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A FIFA e a exploração econômica da Copa do Mundo: projeto de poder

há 1 dia
8 min de leitura

Marcelo Weishaupt Proni (Unicamp)


No texto abaixo, o autor reflete sobre a forma como a atual administração da FIFA vem conduzindo os interesses econômicos da entidade, demonstrando como a Copa do Mundo tem sido explorada enquanto fonte de receita.


“O futebol une o mundo” é o título dado aos Objetivos Estratégicos para o Futebol Global (2023-2027), da FIFA. Imagem ilustrativa criada com DALL-E
“O futebol une o mundo” é o título dado aos Objetivos Estratégicos para o Futebol Global (2023-2027), da FIFA. Imagem ilustrativa criada com DALL-E

Gianni Infantino tinha assegurada a sua recondução para um quarto mandato como presidente da Federação Internacional de Futebol (FIFA), em março de 2027. Mas, logo após a Copa do Mundo de 2026, ele passou a receber grande oposição de parte considerável das federações filiadas e outras associações futebolísticas. O estopim da crise foi a divulgação de um plano para criar a FIFA Forward Enterprise (FFE), uma empresa subsidiária com valor estimado em US$ 20 bilhões, que deveria centralizar a negociação dos direitos de transmissão, dos patrocínios e do licenciamento da Copa do Mundo (masculina e feminina) e do Mundial de Clubes. O plano previa a venda de uma participação minoritária (entre 20% e 30%) dessa empresa para arrecadar pelo menos US$ 4,2 bilhões.

 

A União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) afirmou em comunicado de 30 de julho de 2026:

 

A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. [...] As federações nacionais de todo o mundo enfrentam agora um ultimato: aceitar a apropriação irreversível das maiores competições de futebol ou arcar com as consequências. Não se trata de uma “decisão democrática”, mas sim de uma governação baseada na intimidação – um ato de coação indigno de uma instituição a quem foi confiada a gestão do futebol mundial. [...]

 

No momento em que os investidores externos adquirem participações nas competições da FIFA, o futebol muda para sempre. O retorno comercial se torna uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores se transformam em uma pressão diária. A partir desse momento, todas as decisões relativas ao calendário internacional, aos formatos das competições e ao futuro do futebol deixam de ser orientadas pelo que melhor serve ao esporte, passando a ser orientadas pelo que melhor serve aos acionistas.

 

Este modelo não tem lugar no futebol mundial. O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo principal dever é maximizar o retorno financeiro. Nem os interesses das federações nacionais, das ligas, dos clubes, dos jogadores e dos adeptos podem ficar subordinados aos retornos dos investidores. O futebol não pode hipotecar o seu futuro em troca de ganhos financeiros. [...]

 

Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos.

 

Diante de forte resistência global, ameaça de boicote da UEFA e possibilidade de crise institucional, Infantino engavetou o plano de associar a FIFA a investidores privados para antecipar receitas futuras. E reafirmou seu compromisso com o fortalecimento da entidade e de suas filiadas.

 

A FIFA é uma entidade sem fins lucrativos, uma associação internacional autorreguladora, que rege três modalidades esportivas: o futebol (de campo), o futsal e o futebol de areia. Não tem donos ou acionistas, e seu estatuto é baseado em um regime de governança democrático. O presidente da entidade é eleito para um mandato de quatro anos pelo Congresso da FIFA, composto por 211 associações filiadas. É esse Congresso que aprova ou veta os planos e as ações da presidência.

 

As fontes de receita da FIFA derivam da exploração econômica dos torneios que ela organiza, em especial a FIFA World Cup (versão masculina), que proporcionou receitas bilionárias nas últimas décadas. Por ser proprietária de um ativo altamente valorizado na indústria do entretenimento, precisa ser administrada de forma empresarial. Ao longo do tempo, suas estratégias de marketing ousadas foram bem-sucedidas e, em adição, expandiram seu poder econômico.

 

A ambiguidade de ser uma entidade sem fins lucrativos e, ao mesmo tempo, adotar estratégias para maximizar receitas acarreta um dilema: a prioridade é fortalecer uma gestão democrática orientada para o desenvolvimento do futebol de modo inclusivo e ético, nos cinco continentes, ou potencializar uma gestão empresarial voltada para a concentração de riqueza financeira e o enriquecimento dos seus dirigentes e parceiros? É possível conciliar esses dois caminhos?

 

Tal dilema não parece causar desconforto entre os dirigentes ligados à entidade. Provavelmente, a trajetória da FIFA nas próximas décadas vai aprofundar a atual tendência: ampliação do número de seleções participantes da Copa do Mundo, valorização do espetáculo, diversificação de receitas e elevação dos lucros. Mas, ao mesmo tempo, é necessário transmitir a imagem de compromisso com a democratização do esporte (tanto de sua prática quanto de seu consumo) e com valores éticos universais. Na verdade, não se trata de uma ruptura de trajetória. De certa forma, o projeto de poder formulado por Infantino é inspirado em ensinamentos de seus antecessores.

 

A transformação da Copa do Mundo em uma fonte segura de receitas crescentes começou após a eleição de João Havelange para a presidência da FIFA, em 1974. Durante a era Havelange, que se estendeu até 1998, o torneio se transformou em megaevento. O número de seleções classificadas para a Copa passou de 16 em 1978 para 24 em 1982, depois para 32 em 1998. Em 1978, de forma pioneira, a Coca-Cola investiu US$ 8 milhões para patrocinar a Copa na Argentina. Em 1987, os direitos de transmissão de três edições do torneio (1990, 1994 e 1998) foram negociados por US$ 240 milhões. A Copa de 1994, realizada em um país, na época, sem tradição futebolística (Estados Unidos), foi resultado de um ambicioso projeto de marketing e propiciou um faturamento total de US$ 235 milhões e um “excedente de receitas” de US$ 100 milhões. A Copa de 1998 (França), por sua vez, alcançou um faturamento total próximo de US$ 500 milhões, novamente com lucro bruto de US$ 100 milhões. Portanto, a FIFA alcançou, na década de 1990, um patamar orçamentário equivalente ao de uma empresa de grande porte.

 

A audiência televisiva acumulada (considerando todos os programas de TV que transmitiram os jogos ou repercutiram o torneio) mais do que dobrou entre 1986 e 1994. Assim, a valorização do espetáculo foi impressionante: em 1996, os direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006 foram negociados por US$ 2,2 bilhões. Pouco depois, o número de telespectadores do jogo final da Copa de 1998 foi estimado em 1,7 bilhão de pessoas, abrangendo centenas de países.

 

Também em 1996, o Japão e a Coreia do Sul foram escolhidos como os países-sede da Copa de 2002. Pela primeira vez, o torneio seria disputado na Ásia, um mercado consumidor em expansão, e seria sediado por dois países vizinhos.

 

No período em que Joseph Blatter foi presidente (1998-2015), as receitas da FIFA continuaram crescendo de modo expressivo. O faturamento da entidade saltou de US$ 1,6 bilhão no ciclo 1999-2002 para US$ 5,7 bilhões no ciclo 2011-2014. O balanço patrimonial de 2014 apontou um lucro operacional de US$ 338 milhões e reservas financeiras de US$ 1,5 bilhão.

 

Note-se que a Copa da Alemanha, em 2006, foi a primeira a ser legalmente transmitida em larga escala via internet de alta velocidade; a partir da Copa de 2010, na África do Sul, a transmissão ao vivo por streaming foi disponibilizada para muitas partidas; e na Copa de 2014 a transmissão online gratuita já estava bastante difundida.

 

Em razão do aumento crescente dos gastos públicos exigidos para um país atender às exigências da FIFA referentes às arenas (gramado, vestiários, iluminação, sala de imprensa, segurança e conforto dos torcedores) e à infraestrutura do megaevento (hospedagem, transporte, comunicação, centro de treinamento, vigilância, suporte aos dirigentes, facilidades para turistas), tornou-se necessário justificar tais gastos com a promessa do “legado” do megaevento. Tanto a Copa de 2010, na África do Sul, como a de 2014, no Brasil, exigiram grandes investimentos para assegurar a qualidade do espetáculo – de acordo com o novo “padrão Fifa” – e para potencializar a rentabilidade do torneio.

 

Em paralelo, a FIFA criou outras fontes de receitas. Em 2000, no Brasil, foi disputado o primeiro torneio mundial de clubes organizado pela entidade. Mas a falência da ISL (empresa de marketing esportivo responsável pelos contratos comerciais da FIFA), em 2001, interrompeu o projeto. Em 2005, a FIFA iniciou um novo modelo para esse torneio, com a participação dos campeões das confederações continentais e de um representante do país-sede (inicialmente, no Japão).

 

Os três mandatos de Gianni Infantino (2016-2027) deram continuidade à estratégia de expansão e diversificação de receitas. O faturamento total da FIFA aumentou para US$ 6,4 bilhões no ciclo 2015-2018 e depois para US$ 7,6 bilhões no ciclo 2019-2022. Mas o grande salto veio com a decisão de ampliar para 48 o número de seleções participantes da Copa e a escolha dos Estados Unidos, Canadá e México para sediarem a edição de 2026. A FIFA projetava inicialmente um faturamento de US$ 11 bilhões para o ciclo 2023-2026 (US$ 9 bilhões com a Copa), depois elevou essa projeção para US$ 13 bilhões e acaba de anunciar que seu faturamento atingiu aproximadamente US$ 15 bilhões.

 

A FIFA planejou investir US$ 3,8 bilhões na organização da Copa de 2026. A previsão era que os direitos de transmissão do megaevento renderiam quase US$ 4 bilhões, os direitos de marketing e licenciamento, quase US$ 2 bilhões, a venda de ingressos e “hospitalidade” (matchday), mais de US$ 3 bilhões. Posteriormente, constatou-se um crescimento maior das receitas, principalmente por causa da publicidade na pausa para hidratação e da elevação dos preços dos ingressos.

 

Convém mencionar que a valorização do espetáculo foi impulsionada pela introdução de inovações tecnológicas. A Copa do Mundo de 2018, na Rússia, marcou a estreia do VAR (árbitro assistente de vídeo) para auxiliar a arbitragem e corrigir possíveis erros. E foram disponibilizadas plataformas de dados para análises de desempenho, com uso de GPS e big data. A Copa de 2026 trouxe novo salto tecnológico, integrando inteligência artificial avançada, sensores milimétricos de movimento e ferramentas imersivas de transmissão. O público no estádio e os telespectadores puderam ver imagens captadas pela câmera acoplada no árbitro e conferir a avaliação semiautomática da condição de impedimento ilustrada com avatares 3D dos jogadores.

 

Também é importante mencionar que, em 2025, foi realizada a primeira edição do novo Mundial de Clubes da FIFA, nos Estados Unidos, com um faturamento bruto de US$ 2 bilhões, que permitiu a distribuição de US$ 1,1 bilhão em premiações. O torneio passou a ser quadrienal e a contar com a participação de 32 equipes (reproduzindo o modelo anterior da Copa do Mundo de seleções).

 

O balanço patrimonial da FIFA indica que, no final de 2024, seu ativo total havia atingido US$ 6,1 bilhões, enquanto a geração de caixa alcançava mais de US$ 4,7 bilhões (77% do ativo total). Essa sólida posição de liquidez permitia investir no “desenvolvimento do futebol” sem comprometer sua estabilidade financeira. Por sua vez, as reservas financeiras (lucros retidos) estavam em quase US$ 3 bilhões, enquanto o índice de patrimônio líquido (porcentagem dos ativos financiados por capital próprio em vez de terceiros) estava em 48%, comprovando a situação financeira saudável e resiliente da FIFA e uma competente “gestão de riscos”. Certamente, tanto as reservas financeiras como o patrimônio líquido atingiram níveis ainda mais altos em 2026, indicando uma ampliação na capacidade de financiar projetos com as receitas obtidas.

 

Os enormes superávits orçamentários devem ser distribuídos entre as confederações continentais e as federações nacionais para financiar programas de educação e de desenvolvimento do futebol nos respectivos países. Para o ciclo 2023-2026, estava prevista a destinação de US$ 3,9 bilhões para essas finalidades. Note-se que 84% desse montante estavam reservados para dois programas criados por Infantino: o FIFA Forward Programme e o Football Development Fund, com foco em projetos de longo prazo, como a construção de infraestruturas (centros de treinamento e campos), o apoio a seleções de base e a estruturação do futebol de mulheres, mas também oferecendo financiamento para suporte administrativo, capacitação em gestão e organização de competições locais.

 

Evidentemente, quem controla a distribuição do dinheiro tem a possibilidade de definir prioridades, exercer forte influência política e se manter no topo das respectivas hierarquias do sistema federativo. Ou seja, tal capacidade de produção de receitas – a Copa do Mundo explorada como “mina de ouro” – confere ao presidente da FIFA e a seus aliados mais próximos uma expressiva acumulação de poder.

 

Sobre o autor:

 

Marcelo Weishaupt Proni é Professor Titular no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É mestre em Ciências Econômicas e doutor em Educação Física pela Unicamp.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

PRONI, Marcelo Weishaupt. A FIFA e a exploração econômica da Copa do Mundo: projeto de poder. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 47, 2026.

 

Este é o primeiro de dois artigos publicados sobre o tema pelo autor no Bate-Pronto. Para ler o segundo, acesse: A FIFA e a exploração econômica da Copa do Mundo: objetivos estratégicos.


 
 
 

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