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Mais vagas, mais histórias: o que a Copa de 48 seleções revela sobre o futebol global

Leonardo Bernardes Silva de Melo (UFES)


No texto abaixo, o autor reflete sobre os riscos e potências relacionados ao aumento do número de seleções na Copa do Mundo.


Mais seleções indicam mais participação ou menos qualidade? Imagem: Eastside¹
Mais seleções indicam mais participação ou menos qualidade? Imagem: Eastside¹

A Copa do Mundo de 2026 entrou para a história antes mesmo de a bola rolar. Pela primeira vez, o torneio conta com 48 seleções, substituindo o formato de 32 equipes que vigorou entre 1998 e 2022. Na prática, isso significa mais jogos, mais países envolvidos e, principalmente, mais histórias possíveis.

 

Mas a mudança não passou sem controvérsia. Há quem veja na expansão um passo importante para tornar o futebol mais inclusivo. Outros enxergam o risco de queda no nível técnico e um torneio cada vez mais moldado por interesses comerciais. No fundo, a discussão gira em torno de uma pergunta simples: ampliar é democratizar ou diluir?

 

Talvez o erro esteja em tratar essas duas ideias como opostas.

 

Desde sua origem, a Copa do Mundo sempre viveu um certo conflito entre ser global e, ao mesmo tempo, restrita. Embora se apresente como o torneio do planeta, durante décadas, ela foi dominada por poucos. Europa e América do Sul concentraram vagas e protagonismo, enquanto seleções de outras regiões enfrentavam caminhos muito mais difíceis para chegar até lá.

 

A expansão para 48 participantes tenta corrigir parte desse desequilíbrio. Mais países entram em cena, mais jogadores vivem a experiência de uma Copa e mais torcedores passam a se ver representados. Isso, por si só, já muda o significado do torneio.

 

E faz sentido. O futebol de hoje é muito mais espalhado pelo mundo do que era décadas atrás. Ainda existem centros dominantes, claro, mas talento não é mais exclusividade de poucos lugares. Ele aparece em diferentes continentes, em contextos variados, muitas vezes longe dos grandes holofotes.

 

Por outro lado, as críticas não são descabidas. Existe, sim, o risco de jogos desequilibrados e de uma fase inicial menos intensa. A Copa sempre carregou a ideia de reunir o que há de melhor – e ampliar o número de vagas inevitavelmente reduz o filtro.

 

Mas essa visão também deixa escapar algo essencial: o futebol não vive só de excelência técnica. Ele vive de histórias.

 

E muitas das histórias mais marcantes das Copas vieram justamente de quem, em teoria, não deveria estar ali. Camarões em 1990, Senegal em 2002, Costa Rica em 2014, Marrocos em 2022. Nenhuma dessas campanhas nasceu do favoritismo – nasceu da surpresa.

 

Em 2026, isso voltou a acontecer.

 

Um dos momentos mais comentados da fase de grupos não envolveu uma potência, mas Cabo Verde. Contra a Espanha, campeã mundial em 2010 e sempre candidata ao título, veio um 0 a 0 improvável. O grande nome do jogo foi o goleiro Vozinha, que transformou uma partida previsível em um espetáculo de resistência. Defesa após defesa, ele foi adiando o que parecia inevitável – até que deixou de ser.

 

O impacto desse resultado vai além do placar. Em um modelo mais restrito, Cabo Verde provavelmente nem estaria ali. E, sem estar ali, essa história simplesmente não existiria.

 

Algo parecido aconteceu com Curaçao. Depois de uma goleada na estreia contra a Alemanha, o time voltou pressionado e arrancou um empate contra o Equador. Eloy Room, aos 37 anos, fez uma atuação absurda: quinze defesas e um recorde histórico em Copas. Um jogo que parecia secundário virou assunto global.

 

Esses episódios mostram que a qualidade de uma Copa não se mede apenas pelo número de seleções tradicionais. O futebol também é feito de ruptura, de resistência, do improvável acontecendo diante de todo mundo.

 

Há, ainda, um ponto que costuma ficar de lado nesse debate: a Copa do Mundo não é só futebol. Ela é um fenômeno cultural. Durante algumas semanas, países inteiros se reconhecem naquele palco. Bandeiras, identidades, memórias – tudo ganha visibilidade.

 

Ampliar o torneio, nesse sentido, é também ampliar quem pode fazer parte dessa narrativa.

 

Claro, há interesses econômicos. Mais jogos significam mais dinheiro – isso é inegável. Mas reduzir toda a mudança a uma lógica financeira é simplificar demais. O esporte, ao longo da história, sempre cresceu misturando expansão e mercado. Uma coisa não exclui a outra.

 

Talvez a pergunta mais importante não seja se a Copa com 48 seleções é melhor ou pior. Talvez a questão seja outra: que tipo de Copa queremos?

 

Uma competição restrita aos mesmos protagonistas de sempre ou um torneio que aceite o risco de se abrir para o inesperado?

 

A Copa de 2026 fez sua escolha. E, como toda mudança grande, ela traz problemas – jogos desiguais, calendário mais pesado, desafios organizacionais. Mas também traz algo que nunca saiu do coração do futebol: a possibilidade de surpresa.

 

Quando um país estreia, quando uma seleção desacreditada resiste, quando um jogador improvável vira herói, o futebol lembra por que mobiliza tanta gente.

 

Se a Copa de 48 seleções nos deu Vozinha parando a Espanha e Eloy Room entrando para a história com Curaçao, talvez a discussão não seja sobre quantas vagas existem.

 

Talvez seja sobre quantas histórias ainda cabem dentro do futebol.

 

E isso, convenhamos, nunca foi um problema.

 

Sobre o autor:

 

Leonardo Bernardes Silva de Melo é professor, com experiência na Educação Física escolar e universitária. Doutor pela UFES e Mestre pela UGF, atua como docente nas redes estadual e municipal do Rio de Janeiro, além do ensino superior. É torcedor apaixonado pelo Bangu Atlético Clube.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

A Copa do Mundo é o tema do momento no Bate-Pronto. Se quiser ler mais sobre ele, acesse o texto: A Copa de 2026 ao sol e à sombra.


¹ CC0 1.0.



 
 
 

2 comentários

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Raphael Xavier
07 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Excelente reflexão. Foge da polarização simplista entre “qualidade” e “inclusão” e mostra que esses conceitos podem coexistir. Ao lembrar que o futebol é feito não apenas de excelência técnica, mas também de identidade, representatividade e histórias improváveis, constrói uma argumentação equilibrada e sensível. Essa perspectiva enriquece o debate sem abrir mão da complexidade do tema.

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Claudinha
06 de jul.
Avaliado com 3 de 5 estrelas.

....talvez a questão não seja apenas dizer que "uma coisa não exclui a outra", mas discutir qual lógica tem predominado e quais interesses acabam sendo priorizados.

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