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A torcida que nunca foi: a trajetória da Fla-Gay

Lucas Barroso (UFRJ)


No texto abaixo¹ o autor revela diversos detalhes sobre a história de uma das “torcidas gays” mais conhecidas do Brasil, evidenciando uma existência virtual e representativa de importantes desafios.


Notícia que atribuía derrota do Flamengo à Fla-Gay. Imagem: Jornal dos Sports, n. 15.318, Rio de Janeiro, 15/10/1979
Notícia que atribuía derrota do Flamengo à Fla-Gay. Imagem: Jornal dos Sports, n. 15.318, Rio de Janeiro, 15/10/1979

Em 7 de outubro de 1979, um anúncio publicado no Jornal dos Sports convocava torcedores para a estreia de uma ala de torcedores assumidamente homossexuais do Clube de Regatas do Flamengo, batizada de Fla-Gay. O domingo marcado para a estreia era de clássico contra o Fluminense, no Estádio do Maracanã. O aviso prometia plumas, paetês e o espírito do carnaval invadindo as arquibancadas.

 

A ideia de uma ala homossexual na grande torcida rubro-negra não nasceu de repente. Suas raízes remontam a setembro de 1977, quando o nome “Fla-Gay” foi mencionado pela primeira vez na imprensa carioca. O contexto era o de uma efervescência nacional: naquele mesmo ano, em Porto Alegre, havia surgido a Coligay, vinculada ao Grêmio Foot Ball Porto-Alegrense.

 

Fundada a partir de uma boate chamada Coliseu, na Avenida João Pessoa, a Coligay estreou em 10 de abril de 1977 em um jogo contra o Santa Cruz. Seus integrantes enfrentaram, desde o início, xingamentos, olhares de desprezo e até apedrejamento, mas seguiram em frente, chegando a 200 membros registrados em poucos anos. A repercussão da Coligay na imprensa nacional influenciou grupos semelhantes.

 

No Rio de Janeiro, a ideia de uma ala homossexual no Flamengo começou a ganhar forma ao longo daquele mesmo ano. Em 26 de setembro, o Jornal dos Sports trouxe a primeira menção explícita à Fla-Gay, quando o figurinista e carnavalesco Evandro de Castro Lima afirmou que a iniciativa estaria prestes a nascer, com suposto apoio do então presidente do clube, Marcio Braga. A proposta, no entanto, não avançou de imediato, mas a ideia havia sido plantada.

 

Foi em outubro de 1979 que a Fla-Gay ganhou um projeto concreto, duas lideranças e uma data marcada para existir. O radialista Pedro Paradella, sócio-proprietário do Flamengo e figura conhecida no meio esportivo carioca, anunciou que conduziria a ala. Ao seu lado, o famoso carnavalesco Clóvis Bornay, recém-aposentado do Museu Histórico Nacional e celebridade nacional pelos concursos de fantasia do Theatro Municipal, assumiria o posto de figurinista. Juntos, prometiam levar ao Maracanã uma forma nova de torcer: colorida, espetacular e abertamente gay.

 

Paradella declarou ao Jornal dos Sports que era preciso acabar com a ideia de que “ser Flamengo é ser machão latino-americano”. Bornay, por sua vez, anunciou que o Botafogo havia “cansado a sua beleza” e que havia migrado para o rubro-negro atraído pelo carisma popular do clube e pela ousadia da proposta. A iniciativa causou repercussão imediata em todo o país: 115 edições de 24 periódicos, em oito estados, chegaram a mencionar a Fla-Gay entre 1977 e 2003.

 

As notas e reportagens do Jornal dos Sports, por exemplo, revelavam um esforço editorial para apresentá-la como algo fora do contexto do futebol, descrevendo-a mais como uma preparação para um desfile de fantasias ou de uma escola de samba do que como um grupo de torcedores que iriam às arquibancadas para apoiar seu time.

 

Essa representação caricata e avessa da iniciativa rubro-negra contribuiu para gerar um sentimento de rejeição e exotismo, manifestado pelos leitores do jornal, e até mesmo criou um clima tenso de hostilidade em relação à possível presença da nova ala no Maracanã em um clássico carioca.

 

Nesse contexto, Marcio Braga, presidente do Flamengo, ordenou reforço no esquema de segurança e bloqueou o acesso do grupo ao Maracanã, acionando o 6º Batalhão da Polícia Militar. A ala foi impedida de entrar no estádio antes mesmo de poder ocupar suas arquibancadas.

 

A justificativa oficial era de ordem e organização, mas o recado era claro: homossexuais organizados não cabiam naquele espaço. Na semana seguinte, após uma derrota do Flamengo para o Fluminense por 3 a 0, o próprio Braga chegou a atribuir o mau resultado a uma “praga” da Fla-Gay. A ironia não passou despercebida.

 

Sem conseguir ocupar as arquibancadas, a Fla-Gay encontrou outros palcos. Em 1980, marchinhas com o nome do grupo foram compostas e chegaram a concorrer em festivais de carnaval na televisão brasileira, com Bornay performando ao vivo em programas da Rede Globo e da Rede Tupi. O espírito da iniciativa migrou do estádio para os palcos e para as páginas dos jornais, mantendo o nome em circulação mesmo sem presença efetiva no futebol.

 

Na marchinha “Flagay”, por exemplo, a parte mais lembrada, “fui pra torcida da Flamengo torcer, quase apanhei”, cristalizou a violência e o estranhamento que marcaram o episódio. No entanto, frequentemente se esquece que as estrofes seguintes falam sobre desejo, pertencimento e amor pelo clube: a vontade de torcer pelo Flamengo apesar da repressão. Esse apagamento revela muito sobre o que se escolhe lembrar e sobre o que se prefere silenciar.

 

Ao longo dos anos 1980, surgiram cartas e menções esparsas na imprensa sobre possíveis retomadas, mas nenhuma delas se concretizou. Paradella seguiu sua carreira no rádio esportivo carioca até o início dos anos 1990, e Bornay continuou seus concursos de fantasia e aparições na mídia até os anos 2000. Ambos carregaram consigo a memória de uma tentativa que, mesmo frustrada, havia deixado marcas.

 

Toda a caricaturização, que associava seus integrantes ao exagero, ao desvio e ao pitoresco, serviu para reafirmar hierarquias sexuais e, assim, isolar o movimento dentro de um único imaginário de gozação. Mas, justamente por isso, a tentativa ganhou força enquanto intervenção política: ao provocar a rejeição, expôs as fronteiras morais que o futebol buscava preservar.

 

Uma segunda geração da Fla-Gay surgiu em 1996, em um contexto radicalmente diferente. Quem a reativou foi o Grupo Atobá, uma organização de ativismo homossexual do Rio de Janeiro conhecida por suas intervenções performáticas de grande visibilidade pública. O cantor lírico Raimundo Pereira, então presidente do grupo, idealizou a ação: levar a Fla-Gay ao Maracanã para a partida entre Flamengo e Vasco da Gama, pela última rodada da Taça Guanabara, em 5 de maio de 1996.

 

A repercussão foi imediata e intensa. A imprensa noticiou que cerca de 160 integrantes foram ao estádio com bolas cor-de-rosa e uma bandeira arco-íris, acompanhando a vitória do Flamengo por 2 a 0, título que garantiu ao clube o campeonato do primeiro turno carioca de forma invicta. A ação rendeu entrevistas a veículos de grande alcance, inclusive ao programa Fantástico, da Rede Globo.

 

No entanto, como Carlos Alberto Migon, então diretor do Atobá, deixou claro em entrevista concedida para a dissertação que deu origem a este texto, o objetivo não era torcer pelo Flamengo. Nem ele nem Raimundo Pereira eram torcedores do clube. A escolha pelo Flamengo foi estratégica: o time de maior apelo popular do país garantia visibilidade para as pautas do grupo, que buscava ampliar o debate sobre direitos homossexuais e prevenção ao HIV.

 

A Fla-Gay, nessa segunda versão, era uma intervenção política mais do que uma torcida. Cumpriu seu objetivo, ganhou os holofotes e, uma vez alcançada a visibilidade desejada, foi deixada de lado. Em 2003, uma nova tentativa de reativação pelo grupo foi barrada pela oposição da diretoria do clube e de lideranças de torcidas organizadas, que chamaram a iniciativa de “armação de vascaínos”.

 

Uma terceira e mais recente geração da Fla-Gay nasceu em 12 de maio de 2016, coincidentemente, na mesma data em que se concretizava o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em um Brasil polarizado e marcado pela ascensão de discursos conservadores. Quem fundou a página foi o torcedor rubro-negro Maurício Tosta, motivado por experiências pessoais de invisibilidade e constrangimento no Maracanã após se assumir gay.

 

A página no Facebook e, depois, no Instagram reuniu cerca de dois mil seguidores em seu auge, divulgando denúncias de homofobia nos estádios, apoiando campanhas de afirmação da comunidade LGBTQ+ e utilizando a imagem de Marielle Franco como símbolo de resistência.

 

Ao contrário da geração anterior, essa Fla-Gay nasceu com a intenção explícita de ser, de fato, uma torcida: um grupo de flamenguistas homossexuais que queiram ir ao estádio juntos, torcer com liberdade e ocupar as arquibancadas como espaço de pertencimento e orgulho.

 

No entanto, a conta do Instagram foi derrubada de forma arbitrária sob alegação de violação de direitos autorais. A diretoria do clube, à época presidida por Rodolfo Landim, não respondeu às tentativas de diálogo. Mesmo assim, Tosta, atualmente residente em Brasília (DF), planeja reativar o movimento em 2026.

 

A trajetória da Fla-Gay sugere que determinadas experiências de associação entre torcedores escapam às classificações tradicionais. Mais do que uma torcida no sentido clássico, a ala funcionou como um acontecimento que buscava afirmar publicamente a possibilidade de torcer sendo homossexual, deslocando expectativas sobre masculinidade e pertencimento no estádio.

 

Ao atravessar décadas entre disputas, silenciamentos e reapropriações, a Fla-Gay, “uma torcida que nunca foi”, afirma-se como acontecimento simbólico cujo legado não reside no que conseguiu consolidar materialmente, mas no que provocou no campo esportivo brasileiro: fissuras, desconfortos e possibilidades para todos aqueles que ousam em seguir torcendo à sua maneira.

 

Nesse sentido, compreender essas iniciativas exige ampliar o olhar para formas de sociabilidade torcedora que se situam entre o ativismo cultural, a performance pública e a reivindicação política de presença. A experiência analisada revela que, mesmo quando não se materializam como organizações duradouras, essas manifestações podem produzir efeitos significativos no campo simbólico do futebol, abrindo brechas para novas formas de identificação coletiva.

 

A Fla-Gay se inscreve, portanto, menos como uma associação formal de torcedores e mais como um acontecimento ou uma ideia que fomentou a possibilidade de ser rubro-negro e gay ao mesmo tempo e de forma afirmada, trazendo provocações necessárias e inspirando outros movimentos que ecoam até os dias atuais.

 

O percurso das três gerações da Fla-Gay revela uma estratégia que se transformou ao longo do tempo. A primeira geração apostou no caráter apaziguador, ao tentar entrar no jogo pelo espetáculo, pela festa e pela sedução estética. A segunda, sob o Grupo Atobá, usou o futebol como tabuleiro para uma jogada mais ampla: a visibilidade do ativismo homossexual. A terceira, nascida nas redes sociais em 2016, reinventou o jogo em um novo campo.

 

O domingo de outubro de 1979 em que a Fla-Gay deveria ter estreado no Maracanã nunca aconteceu de fato. Mas a partida que o grupo veio disputar – a de reivindicar presença, visibilidade e pertencimento em um dos maiores símbolos da cultura popular brasileira – segue em aberto. E, como se vê desde 1977, ela não para de ser disputada.

 

Sobre o autor:

 

Lucas Barroso é mestre em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com bolsa FAPERJ Nota 10.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

A relação entre futebol e pessoas LGBTQIAPN+ é um dos objetos de pesquisa do INCT Futebol. Para ler mais sobre ele, acesse o nosso texto: Futebol e pessoas LGBTQIAPN+: algo mudou entre as duas copas do mundo?


¹ Este texto é baseado na dissertação de mestrado do autor, orientada pelo Prof. Dr. Fernando Luiz Vale Castro.


 
 
 

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