Trionda: uma Copa do pós-humano?
- INCT Futebol
- há 1 dia
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Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)
No texto abaixo, a autora reflete sobre os possíveis impactos do uso de tecnologias avançadas pela FIFA, a partir da Trionda, bola oficial da Copa de 2026.

Veremos, nesta Copa, um enorme incremento do uso da inteligência artificial no jogo. Certamente, esta será uma Copa onde a tecnologia e a inteligência artificial testarão inovações, fazendo do futebol, mais uma vez, um laboratório de experimentos sociais. A FIFA – o Estado futebolístico que organiza esse e os mais importantes torneios de alta performance no planeta – regulava o tempo, o espaço e o controle da violência no futebol. Tinha regras quanto ao uniforme, número de jogadores, tempo de duração das práticas. Demandava dos campos de jogo que tivessem uma medida compreendida entre um valor mínimo e máximo², com alguma flexibilidade, portanto. Nada que não pudesse ser replicado em milhões de campinhos de amadores pelo planeta. Se costumava dizer que o futebol era um dos esportes mais populares no mundo por conta da simplicidade do aparato que demandava. Hoje, as confederações ligadas à FIFA estão regulando até a altura da grama no campo de futebol!³ E, em breve, detalharão o que pode ser considerado campo de jogo ou não em gramados de plástico⁴ que, aliás, não são aceitos em seus torneios mais importantes envolvendo equipes de homens. Ou seja, o futebol de alta performance contemporâneo tende a se distanciar cada vez mais do praticado de modo casual.
Pensem na bola. A FIFA demandava da bola apenas que tivesse um determinado peso e tamanho – uma circunferência entre 68 cm e 70 cm e um peso, no início da partida, entre 410 g e 450 g. Antes, com alguns dólares, se podia comprar a “bola da Copa”, fabricada pela Adidas, Nike ou outra grande marca. Nas primeiras Copas (1930-1966), as bolas eram feitas de couro costurado à mão, absorviam água e ficavam mais pesadas durante a partida. A partir dos anos 1970, materiais sintéticos começaram a substituir o couro, aumentando a durabilidade e a regularidade do comportamento da bola. E as bolas passaram a ter nomes. A de 1970 chama-se Telstar, e seus painéis eram em preto e branco para serem melhor visualizados na TV, nessa que foi a primeira Copa televisada para muitos países, inclusive o Brasil. Tivemos a Tango; a Tricolore, que foi a primeira colorida, acompanhando as transmissões televisivas que eram já a cores; a Teamgeist, com menos costuras; a temível Jabulani da Copa da África do Sul, com 8 painéis e muito lisa, um terror para os goleiros; a Brazuca, com 6 painéis, muito bem avaliada pela textura mais rugosa; a Telstar 18, a primeira a ter um chip permitindo interação digital por smartphones, um marco na relação entre esporte e tecnologia; a Al Rihla, que incorporou sensores internos que enviavam dados em tempo real para auxiliar o impedimento semiautomático e decisões do VAR (Vídeo Assistant Referee), sendo a primeira a participar ativamente do sistema de arbitragem; e agora temos a Trionda.
A bola da Copa de 2026 é um aparelho altamente tecnológico e inacessível para a maioria dos praticantes de futebol no mundo. Talvez Elon Musk possa comprá-la. Não se trata apenas de um chip interno conectado ao relógio do árbitro para impedir erros terríveis como o do não-gol validado, que deu uma Copa do Mundo para a Inglaterra em 1966. O chip atual possui filamentos que emanam dele, como numa teia de aranha, dirigindo-se a diversos pontos da bola, para precisar o momento exato em que é tocada por um jogador, informando ao VAR na marcação de impedimentos, mas não apenas isso. Esses filamentos são capazes de equilibrar a trajetória da bola, ao mesmo tempo que passam para os responsáveis estatísticos toda sorte de informação: velocidade, trajeto, força inicial, força final etc. Isso é possível porque a Trionda apresenta, em um dos seus quatro painéis, um sensor de movimento de alta frequência (500 Hz), capaz de rastrear tudo o que acontece durante a partida e enviar dados em tempo real e integração avançada com o Árbitro Assistente de Vídeo (VAR) para auxiliar o sistema de impedimento semiautomático. Os outros três painéis recebem contrapesos para compensar o sensor. O objetivo, dizem, é combinar estabilidade aerodinâmica com coleta de dados em tempo real.
A Trionda coleta e transmite informações 500 vezes por segundo. As informações coletadas pelo sensor são combinadas com dados sobre o posicionamento dos jogadores e analisadas por inteligência artificial. O sensor da Trionda é alimentado por bateria e, de tempos em tempos, a bola precisa ser conectada à tomada para recarga (Helder, 2026).
Além disso, a FIFA pretende utilizar uma tecnologia de escaneamento tridimensional dos atletas convocados para a Copa do Mundo de 2026. O objetivo é criar réplicas digitais dos jogadores para apoiar as decisões da arbitragem. Com esses modelos virtuais, será possível analisar de forma mais precisa o posicionamento corporal dos atletas no instante em que a bola é tocada. A iniciativa está sendo desenvolvida em parceria com a Lenovo. Já a Trionda foi desenvolvida em parceria com a Kinexon, empresa de tecnologia de sistemas de rastreamento e análise de dados para esportes.
Para completar o rol de introduções tecnológicas (ou devemos dizer “intromissões”?) no jogo, a FIFA também lançou o Football AI Pro, uma ferramenta de inteligência artificial voltada para as comissões técnicas no pós-jogo. O sistema reúne e analisa uma grande quantidade de informações da partida, gerando relatórios sobre o rendimento dos jogadores, questões táticas e possíveis estratégias. Para isso, a plataforma combina estatísticas, dados de posicionamento dos atletas em campo e vídeos das partidas. Segundo a FIFA, a ideia é acelerar o processo de análise e permitir que as equipes encontrem informações relevantes de forma mais rápida e organizada.
Trionda, a bola desta Copa, é uma cápsula espacial de voo curto. Ela vai muito além da bola sonora dos cegos, criada na Espanha, artesanalmente, com guizos introduzidos na bola, de modo a transformar o som em uma referência espacial para os atletas. É uma bola que aprofunda o abismo entre o esporte de alta performance e o futebol casual.
Trionda, como toda tecnologia que não dominamos, gera receios e pode provocar rumores. Rumores são narrativas que se espalham no tecido social sem que saibamos exatamente a origem, passam de boca a orelha, revelando temores (Rial, 2003). E esses são mais interessantes de serem analisados do que o fato de a narrativa do rumor ser verdadeira ou falsa. Dizem respeito geralmente ao que não controlamos. Cabo Verde foi excluído da Copa de 2014 por conta de ter colocado em campo um jogador com dois cartões amarelos? Circulam rumores nas ilhas de arranjos extracampo, de venda de jogos, de acertos entre dirigentes de futebol e a FIFA, da interferência da FIFA eliminando países que não interessavam para ela que estivessem na Copa, enfim...
Que rumores essa Copa tão tecnológica, tão dominada por algoritmos, suscitará? Quem controla Trionda, a bola que mais parece um drone? Ela, que fornece informações tão precisas, não seria capaz de receber informações também? Sua trajetória não poderia ser manipulada do exterior? Que ingerências políticas vão estar presentes?
Sem dúvida, esta será a Copa da Trionda, do uso intensivo da tecnologia. É uma bola que certamente não rolará nos campos de futebol casual, aprofundando a distância entre o futebol de alta performance e o futebol amador/comunitário/de várzea/de baba, ou como queiram chamá-lo. O que Gustavo Lins Ribeiro (2026) chama de tecno-oligarquia contemporânea – representada pela aliança entre Silicon Valley e a extrema direita – ganhou espaço também no futebol. Esse é o seu lado distópico. Mas a Copa tem outros lados, como veremos mais adiante.
Referências
HELDER, Darlan. Trionda: chip, IA e bateria fazem a bola da Copa de 2026 funcionar como um ‘computador’. G1, 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/06/10/trionda-chip-ia-e-bateria-fazem-a-bola-da-copa-de-2026-funcionar-como-um-computador.ghtml. Acesso em: 10 jun. 2026.
RIAL, Carmen. Guerra de imagens: o 11 de setembro na mídia. In: Antropologia em primeira mão n. 64. Florianópolis: PPGAS UFSC, 2003.
RIBEIRO, Gustavo Lins. As ciências sociais e humanas no mundo apocalíptico das (ultra)direitas. Blog BVPS, 2026. Disponível em: https://blogbvps.com/2026/06/04/as-ciencias-sociais-e-humanas-no-mundo-apocaliptico-das-ultradireitas-por-gustavo-lins-ribeiro/. Acesso em: 4 jun. 2026.
Sobre a autora
Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).
Se você gostou deste texto, leia também outro da mesma autora que também reflete sobre a Copa de 2026: De dentro do jogo.
¹ CC BY-SA 4.0.
² O tamanho oficial recomendado pela FIFA para jogos profissionais é de 105 metros de comprimento por 68 metros de largura. No entanto, a entidade permite uma margem de variação dependendo do nível da competição. O comprimento (linhas laterais) deve ter entre 90 m e 120 m. E a largura (linhas de fundo) deve ter entre 45 m e 90 m. Para partidas internacionais, o campo deve medir entre 100 m e 110 m de comprimento, e entre 64 m e 75 m de largura.
³ Em torneios de elite, o gramado deve ser cortado rigorosamente entre 20 mm e 25 mm. Essa altura evita que a bola fique “presa” (muito alta) ou que o campo fique rápido demais (muito baixo), exigindo precisão nos passes.
⁴ A FIFA permite o uso de gramado artificial, mas regula sua aplicação de forma rígida e proíbe gramados 100% sintéticos em seus torneios de elite, como a Copa do Mundo. A entidade possui um programa de qualidade (FIFA Quality Programme), que certifica os campos com os selos FIFA Quality e FIFA Quality Pro (obrigatórios para competições profissionais). Para receber a certificação, os campos artificiais são submetidos a testes laboratoriais e de campo que avaliam: 1) a Interação Jogador-Superfície: mede a absorção de impacto, deformação vertical e a tração rotacional para garantir segurança contra lesões. 2) a Interação Bola-Superfície: avalia o quique da bola, o rolamento e a velocidade em diferentes condições climáticas. 3) a Manutenção e Durabilidade: testes de desgaste e resistência aos raios UV.
Trionda: uma Copa do pós-humano? © 2026 by Carmen Rial is licensed under CC BY-NC 4.0




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