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Observando a temática do racismo no futebol feminino em portais digitais de informação brasileiros


 Maria Rute da Conceição dos Santos (UFS/INCT Futebol)

Cristiano Mezzaroba (UFS/INCT Futebol)


No texto abaixo, a autora e o autor apresentam os resultados de uma pesquisa que mostra que o racismo no futebol feminino é presente, mas também pode se esconder por trás da invisibilidade midiática


O quão presente é o racismo no futebol feminino brasileiro? Imagem ilustrativa criada com DALL-E
O quão presente é o racismo no futebol feminino brasileiro? Imagem ilustrativa criada com DALL-E

A presente pesquisa teve como objetivo analisar as reportagens que abordam o racismo no futebol feminino em veículos midiáticos brasileiros, especificamente nos portais G1, Terra e UOL. O estudo foi desenvolvido no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Estudos do Futebol Brasileiro (INCT Futebol/CNPq), vinculado à linha de pesquisa “Mídias, torcidas e movimentos antirracistas no futebol”. A investigação foi realizada no período de março a setembro de 2025 e buscou compreender de que maneira os episódios de racismo no futebol feminino são noticiados e representados nesses espaços midiáticos, considerando os discursos, enquadramentos e narrativas mobilizados.

 

O futebol é compreendido como uma manifestação corporal e cultural de grande alcance social, capaz de produzir aprendizagens e de problematizar questões como raça/etnia, gênero, sexualidade e desigualdades sociais. Seu enorme apelo popular se explica pelo fascínio estético, corporal e emocional que envolve torcedores, conforme destaca Gumbrecht (2007), produzindo experiências que extrapolam a racionalidade e reforçam vínculos afetivos e identitários.

 

No Brasil, onde o futebol assume o estatuto de paixão nacional (Freire, 2011), ele mobiliza uma intensa “energia social” (Mezzaroba, 2017), repercutindo em dimensões econômicas, políticas, culturais e pedagógicas. Contudo, essa prática também é atravessada por problemáticas sociais, entre elas o racismo, que se manifesta de forma recorrente dentro e fora dos gramados, com crescente visibilidade nos últimos anos.

 

Em alguns casos, a mídia trata de maneira superficial, muitas das vezes apresentando os incidentes como eventos isolados, sem abordar as raízes estruturais do problema, o que acaba contribuindo para a não percepção da gravidade do racismo no esporte, especificamente no futebol. Tal perspectiva vai ao encontro da análise de Pimenta (2019), segundo a qual a imprensa raramente convoca o leitor à reflexão crítica ou à ação, ao apresentar o racismo como um problema genérico, dissociado de suas dimensões sociais e históricas.

 

Da Conceição (2023) evidencia que a naturalização de práticas racistas contribui para a sua perpetuação e fortalecimento do racismo estrutural. No âmbito do futebol brasileiro, as mulheres enfrentam, além dos preconceitos recorrentes relacionados ao gênero, a pouca visibilidade midiática e a falta de investimento financeiro. As jogadoras negras ainda são vítimas dos ataques racistas, o que reafirma as hierarquias raciais presentes tanto na sociedade quanto no esporte. Segundo o autor supracitado, o “racismo ordinário” corresponde às práticas inscritas no cotidiano social, manifestando-se de forma corriqueira e habitual. Por sua recorrência e ausência de questionamento crítico, tais práticas acabam sendo incorporadas como parte do funcionamento “natural”, tornando-se, então, naturalizadas.

 

Devido à menor cobertura midiática do futebol feminino em relação ao masculino, episódios de racismo contra jogadoras costumam receber pouca visibilidade, o que dificulta a implementação de medidas efetivas para punir e combater essas práticas. Em 2019, por exemplo, Andressa Alves foi vítima de ofensas racistas após a vitória do Barcelona, clube que defendia, sobre o Rayo Vallecano (Folha de São Paulo, 2019). Em 2021, durante a partida entre Corinthians e Nacional, a atacante Adriana, do Corinthians, também sofreu insultos racistas ao ser chamada de “macaca” por atletas da equipe adversária (Folha de São Paulo, 2021).

 

Historicamente, o futebol feminino enfrenta inúmeros desafios. A participação das mulheres no futebol é permeada por situações que abrangem dificuldades e superações, que muitas vezes não são veiculadas pelos meios de comunicação. Na obra As pioneiras do futebol pedem passagem: conhecer para reconhecer, das autoras Silvana Vilodre Goellner e Juliana Ribeiro Cabral (2022), apresenta-se a trajetória de algumas jogadoras – as pioneiras da seleção brasileira feminina de futebol –, que, mesmo enfrentando a proibição imposta pelo decreto que proibia as mulheres de praticar esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”, continuaram a jogar e fizeram história no futebol feminino.

 

Ao analisar episódios de racismo no futebol feminino, percebe-se a carência de informações aprofundadas sobre o tema. Essa ausência de dados pode ser atribuída, em parte, ao fato de que o racismo costuma ocorrer de maneira interseccional com o machismo, resultando em múltiplas formas de discriminação simultâneas. Além disso, a baixa visibilidade do futebol feminino no Brasil contribui para dificultar tanto a produção quanto o acesso a dados específicos sobre esses casos.

 

Observando veículos midiáticos – portais de internet brasileiros

 

O acompanhamento das notícias e matérias relacionadas a casos de racismo no futebol feminino foi realizado ao longo do período de março a setembro de 2025. A primeira etapa do acompanhamento foi realizada entre 10 de março e 10 de maio. Durante esses meses, foram monitorados semanalmente os principais portais de notícias – G1, Terra e UOL –, com o objetivo de identificar publicações, registrar a frequência das ocorrências e observar como esses episódios eram abordados pela mídia. Durante o período analisado, foram identificadas apenas 2 (duas) reportagens que abordavam a temática em questão, uma relacionada ao futebol profissional e outra referente ao futebol amador, publicadas nos portais GE (que faz parte do grupo Globo) e Terra.

 

O primeiro episódio foi registrado em 14 de março de 2025, durante uma partida realizada em Monte Alegre, no estado do Pará, envolvendo equipes amadoras de futebol feminino. De acordo com a reportagem (GE, 2025), atletas de um dos times foram alvo de xingamentos racistas proferidos por torcedores da equipe adversária ao longo do jogo. Ainda que os nomes dos clubes não tenham sido divulgados pela reportagem, o caso evidencia como manifestações racistas seguem presentes não apenas em grandes arenas, mas também em competições de base e em cenários esportivos com menor visibilidade


Atletas denunciam ofensas homofóbicas e injúria racial durante partida de futebol em Monte Alegre, no Pará. Imagem: TV Tapajós
Atletas denunciam ofensas homofóbicas e injúria racial durante partida de futebol em Monte Alegre, no Pará. Imagem: TV Tapajós

 O segundo caso analisado ocorreu em 1 de abril de 2025, durante uma partida do Brasileirão Feminino, entre Sport e Internacional (Terra, 2025). O episódio ganhou destaque nacional após uma jogadora do Internacional arremessar uma banana em direção às atletas do Sport, um gesto historicamente associado a insultos racistas e recorrente no esporte. Esse ato racista evidencia a necessidade de debates sobre medidas educativas e punitivas mais eficazes no enfrentamento ao racismo no futebol feminino.


Ato racista? Torcida do internacional atira banana em jogadoras do Sport. Imagem: TV Brasil/Esporte News Mundo
Ato racista? Torcida do internacional atira banana em jogadoras do Sport. Imagem: TV Brasil/Esporte News Mundo

A observação em evento esportivo continental: a Copa América de Futebol Feminino

 

A segunda etapa ocorreu entre julho e setembro de 2025, período que contemplou a realização da Copa América de Futebol Feminino, que aconteceu entre os meses de julho e agosto. Durante esse período, foram acompanhadas as notícias e matérias relacionadas a ocorrências de racismo no futebol feminino publicadas nos portais G1 e UOL. A escolha desse recorte temporal foi estratégica, pois abrange tanto o período de realização da Copa América de Futebol Feminino quanto o período posterior à competição.

 

O objetivo foi analisar as publicações durante e depois da Copa, com foco na repercussão dos casos de racismo no futebol feminino. No entanto, durante esse período que correspondeu de julho e setembro de 2025, não encontramos nenhuma reportagem ou notícia que tratasse de racismo no futebol feminino nos portais observados.

 

A ausência de registros nesse período pode indicar diferentes possibilidades. Por um lado, pode sugerir que não ocorreram incidentes de caráter racial no contexto específico da competição; por outro, pode refletir limitações na cobertura midiática, que nem sempre registra ou dá visibilidade a situações de discriminação, ainda mais considerando-se a assimetria que existe entre o que é produzido e divulgado na relação entre o futebol masculino versus o futebol feminino: menor visibilidade, menor cobertura, menor interesse. O que não significa ausência de atos racistas envolvendo atletas mulheres.

 

Considerações finais: o jogo segue, o racismo também – o enfrentamento necessário

 

A análise das reportagens sobre racismo no futebol feminino publicadas nos portais G1, Terra e UOL evidencia que o racismo permanece como um elemento estrutural também no campo esportivo. Mesmo diante dos avanços conquistados pela modalidade, os episódios identificados demonstram que práticas discriminatórias ainda atravessam a trajetória de atletas negras, revelando a fragilidade das ações de prevenção e enfrentamento ao racismo. A ausência de registros durante a Copa América de Futebol Feminino também suscita reflexões sobre possíveis limitações da cobertura midiática e a persistente invisibilização das questões étnico-raciais no esporte.

 

Portanto, promover um futebol feminino antirracista envolve enfrentar sistematicamente as estruturas que sustentam o racismo, adotando políticas educativas, punições adequadas e ampliando a visibilidade do esporte. Acompanhar como a mídia realiza sua cobertura, nomeia os atos e aborda o fenômeno também se constituiu como um “jogo” necessário, envolvente e de enfrentamento ao racismo estrutural/ordinário no futebol.

 

Referências

 

DA CONCEIÇÃO, Daniel Machado. Entre vira-latas e heróis, o racismo no futebol brasileiro. Captura Críptica: direito, política, atualidade. Florianópolis, v. 12, n. 1, p. 224-248, 2023.

 

GE. Atletas denunciam ofensas homofóbicas e injúria racial durante partida de futebol em Monte Alegre, no PA. GE, 2025. Disponível em:

 

FOLHA DE SÃO PAULO. O Corinthians avança à final da Libertadores feminina em jogo marcado por racismo. Folha de São Paulo, 2021. Disponível em:

 

FOLHA DE SÃO PAULO. Técnico do Barça diz que brasileira sofreu racismo. Folha de São Paulo, 2019. Disponível em: https://acervo.folha.com.br/compartilhar.do?numero=48632&keyword=racismo&anchor=6112071&origem=busca&pd=24d16fd8c9de2e00b285e3e5689a60f7. Acesso em: 16 mar. 2025.

 

FREIRE, João Batista. Pedagogia do futebol. 3. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2011.

 

GOELLNER, Silvana V.; CABRAL, Juliana Ribeiro (Orgs.). As pioneiras do futebol pedem passagem: conhecer para reconhecer. São Paulo: Ludopédio, 2022.

 

GUMBRECHT, Hans Ulrich. O elogio da beleza atlética. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

MEZZAROBA, Cristiano. A “energia social” do esporte – aproximações e experimentações possíveis a partir de um conceito. Kinesis, Santa Maria, v. 35, n. 2, p. 50-60, maio/ago. 2017. Disponível em:

 

PIMENTA, Izadora Silva. O discurso midiático e o racismo no futebol: uma abordagem sistêmico-funcional para a análise dos padrões de julgamento. 2019. 114 p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Estudos da Linguagem, Campinas, SP. Disponível em:

 

TERRA. Ato racista? Torcida do Internacional atira banana em jogadoras do Sport. Terra, 2025. Disponível em:

 

Sobre a autora e o autor:

 

Maria Rute da Conceição dos Santos é licenciada em Educação Física (UFS) e foi bolsista do INCT Futebol/CNPq.

 

Cristiano Mezzaroba é doutor em Educação (UFSC). Professor do DEF/CCBS/UFS e do PPGED/UFS. É coordenador da linha “Mídias, Torcidas e movimentos antirracistas”, do INCT Futebol/CNPq.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Se você considera importantes as discussões sobre o racismo no futebol, leia também o nosso texto: Mapeamento e análise de publicações sobre racismo no futebol veiculadas no Instagram.


 
 
 

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