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A copa e o jardim

Atilio Butturi Junior (UFSC)


Abaixo, o autor compartilha um texto marcado por sensibilidade e afeto sobre a Copa de 2026 e suas relações com gênero e sexualidade.


Os shows na final da Copa foram um momento de deslocamento na estética do evento. Imagem: Carl Recine/AFP
Os shows na final da Copa foram um momento de deslocamento na estética do evento. Imagem: Carl Recine/AFP

Quando eu escrevo este texto, a Copa de 2026 já acabou, e eu soube que, em Vancouver, naquele jogo Austrália e Turquia, enquanto as pessoas se encaminhavam, pela manhã, para o estádio, os usuários de fentanil, com seus corpos “fenty fold”, se alinhavam pelas ruas. Capitalismo gore, como ensinava Sayak Valencia, uma craque no campo, e como materializava a matéria de 30 de junho do NYT.

 

Neste mesmo tempo ou logo ali, eu abro meu gay Twitter, que se chama X, e ainda vejo coisas como: um jogador espanhol e várias entrevistas em IA em que ele “assume” seu romance com um companheiro; ou um certo “goleiro gato” cuja esposa furiosa o teria “tirado do armário”. Sobe um gostinho de 1982, como se o Zico não tivesse resolvido a partida, tampouco o Sócrates, e eu estivesse abraçando minha mãe de novo, criançola efeminada e já culpada.

 

Futebol-arte, a gente ouvia falar. Depois, 1986, “setenta neles, outra vez, Brasil” – a Gal também já morta e sua sapatonice com a qual nunca quisemos lidar naquele suposto hino de democracia com gostos de ufanismo ditatorial.

 

Eis, então, este texto, que é um quase: uma memória dissipada (ou foracluída?), uma mania de rolar telas para saber sobre o grande nada, as relações internacionais, o Trump roubando no jogo, o Neymar sendo xingado, o Vini Júnior que me chega pela Virgínia, a maquiagem da Wepink, o Sócrates usando substâncias, as travestis que são noticiadas com jogadores, as fronteiras EUA-Canadá-México. É um texto não-paranoide, como ensinou a Sedgwick: um texto reparativo, um texto com-futebol, um texto feito com todos os braços com que se fazem os mapas e mais alguns que os constroem e, amiúde, são arrancados.

 

Então, vamos a um outro borrado. A última Copa do Mundo a que assisti com afinco foi a de 1994, quando o Brasil foi tetracampeão, quando eu vivia minha breve vida heterossexual e namorava uma moça chamada Gisele. Nós dois fazíamos escola técnica, o CEFET-Paraná. Ela fazia um curso “de meninas” (Alimentos), eu fazia um curso “de meninos” (Eletrônica). Nós íamos assistir aos jogos da Copa no auditório da escola. Naquele 1994, o final da Copa marcou meu fim de namoro com a Gisele, o fim da minha forjada heterossexualidade e o fim da minha relação mais calorosa com o futebol.

 

Porque eu já fui atleta. Mais ou menos de tudo, esgrima-basquete-natação-vôlei. De ser bom no campo e na quadra, o primeiro escolhidinho dos times. Aí, esse futebol obrigatório para os meninos aparecia e tudo mudava. Era, pra ficar na Sedgwick, meu compulsório sair do armário. Uma espécie de segredo: ora eu ia pro banco, ora eu ia pro gol, e ora eu só ficava olhando os piás, lá naquela Curitiba. Eu olhando os piás correndo já com afetos demais.

 

Mas, aí, tem esse lance de Copa. Na época do Catar, do bolsonarismo brasileiro, eu me lembro de que era uma questão não ser viado, não ser trans, não ser lésbica. Só pra poder ver a Copa. E a gente encarava, nas telas, uma felicidade naquelas pessoas que gostavam de inviabilizar e invisibilizar as outras vidas. Como se o futebol fosse a garantia da cidadania para alguns. Como se o futebol funcionasse com a FIFA, num corte soberano: a linha da qual muitos de nós não passariam.

 

Neste ano, então, começaram a aparecer as reportagens “quantos LGBTQIAPN+ a Copa tem?”. Ou outras que hierarquizavam os corpos dos jogadores, devidamente racializando o desejo: loiros muito loiros amados como loiros muito loiros; pretos muito pretos materializados na ambiguidade de um desejo e uma objetivação um tanto ridícula. O gay Twitter, essa força esquisita na borda de humanos e não-humanos, me mostrando muitos closes de virilhas e um mundo de gente comparando, esquadrinhando, medindo.

 

No meio do caminho, então, era mais interessante, no Brasil, falar da CazéTV do que exigir qualquer direito. Fulaninho disse que apoia direitos da minoria: likes, corações, festinhas. Mas Fulaninho é amigo de Trump, então precisamos fazer um reparo, mas garantir a torcida, porque somos brasileiros, apesar de tudo. Uma espécie de obra da qual não se requer autoria.

 

E, aí, teve, ainda, Madonna-Shakira-BTS. Aí, eu voltei a ver a Copa, e saiu mais um gosto amargo. Ronaldos de mãos dadas com Madonna. Um gosto de Castelo de Chantilly, da vida pequena de ver fofocas de gente famosa porque sim. Ronaldo colocando a taça na mão do Trump, o tal do Messi perdendo, os supostos gays ganhando e recebendo a mesma taça meio de costas pro Trump. Meninos, eu vi.

 

E, por fim, e até os próximos quatro anos, aquela mocinha, esposa de redpill, reclamando da efeminização, em 2026. Logo, aqui no final, na prorrogação da Copa. E a ARMY escorraçando, um final feliz pra uma celebração não sei de que, mas celebração. Como no poeminha de Adélia Prado, a gente não vê o jardim nos sorrisos tristes, mas os jardins existem.

 

Sem gays, sem trans. Mas jardim.

 

Sobre o autor

 

Atilio Butturi Junior é licenciado em Letras-Português pela UEPG. Mestre e doutor em Linguística pela UFSC. É docente no Programa de Pós-Graduação em Linguística (PPGL) e no Programa de Pós-Graduação em Ciências Humanas (PPGICH) da UFSC.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Como citar?

 

BUTURI JUNIOR, Atilio. A copa e o jardim. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 37, 2026.

 

Este é o primeiro texto do Bate-Pronto sobre a Copa focado em questões LGBTQIAPN+. Para ler mais sobre a interseção entre o futebol e esse tema, acesse: Tem gay jogando futebol na novela?


 
 
 

1 comentário

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Carmen Rial
há 5 dias
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Super!

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