Futebol de camadas jovens e antirracismo
- INCT Futebol
- 29 de jul. de 2025
- 5 min de leitura
Marcos Antonio Batista da Silva (PUC/SP)
No texto abaixo, o autor fala sobre a importância de uma educação antirracista para a formação de jovens futebolistas.
![O combate ao racismo é um desafio central no esporte. Imagem: Fora do Eixo/Flickr[1]](https://static.wixstatic.com/media/87bf92_8ae1896afd2c4f0d9f7f8698fa1accf7~mv2.jpeg/v1/fill/w_980,h_654,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/87bf92_8ae1896afd2c4f0d9f7f8698fa1accf7~mv2.jpeg)
O racismo é um problema persistente e prejudicial que afeta muitos aspectos da sociedade, incluindo o futebol juvenil. Propõe-se, neste texto, abordar estratégias para combater o racismo no futebol de crianças, adolescentes e jovens (formação de base, camadas jovens), incluindo também o futebol feminino.
Por um lado, o futebol, como um dos esportes mais populares do mundo, tem o poder de unir pessoas de diferentes culturas e origens. Por outro, no entanto, o racismo nesse esporte tem se manifestado por práticas que incluem xingamentos, insultos, sinais e/ou gestos, resultando em consequências hostis para jogadores negros, imigrantes, mulheres, entre outros grupos. Esses atos ocorrem em estádios de futebol, quadras desportivas e recintos desportivos, mas também fora deles, com práticas racistas na internet (redes sociais), dirigidas a praticantes diretos ou indiretos das partidas de futebol. Apesar de legislações vigentes, o racismo, o preconceito e os atos discriminatórios com relação à raça ainda precisam ser efetivamente combatidos na internet (Silva, 2017; 2023).
No futebol juvenil, é essencial dialogar com crianças, adolescentes, jovens e suas famílias sobre a importância da diversidade e do respeito mútuo, criando um ambiente inclusivo e livre de discriminação. O racismo no futebol pode ter efeitos devastadores sobre os jogadores de futebol, das mais variadas categorias. Pode afetar a autoestima, o desempenho e o bem-estar emocional dos atletas, como tem sido discutido por Lourenço et al.(2024) e Colella (2021). Além disso, o racismo pode criar um ambiente hostil que impede o desenvolvimento saudável e a integração social dos jovens. Portanto, é crucial abordar essa questão de maneira eficaz e proativa.
Compreende-se que a educação formal (escolas, universidades) e a educação não formal (clubes de futebol, “escolinhas de futebol”) são uma ferramenta poderosa na luta contra o racismo. É fundamental educar os jovens jogadores, treinadores e pais sobre o impacto do racismo e a importância da diversidade. Isso pode ser feito através de palestras, oficinas e materiais educativos que promovam a compreensão e o respeito mútuo.
Clubes, “escolinhas de futebol” e organizações desportivas devem propor e implementar políticas e regulamentos contra o racismo, por meio da criação de códigos de conduta que proíbam qualquer forma de discriminação, preconceito ou racimo, além de aplicar medidas disciplinares para aqueles que violarem tais políticas. Mas só punir não é a questão: é preciso também (re)educar as pessoas e oferecer apoio psicológico aos atletas profissionais e jovens jogadores que sofrem o racismo.
Ressalta-se a importância de psicólogos do campo do esporte, da psicologia social e da psicologia clínica, para auxiliar nessa demanda e contribuir com a compreensão da temática, envolvendo jogadores(as), crianças, jovens e famílias, para lidarem com o impacto emocional do racismo, fornecendo estratégias para superar esses desafios. Outro ponto importante é envolver a comunidade, especialmente a local (clubes da cidade), na luta contra o racismo, visando criar um ambiente mais inclusivo e solidário. Isso poderá incluir, ainda, organizações de eventos comunitários que promovam a diversidade e a inclusão. Assim como a colaboração de escolas, clubes da cidade e outras instituições, para travar o racismo no futebol, especialmente de jovens em formação.
A colaboração do campo educacional poderá ocorrer por meio de propostas de oficinas temáticas sobre racismo no futebol juvenil, com o objetivo de educar os participantes sobre a importância da diversidade e do respeito mútuo, além de fornecer ferramentas práticas para combater o racismo, como, por exemplo: introduzir o tema, discutir sobre o impacto do racismo no futebol juvenil, ressaltar a importância da diversidade e da inclusão, propor jogos e atividades que promovam a compreensão e o respeito mútuo, realizar dinâmicas de grupo para discutir experiências pessoais e estratégias para combater o racismo. Esses momentos de reflexão sobre o impacto do racismo e a importância de agir contra ele contribuem para um ambiente mais inclusivo na sociedade e no mundo do futebol.
É fundamental desenvolver planos de ação em escolas e clubes de futebol, especialmente envolvendo as camadas jovens do futebol no que tange a implementação de práticas antirracistas no futebol juvenil, propondo metas e estratégias para promover a diversidade e a inclusão em espaços de educação formal e não formal. Isso envolve mudanças curriculares, especialmente no que tange a cursos de Educação Física, entre outros. Entende-se que a inclusão de temas relacionados ao racismo e à diversidade no currículo escolar é fundamental.
Soma-se, a esse tema, o desenvolvimento de projetos educacionais que promovam uma educação antirracista. Ressalta-se importância do envolvimento da formação de professores (cursos de licenciaturas) cuja capacitação inclua os estudos das relações étnico-raciais para lidar com questões de racismo e diversidade, por meio de recursos e materiais educativos para apoiar a educação antirracista, como propõe as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (Brasil, 2024). Muito embora essa legislação esteja em vigor, ainda encontramos universidades em que as disciplinas relacionadas a questões raciais são ofertadas em componentes curriculares optativos (Silva, 2023).
No que tange à educação não formal, é importante pensar acerca da criação de programas extracurriculares que promovam a diversidade e a inclusão. Programas que levem estudantes universitários a promover a disseminação do conhecimento produzido nas mais diversas áreas das ciências, estimulando debates críticos em torno dos avanços e desafios do combate ao racismo no futebol, visando uma sociedade mais justa, inclusiva e com equidade. É importante organizar eventos e atividades que incentivem a participação de jovens de diferentes grupos étnico-raciais e camadas sociais, por meio de parcerias com outras instituições (“escolinhas de futebol”, clubes, dentre outras), visando promover a educação antirracista.
Combater o racismo no futebol juvenil é uma tarefa complexa, mas essencial para criar um ambiente inclusivo e saudável para os jovens jogadores. Através da educação, das políticas públicas, do apoio psicológico e do envolvimento da comunidade, podemos promover a diversidade e o respeito mútuo no futebol. As oficinas temáticas e as práticas pedagógicas para a educação formal e não formal são ferramentas valiosas para alcançar esse objetivo. Juntos, podemos construir um futuro onde o futebol seja um espaço de união e equidade.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação/Secad. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. 2004. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/cnecp_003.pdf. Acesso em: 27 de jun. 2025.
COLELLA, Fabrizio. Who benefits from support? The heterogeneous effects of supporters on athletes’ performance by skin color. 2021. Disponível em: https://fabriziocolella.com/workingpapers/football_racism/. Acesso em: 27 de jun. 2025.
LOURENÇO, Iuri de Lima et al. Análise de estresse percebido, resiliência e autoestima em jogadores de futebol profissionais e de categorias de base (sub-20) atuantes no município do Rio de Janeiro. RBFF - Revista Brasileira de Futsal e Futebol, v. 16, n. 64, p. 18-26, 2024.
SILVA, Marcos A. B. Pedagogia, práticas pedagógicas e educação antirracista. Currículo sem Fronteiras, v. 23, 2023.
SILVA, Marcos A. B. Racismo institucional: pontos para reflexão. Laplage em Revista, Sorocaba, v. 3, n.1, p. 127-136, 2017.
Sobre o autor
Marcos Antonio Batista da Silva é psicólogo e doutor em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Realizou pós-doutorado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
No Brasil, o racismo é crime inafiançável e imprescritível, previsto na Lei nº 7.716/1989, com pena de reclusão de um a cinco anos. Se você for vítima de racismo, denuncie pelo Disque 100 ou pelo 190.
O combate ao racismo é um debate fundamental nas discussões sobre o futebol. Se você se interessa por essa temática, irá gostar também do nosso texto: Racismo, futebol e castas: o caso Vinicius Jr.
[1] Debate Participatório - Racismo no Futebol 30/08/2014. CC BY-SA 2.0.
Como citar
SILVA, Marcos Antonio Batista da. Futebol de camadas jovens e antirracismo. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, v. 2, n.25, 2025.
Futebol de camadas jovens e antirracismo © 2025 por Marcos Antonio Batista da Silva está licenciado sob CC BY-NC 4.0




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