Quando o “problema” ultrapassa o jogo
- INCT Futebol
- há 3 dias
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Rafaela Marques Rodrigues dos Santos (UFBA)
No texto abaixo, a autora opina sobre os fatores que poderiam ajudar a compreender a resistência da torcida do São Paulo à atuação do técnico Roger Machado.

A reação recente da torcida do São Paulo Futebol Clube ao trabalho de Roger Machado ajuda a expor um incômodo que vai além do futebol. Depois de uma vitória por 1 a 0 sobre o Juventude, o treinador foi vaiado antes, durante e depois da partida e afirmou que, em alguns momentos, a cobrança parece injusta. A pressão da torcida faz parte do jogo e não é novidade para ninguém, mas o que chama atenção nesse caso é a continuidade da rejeição mesmo em um cenário de resultado positivo. Quando nem a vitória consegue mudar o ambiente, surge a necessidade de olhar com mais cuidado para os critérios que estão sendo usados para avaliar o trabalho.
Se a análise fosse guiada apenas pelo desempenho dentro de campo, a reação tenderia a ser mais previsível, acompanhando de forma mais direta os resultados. Derrotas aumentam a cobrança, vitórias costumam aliviar a pressão e dar tempo para que o trabalho se desenvolva. No entanto, o que se observa é uma cobrança que se mantém elevada independentemente do placar, uma dificuldade em consolidar confiança e uma sensação constante de que o trabalho precisa ser validado a todo momento. Quando essa dinâmica se repete, fica difícil sustentar que a avaliação está baseada somente no futebol jogado, já que o resultado, por si só, não parece suficiente para alterar a percepção construída em torno do treinador.
Parte dessa reação pode ser compreendida a partir das expectativas que ainda existem sobre o perfil de um treinador no futebol brasileiro. Há uma valorização muito forte de um modelo mais tradicional, associado a uma comunicação direta, a uma linguagem simples e a uma postura mais alinhada ao que se convencionou chamar de experiência prática. Esse perfil não é um problema em si, mas se torna limitador quando passa a funcionar como referência quase única. Quando surge alguém que foge desse padrão, como é o caso de Roger, a diferença deixa de ser apenas uma característica e passa a ser tratada como algo fora do lugar, gerando estranhamento e resistência.
Roger se comunica de forma clara, organiza ideias, explica o jogo e não evita se posicionar sobre temas que vão além do campo. Em muitos contextos profissionais, esse conjunto seria visto como um diferencial positivo. Mas, no futebol brasileiro, ele ainda encontra barreiras. Existe um desconforto com esse tipo de presença, como se houvesse um limite implícito sobre o quanto um treinador pode se afastar de um determinado padrão sem que isso afete a forma como seu trabalho é percebido.
É nesse contexto que aparece o discurso de que “não tem nada a ver com raça”, de que tudo se resume ao desempenho técnico. A afirmação pode até parecer objetiva, mas não consegue explicar completamente o que se vê na prática. Isso porque a forma como a cobrança se organiza, a rapidez com que a confiança se desgasta e a dificuldade em consolidar uma leitura mais equilibrada do trabalho indicam que existem outros fatores em jogo. Nem sempre essas diferenças são explícitas, mas aparecem na maneira como as expectativas são construídas e aplicadas.
O futebol brasileiro ainda conta com poucos técnicos negros em clubes de grande visibilidade, o que mostra que o acesso a esses espaços não ocorre de forma igual. Quando esses profissionais chegam a esse nível, muitas vezes enfrentam um ambiente em que a necessidade de comprovação é constante. No caso de Roger, essa exigência parece ainda mais intensa, já que ele também rompe com o perfil mais tradicional esperado para a função, o que amplia o nível de cobrança e reduz a margem de tolerância.
Além disso, há um incômodo com a forma como ele se posiciona. Roger não se limita a respostas curtas ou discursos prontos, ele argumenta, explica e ocupa um espaço de fala que nem sempre é bem recebido em um ambiente que ainda valoriza certos padrões de comportamento. Essa postura, que poderia contribuir para um debate mais qualificado sobre o jogo, muitas vezes acaba sendo tratada como um problema, o que revela uma dificuldade maior em lidar com perfis que fogem do esperado.
Por isso, dizer que “é só desempenho” simplifica uma questão que é mais ampla. A crítica no futebol não é construída apenas com base no que acontece dentro de campo, ela também passa por percepções, referências e ideias já estabelecidas sobre quem deve ocupar determinados espaços e de que maneira. Reconhecer isso não significa negar a importância dos resultados, mas entender que eles não explicam tudo.
Discutir o que acontece com Roger Machado não é colocá-lo acima de críticas, mas questionar por que, em alguns casos, a cobrança parece mais intensa, mais constante e mais difícil de mudar, mesmo quando há resultados positivos. É um convite a olhar para o futebol brasileiro de forma mais ampla, considerando não apenas o jogo, mas também as estruturas que influenciam a forma como esse jogo é interpretado.
No fim, a pergunta que permanece é simples e necessária: quando nem a vitória muda a forma como um trabalho é visto, será que o problema está apenas no jogo? Ou será que existem outros elementos influenciando essa avaliação? Enquanto essa reflexão não for feita com mais profundidade, alguns profissionais seguirão sendo avaliados de maneira diferente, mesmo ocupando o mesmo espaço que todos os outros.
Sobre a autora:
Rafaela Marques Rodrigues dos Santos é mestra em Educação e pedagoga pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Integra o grupo de estudos Cotidiano, Resgate, Pesquisa e Orientação (CORPO/FACED/UFBA), colabora com o Grupo de Psicologia do Esporte da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (GPE/UFRB) e com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Estudos do Futebol Brasileiro (INCT Futebol), na linha “Clubes, formação, carreira e migrações de futebolistas”.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
A figura do técnico de futebol é um tema relativamente pouco explorado nos estudos da área. Se quiser ler mais sobre ele, acesse o nosso texto Ancelotti e os filhos de Deus
¹ CC BY 3.0.
Quando o “problema” ultrapassa o jogo © 2026 by Rafaela Marques Rodrigues dos Santos is licensed under CC BY-NC 4.0




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