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A outra face do “país do futebol”: a Seleção Brasileira de Futebol Feminino e sua secundarização simbólica na identidade nacional


Gyovanna Emilly da Silva Almeida (UFPE)

 

No texto abaixo, a autora discute o quanto o futebol de mulheres ainda é tratado como secundário em relação ao futebol de homens no Brasil.


A seleção de mulheres acumula feitos, mas sem o reconhecimento esperado. Imagem: X/Seleção Feminina de Futebol


O Brasil é internacionalmente conhecido como o “país do futebol”, título que remete à centralidade do esporte na identidade nacional e à sua capacidade de mobilizar afetos, símbolos e pertencimento coletivos. Ao longo do século XX, o futebol consolidou-se como um dos principais marcadores da brasilidade, funcionando como elemento de coesão social e de projeção internacional do país. A camisa canarinho, nesse contexto, ultrapassou o significado esportivo e passou a representar a própria nação. No entanto, como todo símbolo social, essa construção não é neutra nem universal: ela é atravessada por disputas, hierarquias e exclusões.

 

Como aponta Pierre Bourdieu (1983, 1989, 1999), o esporte deve ser compreendido como um campo social estruturado por relações de poder, no qual diferentes agentes disputam prestígio, reconhecimento e legitimidade simbólica. No caso brasileiro, o futebol masculino acumulou historicamente esse capital simbólico, sendo naturalizado como expressão legítima da identidade nacional. O futebol feminino, por sua vez, foi relegado a um lugar marginal, visto como secundário ou excepcional dentro do imaginário esportivo.

 

Essa exclusão não se deu apenas no plano simbólico, mas também de forma institucional. Em 1941, o Decreto-Lei nº 3.199 (Brasil, 2025) proibiu a prática de esportes considerados “incompatíveis com a natureza feminina”, entre eles o futebol. Essa interdição vigorou até a década de 1980 e produziu efeitos profundos e duradouros na organização do campo esportivo brasileiro. Conforme analisa Silvana Goellner (2005), a proibição contribuiu para reforçar estereótipos de gênero e consolidar a associação entre futebol, masculinidade e espaço público, ao mesmo tempo em que afastava as mulheres das práticas esportivas legitimadas socialmente.

 

Mesmo após a revogação da proibição e a criação oficial da Seleção Brasileira de Futebol Feminino, em 1988, as marcas desse passado permanecem visíveis. A trajetória da Seleção Feminina é atravessada por uma contradição central: embora represente oficialmente o país em competições internacionais e acumule feitos esportivos expressivos, como finais de Copa do Mundo, medalhas olímpicas e o protagonismo de atletas reconhecidas mundialmente, essa performance não se converteu em prestígio simbólico equivalente ao atribuído à Seleção Masculina.

 

Essa desigualdade se manifesta de maneira clara na cobertura midiática. Enquanto o futebol masculino ocupa espaço cotidiano nos noticiários, programas esportivos e campanhas publicitárias, o futebol feminino tende a ganhar visibilidade apenas em momentos pontuais, como grandes competições internacionais. Mesmo nesses contextos, a narrativa predominante costuma enfatizar histórias de superação, emoção ou surpresa, em vez de reconhecer o desempenho esportivo como resultado de trabalho, técnica e profissionalismo. A vitória feminina aparece como algo extraordinário; a masculina, como obrigação. Diante disso, em que medida a Seleção Brasileira de Futebol Feminino é efetivamente reconhecida como parte do patrimônio cultural do país, e não apenas como um apêndice simbólico do futebol masculino?

 

A figura de Marta exemplifica de forma emblemática essa contradição. Considerada uma das maiores jogadoras da história do futebol mundial, sua consagração individual não foi suficiente para alterar estruturalmente a posição da Seleção Feminina no imaginário nacional. O reconhecimento do futebol feminino tende a ser personalizado, concentrado em trajetórias individuais, sem se converter em valorização coletiva da modalidade. Celebra-se a atleta, mas mantém-se a desvalorização da equipe e das estruturas que sustentam o futebol praticado por mulheres.

 

A partir da perspectiva de Joan Scott (1995), é possível compreender essa desigualdade como resultado de relações de gênero que organizam o poder na sociedade. O gênero opera como uma categoria fundamental na definição de quem pode ocupar determinados espaços e representar simbolicamente a coletividade. No futebol brasileiro, a masculinidade foi historicamente associada à força, à virilidade e à ideia de representação nacional, enquanto o corpo feminino foi frequentemente percebido como inadequado ou deslocado nesse campo. Assim, a presença das mulheres no futebol desafia fronteiras simbólicas profundamente enraizadas.

 

Nesse sentido, a Seleção Brasileira de Futebol Feminino ocupa uma posição ambígua. Ao mesmo tempo em que veste a camisa canarinho e representa oficialmente a nação, sua legitimidade simbólica é constantemente tensionada. A identidade nacional construída a partir do futebol mostra-se, portanto, seletiva e excludente, autorizando alguns corpos a representar o país enquanto mantém outros em posição subalterna.

 

Essa secundarização simbólica não é apenas um problema do esporte, mas um reflexo de desigualdades mais amplas que atravessam a sociedade brasileira. O futebol funciona como um espelho social, no qual se projetam hierarquias de gênero, poder e reconhecimento. Ao marginalizar a Seleção Feminina, o “país do futebol” evidencia os limites de uma identidade nacional que não inclui igualmente todos os sujeitos.

 

Nos últimos anos, avanços importantes foram conquistados, como maior visibilidade, políticas de incentivo e debates públicos sobre igualdade de gênero no esporte. Ainda assim, esses avanços convivem com estruturas simbólicas profundamente enraizadas. A persistente desigualdade de investimentos, a cobertura midiática restrita e o reconhecimento seletivo demonstram que a transformação do futebol feminino não depende apenas de resultados esportivos, mas de uma reconfiguração mais ampla do imaginário social.

 

Pensar a Seleção Brasileira de Futebol Feminino como objeto simbólico secundarizado é, portanto, pensar criticamente a própria identidade nacional. Se o futebol é um dos principais marcadores da brasilidade, a marginalização da Seleção Feminina revela que essa identidade continua sendo construída a partir de exclusões. Reconhecer plenamente o futebol feminino como parte legítima do “país do futebol” não é apenas uma questão esportiva, mas um passo fundamental para a construção de uma sociedade mais democrática, plural e igualitária.

 

Referências

 

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

 

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.

 

BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.

 

BRASIL. Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941. Dispõe sobre a organização dos desportos no Brasil. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/. Acesso em: 22 set. 2025.

 

GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 143-154, 2005.

 

SCOTT, Joan W. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 71-99, jul./dez. 1995.

 

Sobre a autora:

 

Gyovanna Emily da Silva Almeida é graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com interesse na área de Antropologia. É bolsista do PIBID Interdisciplinar em Ciências Sociais. Tem interesse pelos estudos sobre futebol, gênero e violências no esporte. É Embaixadora da Juventude pela UNOD, em edição voltada ao tema “Paz nos Estádios”

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Se você se interessa pela discussão sobre o lugar e o papel do futebol de mulheres no cenário futebolístico brasileiro, irá gostar também do nosso texto: Das sombras à ascensão: estaríamos, finalmente, vivendo uma “era de protagonismo” no futebol de mulheres?



 
 
 

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