A FIFA e a exploração econômica da Copa do Mundo: objetivos estratégicos
Marcelo Weishaupt Proni (Unicamp)
No texto abaixo, o autor demonstra como a atual gestão da Fifa está orientada para a maximização dos ganhos financeiros da entidade, apontando as formas como a Copa do Mundo de 2026 foi estruturada para visar o maior retorno financeiro possível.

Desde a década de 1980, a FIFA deixou de ser uma simples federação esportiva e, progressivamente, passou a atuar como uma corporação transnacional, capaz de gerar receitas bilionárias com suas operações – em especial, a exploração econômica da Copa do Mundo. Formalmente, a FIFA não é uma Sociedade Anônima, mas sua gestão financeira tem se baseado na máxima do mercado de capitais: o objetivo é a expansão contínua dos lucros para a “maximização do valor aos acionistas”. Recentemente, seu presidente apresentou uma proposta para a criação de uma S.A. que implicava estipular um valor de mercado para a FIFA e dar legitimidade a essa gestão financeirizada.
A reação contra tal proposta evidencia a preocupação com um “ponto de mutação”: a gestão democrática vai se esvaziando, os projetos de desenvolvimento do futebol se tornam instrumentos de cooptação, a geração de receitas deixa de ser um meio para se tornar um fim, e os torneios passam a ser organizados para ampliar os mercados consumidores, sem levar em conta a opinião dos protagonistas do espetáculo. É possível reverter essa mutação?
A FIFA adota formalmente regras de “compliance” para garantir que suas operações sejam legais, éticas e seguras, assim como para evitar fraudes, proteger dados pessoais, combater a corrupção e manter sua boa reputação. Mas, embora seus estatutos estabeleçam uma governança democrática, a falta de transparência nos contratos firmados e na execução orçamentária (inclusive com auditoria superficial) e a cultura corporativa autoritária (no que se refere às tomadas de decisão) têm sido muito criticadas. Além disso, também incomoda a visível influência de atores políticos em assuntos da FIFA, como ocorreu com a subordinação de Infantino aos comandos de Trump.
Oficialmente, a FIFA alega que sua missão é organizar mais e melhores competições e promover o desenvolvimento contínuo do futebol, com igualdade de condições em todos os países. Ela afirma que tem forte compromisso com a responsabilidade social (respeito aos direitos humanos e combate ativo à discriminação e ao racismo) e com a sustentabilidade ambiental (diretrizes para a construção de arenas e realização de torneios). E assegura: “O futebol une o mundo”.
No documento Strategic Objectives for the Global Game: 2023-2027, são apresentados três pilares centrais de sua atuação: a) crescimento global de competições (remodelação de torneios e formato expandido da Copa do Mundo); b) investimento financeiro sólido (repasse de bilhões de dólares em fundos de solidariedade para apoiar diretamente as atividades cotidianas das federações nacionais); c) profissionalização do esporte (aprimoramento de critérios técnicos, de governança e de fair play financeiro em âmbito global). E são detalhados seus 11 objetivos estratégicos:
1. Revisar os Estatutos da FIFA e aprimorar nossos regulamentos.
2. Implementar a reforma do sistema de transferências e tratar de questões relacionadas à governança.
3. Promover o envolvimento dos torcedores, inclusive por meio do eFootball, e investir em tecnologia digital e Inteligência Artificial para as próximas gerações.
4. Organizar mais torneios juvenis em várias faixas etárias.
5. Focar no desenvolvimento de jogadores, treinadores e árbitros, bem como nas Academias da FIFA.
6. Concentrar-se nas responsabilidades sociais, em particular nos direitos humanos e na agenda do clima.
7. Oferecer às Federações-Membro da FIFA novas oportunidades de partidas internacionais para suas seleções nacionais e para clubes [da elite].
8. Realizar a melhor Copa do Mundo Feminina da FIFA de todos os tempos em 2023 para ajudar a impulsionar um maior desenvolvimento do futebol feminino.
9. Garantir que a Copa do Mundo da FIFA seja o maior espetáculo do planeta em 2026.
10. Organizar uma nova Copa do Mundo de Clubes da FIFA em 2025, com 32 equipes.
11. Alcançar uma receita mínima de 11 bilhões de dólares: um novo recorde incrível!
Os objetivos 9, 10 e 11 explicitam a estratégia de potencializar a exploração econômica da Copa do Mundo, ampliar as fontes de receitas da FIFA e atingir um patamar de faturamento mais elevado no ciclo 2023-2026. De fato, “o maior espetáculo do planeta em 2026” contou com a presença dos principais astros da modalidade e foi um grande sucesso de marketing.
A Copa do Mundo de 2026 foi disputada ao longo de 39 dias em três países (16 cidades-sede), utilizou 48 centros de treinamento e mobilizou 645 instalações oficiais. As 48 seleções inscreveram 1.248 jogadores. Com 104 partidas e 6,8 milhões de ingressos vendidos, o público total nos estádios foi bem maior do que em outras edições. Quase 300 mil profissionais credenciados deram suporte à realização do torneio. Um megaevento esportivo desse porte precisou do suporte de inúmeras operações logísticas e organizacionais.
Houve grandes espetáculos musicais na abertura e no encerramento, como vinha sendo feito desde 1990. As três cerimônias de abertura tiveram a participação de artistas de diferentes nacionalidades, como Shakira, Anitta, Katy Perry e Andrea Bocelli. A grande novidade foi a realização de um show múltiplo no intervalo do jogo final, com formato inspirado no Super Bowl (principais atrações: Madonna, Shakira, BTS e Justin Bieber). Os artistas e músicos doaram seus cachês para o “Fundo Global de Educação e Cidadania”, criado com o objetivo de expandir o acesso ao esporte e à educação de qualidade para crianças em todo o mundo. A meta era arrecadar US$ 100 milhões para o fundo, incluindo uma taxa sobre a venda dos ingressos da final.
Outra novidade foi a precificação dos ingressos pelo sistema “variable pricing”. O modelo adotado pela FIFA aboliu os valores tabelados e introduziu um sistema de venda semelhante ao de passagens aéreas: quanto maior a procura por um jogo, mais caro fica o valor do ingresso. Em consequência, os valores foram inflados; e só a venda de ingressos para a final da Copa entre Espanha e Argentina rendeu mais de US$ 800 milhões. De acordo com Infantino, a justificativa para essa elitização é a necessidade de investir o dinheiro no crescimento do esporte por meio das academias da FIFA. Ele também ressalta a decisão de manter a transmissão gratuita na televisão aberta e em canais da internet (para ampliar a audiência e democratizar o acesso virtual ao megaevento).
O sucesso econômico obtido em 2026 estimulou a FIFA a estudar a possibilidade de expandir o número de participantes para 64 seleções já na próxima Copa do Mundo, a ser disputada em 2030 na Espanha, em Portugal e no Marrocos. Novamente, devem ser escolhidas pelo menos 16 cidades-sede. Se isso se confirmar, talvez a Arábia Saudita tenha que buscar parceiros para sediar a Copa de 2034.
Há, portanto, muitas evidências de que o planejamento estratégico da FIFA e seu modelo de gestão estão direcionados para potencializar a exploração de suas fontes de receitas e maximizar a distribuição de dividendos. Embora o discurso da entidade continue afirmando a prioridade de uma gestão democrática orientada para o “desenvolvimento do futebol” (conceito definido por ela própria), a FIFA espelhou um modelo de gestão empresarial voltado para a concentração de riqueza financeira (e enriquecimento dos seus dirigentes). Coloca-se uma questão retórica: a predominância de uma racionalidade capitalista é compatível com a defesa de valores éticos, o compromisso com a responsabilidade social e a adoção de métodos igualitários na distribuição dos lucros?
Certamente, a FIFA não é uma entidade pública e não tem um “regime de governo” verdadeiramente democrático, pois os mecanismos de representação e deliberação excluem os atletas e marginalizam os clubes de futebol. E, embora o futebol seja entendido como um patrimônio cultural universal e uma atividade de interesse público na maioria dos países, são muito claros os sinais de privatização dos torneios – e o próximo passo pode ser um grau mais avançado de financeirização da gestão.
A FIFA tem um modelo de gestão inspirado na “governança corporativa”, com algumas diferenças: os gestores estão subordinados a uma “assembleia de acionistas” (o Congresso), porém, o poder de voto não é proporcional ao número de ações ou quotas detidas (nesse ponto, segue o princípio democrático: “uma federação, um voto”). O objetivo principal da gestão financeirizada é oferecer rendimentos elevados para os acionistas (as confederações e as federações nacionais) e submeter os interesses das demais partes envolvidas (em especial, os clubes, os jogadores e os torcedores) por meio de normas burocráticas, métodos de controle de riscos e otimização da eficiência. Mas, ao mesmo tempo, a governança corporativa exige um tratamento justo e equitativo para todos os acionistas, proteção dos interesses dos minoritários e transparência na prestação de contas (accountability), permitindo que os membros do Conselho possam fiscalizar a Diretoria Executiva e opinar sobre os objetivos estratégicos e a execução do orçamento.
Em março de 2027, o Congresso da FIFA vai reconduzir Infantino ou eleger um novo presidente para definir as estratégias e conduzir os projetos (e negócios) da entidade, para preservar a valorização da marca e, talvez, para ampliar sua influência política em um mundo cada vez mais polarizado. Está em disputa não apenas o controle da exploração econômica da FIFA World Cup e de outros torneios, mas o próprio significado da expressão “desenvolvimento do futebol”.
Sobre o autor:
Marcelo Weishaupt Proni é Professor Titular no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É mestre em Ciências Econômicas e doutor em Educação Física pela Unicamp.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
PRONI, Marcelo Weishaupt. A FIFA e a exploração econômica da Copa do Mundo: objetivos estratégicos. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 48, 2026.
Este é o segundo de dois artigos publicados sobre o tema pelo autor no Bate-Pronto. Para ler o primeiro, acesse: A FIFA e a exploração econômica da Copa do Mundo: projeto de poder.




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