Mapeando a produção acadêmica brasileira sobre futebol e mídia
- INCT Futebol
- há 3 dias
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Darwin de Oliveira Martins (UFS)
Ingridy Mickaelly Lima dos Santos (UFS)
Lucas Murillo Gonzaga Silva (UFS)
Vanessa Matos Silva (UFS/INCT Futebol)
Cristiano Mezzaroba (UFS/INCT Futebol)
No texto abaixo, os autores e as autoras relatam o desenvolvimento de uma pesquisa realizada na Universidade Federal do Sergipe, que busca identificar estudos que relacionam futebol e mídia.

O Projeto de Iniciação Científica “Mapeamento da produção brasileira sobre mídia e futebol em revistas brasileiras de Educação Física, revistas de Comunicação Social/Jornalismo e em dissertações e teses de Programas de Pós-Graduação”, vem sendo desenvolvido por um grupo de discentes do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal de Sergipe (UFS), composto por Darwin de Oliveira (Bolsista PIBIC/CNPq/UFS), Vanessa Matos Silva (Bolsista IC/INCT Futebol), Ingridy Mickaelly Lima dos Santos (PICVOL/UFS) e Lucas Murillo Gonzaga Silva (PICVOL/UFS), sendo coordenado pelo Prof. Dr. Cristiano Mezzaroba (DEF/CCBS/UFS; PPGED/UFS; INCT Futebol). Em conjunto, os(as) pesquisadores(as) desenvolvem investigações voltadas à identificação e mapeamento da produção brasileira sobre mídia e futebol, tomando como foco a sistematização e análise desse campo de estudos envolvendo a Educação Física, a Comunicação Social/Jornalismo e também o que consta na BDTD – Base Digital Brasileira de Teses e Dissertações, ou seja, a produção da pós-graduação brasileira.
Esses estudos dedicam-se ao levantamento da produção acadêmico-científica brasileira sobre as produções que articulam mídia e futebol. Metodologicamente, as pesquisas configuram-se com sua abordagem quanti-qualitativa, com objetivos descritivos e exploratórios, do tipo análise documental, operando a análise de conteúdo temática (Bardin, 1977) ao conjunto de dados encontrados.
O objetivo das pesquisas consiste em analisar o material encontrado, buscando organizar e sistematizar informações como: os(as) agentes que têm se dedicado à temática, os(as) principais autores(as) utilizados, os conceitos mais recorrentes, os temas predominantes e os delineamentos metodológicos das publicações. Ademais, a análise das produções concentra-se em revistas brasileiras da área de Educação Física (Qualis A1 a B4), em periódicos de Comunicação Social e Jornalismo (Qualis A1 a B2), bem como na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD).
As atividades do projeto tiveram início em 31 de outubro de 2025, com a realização de uma reunião voltada à construção de um cronograma de atividades. Nesse encontro inaugural, foi discutido sobre o interesse do projeto de iniciação científica e a importância de se realizar um levantamento com análise de produções, bem como os procedimentos metodológicos adotados nas três pesquisas, que são independentes, embora articulem-se em relação à temática, além de discutirmos quanto aos objetivos estabelecidos. Neste primeiro encontro, definimos os descritores e as palavras-chaves de busca para identificação e mapeamento das produções acadêmicas que articulam mídia e futebol: “futebol AND (meios de comunicação OR mídia OR mídias)” na base BDTD. Deliberou-se, ainda, que a coleta contemplaria o período de 2000 a 2025, sendo que as publicações incluídas deveriam estar na língua portuguesa e possuírem acesso livre.
A etapa seguinte foi marcada pelo início dos estudos teóricos, com organização de um cronograma de reuniões de estudos, ocupando-se de textos sobre mídia e futebol como forma de ampliar abordagens e conhecimentos sobre a temática. Assim, em 26 de novembro de 2025, sob a condução do bolsista Darwin, detemo-nos a compreender o subcampo das mídias e tecnologias na Educação Física. Para tal, foram discutidas obras fundamentais, como o artigo de Pires et al. (2008), que aborda o pioneirismo do “Grupo de Santa Maria” na articulação das questões sobre esporte e mídia no Brasil, além dos trabalhos de Mezzaroba (2020) e Mezzaroba e Bassani (2023), que analisam a genealogia e os tensionamentos presentes nesse subcampo.
Dando continuidade ao processo formativo e à própria investigação, em 9 de dezembro de 2025, a bolsista Vanessa conduziu a discussão sobre três capítulos da obra "O futebol explica o Brasil", de Marcos Guterman (2010), que busca evidenciar como o futebol reflete e ajuda a compreender a história, a cultura e as relações sociais do Brasil. Os capítulos estudados foram: “O sotaque britânico, na economia e no futebol”, “Anos 1910-1920: O Brasil se urbaniza, e o futebol ganha sua vocação popular” e “Anos 1950: O desastre de 1950 e a volta por cima: o complexo brasileiro”. Paralelamente às questões teórico-conceituais, questões administrativas da pesquisa e encaminhamentos também foram tratados, como a definição do cronograma para submissão de relatórios parciais no Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas (SIGAA/UFS) e o planejamento da participação no evento do INCT, em Ouro Preto, em setembro de 2026. Nesse período, já se observava avanço na coleta de dados com a identificação de 104 (cento e quatro) textos em periódicos do campo de Educação Física (aos cuidados do bolsista Darwin), enquanto os demais componentes do grupo iniciaram as buscas em revistas de Comunicação Social e Jornalismo e na BDTD (dissertações e teses).
No dia 23 de janeiro de 2026, a reunião coordenada por Lucas deu continuidade ao aprofundamento teórico, a partir da obra de Hilário Franco Júnior (2007), “A dança dos deuses: futebol, sociedade e cultura” com ênfase no capítulo “Síntese do Brasil agrícola e mestiço”, que analisa o futebol como prática cultural atravessada por símbolos, identidades e relações de poder na sociedade brasileira. O acompanhamento das atividades evidenciou progressos significativos na identificação e mapeamento da produção acadêmica: o número de textos em periódicos alcançou 124 (cento e vinte e quatro), enquanto as buscas na BDTD resultaram em 51 (cinquenta e uma) dissertações, levantadas por Ingridy, e 13 (treze) teses, sob responsabilidade de Lucas. A partir disso, estabeleceu-se um fluxo de revisão para o relatório parcial (exigência do PIBIC/UFS, sendo enviado pela Plataforma da UFS, geralmente nos meses de janeiro/fevereiro).
No dia 3 de fevereiro de 2026, Ingridy apresentou a obra “No país do futebol”, de Luiz Henrique de Toledo (2000), que analisa o futebol como elemento central na construção das identidades culturais e das dinâmicas sociais no Brasil, em um encontro presencial dedicado à finalização do relatório parcial, com vistas à sua inserção no SIGAA dentro do prazo estipulado.
Mais adiante, no dia 7 de abril de 2026, realizou-se uma nova reunião presencial, desta vez voltada à organização do cronograma semestral e encaminhamentos finais da pesquisa. Foram apresentados os dados coletados, bem como tratamos sobre a prévia da revisão de literatura em desenvolvimento (a partir das obras lidas e discutidas nas reuniões anteriores). Assim, para o trimestre compreendido entre abril e junho de 2026, o grupo definiu, como encaminhamento analítico, a organização dos estudos em eixos temáticos específicos (operando a análise de conteúdo temática, buscando aprofundar a compreensão das relações entre o futebol e os diferentes meios de comunicação, como a televisão, o streaming, o rádio e a mídia impressa).
No que tange à pesquisa sobre o mapeamento em revistas de Educação Física, os dados coletados apontam que das 31 (trinta e uma) revistas que se encaixam na categoria A1 a B4 Qualis (CAPES), apenas 17 (dezessete) possuem pelo menos um artigo que aborda o tema futebol e mídia. Uma possível causa deste acontecimento pode ser o fato de que algumas revistas de Educação Física têm como prioridade publicações de artigos relacionados à área da saúde ou artigos relacionados à Educação Física escolar. Ainda assim, foi possível encontrar 111 (cento e onze) artigos conexos ao tema dentro de um recorte temporal de 25 anos (2000 a 2025), com maior número de publicações coincidindo em anos de megaeventos esportivos. Também observou-se que há dois agentes que se destacam pelo alto número de publicações sobre o tema: André Mendes Capraro e Everton de Albuquerque Cavalcanti. Por fim, observa-se a concentração de artigos em determinadas revistas, como a Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Revista Movimento, Revista Esporte e Sociedade e Recorde – Revista de História do Esporte.
Em relação ao andamento do mapeamento nas revistas de Comunicação social e Jornalismo, o que foi possível registrar até o presente momento é que muitas das revistas encontradas publicam sobre futebol, porém, ao buscar o futebol relacionado à mídia, o número diminui consideravelmente. Das 35 revistas analisadas, 21 delas contêm artigos publicados sobre futebol e mídia, totalizando 58 (cinquenta e oito) artigos. Foi possível perceber também que dos anos 2000 até 2010 existem poucas publicações sobre futebol e mídia na área da comunicação social, sendo que há um maior conjunto de publicações a partir de 2010, atingindo um maior número de publicações em anos de Copa do Mundo de Futebol e Olimpíadas, com estudos que abordam como a mídia produz narrativas, discursividades e espetacularização.
No tocante ao mapeamento realizado na BDTD, foram selecionados trabalhos que apresentassem, em títulos, resumos ou palavras-chave, termos relacionados à mídia e ao futebol, utilizando os descritores [Futebol AND “Educação Física” AND (“Meios de Comunicação” OR Mídia* OR Jornal* OR Internet)]. Como resultados parciais, identificamos inicialmente 92 trabalhos (21 teses e 71 dissertações), posteriormente refinados para 25 estudos (7 teses e 18 dissertações). Os dados evidenciam que, embora exista uma produção significativa sobre futebol, os estudos que articulam mídia e futebol de maneira convergente ainda se mostram relativamente restritos. Observa-se, ainda, uma intensificação da produção acadêmica na última década, atingindo seu ápice em 2018, ano que concentrou 5 dos trabalhos identificados no levantamento. Este cenário evidencia a hegemonia das universidades públicas na consolidação deste campo de saber, com destaque geográfico para a região Sudeste, onde a Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) se sobressai com 4 produções. Complementam esse panorama a Universidade Federal do Paraná (UFPR), com 6 pesquisas, e a Universidade de Brasília (UnB), com 4 registros. Tal mapeamento sinaliza a necessidade de aprofundamento das discussões acerca das intersecções entre mídia e futebol, reforçando, assim, a relevância e a pertinência deste estudo.
A pesquisa vai sendo consolidada – nossa previsão é finalizá-la até agosto de 2026 – e vai trazendo um panorama bastante ampliado na relação convergente entre futebol e mídia, evidenciando o crescimento do interesse da temática nos mais variados campos do conhecimento, ao mesmo tempo que vamos identificando lacunas, temas recorrentes, abordagens teóricas, configurações dos campos de pesquisa na EF e Comunicação Social, além de observar como a pós-graduação brasileira tem se interessado e mobilizado olhares acadêmico-científicos sobre futebol e mídia.

Referências
BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições70, 1977.
FRANCO JUNIOR, Hilário. A dança dos deuses: futebol, sociedade e cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
GUTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: uma história da maior expressão popular do país. São Paulo: Contexto, 2010.
MEZZAROBA, Cristiano. A mídia, as tecnologias e a Educação Física no Brasil: uma descrição genealógica. Rev. Tempo e Espaços em Educação, São Cristóvão, v. 13, n. 32, p. 1-23, jan./dez. 2020.
MEZZAROBA, Cristiano; BASSANI, Jaison José. O subcampo das mídias e tecnologias no campo da Educação Física brasileira: origem, conflitos, contemporaneidade. Debates em Educação, Maceió, v. 15, n. 37, p. 1-19, 2023.
PIRES, Giovani de Lorenzi; LISBÔA, Mariana Mendonça; ANTUNES, Scheila E.; MEZZAROBA, Cristiano; MENDES, Diego S.; SILVA, Karla C. Mathoso da; AZEVEDO, Victor Abreu de. A pesquisa em Educação Física e Mídia: pioneirismo, contribuições e críticas ao “Grupo de Santa Maria”. Movimento, Porto Alegre, v. 14, n. 03, p. 33-52. set./dez. 2008.
TOLEDO, Luiz Henrique de. No país do futebol. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
Sobre os autores e autoras:
Darwin de Oliveira Martins é discente do curso de Licenciatura em Educação Física na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e bolsista de iniciação científica pelo CNPq. Email: darwinmartins00@gmail.com; Lattes: http://lattes.cnpq.br/0575702635588449.
Ingridy Mickaelly Lima dos Santos é discente do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal de Sergipe, atua como pesquisadora voluntária de iniciação científica. Atualmente, é bolsista do Programa Licenciados/as na Escola. Integra, ainda, o Laboratório de Experiências Interculturais e o Grupo de Estudos e Pesquisas Sociedade, Cultura e Educação Física. Email: ingridymickaelly@gmail.com; Lattes: https://lattes.cnpq.br/5349194449776327.
Lucas Murillo Gonzaga Silva é discente do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal de Sergipe, atua como pesquisador voluntário de iniciação científica e bolsista do Programa Institucional de Apoio à Extensão (PIAEX/UFS). Integra, ainda, o Laboratório de Experiências Interculturais e o Grupo de Estudos e Pesquisas Sociedade, Cultura e Educação Física. Email: lucasmurill1211@gmail.com; Lattes: https://lattes.cnpq.br/1198764985223359.
Vanessa Matos Silva é discente do curso de Licenciatura em Educação Física da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e bolsista de iniciação científica do INCT Futebol. Email: matosvanessa012@gmail.com; Lattes: https://lattes.cnpq.br/2778464666908199.
Cristiano Mezzaroba é Doutor em Educação (UFSC), Professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe (DEF/CCBS/UFS) e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/UFS). Coordena a Linha de Pesquisa “Mídia e racismo no futebol” no INCT/CNPq Estudos do Futebol Brasileiro. E-mail: cristiano_mezzaroba@yahoo.com.br; Lattes: http://lattes.cnpq.br/1835801891069733.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
As relações entre futebol e mídia aparecem de forma destacada também nas mídias sociais. Se quiser ler sobre esse tema, acesse o nosso texto: Observando a temática do racismo no futebol feminino em portais digitais de informação brasileiros




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