Copa do Mundo de Futebol Masculino e a trombeta do trunfo ou do fracasso
- INCT Futebol
- 11 de jun.
- 9 min de leitura
Daniel Machado da Conceição (INCT Futebol)
Cristiano Mezzaroba (INCT Futebol)
No texto abaixo, os autores questionam a legitimidade de os Estados Unidos sediarem uma Copa do Mundo em meio às ações contrárias aos direitos humanos empreendidas pelo governo Trump.

Alô, alô Marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar, estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down the high society
(Elis Regina)
A Copa do Mundo de Futebol masculino em 2026 deve ser reconhecida como a “Copa da Trombeta”, isto é, um estrondo. Trocadilho esse com base no significado da palavra e sobrenome do presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Donald Trump.
Um homem de negócios, que – mesmo condenado criminalmente por ocultar pagamentos à atriz pornô Stormy Daniels em 2024, pouco antes de ser “premiado” com seu segundo mandato –, com base na ética empresarial, assume o governo pela segunda vez de uma nação imperialista e que observa sua influência hegemônica perder força enquanto ela se desloca para o oriente distante, a China.
Nosso destaque à trombeta tem relação direta com as ações políticas e a visão ideológica adotada por Trump em suposta defesa do seu país. Os discursos sobre a política migratória, restrição de vistos para viagens no território estadunidense, taxação de mercadorias produzidas em outros países, saída de acordos internacionais que envolvem a garantia de direitos humanos e ao meio ambiente, ataque a instituições democráticas nacionais e o apoio e estímulo à invasão de territórios de outros países em discurso e com ações militares passaram a ser normalizados pela comunidade global. Isso tudo ao lado de um cenário interno tensionado com o choque do resultado econômico que impacta a população e os valores ideológicos, colocando em xeque a moral liberal e progressista presente no documento de independência do país de 1776.
A antiga frase que indica o “sonho americano [estadunidense]” foi substituída pela expressão “Faça a América Grande Novamente” – MAGA: Make America Great Again. O sentido observado nas duas é muito diferente e mostra o momento atual de uma nação que deixa de ser referência (política, econômica, militar, científica, cultural) e procura desesperadamente manter seu lugar de privilégio, à base da força, da chantagem e de produção de mentiras e conflitos diplomáticos constantes. A trombeta do fracasso carrega a realidade de guerras e conflitos transnacionais e geopolíticos que contradizem os ideais de confraternização que um megaevento como a Copa do Mundo de Futebol masculino permite, e cujo país recepcionará atletas, delegações, torcedores(as) e a imprensa mundial.
Você, leitor e leitora, que chegou até aqui, deve estar se perguntando: mas o que isso tem a ver com futebol e com a Copa de 2026? A questão que nos inquieta é o fato de a trombeta soar como trunfo ou triunfo, significando a exaltação do esporte (neste caso em específico, a modalidade do futebol masculino), seu uso como propaganda, entretenimento e celebração.
Mezzaroba, Mendes e Pires (2010) discutiram sobre o tema dos grandes eventos esportivos – como as Copas do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos – articulando a dimensão midiática e as representações compartilhadas na sociedade e na Educação Física. Uma dessas representações (senso comum) que aparecem nesses momentos é o discurso de que os jogos impactam quanto à “unificação dos povos”.
Assim, retomam o famoso discurso do Barão Pierre de Coubertin de que “o importante é participar” e constatam a importância desses megaeventos esportivos para a indústria midiática, pelo poder de aglutinar uma multidão de telespectadores que vão se tornando consumidores (de informações, de discursos, de narrativas, de ritualidades, de produtos etc.). Como possibilidade, destacam o enfrentamento ao “encantamento acrítico”:
Não se trata, simplesmente, de negar a existência de tais eventos ou de tais relações. [...] o que está em jogo é fazer uso deste encantamento que o esporte desperta em nós [...] tomar todas essas representações, ideias, símbolos e significados com um olhar mais crítico em relação ao que ocorre no mundo esportivo, e o que isso tudo tem a ver [com] a vida dos cidadãos (Mezzaroba; Mendes; Pires, 2010, p. 197)
Na página oficial da Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA), apresenta-se a Estratégia e Objetivos para o Jogo Global nos anos de 2023 a 2027¹. No topo da página, podemos ler a frase: “O futebol une o mundo”.
Uma contradição fica evidente, já considerando o megaevento que envolve os três países da América do Norte – México, Canadá e EUA – como símbolo de união. O modelo de governo estadunidense atua na contramão desse objetivo. A FIFA, para preservar esse ideal de união, possui em seu histórico a tomada de decisão que envolve a suspensão e exclusão de seleções nacionais de eventos organizados por ela.
Essa celebração mundial deve estar alinhada a um ideal de fraternidade e confraternização, um discurso muito pertinente para o esporte e sua capacidade de gerar emoções. A FIFA, entidade máxima que regula e regulamenta o futebol (soccer) jogado com os pés, como um ente transnacional, toma decisões contra federações (países) associadas, estabelecendo sanções e exclusões a “todos” que abertamente ferem os direitos humanos e promovem a guerra. Isto é, que promovem práticas que supostamente estão incompatíveis com os ideais do esporte. O quadro a seguir apresenta uma relação de países (seleções) impedidos de participar de eventos promovidos pela FIFA.
Quadro 1 – Motivações para seleções serem banidas de eventos organizados pela FIFA
País/seleção | Punição |
Espanha | Devido à Guerra Civil Espanhola, foi impedida de participar das eliminatórias para a Copa de 1938 |
Alemanha e Japão | Sanções pós-Segunda Guerra excluíram as duas seleções da Copa de 1950 |
África do Sul | Devido ao regime do apartheid entre 1961 e 1990, a seleção foi suspensa e depois banida pela entidade máxima do futebol |
Irã | Em 1986, desistiu de jogar após se recusar a mandar seus jogos em campo neutro durante a guerra entre o Irã e o Iraque |
Iraque | Devido a sanções da ONU e a instabilidades geopolíticas severas em seu território, foi ausência prolongada nos anos 1980 e 1990. |
Iugoslávia | Devido às Guerras Iugoslavas, foi suspensa em 1994 |
Rússia | Devido à invasão da Ucrânia, está suspensa de todas as competições da FIFA desde 2022 |
Fonte: Os autores (2026)
O quadro permite observarmos um histórico de guerras que inviabilizou a participação de seleções em mundiais organizados pela FIFA, desde tempos remotos até a atualidade. Lembremos que o futebol, como festividade, em certos momentos, teve o poder de parar guerras. O Santos FC, em 1969, com a presença do Pelé, fez com que as armas na Nigéria fossem colocadas de lado para a realização de um jogo. Em 2005, Didier Drogba, capitão da equipe da Costa do Marfim, solicitou o fim da guerra civil em seu país após a classificação da seleção para o mundial de 2006. Os revoltosos e as forças do governo atenderam ao pedido e voltaram a se estabelecer como um povo.
Os vários impactos das guerras pelo mundo também foram sentidos nas Copas do Mundo de Futebol, como nas edições de 1942 (não chegou a ter sede definida, apesar do interesse de Alemanha, Brasil e Argentina) e 1946 (que também não chegou a ser organizada), ambas devido às tensões da Segunda Guerra Mundial.
Futebol e guerras sempre estão imbricados, um exalta a união e celebração humana (estar com o outro, relacionar-se de forma festiva com culturas diferentes), enquanto a dimensão da guerra simboliza o extremo da competição que visa a exclusão e extermínio (literal apagamento ou aniquilamento do outro).
A Copa do Mundo de Futebol masculino realizada nos EUA no ano de 2026 abre uma brecha para a normalização e naturalização do ataque aos direitos humanos e à soberania de nações. Entretanto, não é um fato novo, pois em 1934, na Itália, a Copa aconteceu durante o governo fascista; em 1978, na Argentina, no auge de uma sangrenta ditadura militar; e, em 2022, no Catar, em meio a um regime que estabelece abertamente restrições de direitos humanos. O futebol, em todos esses momentos, foi utilizado abertamente pelos países como propaganda política e ideológica.
Lembremos, também, que a trombeta tocou alto e causou ruídos e incômodos no dia 5 de dezembro de 2025, quando ocorreu o sorteio dos grupos da Copa/2026, realizada em Washington, capital norte-americana. Sem critérios objetivos e de forma cínica – característica que marca nosso tempo presente – o presidente Trump foi condecorado com o Prêmio da Paz da FIFA – “O futebol une o mundo”, entregue pelo presidente da entidade, Gianni Infantino, alegando o reconhecimento pelos esforços diplomáticos e mediação de conflitos internacionais, que disparou:
– Quero agradecer a todos. O mundo é mais seguro agora. Os Estados Unidos não estavam muito bem há um ano, mas agora posso dizer que somos o país mais na moda e mais quente do mundo. Obrigado! (GE² 2025)
Interessante constatar, também, que não se vê, no interior do campo futebolístico, nenhuma posição de atletas, de dirigentes e técnicos sobre a complexa questão. Embora não se trate de uma análise específica sobre a Copa do Mundo de Futebol, e sim sobre os Jogos Olímpicos, Caetano e Santos (2025) realizaram uma pesquisa intitulada: “Os Jogos Olímpicos são (a)políticos? A tensão entre a neutralidade, ativismo de atletas e a cobertura midiática”, procurando compreender como a mídia brasileira repercutiu protestos de atletas nas Olimpíadas de Paris/2024, e como essas posições implicam em reflexões sobre esporte e aspectos sociopolíticos. Identificaram 5 protestos que envolveram conflitos geopolíticos, direitos civis e religião, e concluíram sobre a importância do ativismo esportivo dos atletas, como sujeitos políticos, ação que desafia a neutralidade política do megaevento esportivo.
Enquanto isso, a Copa de 2026 seguirá sendo realizada nos EUA. Poucas opiniões na mídia têm coragem de pautar ou comentar essa importante questão e a incoerência da FIFA, naquilo que nós, brasileiros, temos chamado de “passar pano” para um dos países anfitriões que deveria ser penalizado com a perda do direito de sediar o evento. A seleção do Irã, que inicialmente estaria sediada em Tucson, no Arizona, território norte-americano, a uma semana do início da Copa, devido às tensões e complicações na emissão dos vistos da delegação, decidiu hospedar-se na cidade de Tijuana, no México. Vai se deslocar, saindo do México e indo aos EUA, nos dias de seus jogos, e ao fim das disputas, regressando a Tijuana. Atletas do Iraque foram interrogados por 2 horas ao chegarem nos EUA. Cidadãos de alguns países que estarão na Copa, como o Haiti, são proibidos de entrar nos EUA. Como assim, FIFA? Ao começar a Copa, veremos o triunfo de Trump e o silenciamento da crítica sobre a situação?
Se essa grande e reconhecida entidade mundial fosse coerente com os valores que diz defender, deveria suspender a seleção dos EUA de participar da Copa, além de buscar uma reorganização definindo as cidades-sede apenas em territórios canadense e mexicano, apesar de todos os problemas que resultariam de tal forte decisão. Seria um recado ao mundo sobre os tais “valores esportivos” tão propalados por todos os agentes do campo esportivo, principalmente da imprensa/mídia, interessada na manutenção do interesse da população no consumo do futebol (a sua mercadorização e espetacularização) e na conscientização quanto ao respeito pela vida, pela democracia e por soberanias nacionais.
O selo da FIFA passa a ser uma chancela que coloca o futebol em um caminho que contradiz seu ideal de união e celebração, sendo superado pelo resultado econômico e financeiro. Bem-vindo ao futebol negócio, em que grandes marcas e governos nacionais se preocupam com o resultado do entretenimento e não com a garantia dos direitos humanos e união entre as nações. A trombeta está soando, e quem tiver ouvidos para escutar, que ouça!
Referências
CAETANO, Clarisse Silva; SANTOS, Doiara Silva dos. Os Jogos Olímpicos são (a)políticos? A tensão entre a neutralidade, ativismo de atletas e a cobertura midiática. In: Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte e Congresso Internacional de Ciências do Esporte, 24 nov., São Paulo. Anais…, São Paulo: CBCE, 2025. p. 1-7. Disponível em: https://www.cbce.org.br/evento/upload/5906/VF-5906-113015.pdf. Acesso em: 6 jun. 2026.
MEZZAROBA, Cristiano; MENDES, Diego de Sousa; PIRES, Giovani De Lorenzi. Grandes eventos esportivos, mídia e representações: possibilidades/responsabilidades para a Educação Física escolar. In: DANTAS JUNIOR, Hamilcar Silveira; KUHN, Roselaine; DANTAS RIBEIRO, Sérgio Dorenski (Orgs.). Educação Física, esporte e sociedade: temas emergentes. v. 4. São Cristóvão, SE: Editora da UFS, 2010. p. 185-206.
Sobre os autores:
Daniel Machado da Conceição é doutor em Educação e coordenador da linha de pesquisa “Clubes, formação, carreira e migração de futebolistas” (INCT Futebol/CNPq). Contato: danielmdac1@gmail.com.
Cristiano Mezzaroba é doutor em Educação e coordenador da linha de pesquisa “Mídias, torcidas e movimentos antirracistas no futebol” (INCT Futebol/CNPq). Contato: cristiano_mezzaroba@yahoo.com.br.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Ainda em torno das discussões sobre a Copa do Mundo, leia também o nosso texto sobre os debates envolvendo a convocação de Neymar, no texto Herói ou vilão? Neymar e o imaginário brasileiro de como criar ídolos.
¹ Conforme publicado no Globo Esporte (GE): https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/12/05/trump-vence-premio-da-paz-da-fifa-em-sorteio-da-copa-do-mundo-de-2026.ghtml. Acesso em: 6 jun. 2026.
² Disponível em: https://inside.fifa.com/strategic-objectives-2023-2027. Acesso em: 4 jun. 2026.
³ Conforme publicado no Globo Esporte (GE): https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/noticia/2025/12/05/trump-vence-premio-da-paz-da-fifa-em-sorteio-da-copa-do-mundo-de-2026.ghtml. Acesso em: 6 jun. 2026.




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