Mapeamento e análise de publicações sobre racismo no futebol veiculadas no Instagram
- INCT Futebol
- 18 de nov.
- 8 min de leitura
Lucas Carvalho Silva de Jesus (UFS/INCT Futebol)
Cristiano Mezzaroba (UFS/INCT Futebol)
No texto a seguir, os autores apresentam uma pesquisa, realizada no âmbito do INCT Futebol, cujo objetivo é monitorar postagens sobre racismo no Instagram, veiculadas por clubes, atletas, instituições e veículos jornalísticos.

O projeto de mapeamento e análise de publicações no Instagram sobre o racismo no futebol, desenvolvido no âmbito do INCT Futebol, mais especificamente pela linha “Mídias, torcidas e movimentos antirracistas no futebol”, realizou, entre janeiro e julho de 2025, um levantamento de postagens em perfis selecionados de agências jornalísticas esportivas (@ge.globo, @cazetv e @tntsportsbr), instituições reguladoras (@cbf_futebol, @fifa e @conmebol)1, clubes brasileiros das cinco regiões do país 2 (@ecbahia, @paysandu, @gremio, @goiasoficial e @flamengo) e atletas (Vinícius Jr., Marta da Silva, Alejandro Balde, Léo Pinheiro, Suellen dos Santos e Khadija “Bonny” Shaw) 3.
No total, foram registradas 316 postagens no período 4. As agências jornalísticas esportivas concentraram a maior parte das publicações, com 257 postagens (81,3%), confirmando seu protagonismo na tematização e abordagem do racismo no futebol. Entre elas, a TNT Sports liderou, com 123 postagens; seguida pelo Globo Esporte, com 94; e pela Cazé TV, com 40.
As instituições reguladoras do futebol responderam por 28 postagens (8,86%), distribuídas entre Conmebol, com 12; CBF, com 9; e FIFA, com 7. Os clubes também contabilizaram 28 publicações (8,86%), sendo 9 do Grêmio, 7 do Paysandu, 6 do Bahia, 5 do Flamengo e 1 do Goiás. Já os(as) atletas, embora fundamentais na vivência direta e explicitação do problema, tiveram participação bastante reduzida, com apenas 2 postagens (0,63%), ambas em janeiro: Alejandro Balde, vítima de insultos racistas no jogo Barcelona x Getafe; e Léo Pinheiro, alvo de ataques no clássico paranaense Athletico-PR x Coritiba.
Cenário geral
Esse panorama, embora em forma de recorte, reforça o papel central da mídia esportiva como principal mediadora da visibilidade do tema nas redes sociais digitais, evidenciando-se sua importância ao apresentar à população geral os atos racistas no futebol. Não só isso, ela tem também a função de elaborar matérias e abordagens de denúncia que, de maneira clara e posicionada, mostrem a necessidade de punição a quem comete esses crimes no âmbito esportivo e, em especial, futebolístico.
Ao observar a distribuição trimestral, nota-se que alguns perfis não registraram publicações em determinados períodos. A CBF, por exemplo, não apresentou nenhuma postagem nos meses de maio, junho e julho; o Clube Goiás também não publicou nesse mesmo trimestre; e os(as) atletas se manifestaram apenas em janeiro. As agências jornalísticas, por sua vez, mantiveram regularidade em todos os trimestres analisados 5.
A análise quantitativa evidenciou uma forte predominância das agências jornalísticas, cujo protagonismo pode ser explicado pela natureza informativa desses perfis, que produzem conteúdo de forma contínua e com ampla capacidade de engajamento. Em contraste, tanto instituições quanto clubes apresentaram a mesma quantidade de postagens (28), resultando em um número muito baixo se comparado com as agências jornalísticas, ainda que alguns casos específicos tenham motivado manifestações pontuais (como no caso do clube Paysandu, que publicou, no dia 28 de janeiro, acerca do Pacto Interinstitucional Pró-Equidade Racial) 6. Os atletas, por sua vez, apresentaram participação significativamente menor que os perfis das outras categorias, tendo suas 2 únicas publicações ocorrido em janeiro.
Entre os perfis com publicações sobre racismo no futebol identificadas ao menos uma vez durante os sete meses em que o levantamento foi realizado, destacam-se, pelo alcance de seguidores, o Flamengo, que chegou a 22,5 milhões em julho; seguido da TNT Sports, com 21,1 milhões; e da Cazé TV, que alcançou 11,5 milhões. O Globo Esporte apresentou crescimento mais moderado, passando de 5,6 milhões em janeiro para 6,1 milhões em julho. Entre as instituições, a CBF manteve-se com cerca de 17,6 milhões, a FIFA evoluiu de 4,4 para 5,3 milhões, e a Conmebol se manteve estável em torno de 2,2 milhões.
Já entre os clubes regionais, o Grêmio apresentou, em junho, um total de 3,4 milhões; seguido pelo Bahia, com 1,9 milhões, em julho; Paysandu, com 856 mil, em junho; e Goiás, com 528 mil, em março. No caso dos(as) atletas, que tiveram participação restrita, Alejandro Balde registrava cerca de 5 milhões de seguidores, em janeiro de 2025; e Léo Pinheiro, aproximadamente 428 mil 7. O alcance da página pode ser medido através da quantidade de seguidores que ela possui, por isso esta informação nos é valiosa.
O lugar dos veículos jornalísticos nesse panorama
A comparação entre volume de postagens e alcance revela que perfis com grandes bases de seguidores, como Flamengo e CBF, publicaram pouco sobre o tema, enquanto as agências jornalísticas, além de liderarem em número de postagens, também figuram entre os perfis com maior número de seguidores, o que amplia ainda mais a visibilidade de seu conteúdo. As postagens acerca do racismo no futebol, pensando de uma forma antirracista, deveriam ter agenda contínua em todos os perfis e não apenas nas agências jornalísticas esportivas. O racismo é um problema histórico e social e todos(as) podemos contribuir, ao ceder o nosso espaço no mundo para pautar a temática e combater a discriminação racial.
O corpus consolidado até o momento indica que, embora perfis de clubes e atletas contem com elevado número de seguidores e, portanto, grande potencial de alcance, a efetiva produção de conteúdo sobre racismo no futebol se concentrou nos veículos midiáticos jornalísticos. Essa dinâmica sugere que a visibilidade do tema nas redes sociais digitais ainda depende, em larga medida, da mediação jornalística, reforçando a importância do papel da imprensa esportiva na tematização pública do racismo, cumprindo sua função social de informar e posicionar-se diante de um tema tão potente e complexo do cenário contemporâneo.
Racismo e algoritmo
O Instagram, plataforma na qual este mapeamento foi realizado, é uma rede social sediada em Menlo Park, na Califórnia. O local é conhecido como Vale do Silício, nos Estados Unidos da América (EUA), e integra o conglomerado de aplicativos da empresa Meta Platforms Inc., que também controla o Facebook e o WhatsApp. Lançado em 2010 e adquirido pela Meta em 2012, o Instagram consolidou-se como um dos principais espaços de circulação de conteúdo digital, mobilizando bilhões de usuários em todo o mundo e, particularmente, desempenhando papel central na difusão de informações esportivas.
No entanto, como aponta Tarcízio Silva (2022), a estrutura de poder por trás dessas plataformas é marcada pelo predomínio de sócios e executivos majoritariamente homens brancos, cis, cuja visão de mundo influencia as políticas institucionais e os algoritmos que regem a dinâmica de circulação de conteúdo. Cabe dizer que teóricas(os) e cientistas, como Lisa Nakamura (2008) e Charlton Deron McIlwain (2019), já apontaram o quanto a ideologia que produz todo o aparato tecnológico e algorítmico do Vale do Silício é racializada, tendo como “norte” a lógica supremacista branca. Tal configuração repercute diretamente nas formas de engajamento: publicações de caráter crítico ou voltadas para a denúncia de desigualdades tendem a ter alcance reduzido em comparação ao conteúdo mais alinhado às lógicas de entretenimento e consumo.
Por vezes, essa lógica está alinhada ao conteúdo que propaga ódio às minorias, isto é, uma forma de perpetuar o racismo e a inferiorização do outro, considerado ameaçador, animal, selvagem, o que perpetua o pacto narcísico da branquitude, como nos fala Cida Bento (2022), entendido como o acordo tácito que sustenta privilégios raciais e silencia ou marginaliza narrativas críticas contra tais privilégios.
Considerações finais
Ao relacionarmos tal lógica com o levantamento aqui apresentado, é possível projetar que as postagens sobre racismo no futebol, ainda que numerosas em alguns perfis, não alcançam necessariamente engajamento proporcional à relevância social do tema, sugerindo a existência de barreiras algorítmicas que limitam sua visibilidade.
No último trimestre da pesquisa – agosto, setembro e outubro – estivemos finalizando o tratamento dos dados quantitativos, possibilitando que, posteriormente, se façam outras análises, como, por exemplo: verificaremos se as postagens têm predominantemente o tom denunciativo/descritivo, pedagógico/educativo, ou mobilizador/punitivista, o que nos trará informações sobre a predominância da narrativa das postagens. Após este tratamento, construiremos um portfólio com os gráficos dos resultados e planejamos disponibilizá-lo no site do INCT Futebol.
Referências
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
MCILWAIN, Charlton Deron. Black Software: The Internet and Racial Justice, from the AfroNet to Black Lives Matter. Nova York: Oxford University Press, 2019.
NAKAMURA, Lisa. Digitalizing Race: Visual Cultures of the Internet. Minnesota: University of Minnesota Press, 2008.
SILVA, Tarcízio. Racismo algorítmico: inteligência artificial e discriminação nas redes digitais. São Paulo: Edições Sesc, 2022.
O perfil da Conmebol só passou a integrar a pesquisa a partir de março, por conta da grande produção de postagens, nos vários perfis, acerca do caso de discriminação racial contra os jogadores sub-20 do Palmeiras, Luighi e Figueiredo, em plena copa Libertadores sub-20, num jogo contra o Cerro Porteño, no Paraguai.
Procurando garantir certa representatividade regional.
Atletas que têm sido vítimas do racismo, homens e mulheres, renomados ou não.
Sendo que, uma delas, da FIFA, foi posteriormente retirada do ar e não foi considerada no quantitativo final.
Cabe esclarecer que, para os fins desta pesquisa, a contagem trimestral não seguiu a lógica convencional de início em janeiro, uma vez que o trabalho no INCT Futebol começou em novembro de 2024. Assim, o primeiro trimestre abrangeu novembro de 2024, dezembro de 2024 e janeiro de 2025; o segundo, fevereiro a abril de 2025; e o terceiro, maio a julho de 2025. Ressalta-se, ainda, que, embora o primeiro trimestre tenha incluído novembro e dezembro, a coleta efetiva de postagens iniciou-se apenas em janeiro de 2025, ficando os meses anteriores destinados à preparação metodológica e testagem do acompanhamento nos perfis já referenciados acima, no Instagram.
O pacto visa auxiliar o Paysandu a dialogar com instituições públicas e privadas para intensificar ações de combate ao racismo.
Salientamos que apenas foi registrado o quantitativo de seguidores dos perfis no mês em que as postagens sobre racismo no futebol foram feitas. Por exemplo, o Clube Goiás só postou em março, sendo assim, temos o registro de seus seguidores apenas de março. Além disso, aqui, priorizamos apresentar o mês mais recente no qual foi registrado o quantitativo de seguidores do perfil.
Sobre os autores
Lucas Carvalho Silva de Jesus é mestrando em Educação (PPGED-UFS). Licenciado em Educação Física (2024) pela Universidade Federal de Sergipe. Membro do GEPESCEF - Grupo de Estudos e Pesquisas Sociedade, Cultura e Educação Física (DEF/CCBS/UFS). Pesquisador colaborador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Estudos do Futebol Brasileiro (INCT Futebol).
Cristiano Mezzaroba é doutor em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor do Departamento de Educação Física e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe (PPGED/UFS). Coordenador do GEPESCEF – Grupo de Estudos e Pesquisas Sociedade, Cultura e Educação Física da UFS. Coordenador da linha “Mídias, torcidas e movimentos antirracistas no futebol” do INCT Futebol.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
O racismo no futebol é um tema central nas discussões contemporâneas sobre esse esporte. Se você se interessa por esse tema, irá gostar também de ler o nosso texto: Futebol de camadas jovens e antirracismo. Como citar
JESUS, Lucas Carvalho Silva de; MEZZAROBA, Cristiano. Mapeamento e análise de publicações sobre racismo no futebol veiculadas no Instagram. Bate-Pronto, INCT Futebol. Florianópolis, v. 2, n.38, 2025.




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