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Celebridades do esporte como influenciadores religiosos: práticas de midiatização das manifestações religiosas nas redes sociais


Natália Fernandes Mororó (PUC-Campinas)

 

No texto abaixo, a autora discute como jogadores de futebol têm mobilizado a fé cristã na construção de suas imagens nas mídias sociais, analisando os casos de Lucas Moura e Neymar Jr., no Instagram.


Os dedos apontando para o céu são uma forma de expressar a fé cristã nos jogos. Imagem ilustrativa gerada com Dall-E
Os dedos apontando para o céu são uma forma de expressar a fé cristã nos jogos. Imagem ilustrativa gerada com Dall-E

O tema da midiatização da religião consolidou-se, nas últimas décadas, nas áreas de comunicação, mídia e ciências da religião. Parte significativa desses estudos têm se concentrado no avanço do neopentecostalismo e na ocupação estratégica dos meios de comunicação de massa por igrejas e lideranças religiosas desde os anos 1970. A maioria dos trabalhos que envolvem midiatização da fé no cenário digital concentrou sua atenção em figuras confessionais reconhecidas como celebridades religiosas, tais como: Padre Marcelo Rossi, Padre Fábio de Melo, Pastor Edir Macedo, entre outros. Este texto, no entanto, desloca o foco para o campo esportivo, analisando como atletas de futebol, na condição de celebridades midiáticas, incorporam símbolos e discursos religiosos em suas declarações e publicações em redes sociais. O objetivo é compreender de que modo a fé circula publicamente para além das instituições eclesiásticas, inserindo-se nas dinâmicas da cultura digital.


Conforme observa Carmen Rial (2003), mensagens e gestos religiosos passaram a ganhar visibilidade entre os jogadores de futebol nas últimas décadas, funcionando como formas públicas de testemunho. Em períodos anteriores, a religiosidade tendia a permanecer restrita à esfera privada, enquanto o futebol era associado a um universo considerado distante de práticas devocionais entre os evangélicos¹.

 

Ser atleta de futebol e assistir ao esporte significava não viver o Evangelho, e os estereótipos da grande maioria dos profissionais da área, anteriormente, eram de “baladeiros”, “mulherengos” e “bad boys”. Entretanto, com a ascensão neopentecostal, no começo da década de 1980, surgiram, no cenário brasileiro, movimentos paraeclesiásticos no mundo esportivo, transformando jogadores não apenas em atletas profissionais, como também em “apóstolos da Palavra”. Esses atletas tinham o objetivo de “tirar colegas de profissão da apatia e de inspirar novos valores em milhões de telespectadores, ouvintes e leitores” (Ribeiro, 1994, p. 11).

 

Um dos movimentos mais notórios foi fundado em 1981, nomeado “Atletas de Cristo” (ADC). Sua missão inicial era destacar atletas por sua conduta exemplar, em oposição aos valores considerados “mundanos” no meio esportivo. O grupo, desde sua criação até o final dos anos 1990, ganhou visibilidade significativa. João Guilherme Züge (2020) destaca que o gesto de apontar o dedo para o céu após o gol tornou-se um símbolo associado a essa trajetória histórica.

 

Em entrevista à ESPN (Lima, 2019), Alex Dias Ribeiro, ex-presidente dos ADC, afirmou que a ausência de filiação institucional entre atletas atuais não significa que há uma “escassez” de atletas cristãos². O que se observa, segundo ele, é um menor compromisso com a missão institucional em comparação com gerações anteriores. Pode-se dizer que há novos “atletas cristãos” que realmente se concretizaram e até se expandiram em termos midiáticos, porém, em sua maioria, são jogadores sem vínculo formal com denominações específicas.

 

Um levantamento publicado pela Folha de S. Paulo (2019) reforça a centralidade dessas manifestações: em 55 gols marcados por quatro clubes do estado paulista (Palmeiras, Santos, Corinthians e São Paulo), 29 incluíam algum tipo de manifestação religiosa nas comemorações. Ao longo do campeonato estadual daquele ano, conclui-se que o time do Palmeiras se destacou nas comemorações com expressões religiosas, sendo 10 gols de 13. Em seguida, o Santos teve 8 de 19 gols; posteriormente, Corinthians e São Paulo com 4 cada, em um total de 10 gols e 13 gols.

 

No Instagram, essas expressões assumem configuração própria. Fotografias de atletas ajoelhados, mãos erguidas ou dedos apontados para o céu, acompanhadas de legendas de agradecimento a Deus, compõem um padrão visual recorrente. A incorporação de versículos bíblicos intensifica a dimensão pública da fé e participa da construção de uma identidade moral associada ao desempenho esportivo. Além dos gestos corporais, é frequente, no contexto da midiatização da religião, o uso de versículos bíblicos e salmos nas publicações desses atletas nas redes sociais, o que reforça a dimensão pública e performativa da fé. Essas práticas, ao mesmo tempo em que expressam a crença individual, funcionam como recursos de visibilidade e construção de uma identidade moral diante do público, articulando fé, vitória esportiva e reconhecimento social.

 

Nesse cenário, emergem figuras como Lucas Moura (atualmente jogador do São Paulo Futebol Clube) e Neymar Jr. (atualmente jogador do Santos Futebol Clube), cujas trajetórias exemplificam diferentes formas de apropriação da religiosidade nas redes e no campo. Embora ambos se identifiquem como cristãos e recorram com frequência a símbolos religiosos em suas postagens, as maneiras como articulam fé, fama e estilo de vida divergem substancialmente, permitindo observar distintos modelos de midiatização da fé no universo esportivo.

 

A seguir, serão analisadas postagens públicas desses jogadores, no recorte empírico de janeiro a junho de 2025, com o intuito de compreender como performam sua religiosidade e de que forma essas manifestações se relacionam com os padrões discursivos da cultura digital contemporânea.


Lucas Moura

 

Lucas Moura, com aproximadamente 5,4 milhões de seguidores no Instagram, explicita sua identidade religiosa em sua biografia, em que se define como “Servo de JESUS”, seguido por uma cruz e a referência ao versículo de 1 Coríntios 2:9. No período analisado, foram identificados 19 conteúdos com temática religiosa nas legendas, imagens e vídeos.

 

A presença da fé atravessa tanto o desempenho esportivo quanto a vida familiar. De maneira consistente, sua fé é incorporada em ocasiões familiares e celebrações pessoais, como o aniversário da esposa, o Dia das Mães, a Páscoa e momentos com os filhos. Nesses contextos, Lucas utiliza expressões de gratidão a Deus, referências bíblicas e testemunhos pessoais, sempre vinculando o momento celebrado à sua fé cristã.

 

Lucas Moura apontando para o céu e agradecendo a Jesus após uma partida. Imagem: Instagram/@lucasmoura
Lucas Moura apontando para o céu e agradecendo a Jesus após uma partida. Imagem: Instagram/@lucasmoura

 

Mensagem de Páscoa. Imagem: Instagram/@lucasmoura7
Mensagem de Páscoa. Imagem: Instagram/@lucasmoura7

Com base em suas postagens, verifica-se uma “fé testemunhal” por parte do atleta, em que a religiosidade é performada como parte do cotidiano, com alto grau de identificação simbólica, sem imposição doutrinária explícita ou direta. Lucas se posiciona distante da figura de um líder religioso institucional, se aproximando da imagem de um atleta repleto de “moral” e espiritualidade dentro do universo do futebol. Ao mesmo tempo, uma pessoa que inspira pelo seu rendimento, exemplo pessoal e familiar. Além das postagens, Lucas frequentemente se refere a Deus em entrevistas, utilizando expressões como “graças a Deus”, “com a ajuda de Deus”, “toda honra e toda glória a Deus” e atribuindo a Ele suas conquistas.

 

Neymar Jr.

 

Neymar Jr., atualmente no Santos, com mais de 220 milhões de seguidores, apresenta uma religiosidade visível e com características distintas de Lucas. No período coletado, foram identificadas 17 postagens com menções religiosas, sendo a maioria associada a momentos pontuais de conquista ou superação, como gols, vitórias, lesões e eventos de grande visibilidade.

 

Versículos bíblicos, agradecimentos e a faixa “100% Jesus” compõem esse repertório simbólico. Nessas ocasiões, recorre a frases como “Glória a Deus sempre”; “Obrigado, Senhor” e “Que Deus nos abençoe e nos proteja”, acompanhadas de imagens de oração ou de imagens que simbolizam uma força superior representada por fenômenos como raios e luzes.

 

Postagem feita por Neymar em pré-jogo. Imagem: Instagram/@neymarjr
Postagem feita por Neymar em pré-jogo. Imagem: Instagram/@neymarjr
Neymar fazendo suas preces junto à sua faixa, foto de família, Bíblia e artigos luxuosos. Imagem: Instagram/@neymarjr
Neymar fazendo suas preces junto à sua faixa, foto de família, Bíblia e artigos luxuosos. Imagem: Instagram/@neymarjr

Paralelamente, sua presença digital também inclui conteúdos que destoam dessa imagem religiosa, como registros de festas, vida noturna, consumo de luxo, publicidade de apostas esportivas e divulgação de eventos. Essa combinação reforça a ideia de uma religiosidade fluida no espaço público, em que a fé funciona como parte de sua identidade midiática, porém não está rigidamente vinculada a normas institucionais ou padrões de conduta tradicionais. Além da rede social monitorada, Neymar aparece recorrentemente na mídia em situações que projetam uma relação ambígua entre fé e estilo de vida, marcada por episódios de polêmicas, como traições e questões fiscais.

 

Resultados e discussão

 

A análise das postagens de Lucas Moura e Neymar permite observar dois modos distintos de articulação entre religiosidade e futebol, evidenciando que não há uma forma homogênea de manifestação da fé cristã no ambiente esportivo. Embora ambos façam referência ao cristianismo, a forma, o conteúdo e a função social de suas postagens diferem significativamente.

 

No caso de Lucas Moura, observa-se uma presença digital que enfatiza testemunhos pessoais e referências bíblicas, frequentemente articulados à vida familiar e ao desempenho esportivo. Ainda que não mencione afiliação a uma denominação, suas postagens e entrevistas reforçam um padrão que dialoga com práticas evangélicas de cunho testemunhal, aproximando-se de uma narrativa em que a fé integra o cotidiano do atleta.

 

Por outro lado, Neymar Jr. mobiliza a religiosidade em um registro distinto. Embora faça referências cristãs, sua presença digital mistura elementos da fé cristã com aspectos de repercussão midiática na grande parte de sua trajetória como jogador até o momento. Nesse sentido, a religiosidade não se apresenta como eixo fixo de orientação de comportamento e hábitos tradicionais, mas sim como um recurso acionado em meio ao seu estilo de vida. Como resultado, essa fluidez aponta para um perfil menos institucionalizado, se inserindo em um modo de vida mais flexível.

 

A comparação entre os dois casos revela que o futebol se constitui como um campo em que diferentes formas de religiosidade coexistem e se legitimam. Enquanto alguns atletas reforçam vínculos com tradições evangélicas e reproduzem práticas de cunho testemunhal, outros ressignificam elementos religiosos de maneira mais fragmentada ou fluida e adaptada às lógicas do mercado e da midiatização. Essa diversidade evidencia a expansão da religião no futebol contemporâneo, que vai além da simples oposição entre institucional e individual, mostrando antes um continuum de possibilidades expressivas.

 

Considerações

 

Os resultados obtidos apontam para a existência de diferentes perfis de manifestação religiosa entre atletas de elite no Brasil. Lucas Moura representa um padrão mais próximo da institucionalidade evangélica, enquanto Neymar Jr. concebe uma religiosidade fluida e fortemente atravessada pela lógica da visibilidade midiática.

 

Mais do que indicar contrastes individuais, essa análise permite compreender uma dinâmica mais ampla: a naturalização da desinstitucionalização da religião no futebol contemporâneo. Em outras palavras, o pertencimento explícito a uma denominação não é mais condição necessária para a expressão da religiosidade legitimada. A religiosidade, sobretudo em sua vertente cristã, torna-se um recurso que pode ser acionado de maneira autônoma, reforçando valores pessoais ou compondo narrativas de carreira.

 

Nesse cenário, o futebol consolida-se como espaço privilegiado para a circulação e legitimação dessas formas plurais (cristãs) de religiosidade. A visibilidade dos jogadores nas redes sociais amplia a possibilidade de transmissão de símbolos religiosos, ao mesmo tempo em que contribui para sua ressignificação na atualidade. Assim, compreender os diferentes estilos de manifestação de elementos e gestos religiosos no esporte não implica (e nem caberia) em avaliar sua “coerência” ou “autenticidade”, e sim em reconhecer que tais expressões refletem transformações mais amplas no campo religioso cristão brasileiro, na forma como ele se articula com a cultura esportiva e midiática e em sua legitimação.

 

Texto adaptado de resumo expandido publicado nos anais do Congresso da SOTER 2025.

 

Trabalho realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.

 

Referências  

 

AGUIAR, Reinaldo Olecio. Religião e esporte: os atletas religiosos e a religião dos atletas. Tese de Doutorado em Ciências da Religião. São Bernardo do Campo: UNIMESP, 2004.

 

ALVES, Rubem. Protestantismo e repressão. São Paulo: Ática, 1982.

 

FOLHA DE S.PAULO. Reza e créditos de gols a Deus dominam comemorações no futebol. Folha de S. Paulo, 2019. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2019/03/reza-e-creditos-de-gols-a-deus-dominam-comemoracoes-no-futebol.shtml. Acesso em: 10 de out. 2025.

 

LIMA, Diego Iwata. Fenômeno onipresente nos anos 1980 e 90, Atletas de Cristo chegam aos 35 anos em crise de identidade e popularidade. ESPN, 2019. Disponível em: https://www.espn.com.br/artigo/_/id/5409403/fenomeno-onipresente-nos-anos-1980-e-90-atletas-de-cristo-chegam-aos-35-anos-em-crise-de-identidade-e-popularidade. Acesso em: 9 de out. 2025.

 

RIAL, Carmen. Futebol e mídia: a retórica televisiva e suas implicações na identidade nacional, de gênero e religiosa. Antropolítica, Niterói, v. 14, n. 2, p. 61-80, 2003.

 

RIBEIRO, Alex Dias. Atletas de Cristo. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1994.

 

ZÜGE, João Guilherme. Religião e esporte midiatizado: o caso de Atletas de Cristo no Brasil (1994-1998). Epígrafe, v. 8, n. 8, p. 173-196, 2020.

 

Sobre a autora

 

Natália Fernandes Mororó é doutoranda e mestre em Ciências da Religião pela PUC-Campinas. Graduada em Ciências Sociais. Desenvolve pesquisas nas áreas de mídia, protestantismo, religião e esporte, com foco na midiatização da fé no futebol brasileiro. Pesquisadora e membra dos grupos de pesquisa “Religião, Linguagem e Cultura” e “Religião, Ética e Política: questões de fundamentação”, do PPGCR da PUC-Campinas.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

As mídias sociais são uma fonte rica de pesquisa sobre fenômenos envolvendo o futebol contemporâneo. Se você se interessa por esse terreno, leia este outro texto nosso que também parte de uma análise de perfis no Instagram: Mapeamento e análise de publicações sobre racismo no futebol veiculadas no Instagram


¹ Ver em Rubem Alves (1982) e Reinaldo Olecio Aguiar (2004).

² “Os Atletas de Cristo perderam muito de sua influência e popularidade. As manifestações religiosas persistem. Mas os jogadores já não se aglutinam em torno de um movimento – nem contribuem financeiramente da mesma maneira” (Lima, 2019).



 
 
 

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