Cosmopolitismos e nacionalismo: comentários sobre o excepcionalismo estadunidense
- INCT Futebol
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Keo Silva (UFSC)
No texto abaixo, o autor discute a visão dos Estados Unidos – e de outros países ocidentais – de que são superiores a países islâmicos, e demonstra como ela incidiu sobre a participação do Irã na Copa de 2026.

Durante o final da década de 1980, o tema da religião tornava-se um dos eixos de análise para pensar a questão da alteridade no século XX. Como um tema cosmopolita, a religião tem sido debatida no campo das políticas globais. No futebol, como um tema que envolve dinâmicas locais e globais, vemos a questão da religiosidade se manifestar em diversos aspectos. Em 2022, tivemos o embate sobre a proibição de menções à homossexualidade e à comunidade LGBTIA+ na Copa do Catar, em contraposição a uma lei local, religiosa, que vê a homossexualidade como crime passível de morte. Tema que rendeu uma reflexão sobre os agenciamentos biopolíticos e os posicionamentos da FIFA diante de uma economia moral, global e colonialista.
No ano seguinte, na Copa Feminina de Futebol, a religião apareceu como um tema que abarca a perspectiva multicultural, da diferença, e discutiu-se a proibição/autorização do hijab por jogadoras islâmicas. Essa cena rememora uma série de competições em que a “secularização” e a ocidentalização soam como regra e em que, por muitas vezes, o excepcionalismo ocidental impede que artefatos como o hijab sejam usados por jogadoras islâmicas nas competições. Na Nova Zelândia, houve o primeiro evento oficial de futebol feminino em que o hijab foi autorizado, e comentei brevemente sobre as disposições da colonialidade de gênero e dos excessos do relativismo cultural (Silva, 2026).
Em 2026, acontece a Copa do Mundo sediada pelos Estados Unidos, que adere a uma distribuição espacial entre três locais diferentes em que a Copa aconteceria. O que implica o deslocamento das equipes em aeroportos de um país para outro, seguindo o cronograma desse megaevento. Nada muito distinto do perfil de um evento da amplitude da Copa, em seu sentido midiático. No entanto, parece também ser uma estratégia de exaltação do excepcionalismo estadunidense. Em fevereiro deste ano, Estados Unidos atacam Irã, resultando em uma disputa armada com milhares de mortes e feridos, além do fechamento das fronteiras marítimas. Agora, na Copa, a equipe iraniana teve problemas para o embarque de um de seus jogadores.
Poderíamos destacar outros temas sobre a Copa, como o cosmopolitismo que reúne um evento tão expressivo como esse, a diversidade. No entanto, religião, futebol e política são temas que se entrelaçam. São coproduções de poder que movem a economia da atenção, do medo e da guerra. Na década de 1970, Estados Unidos e Irã trilharam uma guerra política na qual a população iraniana questionava o regime de Xá Reza Pahlavi, apoiado pelo governo norte-americano. Essa narrativa ganha outro desenho contada a partir da animação de Marjane Satrapi, Persépolis, e decodifica a linguagem intragável da guerra contada desde a perspectiva de uma garotinha que percebe essas transformações sociais atravessarem as gerações de sua família e o seu movimento pelo mundo.
Cinco décadas depois, os conflitos entre Irã e Estados Unidos se atenuam, quando os Estados Unidos se retiram do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano, em 2018. A corrida bélica se intensifica em 2020, quando Qassem Soleimani morre em um bombardeio em Bagdá. Em resposta, o Irã ataca bases que abrigavam soldados americanos no Iraque. Essas movimentações marcam um conflito que configura disputas que se acirram em escaladas drásticas entre Washington e Teerã. Sobretudo, porque acentua o nacionalismo iraniano, marcado pela morte de Soleimani e como resposta contra a violência norte-americana.
Em 2026, a estátua de Qassem Soleimani é derrubada em protestos contra a queda da moeda econômica iraniana, e a bandeira iraniana é rasgada em manifestações locais¹. Derrubar estátuas, rasgar bandeiras, símbolos de dissolução com o secularismo moderno. Durante a Copa, protestos durante o jogo do Irã surgiram com o tema de “FIFA, não nos silenciem”, como manifestação de torcedores iranianos que se recusam a dar audiência ao evento futebolístico diante da guerra que acontece.
Como signos cosmopolitas, as bandeiras são artefatos triviais em eventos esportivos como a Copa do Mundo, mas são também artefatos sociotécnicos que mobilizam o debate político de uma guerra ambivalente, silenciosa em relação à situação local, midiatizada em termos da expressão bélica. Como forma de pôr em relevo esse debate, torcedores e espectadores usam a bandeira iraniana, disputando o símbolo que está impresso nela. Aqueles que se posicionam por um movimento pré-revolucionário, posição política que defende valores e concepções anteriores às mudanças ocorridas depois da queda do Xá Reza Pahlavi, usam a bandeira com o símbolo do leão com o sol, enquanto os defensores das perspectivas pós-revolução iraniana defendem o uso da bandeira com o símbolo instituído após a queda do Xá. A FIFA, como instituição cosmopolita, se posiciona contra o uso de bandeiras para endossar disputas políticas.
Mas a questão não é só sobre defender ou não o uso de bandeiras iranianas, mas sim entender o espaço do futebol, do espectador como agente que percebe o estádio não só como espaço para assistir o jogo, mas para protestar contra o racismo islamofóbico. Produto do excepcionalismo estadunidense.
Esse agenciamento pode ser percebido no perfilamento ao qual os jogadores iranianos foram submetidos. Alguns não foram escalados por se oporem ao governo. Os que foram selecionados, após o jogo com a Nova Zelândia, segundo notícia publicada na Folha de São Paulo², não puderam ficar em solo americano e precisaram embarcar direto para o México, base da seleção iraniana. Além disso, um dos jogadores teve problema com o visto.
Essas questões ressoam as tensões entre Washington e Teerã, em relação ao acordo de cessar-fogo entre os países, e manifestam a lógica do excepcionalismo estadunidense na produção de um discurso dos iranianos-americanos – comunidade iraniana residente nos Estados Unidos. Uma espécie de anti-nacionalismo em prol do excepcionalismo estadunidense.
Esse tema evidencia transformações significativas no mundo, a emergência de novas táticas de governabilidade, novos conceitos que nos exigem uma revisão teórica diacrônica que retome as perspectivas dos estudos culturais em uma configuração que considere as significativas contribuições dos estudos sobre orientalismo, sobre decolonialidade e o pensamento pós-colonial. Assim como as bandeiras para a Copa do Mundo, a religião é fundamental para a disposição dessas teorias. São gestalts, produzem um modo de pensar, uma cosmologia.
Diferente do Oriente Médio, no Brasil e na América Latina, percebemos o ethos religioso de forma mais diluída, como consequência de um cosmopolitismo constituído da democracia racial, pela busca por uma identidade nacional envolvida em discurso de secularização, modelo específico do colonialismo latino-americano, do modus operandi que corresponde às relações de dependência e imperialismo que constroem o excepcionalismo estadunidense.
No Oriente Médio, a religião é o principal organizador social e de valores. Assim como Geertz (1968, 2001), Sabah Mahmood (2005) nos mostra as dimensões culturais da ética da devoção como um sistema social que opera a partir de uma moralidade que contrasta diretamente com o modelo de pensamento ocidental. Também o relativismo cultural de Geertz é importante para mostrar como o Islã não é o mesmo em lugares diferentes.
A religião expressa a pluralidade e diversidade em um mundo cosmopolita. No entanto, operacionalizada enquanto um dispositivo de controle e poder, revela a hierarquia produzida pelo secularismo cristão.
O secularismo na cultura dos EUA é uma fantasia. É um “secularismo cristão”, o que significa que não há uma posição secular epistemologicamente pura. Na política (neo)liberal, a imaginada separação entre “Igreja e Estado” é frequentemente usada para comparar a cultura e as formas de Estado ocidentais como inerentemente superiores a alguns países muçulmanos e árabes, rotulando esses países e governos como “teocráticos” e opostos à modernidade do Ocidente. (Puar, 2024, p. 424)
A guerra no Irã, na Síria e na Palestina representa uma disputa de sentidos, em mundos em que a religião opera como codificador cultural e se opõe ao excepcionalismo estadunidense. No futebol, enquanto uma prática cosmopolita, deveria ser diferente.
Referências
GEERTZ, Clifford. O beliscão do destino: a religião como experiência, sentido, identidade e poder. In: Nova luz sobre a Antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2001.
GEERTZ, Clifford. Islam observed: religious development in Marocco and Indonesia. Chicago: University of Chicago, 1968.
MAHMOOD, Saba. Politics of piety: the Islamic revival and the feminist subject. 2005.
PUAR, Jasbir. Agenciamentos terroristas: homonacionalismo em tempos queer. Crocodilos Edições, 2024.
SILVA, Keo. A autorização do hijab no futebol feminino: comentários sobre o tema. 2026.
Sobre o autor:
Keo Silva é doutor pelo PPGICH/UFSC, mestre em Educação pelo PPGE/UFSC e graduado em Ciências Sociais pela UFSC.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
SILVA, Keo. Cosmopolitismos e nacionalismo: comentários sobre o excepcionalismo estadunidense. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 40, 2026.
A relação de países islâmicos com a Copa também já foi tratada em um texto do Bate-Pronto a partir de uma discussão sobre o Egito. Acesse: Did I become Arab or Egyptian? (Eu me tornei árabe ou egípcia?).
¹ Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cq5yzj422nxo. Acesso em: 29 jun. 2026.
² Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2026/06/bandeira-pre-revolucao-e-protestos-marcam-chegada-do-2o-jogo-do-ira-na-copa.shtml. Acesso em: 29 jun. 2026.
Cosmopolitismos e nacionalismo: comentários sobre o excepcionalismo estadunidense © 2026 by Keo Silva is licensed under CC BY-NC 4.0




Bem legal, Keo. Mas não entendi a ultima frase "No futebol, enquanto uma prática cosmopolita, deveria ser diferente".