Futebol brasileiro de cegos: pentacampeão paralímpico pouco conhecido
- INCT Futebol
- 5 de jun.
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Wagner Xavier de Camargo (Unicamp/INCT Futebol)
No texto abaixo, o autor apresenta o futebol de cegos e discute como as atletas mulheres
ainda enfrentam barreiras para praticar esse esporte.

Quando a bola rola, ouve-se um barulho de chocalho em ritmo constante. Parece brinquedo de criança, mas é diferente. E, no silêncio da quadra, o foco na bola é total. Trata-se do futebol de cegos, um dos esportes disputados por jogadores com deficiência visual, criado no Uruguai (Pérez, 1994).
Sim, cegos também jogam bola. Mais que isso: há jogos oficiais, campeonatos inteiros, ligas nacionais e muitas competições internacionais do “futebol de cegos”, como é chamado. Cada equipe é composta por um goleiro e mais quatro jogadores (Morato, 2007). Há, ainda, o guia (ou chamador), um “sexto homem” que não joga em quadra, mas tem a função de orientar atletas em suas jogadas (CBDV, 2026).
Uma curiosidade é que a bola do futebol de cegos tem guizos internos e, durante muitos anos, foi costurada à mão pelos presidiários em várias cadeias brasileiras. Os jogadores cegos devem jogar vendados para equiparação de vantagem entre quem enxerga algum resíduo e quem não vê nada (CBDV, 2026). Eles pedem silêncio total na quadra para ouvir onde a bola está e acompanhar as jogadas – algo que desperta e prende a atenção de quem assiste.
Segundo professoras e professores de orientação e mobilidade para pessoas com cegueira e deficiência visual, já desde os anos 1950, o futebol era intensamente desenvolvido dentro dos internatos e institutos de formação específica, como o Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, ou o São Rafael, em Belo Horizonte (Morato et al., 2011).
Recentemente, entre 22 e 24 de maio de 2026, ocorreu a 2ª edição da Liga Nacional de Futebol de Cegos, organizada pela Confederação Brasileira de Desportos para Cegos (CBDV) e patrocinada pelas Loterias Caixa. Foi só a I Etapa do ano, na qual se reuniram as equipes da elite da modalidade no país. No calendário online da CBDV, pode-se encontrar as demais etapas que ocorrerão. Serão, ao todo, 5 etapas e uma final, que acontecerá no início de dezembro.
A primeira vez que conheci o futebol de cegos foi num despretensioso sábado à tarde, nos idos de 1996. Um amigo cego me chamou para ajudar seu grupo de colegas, e fiquei surpreso quando, ao chegar, me pediram para ser goleiro de um dos times. Digo que não consegui defender nem uma pequena porcentagem dos chutes daqueles atletas: levei tanto frango, entre as pernas, sobre a cabeça e mesmo nos cantos dos gols, que rapidamente percebi que enxergar ali não se configurava como vantagem.
Na década de 1990, os goleiros costumavam ser pessoas com deficiência visual e, dado o número de acidentes que os tornavam cegos totais, logo a Federação Internacional de Esportes para Cegos (IBSA) mudou a regra da modalidade, exigindo que apenas pessoas videntes (ou sem deficiência visual) pudessem ser goleiros (Henrique, 2006). Com o passar do tempo, também se sentiu a necessidade de inserir a figura do guia/chamador para melhorar a orientação espacial. Tal mudança ofereceu ao futebol um potencial legado inclusivo: cegos e não cegos precisariam atuar juntos para uma partida acontecer.
O Brasil entrou na rota internacional do futebol de cegos em 1998. Com a organização e planejamento da hoje extinta Associação Brasileira de Desportos para Cegos (ABDC), o país foi sede do I Campeonato Mundial de Futebol de Cegos e Deficientes Visuais (I World Championship for the Blind and Visually Impaired). Eu atuei na secretaria executiva desse evento, junto a um grupo organizador mais amplo, liderado por Vital Severino Neto, presidente da ABDC e do Comitê Organizador dos Jogos. Nessa competição, a seleção nacional sagrou-se campeã pela primeira vez (Camargo, 1999).
Mas foi em 2004, nos Jogos Paralímpicos de Atenas, que o futebol de cegos ganhou o status paralímpico. Também foi naquela ocasião que o Brasil conquistou uma inédita medalha de ouro, com o placar de 3 a 2 sobre a Argentina. Lembro-me do nervosismo ao assistir à partida como se fosse final de Copa do Mundo de Futebol. Ao apito final, todos corremos para o alambrado a fim de abraçar aqueles atletas. Não tinha sido fácil a campanha até ali.
Nos Jogos Paralímpicos subsequentes (2008 em Pequim, 2012 em Londres, 2016 no Rio de Janeiro e em 2021 em Tóquio), o selecionado nacional igualmente garantiu o ouro e alcançou a marca histórica de ser o único país pentacampeão do futebol de cegos nos cinco continentes. O maior jogador brasileiro da história é Ricardo Steinmetz Alves, conhecido como Ricardinho. Ele participou de todas as edições dos Jogos Paralímpicos até Paris 2024.
O desafio do futebol de cegos hoje nem é adquirir mais status de esporte respeitado, nem obter mais títulos, seja em Mundiais da modalidade ou em Jogos Paralímpicos. A modalidade precisa vencer as estruturas patriarcais e machistas e aceitar bem as atletas cegas que querem jogar bola. Em fins de 2024, participei de um movimento liderado por algumas futebolistas cegas, dentre elas Geisa Farini, na busca por espaço no futebol de homens cegos.
Geisa participou do I Encontro INCT Estudos do Futebol Brasileiro, em agosto de 2024, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Ela falou sobre os desafios que atletas mulheres têm na prática do esporte e de que forma o futebol, como uma opção legítima ainda não oferecida naquele momento, poderia mudar vidas.
Os insistentes protestos delas funcionaram e, atualmente, a CBDV organiza, em seu calendário anual, sistemáticos campings de treinamento de mulheres cegas no futebol. Sobre elas e seu projeto político, falarei em outro momento.
Neste texto, a “bola da vez” foi o futebol de cegos, uma modalidade adaptada, que ganhou nível paralímpico, porém é desconhecida. Ela continua sendo a vitrine de inspiração para crianças cegas, meninos e cada vez mais meninas, em todo o país. E, de todos os seus títulos, talvez o mais difícil seja o de se tornar uma realidade permanente para as jogadoras cegas. Por este e outros desafios, longa vida a este futebol e à sua trajetória.
Referências
CAMARGO, Wagner Xavier. O universo desportivo de cegos e deficientes visuais: uma interpretação. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas, 1999.
CBDV – Confederação Brasileira de Desportos de Deficientes Visuais. Regras. 2026. Disponível em https://www.cbdv.org.br/modalidades/futebol-de-cegos/regras. Acesso em: 3 jun. 2026.
HENRIQUE, André Luís Lima. Futebol de cinco para deficientes visuais: formações e variações táticas. Monografia (Graduação). Faculdade de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas, 2006.
MORATO, Marcio Pereira. Futebol para cegos (futebol de cinco) no Brasil: leitura do jogo e estratégias tático-técnicas. Tese (Doutorado). Faculdade de Educação Física. Universidade Estadual de Campinas, 2007.
MORATO, Marcio Pereira et al. A mediação cultural no futebol para cegos. Movimento, v. 17, n. 4, p. 45-63, 2011.
PÉREZ, Juan Carlos (Org.). Deportes para minusválidos físicos, psíquicos y sensoriales. Comité Olímpico Español, 1994.
Sobre o autor
Wagner Xavier de Camargo é antropólogo e se dedica a pesquisar corpos, gêneros, sexualidades e deficiências no contexto das práticas esportivas. É pesquisador do Centro de Pesquisa e Inovação em Equidade, Educação Física Inclusiva e Esporte Paralímpico (Unicamp). Também é coordenador da linha de pesquisa “Futebol de mulheres, de indígenas, paralímpico e LGBTQIA+”, do INCT Futebol.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
O autor deste texto também já publicou um ensaio fotográfico sobre futebol de cegas no Bate-Pronto. Se quiser conferi-lo, acesse: Futebol de cegas e a luta pela igualdade de gênero.
Futebol brasileiro de cegos: pentacampeão paralímpico pouco conhecido © 2026 by Wagner Xavier de Camargo ( is licensed under CC BY-NC 4.0




Precisamos de mais inclusão no esporte e esse é um excelente exemplo que muitos atletas podem ir muito além das quadras independentemente das suas limitações.
É sempre uma aula. Bom demais voltar a ler seus textos. Daniel Voltan
Excelente texto! De caráter informativo e altamente relevante, ao mesmo tempo, me fez sentir dentro da própria quadra com um aspecto narrativo do jogo. Que possamos ver em quadra o "futebol de cegas" conquistar a visibilidade que tanto merece!