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De dentro do jogo


Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)


 

No texto abaixo, a autora desenvolve uma reflexão sobre o que podemos esperar da Copa do Mundo de Futebol de 2026, em relação aos estilos de jogo que marcarão este mundial.


O primeiro jogo da Copa do Mundo de 2026 ocorreu no Estádio Azteca, no México. Imagem: Wikimedia Commons
O primeiro jogo da Copa do Mundo de 2026 ocorreu no Estádio Azteca, no México. Imagem: Wikimedia Commons

A Copa do Mundo de Futebol de homens, que se iniciou no dia 11 de junho, reflete bem a enorme expansão do futebol no mundo, com representação de 48 países, de todos os continentes. Quando se pensa em Copa do Mundo, é a competição de homens que primeiro vem à mente – e com razão, já que suas finais figuram entre os eventos televisivos mais assistidos do planeta. No entanto, existe também uma Copa do Mundo de Futebol de mulheres, cuja próxima edição ocorrerá no Brasil em 2027. Realizada regularmente desde 1991, essa competição acompanha a expansão acelerada do futebol de mulheres em escala global, hoje um mercado em franca valorização econômica, midiática e institucional.

 

Os intelectuais, sobretudo sociólogos, politicólogos e antropólogos, que têm se debruçado sobre esses megaeventos a partir da ideia de uma festa das nações – alguns, como Damo e Oliven (2014), o comparam ao potlatch¹, por seu caráter amistoso e agonístico, apontado por Marcel Mauss (1925). Outros ressaltam sua inserção no mediascape – é o evento televisivo mais assistido no mundo, com uma audiência de 1,5 bilhões de pessoas na última Copa. E outros ainda sublinham os sentimentos nacionalistas (Anderson 2020; Billig 1995; Hobsbawn 1977) que ele desperta. São raros os que destacam, numa visão de dentro, os gestos, as táticas, os regulamentos, os protagonistas, enfim, o jogo em si. Pesquisadores da Educação Física têm feito isso, e um dos participantes do nosso último evento (V Colóquio Internacional INCT Futebol), por exemplo, nos apontou a importância das bolas paradas no futebol de alta performance contemporâneo. Farei esse mesmo exercício aqui.

 

As Copas do Mundo da FIFA são momentos em que diferentes estilos de futebol se encontram e competem em um mesmo torneio. Do ponto de vista interno do jogo, as Copas tenderam a estabelecer padrões e apresentar novidades que depois foram sendo incorporadas por clubes em seus campeonatos nacionais. Nem todas as inovações foram profundamente revolucionárias, como a de 1974, com a laranja mecânica de Johan Cruyff e seus companheiros. Mas algo de novo se incorporava ao jogo depois de cada diálogo global futebolístico. Com as transmissões televisivas das principais ligas europeias e da liga saudita – e não só delas: eu assisti, dez anos atrás, um jogo do campeonato brasileiro na Ilha do Sal, em Cabo Verde –, o conhecimento de diferentes estilos tornou-se mais acessível.

 

Porém, o futebol permanece insular, como nos seus primeiros tempos. Raramente assistimos a um encontro entre as equipes do Benfica e do Internacional de Porto Alegre (como assisti na inauguração do estádio Beira-Rio, em abril de 1969, com Eusébio em campo e marcando um gol), ou a do Barcelona e a do Boa Vista (que vi jogar no Campo da Várzea, em Praia). Apesar de o Mundial de Clubes FIFA ser recente, tendo tido apenas uma edição em 2025 (vencida pelo Chelsea), e embora reúna apenas 32 equipes de futebol masculino (0,8% das filiadas à FIFA), talvez ajude a minimizar essa insularidade² que tem sido a marca da história desse esporte.

 

Podemos nos perguntar, antecipando o que vai ocorrer nesta Copa do Mundo: qual estilo de jogo irá predominar? Teremos um jogo de posse de bola ou de transição? Serão vencedores os que adotarem o tiki-taka, estilo caracterizado por passes curtos e rápidos, movimentação constante de jogadores e grande posse de bola – que fez a fama de Guardiola, ainda que ele modestamente diga ter se inspirado na seleção brasileira de 1970? Ou serão vencedores os que adotarem a velocidade do contra-ataque, hoje chamada de transição?

 

Seja como for, esta será provavelmente a Copa da bola parada, como previu um dos participantes cabo-verdianos do V Colóquio Internacional INCT Futebol. A cada escanteio, a cada falta marcada próxima à grande área, provavelmente veremos uma coreografia se realizar. Os futebolistas no ataque saberão exatamente para onde correr, se cruzarão dentro da área com gestos rápidos, bruscos, mas sem se chocar, e deixarão tontos os defensores adversários. Arsenal, atual campeão da Premier League – tida como o principal campeonato nacional no mundo – teve a maioria dos seus gols surgidos de bola parada. Os torcedores antecipavam o gol com cânticos, os adversários ficavam atônitos e sem saber bem o que fazer.

 

De onde veio essa ideia da coreografia que mudou a execução da bola parada de modo tão radical? Pois bem: veio do basquetebol. Um dos assessores de Mikel Arteta, o técnico do Arsenal, observou o que se fazia no basquete em momentos-chave do jogo e transportou aquele balé para o futebol. Com enorme sucesso.

 

Não foi, aliás, a primeira vez que o basquete inspirou gestos no futebol. O olhar para um lado e passar a bolsa para o outro, característico de Ronaldinho, veio do basquete. E não é só futebol/basquete que conversam entre si. Nossos capoeiristas sabem bem disso: a luta/dança foi apontada por Gilberto Freyre (1945) como estando no fundamento do que seria um estilo brasileiro de jogar – da ginga, do drible, da criatividade (Rial, 1995). Hoje, ela serve como preparação dos corpos que farão performances em outros esportes – penso em Djokovic, o vencedor do maior número de Grand Slams no tênis, que usa a capoeira no seu treinamento. Ou seja, há sim um diálogo entre os esportes de alta performance e outras formas de expressão corporal. Muitos gestos passam de um a outro, o que se aproximaria do que Umberto Eco chama de intertextualidade. E isso poderemos esperar ver nas Copas do Mundo.

 

Referências

 

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

 

BILLIG, Michael. Banal Nationalism. Londres: Sage, 1995.

 

DAMO, Arlei; OLIVEN, Ruben. Megaeventos esportivos no Brasil: um olhar antropológico. Campinas: Autores Associados, 2014.


FREYRE, Gilberto. Sociologia. v. 1. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945.

 

HOBSBAWM, Eric J. Etnia e nacionalismo na Europa de hoje. In: A era das revoluções: Europa 1789-1848. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.


MAUSS, Marcel. Essai sur le don. Forme et raison de l'échange dans les sociétés archaïques. In: L'Année sociologique, Nouvelle série, tome 1 (1923–1924), 1925.

 

RIAL, Carmen. Japonês está para TV assim como mulato está para cerveja: estereótipos raciais na publicidade brasileira. Antropologia em Primeira Mão, n. 8, 1995.

 

Sobre a autora

 

Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).

 

Se quiser acompanhar mais reflexões sobre a Copa do Mundo de 2026, leia também esta crítica sobre a escolha dos Estados Unidos como país sede do evento: Copa do Mundo de Futebol Masculino e a trombeta do trunfo ou do fracasso.


¹ Uma festa cerimonial tradicional, com séculos de existência, praticada pelos povos indígenas da costa noroeste do Pacífico da América do Norte, que se caracterizava pela reunião de grupos indígenas com queima de riquezas.

² Existem aproximadamente 4.000 clubes profissionais de futebol masculino filiados às 211 federações nacionais associadas à FIFA. A entidade monitora em seu banco de dados oficial a existência exata de 3.986 equipes profissionais espalhadas por 135 países, compondo as diferentes ligas e divisões ao redor do globo, segundo o FIFA Professional Football Report 2023.


De dentro do jogo © 2026 by Carmen Rial is licensed under CC BY-NC 4.0

 
 
 

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