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Relatório Brasileiro Feminino A1 2025: desafios à formação de uma cultura torcedora no futebol de mulheres

Paula Barreiro (UERJ)

Bárbara Sarinho (UFPE)

Leda Costa (UERJ)

Geovana Costa (UERJ)

João Vazquez (UERJ)

Clara Quintaneira (UERJ)


No texto abaixo, as autoras e o autor apresentam alguns dos principais dados organizados pelo Relatório Brasileiro Feminino A1 2025, produzido pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) e pelo Observatório Social do Futebol.


O relatório traz informações sobre o futebol profissional de mulheres em 2025. Imagem: Observatório Social do Futebol
O relatório traz informações sobre o futebol profissional de mulheres em 2025. Imagem: Observatório Social do Futebol

 

O Relatório Brasileiro Feminino A1 2025 (Costa et al., 2026), elaborado pelo Observatório Social do Futebol e pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (LEME/UERJ), traz a sistematização de dados disponibilizados no site da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e nas redes dos clubes que participaram da competição. O relatório descreve a estruturação do campeonato, número de jogos, locais em que os clubes sediaram suas partidas, médias de público, alterações feitas nos locais e horários das partidas, dentre outros aspectos da competição.

A presença das mulheres no futebol brasileiro não é recente, mas foi e ainda é marcada por invisibilização e restrições institucionais (Goellner, 1998). O acesso das mulheres, enquanto profissionais, à modalidade esportiva foi limitado por barreiras legais, tais como a proibição da prática em 1941. Mesmo que possamos observar avanços nas últimas décadas, a estruturação do futebol feminino, no Brasil, ainda apresenta escassez de investimentos e de políticas de incentivo. Essas questões se fazem notar em alguns dados demonstrados no Relatório Brasileiro Feminino A1 2025, dentre os quais destacamos, aqui, aqueles relativos às frequentes alterações ocorridas no decorrer do campeonato e aqueles referentes à escolha dos estádios.

 

As alterações às quais nos referimos – de local, data e horário –, foram demandadas pelos clubes, pelas emissoras responsáveis pela transmissão (SporTV e TV Brasil) e pela Confederação Brasileira de Futebol. A primeira alteração importante do Campeonato Brasileiro Feminino de 2025 diz respeito ao início da competição, prevista para começar no dia 23 de março, mas que se iniciou no dia 22 desse mesmo mês. Trata-se de um tipo de alteração bastante significativa em se tratando de uma data com tamanha importância para uma competição esportiva. Os motivos da mudança não foram encontrados pela equipe que elaborou o relatório, nem no site da CBF, nem em veículos de comunicação.

 

Na primeira fase do campeonato, composta por 120 jogos, 62 sofreram algum tipo de alteração, seja na data, horário ou local de realização dos jogos, cuja solicitação tinha como autoria os clubes, as redes de TV, a CBF ou a combinação desses agentes. Abaixo, destacamos a tabela das alterações sofridas por cada clube no decorrer das 15 rodadas da primeira fase do campeonato. A tabela abaixo mostra o somatório dos pedidos de mudança que os clubes solicitaram ou acataram, tanto na condição de mandante quanto na de visitante.

 

Quantidade de alterações realizadas por clube. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025
Quantidade de alterações realizadas por clube. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025

No que se refere à antecedência das alterações realizadas nas partidas do Campeonato, observa-se uma média de 12,9 dias em relação à data original dos jogos. Os extremos desse intervalo podem ser ilustrados por partidas do Sport (PE): na 6ª rodada, o confronto Sport x América teve mudanças efetuadas com 39 dias de antecedência, enquanto, na rodada seguinte, Sport x Fluminense passou por alterações apenas 4 dias antes da data prevista. Ao todo, das 80 solicitações de alteração registradas na primeira fase, 18 ocorreram com uma semana ou menos de antecedência.

 

É importante pontuar que todas as alterações ocorreram seguindo as regras da competição, porém, há de se considerar que isso não justifica a frequência de vezes em que ocorreram. Esse cenário aponta para problemas na organização do campeonato que podem reverberar negativamente, por exemplo, na preparação das atletas e no comparecimento do público nas partidas. Compreendemos que a falta de previsibilidade dificulta a organização dos torcedores, tornando mais difícil uma rotina de acompanhamento dos jogos.

 

Outra questão importante refere-se à alternância de estádios utilizados por um mesmo clube enquanto mandante: diversos clubes não adotaram um único estádio como mando de campo predominante, alternando entre dois ou até mesmo quatro estádios distintos ao longo da fase inicial do campeonato. A maioria dos clubes optou por mandar seus jogos em estádios alternativos¹, ou seja, aqueles que não costumam receber suas partidas profissionais e que a torcida possui o hábito de frequentar. Em alguns casos, as partidas foram realizadas em estádios acanhados localizados em centros de treinamentos (CTs).


Estádios usados em jogos como mandante. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025
Estádios usados em jogos como mandante. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025
Estádios usados em jogos como mandante. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025
Estádios usados em jogos como mandante. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025

Esses dados corroboram os resultados da pesquisa Consumo do Futebol Feminino, feita pela Máquina do Esporte e Dibradoras, em que 61% das pessoas entrevistadas enxergam a localização das partidas como um obstáculo para o comparecimento aos jogos.

 

Outra questão observada no Campeonato de 2025 são as partidas sem público ou sem contagem de torcedores. O Palmeiras e o Red Bull Bragantino realizaram dois jogos com os portões fechados, o Real Brasília jogou no Estádio Defelê sem público algum, devido à ausência de laudo técnico para a liberação do local para o recebimento de torcedores. Dois clubes cariocas, o Flamengo e o Fluminense, realizaram seus jogos com portões abertos, mas sem venda de ingressos e qualquer outro tipo de controle do número de pessoas que estiveram presentes ao estádio. A dificuldade de encontrar dados sobre público no Campeonato evidencia fragilidades na organização e na transparência da competição, comprometendo a mensuração do engajamento das torcidas e a construção de indicadores fundamentais para o desenvolvimento do futebol feminino no país.

 

O caso do “FlaFlu” é particularmente interessante, visto que o clássico entre os rivais por tradição (Goellner, 1998) foi realizado em um estádio alternativo – o Moça Bonita, em Bangu – e sem venda de ingressos. O clássico denominado “GreNal” – Grêmio x Internacional – também ocorreu em um estádio alternativo, o Estádio do Vale, no município de Novo Hamburgo.

 

É importante considerar que os estádios são um elemento central no cultivo de identidades torcedoras. Como aponta Toledo, “o estádio consiste numa peça de todo um construto sociotécnico [...] cujo impacto nas formas do torcer pode trazer alguma luz para pensar os aspectos constitutivos dessa identificação entre indivíduos e clubes de futebol.” (Toledo, 2013, p. 6). O autor também destaca que o estádio oferece “um corpo edificado e concretude para um torcer que, sem estádio, tem vagado por espaços que não lhes pertencem” (Toledo, 2013, p. 7). Entendemos aqui que, na ausência de um lugar fixo, com o qual se construa um ambiente de familiaridade, a experiência torcedora tende a ficar fragilizada.

 

A maior concentração de público também revela indicadores relevantes: 8 dos 10 jogos com maior público na 1ª fase da competição tiveram mando do Corinthians. Além disso, nos jogos do clube, a torcida corinthiana representou em média 80,77% do público total das rodadas. Podemos utilizar o caso do clube paulista para sugerir que há uma relação entre familiaridade com o estádio e presença do público. Apesar de seu estádio principal ser a Neo Química Arena, o clube mandou grande parte dos jogos do campeonato no Parque São Jorge, também conhecido como Fazendinha. Localizado na sede social do clube, o Parque São Jorge é local de memória importante para a torcida corinthiana, o que reitera a importância da escolha dos estádios para a manutenção da cultura torcedora. Mesmo atuando em um estádio que, de acordo com os critérios do Relatório, podemos considerar como alternativo, a familiaridade e tradição associadas ao Parque São Jorge parecem favorecer uma maior adesão do público.

 

Média de público em partidas como mandante. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025
Média de público em partidas como mandante. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025

Outro aspecto relevante identificado no relatório refere-se à desigualdade na visibilidade das equipes, especialmente em relação à transmissão das partidas. Observamos que clubes como Flamengo e Corinthians concentraram o maior número de jogos transmitidos, evidenciando uma distribuição desigual da exposição midiática entre as equipes participantes da competição. Essa disparidade amplia o alcance e a visibilidade de determinados clubes e limita a projeção de outros. Além disso, até o momento da publicação do relatório, 3 dos 16 clubes participantes da competição não tinham perfis em suas redes sociais dedicados exclusivamente ao time feminino, sendo eles: Bahia, Juventude e Real Brasília. O Red Bull criou um perfil para o time feminino durante o período de produção do relatório, em dezembro de 2025. Por consequência, esse cenário pode dificultar a atração de público aos estádios e a consolidação de torcidas que acompanham de forma mais homogênea o futebol de mulheres.

 

Transmissão de partidas por clube. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025
Transmissão de partidas por clube. Fonte: Relatório Brasileiro Feminino A1 2025

A disposição dos ingressos também é um fator que pode interferir diretamente na presença do público, visto que, em alguns casos, os ingressos das partidas foram disponibilizados, em média, cerca de 2 a 6 dias antes das partidas. Temos, como exemplo, jogos do Grêmio, do Instituto 3B e do São Paulo, em que os ingressos foram disponibilizados apenas no momento da partida. Essa prática compromete a previsibilidade necessária para planejamento dos torcedores, especialmente quando articulada com outros fatores já mencionados anteriormente, como mudanças frequentes de data, horário e local. Essa ausência de antecedência na oferta dos ingressos também tende a restringir o comparecimento e dificultar a construção de uma rotina de acompanhamento das partidas.

 

As constantes alterações de data, horário, local, a rotatividade de estádios, a realização de partidas sem público e a desigualdade na distribuição de mandos de campo compõem um cenário que dificulta a previsibilidade e a regularidade necessárias para o engajamento do público. Nesse sentido, a formação de uma cultura torcedora estável é impactada, pois a experiência de acompanhar os jogos se torna fragmentada e imprevisível. Considerando o papel dos estádios na construção de vínculos com a torcida, como apontado por Toledo (2013), a ausência de um espaço fixo, reconhecível, previsível, aliada à instabilidade do calendário, tende a fragilizar a identificação do público com a competição. A reprodução de desigualdades contribui para a consolidação de torcidas em torno de poucos clubes, ao passo que dificulta esse processo para os demais. Portanto, pensar o fortalecimento do futebol no Brasil implica em ampliar sua visibilidade e repensar condições de realização do campeonato, de modo a garantir maior estabilidade, equilíbrio e previsibilidade entre os clubes, pois esses são elementos fundamentais para a consolidação de uma cultura torcedora estável.

 

Referências

 

COSTA, Leda; VAZQUEZ, João; AFFONSO, Víctor; BARREIRO, Paula; COSTA, Geovana; SARINHO, Bárbara; QUINTANEIRA, Clara. Campeonato Brasileiro Feminino A1 2025: relatório do Observatório Social do Futebol n. 3. Rio de Janeiro, FCS/UERJ, 2026. Disponível em: https://observatoriosocialfutebol.org/relatorio-brasileiro-feminino-a1-2025/. Acesso em: 6 de abr. 2026.

 

GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. In: MARANHÃO, Haroldo. Dicionário de futebol. Rio de Janeiro: Record, 1998.

 

TOLEDO, Luiz Henrique de. Quase lá: a Copa do Mundo no Itaquerão e os impactos de um megaevento na socialidade torcedora. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 19, n. 40, p. 149-184, 2013.

 

Sobre as autoras e o autor:

 

Paula Barreiro é graduanda em Ciências Sociais e bolsista PIBIC do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LEME/UERJ).

 

Bárbara Sarinho é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (PPGCOM - UFPE) e bolsista PROATEC do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (LEME/UERJ).

 

Leda Costa é professora da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), coordenadora adjunta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) e coordenadora do Observatório Social do Futebol.

 

Geovana Costa é graduanda da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do projeto de extensão Observatório Social do Futebol.

 

João Vazquez é graduando da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e bolsista do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME).

 

Clara Quintaneira é mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (PPGCOM - UERJ) e bolsista QUALITEC do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME).

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Os desafios enfrentados pelo futebol de mulheres têm sido tema de outros textos do Bate-Pronto. Se você quiser ler mais sobre ele, veja este outro texto: Das sombras à ascensão: estaríamos, finalmente, vivendo uma “era de protagonismo” no futebol de mulheres?

 

¹ No Relatório, classificamos os estádios em alternativos e principais. Consideramos estádios principais aqueles nos quais “os clubes de futebol enquanto mandantes costumam realizar as partidas oficiais de seus times profissionais” (Costa et al., 2026, p. 23).


 
 
 

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