Futebol, Lula e Flávio: torcedores na política
Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)
No texto abaixo, a autora indica como o conceito de pertencimento clubístico, usado nos estudos do futebol, pode ajudar a entender o atual momento político brasileiro, em que o pertencimento político demonstra características semelhantes.

O que o futebol tem a ver com a derrota de Lula no primeiro turno das eleições de 2026? E que lições ele tem a nos dar para entender o momento político brasileiro?
Tenho todo o respeito a colegas que estudam as camadas médias baixas (2 a 5 salários mínimos) e veem no desejo de aspiração econômica e social um dos motores do voto em Flávio. Tenho todo o respeito a colegas que analisam a derrota da esquerda como uma expressão dos valores neoliberais internalizados e sintetizados na ideia de uberização, aos que mostram como o endividamento (por bets e cartões) é atualmente impulsionado pelo capitalismo para fazer com que pessoas endividadas trabalhem mais horas, aos que veem como central o espectro da insegurança e aos que falam do impacto das mídias – as grandes mídias e sua atuação “neutra” ou as mídias digitais e seus robôs. Concordo com todos esses argumentos, mas quero acrescentar mais um: o pertencimento a um dos lados, um pertencimento muito próximo ao pertencimento futebolístico, clubístico.
Quando falo em pertencimento clubístico, não quero acrescentar mais uma metáfora futebolística, tal qual as que as campanhas gostam de usar. A associação aqui não se refere à camiseta amarela usada por Flávio para votar, às bandeiras vermelhas nas esquinas ou às verde-amarelas nas janelas, nem às frases de Lula no discurso pós-derrota (“perdemos o primeiro tempo”, “agora é prorrogação”, “sou bom de mata-mata”). É algo mais profundo. O pertencimento que a mídia chama de polarização virou Grenal – e escolho o clássico mais raiz não porque sou gaúcha, mas porque ele é reconhecido como o extremo da rivalidade no país.
Pensemos por um momento nos torcedores de futebol. Embora existam diferentes formas de torcer, com distinções importantes tanto nas práticas quanto na intensidade e nos modos de relação com o clube, aqui nos interessa considerar como “torcedor” aquele que acompanha seu clube de maneira apaixonada e duradoura. Nesse sentido, vale lembrar a conhecida formulação: “pode-se mudar de casa, de mulher (ou de homem), mas não se muda de time”.
O clube teve um passado racista, e você sabe disso? Não importa, é passado. Atualmente ele não o é. O clube teve dirigentes corruptos que o roubaram, teve quadros que colaboraram com ditadores e foi a favor de políticas maléficas à maioria de seus torcedores? O clube assina notas em favor das bets, quando se sabe que estão levando ao empobrecimento e até a suicídios? Não importa, a camiseta fala mais alto.
Na manhã pós-eleição, ouvi de um comentarista que “nada cola no Flávio”. Seu envolvimento com as milícias, com a rachadinha, com Vorcaro, com o imperialismo americano e, o ápice em um eleitorado moralmente conservador, seu envolvimento com prostitutas, festas orgiásticas e avião de luxo. Nada cola porque as pessoas não estão votando em Flávio. Elas são do time de Flávio. E de time não se muda. Não creio que Lula consiga um voto sequer entre os eleitores de Flávio com os argumentos sobre o que o seu governo fez pelo país e sobre o que ainda pode fazer, nem sequer explicando quem é Flávio e o que pode vir a fazer. Eles já sabem. E Lula sabe que eles sabem. Quando apela a levar às urnas quem se absteve, está pensando no eleitor do seu próprio time que ficou em casa, ou, no máximo, naquele que ainda não foi capturado por um dos lados, que ainda não tem um pertencimento.
O pertencimento clubístico é um sentimento que precisa ser analisado para que se entenda o atual momento político brasileiro. No futebol, o pertencimento foi estudado. E se concluiu que ele envolve sociabilidade, fidelidade e honra – e, no passado, já envolveu distinção de status social. Alguns consideram que está relacionado com o conhecimento (é preciso entender os códigos do jogo para poder apreciá-lo e, aí, torcer). Não penso assim: em muitas famílias já se nasce torcendo. Mas há uma concordância de que ele é uma escolha imutável. E caracterizada pela alteridade: amar um clube é necessariamente odiar outro, o clube rival.
Infelizmente, como tantas vezes acontece na academia, os campos conceituais parecem limitados por cercas, e o que se estuda, se analisa e se aprende em um campo fica restrito a ele. E isso, inclusive, no interior de uma mesma disciplina: a antropologia rural de um lado, a antropologia urbana de outro, sem o necessário deslizamento dos conceitos. Foram muitos anos até que os achados da etnologia indígena se incorporassem a outros estudos, e tivemos muitos ganhos teóricos.
A passagem do sentimento de pertencimento clubístico ao pertencimento político pode não ser inédita, mas nunca foi vista nessa proporção. Arlei Damo¹, em um dos primeiros trabalhos sobre torcidas, usou como epígrafe uma citação de Carlos Drummond de Andrade² em que compara o pertencimento a partidos ao pertencimento a clubes, apontando que se observa, não raramente, no primeiro caso, a troca de um partido por outro, mas não de um clube de futebol. Fosse vivo, Drummond teria que rever essa consideração, pois, hoje, como com os clubes, também não se troca um partido por outro. E, nesses novos tempos, não é nem mais o partido o que conta: é o nome, defendido com um amor incondicional tão semelhante ao que se tem pelo clube do coração. Um sentimento que nos integra na legião de torcedores identificados com o nome. Esperemos que, como no futebol, os novos campeonatos alternem os vencedores de agora. E, quem sabe, no futuro, se deixe de sentir a política como se vive o futebol.
P.S.: Este texto foi escrito sem o auxílio de IA. Desculpem a ausência de citações a colegas que estudaram torcidas. É a pressa. Mas estão presentes no espírito.
Sobre a autora:
Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
RIAL, Carmen. Futebol, Lula e Flávio: torcedores na política. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 49, 2026.
Os textos de Carmen Rial trazem entrelaces entre política e futebol a partir de diferentes dimensões desse fenômeno. Para ler outra análise da autora, acesse: A morte na Copa: derrota e elaboração do luto no futebol.
¹ DAMO, Arlei Sander. Para o que der e vier: o pertencimento clubístico no futebol brasileiro a partir do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e seus torcedores. 1998. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1998.
² “A estética do torcedor é inconsciente; ele ama o belo através de movimentos conjugados, astuciosos e viris, que lhe produzem uma sublime euforia, mas se lhe perguntam o que sente, exprimirá antes uma emoção política. Somos fluminenses ou vascos pela necessidade de optar, como somos liberais, socialistas ou reacionários. Apenas, se não é rara a mudança do indivíduo de um para outro partido, nunca se viu, que eu saiba, torcedor de um clube abandoná-lo em favor de outro” (ANDRADE, Carlos Drummond de. Quando é dia de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 20).
Futebol, Lula e Flávio: torcedores na política © 2026 by Carmen Rial is licensed under CC BY-NC 4.0




Eu me peguei pensando nisso mesmo ontem, quando ouvi os "chupa" nas janelas. Semana passada, conversei com um eleitor do 22 que se surpreendeu com uma oposição não provocativa que eu fiz. Parece que se lembrou (e ficou pensativo) que a lógica da eleição não é a do futebol de clubes. Talvez a comparação possa ser com debates internos no meu clube pra decidir qual técnico vai nos ajudar mais. Se bem que mesmo nesse caso, já vejo divisões internas nas torcidas gerarem o desejo pela derrota: o famoso "preferir ter razão a vencer".
Um segundo comentário: aproximações e empréstimos analíticos e conceituais entre as áreas são formas excelentes de oxigenar o pensamento!
Muito boa a relação com o pertencimento clubístico, lembrei de outro texto ou aprsentação sua, comentando sobre a idolatria aos jogadores, independente do clube em que estejam jogando, fãs os seguem e trocam de camisetas e clubes - o mercado da bola agradece. Tal qual os políticos da direita brasileira trocam facilmente de partido, já foi o 17, o 22 amanhã não sabemos. Abraço Thaís