprofundam o abismo entre o esporte de alta performance e o futebol casual. A chamada tecno-oligarquia (Ribeiro, 2026) contemporânea – representada pela aliança entre Silicon Valley e a extrema direita – ganhou espaço também no futebol. Este é o lado diatópico desta Copa.
Ainda assim, utopias são possíveis e gestos singelos remetem a resistências às lógicas fascistas. Muitos envolvem sentimentos nacionais – mas nem todos. Sem dúvida, a nação está no centro da Copa de 2026 e da de 2027. Estão em campo sentimentos patrióticos de 48 nações, como raramente ocorre de modo simultâneo, em um mesmo acontecimento. O sentimento nacional, patriótico, estará em pauta entre os torcedores e também entre os jogadores. Quando o hino nacional toca, quando a seleção nacional marca um gol ou, melhor ainda, vence uma partida, há a excitação de estar do lado do vencedor. Isso é presente entre os aficionados e entre os e as futebolistas. Sentimentos humanos, como as lágrimas de Teboho Mokoena, da seleção da África do Sul, e as dos colombianos James e Luiz Soares, ao ouvirem o hino dos seus países. Ou as de Messi, após um dos seus três gols no primeiro jogo da sua seleção, campeã do mundo. Seis vezes escolhido como o melhor do mundo, milionário, com uma carreira longa e de grande sucesso que fazem dele o maior futebolista do século, Messi ainda se emociona patrioticamente ao representar a nação argentina numa Copa do Mundo.
Como nos mostra Appiah (1997), patriotismo tem a ver com sentimentos (até mais do que com ações). Nações frequentemente significam mais para as pessoas do que os Estados, que regulam suas vidas; elas importam e preexistem ao Estado. A nação Sérvia ou a nação Bósnia importavam mais do que o Estado iugoslavo – e foi por não se ter conseguido criar uma “nação iugoslava” que se viu a explosão do Estado iugoslavo na guerra do Báltico, de 1992 a 1995. O futebol não esteve alheio, como se lê numa inscrição no estádio Maksimir, “aqui começou a guerra com a Sérvia”¹.
A seleção da Bósnia e Herzegovina tenta representar a nova nação Bósnia, e é um dos poucos espaços que superam as clivagens étnicas que persistem entre os bósnios (maioria muçulmana), os sérvios bósnios (ortodoxos) e os croatas bósnios (católicos). No dia a dia, porém, o futebol continua a refletir essa divisão: o FK Sarajevo é tradicionalmente associado aos bósnios, o HSK².
Zrinjski Mostar ligado à população croata, e o FK Borac Banja Luka é associado à comunidade sérvia. Apenas o Zeljeznicar se coloca como multiétnico. A seleção tenta superar essa segmentação, com mais sucesso nesta Copa do que em outras, pois, na década de 1990, viu-se jogadores sérvios bósnios preferirem a seleção da Sérvia e os croatas bósnios a da Croácia. A seleção atual adota uma bandeira que se quer neutra, com cores azuis (cor da Europa), um triângulo amarelo (forma do território) e estrelas. Mas a bandeira é pouco usada em comparação às regionais e às dos clubes.
Entre as inúmeras manifestações simbólicas nacionalistas que cercaram a Copa, poucas foram tão discretas e, ao mesmo tempo, tão carregadas de significado quanto a dos jogadores iranianos no desembarque da delegação em Tijuana, no México. Ao portarem um simples pin dourado no paletó com o número #168, eles fizeram referência ao horrendo massacre de Minab. Cento e sessenta e oito, representando as 150 meninas e suas professoras da escola primária feminina de Shajareh Tayyebeh, no sul do país, mortas. Mortas por bombas dos Estados Unidos/Israel no primeiro dia de guerra. Antes do pin #168, em um amistoso preparatório contra a Nigéria, realizado em Belek, na Turquia, os futebolistas iranianos já tinham feito uma homenagem semelhante com outro gesto; embora simples, muito tocante. Eles entraram em campo e escutaram o hino iraniano levando na mão pequenas mochilas lilases enfeitadas com um laço, evocando a vida interrompida dessas meninas³.
As Copas oferecem também imagens de homenagens repletas de um afeto nem sempre nacionalista. Marrocos, em 2022, celebrou as mães: a imagem mais marcante foi a de Sofiane Boufal dançando com a mãe, vestida com o traje tradicional, no gramado, após a vitória sobre Portugal que levou a seleção a uma inédita semifinal. Mas outros jogadores também apareceram em fotografias com as suas mães em campo ou na arquibancada, como o ala Hakimi ou o próprio técnico da seleção, Walid Regragui, explicando em entrevistas o quanto elas foram alicerces para suas carreiras. O espanhol Nico Williams fez mais: entregou à mãe a medalha de melhor jogador da final da Eurocopa de 2024: “Eu corro rápido, mas não tão rápido quanto a minha mãe. Ela escapou da morte e atravessou o Saara da Gana à Espanha. Eu dei a medalha a ela porque ela merece mais”, disse.
E que algoritmos poderiam prever que um goleiro de mais de 40 anos, atuando na segunda divisão do futebol de Portugal, pararia o ataque dessa superpotente Espanha? Pois Vozinha o fez; e ele nem teve como abraçar a mãe depois do jogo, pois os pais caboverdianos não tinham obtido visto de entrada nos Estados Unidos. Vozinha carrega no próprio nome a homenagem à sua avó, a mulher que o acompanhava aos treinos – e não é um caso isolado, conheci outros futebolistas que contaram com esse auxílio das avós ou avôs, já que as mães eram obrigadas a trabalhar para sustentá-los.
Apesar de toda tecnologia e de toda ingerência política, temos brechas e gestos singelos capazes de desestruturar estruturas racionais publicitárias e os planejamentos burocráticos. E inutilizarem as previsões dos algoritmos. Pequenos atos que mudam o destino programado pelas análises mais complexas dos departamentos de inteligência. Como o gesto do menino bósnio Afan. Lembremos a história que misturou drama e astúcia. Na repescagem para a Copa, no tempo regulamentar, a Itália empatou em 1 a 1 com a Bósnia e Herzegovina e foi disputar a vaga nos pênaltis. Antes da disputa, o goleiro italiano Gianluigi Donnarumma tinha deixado, ao lado de sua toalha, uma folha contendo anotações sobre os cobradores bósnios: o lado preferido das suas batidas, os seus hábitos e outras informações colhidas pelo departamento de análise e estatística, provavelmente depois de escrutinarem centenas de vídeos. A folha deveria ser usada para orientar suas defesas, como é comum hoje nos grandes clubes de futebol. Foi então que um gandula de 14 anos, Afan Cizmic, percebeu a folha, entrou no campo, pegou-a e correu para escondê-la. Afan contou que viu Donnarumma consultando o papel atrás da toalha, percebeu sua importância e decidiu roubá-lo. Donnarumma notou o desaparecimento da folha, procurou por ela antes das cobranças e as câmeras de TV o mostram desorientado. Sem ela, sem a inteligência do departamento estatístico da seleção, sem a ajuda dos algoritmos, o goleiro ficou perdido. Resultado: não conseguiu defender nenhum dos quatro pênaltis bósnios, e os 4 a 1 finais classificaram a Bósnia e Herzegovina, eliminando a Itália de seu terceiro Mundial consecutivo.
Um gandula, um simples pegador de bolas, ao roubar uma toalha, foi decisivo para eliminar uma superpotência futebolística da Copa do Mundo de 2026. Afan Cizmic, um malandro que se tornou herói improvável e virou uma celebridade nacional da noite para o dia. Foi entrevistado por emissoras de TV, recebido com festa no vestiário da seleção, abraçado pelos jogadores bósnios. Recebeu homenagens de torcedores que chegaram a sugerir uma campanha para que fosse levado à Copa como “mascote” da seleção bósnia.
Ou seja, há, na Copa, espaço para malandros (DaMatta, 1997), para conhecimentos de esquina de rua (McLaren, 1991)⁴, para tricksters. O humano, mais que humano, apesar de tudo, continua em cena. Que as próximas Copas sejam Copas de humanos, e não de videogames e algoritmos, de bolas drones, de bets, de resultados concatenados em salões ovais. Utopia? Sim, utopia. Como é utopia pensar também em uma Copa unificada, onde homens e mulheres, cis ou trans, deficientes ou não, possam participar do mesmo torneio. E suscitarem sentimentos nacionalistas – ou outros – com a mesma força dos que as Copas de 2026 e 2027 suscitarão.
Referências
APPIAH, Kwame Anthony. Cosmopolitan Patriots. Critical Inquiry, v. 23, n. 3, p. 617-639, 1997.
DAMATTA, Roberto. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
MCLAREN, Peter. Critical Pedagogy: Constructing an Arch of Social Dreaming and a Doorway to Hope. Journal of Education, v. 173, n. 1, 1991.
RIAL, Carmen. From Panopticon to Panasonic: The Architecture of Fear in Mega-events. In: LOW, Setha; MAGUIRE, Mark (Orgs.). Spaces of Security: Ethnographies of Securityscapes, Surveillance, and Control. Nova York: NY University Press, 2019. p. 99-121.
RIBEIRO, Gustavo Lins. As ciências sociais e humanas no mundo apocalíptico das (ultra)direitas. Blog BVPS, 2026. Disponível em: https://blogbvps.com/2026/06/04/as-ciencias-sociais-e-humanas-no-mundo-apocaliptico-das-ultradireitas-por-gustavo-lins-ribeiro/. Acesso em: 4 jun. 2026.
Sobre a autora
Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).
Carmen Rial publicou uma série de textos refletindo sobre a Copa do Mundo de 2026. Se você gostou deste, leia também: A política na Copa e a expansão do futebol de mulheres
¹ A inscrição faz referência ao episódio do Motim de Maksimir, de 13 de maio de 1990, ocorrido no estádio do Dínamo de Zagreb, antes da partida entre o Dínamo e o Red Star Belgrado. Milhares de torcedores do Estrela Vermelha (Red Star Belgrado), muitos ligados ao grupo ultra Delije, entraram em confronto com os torcedores croatas do Dínamo (muitos do grupo ultra Bad Blue Boys). O jogo sequer chegou a ser disputado. O capitão do Dínamo, Zvonimir Boban, se transformou em símbolo nacionalista ao dar um chute em um policial que agredia um torcedor croata. Para muitos croatas, aquele dia colocou em evidência a ruptura da Iugoslávia, que levaria à guerra iniciada, de fato, em 1991, depois da declaração de independência da Croácia e da Eslovênia.
² Na sigla, H é para Hrvatski, que significa “croata”, S para Esporte e K para Clube.
³ Ver: https://www.abola.pt/noticias/selecao-do-irao-protesta-em-campo-por-vitimas-de-ataque-a-escola-2026032813265126697?srsltid=AfmBOordIQMMkrmKHYQijmGISiz9IgMYOvExBMOhKRdIwX-8ixLCRQTp. Acesso em: 20 jun. 2026.
⁴ Referência de Luiz Carlos Rigo, em sua apresentação no V Colóquio Internacional INCT Futebol – Cabo Verde.
A nação, o humano e Afan Cizmic © 2026 by Carmen Rial is licensed under CC BY-NC 4.0




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