Herói ou vilão? Neymar e o imaginário brasileiro de como criar ídolos
- INCT Futebol
- há 4 dias
- 5 min de leitura
Beatriz de França Alves (UFBA/INCT Futebol)
Lucas Vinicius Araujo Lisboa (UFS/INCT Futebol)
No texto abaixo, a autora e o autor refletem sobre a repercussão gerada pela convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026, buscando identificar o que pode estar por trás dela.

Existe algo curioso no futebol brasileiro: antes mesmo da bola rolar, o Brasil já parece precisar acreditar em alguém. A repercussão da convocação de Neymar mostrou exatamente isso. Para além de uma simples escolha técnica, o retorno do camisa 10 virou rapidamente um acontecimento nacional. Nas redes sociais, nos programas esportivos e até na imprensa internacional, a sensação era quase a de que o Brasil recuperava seus “dias de glória” apenas pela presença de Neymar na Seleção, como se o hexa estivesse mais próximo porque o principal ídolo brasileiro dos últimos anos voltou a vestir a amarelinha.
Talvez isso diga mais sobre o Brasil do que sobre o próprio Neymar. O futebol, aqui, nunca foi apenas esporte. Desde muito cedo, tornou-se parte da identidade nacional e ajudou a sustentar a imagem do “país do futebol”, associada à criatividade, à alegria e ao chamado “futebol arte”. Durante décadas, a Seleção Brasileira foi vista como uma representação cultural do país, marcada pelo improviso, pelo talento natural, pelo drible e pelo espetáculo. Pelé, Romário, Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho ajudaram a construir essa imagem quase mítica. Mas uma identidade tão baseada no brilho individual também cria uma dependência emocional desses personagens.
O futebol brasileiro parece viver à procura de um novo “salvador da pátria”, e Neymar talvez seja o maior exemplo disso nesta geração. A reação em torno de sua convocação deixou esse movimento evidente. O discurso do presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Samir Xaud, reforçou a ideia de um “novo momento” para a Seleção e a intenção de recolocar o Brasil “no topo do mundo”. Ao mesmo tempo, jornais internacionais trataram o retorno do jogador como um acontecimento global. O argentino La Nación destacou que a convocação parecia ser tratada “como se o Brasil estivesse vivendo sua melhor fase” (Diniz, 2026); veículos europeus classificaram o momento como uma “bomba mundial” (Teixeira, 2026); e o The Washington Post repercutiu os torcedores que chamavam Neymar de “a esperança do hexa” (idem).
É nesse ponto que Neymar ultrapassa a figura de jogador e se transforma em símbolo. Cristiano Mezzaroba (2017) compreende o futebol como produtor de “energia social”, capaz de mobilizar emoções coletivas, pertencimento e identificação nacional. No Brasil, essa dimensão ganha ainda mais força porque a Seleção sempre funcionou como espaço simbólico de orgulho nacional. O futebol se torna, assim, um lugar onde o país tenta reafirmar uma grandeza que muitas vezes parece ausente em outros campos da vida social.
Por isso, Neymar carrega um peso tão grande. Ele não representa apenas gols, dribles ou títulos. Representa a esperança de recuperar o futebol arte, de voltar ao topo do mundo e de reviver o passado glorioso da Seleção. Ao mesmo tempo, essa expectativa revela uma dificuldade do Brasil em lidar com o próprio presente. Nos últimos anos, o futebol brasileiro perdeu parte daquele encanto construído historicamente, e o medo de não ser mais “o país do futebol” parece alimentar a necessidade de reviver antigos símbolos. Talvez por isso Neymar provoque tanta divisão: para alguns, ainda é o último grande craque brasileiro capaz de decidir uma Copa do Mundo; para outros, simboliza uma geração que não conseguiu corresponder às expectativas gigantescas criadas em torno dela.
A população brasileira parece dividida em relação a Neymar: enquanto alguns o veem como sucessor dos grandes camisas 10, símbolo da criatividade e magia do futebol brasileiro, outros o criticam por estar mais ligado à mídia, lesões e frustrações em Copas. Essa divisão revela como o Brasil cria e derruba seus ídolos com a mesma intensidade. Além disso, a trajetória de Neymar reflete a enorme pressão colocada sobre atletas que alcançam fama muito cedo. Sua imagem acaba representando não apenas o jogador, mas também as expectativas e frustrações de milhões de torcedores.
Nesse contexto, é possível relacionar essa discussão às ideias de Pierre Bourdieu (1997). O sociólogo explica que certas figuras acumulam “capital simbólico”, isto é, um reconhecimento social tão forte que passam a representar muito mais do que sua função original. Dessa forma, Neymar deixa de ser apenas jogador e se transforma em marca, narrativa e símbolo nacional, mobilizando emoções, debates e discussões sobre a própria identidade brasileira. Mas existe um problema nessa lógica: quando um único jogador concentra tantas expectativas, questões estruturais acabam ficando em segundo plano. O debate sobre Neymar frequentemente apaga discussões mais profundas sobre a organização do futebol brasileiro, todas as problemáticas que perpassam o futebol de mulheres, a formação de base, planejamento esportivo e gestão da própria CBF. Cria-se a sensação de que o talento individual pode resolver problemas coletivos.
É nesse cenário que Neymar passa a carregar a responsabilidade de recuperar a grandeza do futebol brasileiro, reforçando a antiga lógica do “salvador da pátria”. Isso acontece porque, no Brasil, o futebol ocupa um espaço emocional muito maior do que em outros países: a Seleção Brasileira de Futebol representa não apenas um time, mas uma ideia de identidade nacional. Dessa forma, quando essa imagem parece enfraquecida, cresce a necessidade de encontrar alguém capaz de restaurar a esperança coletiva. No entanto, toda construção de herói também traz consigo a possibilidade do fracasso.
Quanto maior a idolatria, maior a cobrança. O futebol brasileiro transforma jogadores em símbolos nacionais, mas também precisa encontrar culpados quando as coisas dão errado. Foi assim com vários ídolos do passado e pode acontecer novamente. No fundo, a grande questão talvez seja justamente essa: Neymar será lembrado como o jogador que devolveu ao Brasil o sonho do hexa e a sensação de protagonismo mundial ou como mais um personagem de um país que insiste em procurar heróis individuais para resolver problemas coletivos? Porque, no Brasil, antes mesmo da bola rolar, o herói já precisa existir. E, quando isso acontece, o risco de virar vilão nunca está muito distante.
Referências
BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
DINIZ, Iara. “Terremoto mundial” e “última dança” de Neymar: como imprensa internacional repercutiu convocação da Seleção Brasileira. BBC News Brasil, 2026. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/crrpk7lnk92o. Acesso em: 19 mai. 2026.
TEIXEIRA, Lucas. “Bomba mundial!” Imprensa internacional repercute a convocação de Neymar para a Copa. CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/selecao-brasileira/imprensa-internacional-repercute-a-convocacao-de-neymar-para-a-copa/. Acesso em: 19 mai. 2026.
MEZZAROBA, Cristiano. A “energia social” do esporte: aproximações e experimentações possíveis a partir de um conceito. Revista Kinesis, Santa Maria, v. 35, n. 2, p. 50-60, 2017. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/kinesis/article/view/26904. Acesso em: 20 fev. 2026.
Sobre a autora e o autor:
Beatriz de França Alves é mestranda em Educação (UFBA), ex-bolsista e membra voluntária do INCT Futebol.
Lucas Vinicius Araujo Lisboa é mestrando em Educação (UFS) e bolsista do INCT Futebol.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
As manifestações de fé de Neymar nas mídias sociais já foram alvo de outro texto publicado no Bate-Pronto. Leia também: Celebridades do esporte como influenciadores religiosos: práticas de midiatização das manifestações religiosas nas redes sociais.
¹ Neymar. Brasil x Venezuela em Cuiabá pelas Eliminatórias 2026. CC BY-NC 2.0.
Herói ou vilão? Neymar e o imaginário brasileiro de como criar ídolos © 2026 by Beatriz de França Alves e Lucas Vinicius Araujo Lisboa is licensed under CC BY-NC 4.0




Comentários