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Richarlison, o jogador humano

Atualizado: 26 de abr.

Ronaldo Helal

Leda Maria da Costa

Marcelo Resende



“Transparente, puro, humano, extremamente corajoso. Ao contrário da maioria dos atletas profissionais”. 

Assim é como a ESPN Brasil se referiu a Richarlison, atacante brasileiro que atua no Tottenham, da Inglaterra. Em entrevista exclusiva ao canal, com uma parte divulgada em 27 de março, o jogador revelou o drama pessoal que viveu após a eliminação brasileira nas quartas de final da Copa do Mundo de 2022, disputada no Catar. Richarlison disse que sofreu muitos ataques nas redes sociais que, somados a problemas que vivia dentro de casa, o levaram à depressão.


O trecho dessa reportagem, na qual Richarlison divulgou ter passado por momentos difíceis, é parte de um documentário que a ESPN Brasil prepara sobre o atleta, intitulado “Richarlison, o Pombo é gente”. Nesse trecho, que serve como chamada para o que está por vir no documentário, o narrador afirma o tempo inteiro os atributos humanos do atacante, definido na matéria como especial, destacando-se dos demais jogadores futebolistas. A ESPN Brasil instrumentaliza uma aproximação do público com Richarlison, que aparece com os olhos marejados junto a elementos audiovisuais de ativação emocional que reforçam o drama pessoal do Pombo.



Reprodução: ESPN Brasil



O atacante brasileiro recebeu a equipe da emissora em sua casa, em Londres. O que é destacado pela reportagem como alguém que abre a intimidade para torná-la pública. Dentre muitos temas, Richarlison contou o drama familiar vivido após a Copa do Catar: afirmou que queria desistir do futebol e que se pegava pesquisando coisas sobre morte na internet. O camisa 9 reconheceu que só foi possível sair da depressão por causa das consultas com a psicóloga.


Não é comum atletas de futebol profissional demonstrarem certo tipo de fraqueza, numa cultura do esporte historicamente regida pela heteronormatividade masculina, cuja característica é a representação do homem forte, potente, viril etc. No futebol, é o jogador diante dos holofotes, em meio ao sucesso e admirado por todos, desempenhando publicamente um personagem para que ninguém veja as suas fraquezas do âmbito privado. Esse, definitivamente, não é o Richarlison, jogador frequentemente usado pelo jornalismo esportivo brasileiro para a produção de narrativas progressistas e de temas sociais.


– Eu ajudo muito as pessoas, de coração mesmo. Vem de mim, da minha família. Sei que posso fazer um mundo melhor, mesmo que muitos não acreditem, sei que posso melhorar. Conta Richarlison, que é embaixador da USP Vida desde a pandemia de Covid-19 e do Hospital do Câncer de Barretos.

O futebol mundial está cada vez mais globalizado, com a concentração dos grandes craques onde está o dinheiro: Europa, Estados Unidos, Arábia Saudita, entre outros. Os jogadores brasileiros continuam saindo do país para estarem no centro do futebol mundial na tentativa de consolidar suas carreiras e mudar a vida de suas famílias pelas próximas gerações. Na vasta pesquisa do professor Ronaldo Helal, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é constatada um afastamento do torcedor brasileiro da seleção. Se outrora a seleção brasileira era vista como metonímia da nação, como bem definiu Simoni Guedes, hoje em dia o envolvimento nacional só acontece em épocas de Copa, porém sem o desempenho do time brasileiro suscitar maiores representações sobre o país. Não há mais o entendimento de vitória como sucesso da nação ou a derrota como o seu fracasso. Junto a outros fatores, como a politização da camisa da seleção brasileira masculina de futebol nos últimos anos, o que existe é um afastamento cada vez maior do torcedor da seleção cinco vezes campeã do mundo. 


Richarlison é frequentemente usado pela imprensa em narrativas de cunho social. Foi o que aconteceu em 2022, durante a Copa do Mundo do Catar, cujo torneio ocorreu excepcionalmente após as eleições presidenciais no Brasil, a mais acirrada desde a redemocratização. Como demonstrou a dissertação de Marcelo Alves de Resende, intitulada A amarelinha é de quem? Narrativas midiáticas para o ‘dessequestro’ da camisa da seleção brasileira, a imprensa (O Globo e Folha de S.Paulo) instrumentalizou a imagem progressista de Richarlison como antagonismo a Neymar, apoiador declarado de Jair Bolsonaro. Com um país dividido entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, cujo embate eleitoral terminou pouco mais de duas semanas antes do início da Copa, os veículos mantiveram esse contraste em suas páginas durante aquele mundial. Em breve, a dissertação estará disponível na Rede Sirius, a rede de bibliotecas da Uerj.


Folha de S.Paulo, p. C6 – 27.11.2022

 Fonte: GALVÃO, 2022.


Meses antes da Copa, a TV Globo produziu uma reportagem com Richarlison no Pantanal, em ocasião do lançamento da camisa da seleção brasileira, inspirada nas manchas da onça-pintada. A matéria destacou o lado do jogador engajado em pautas sociais, como a ambiental, tema esvaziado pelo bolsonarismo. Naquele momento, o atacante “apadrinhou” uma onça, denominando-a de “Acerola”.


– Olha lá a onça! Estou aqui no Pantanal, no Onçafari (ONG que atua pela preservação das onças-pintadas). Vim saber um pouco sobre as onças. Fiquei muito encantado e feliz pelo que vi aqui. Então, resolvi adotar uma onça – disse o brasileiro.

Figuras como a de Richarlison são ativadas pela imprensa para buscar uma identificação do público com o jogador e, consequentemente, com a seleção brasileira. Com a camisa sequestrada pela segunda vez pela extrema-direita, como diria Simoni Guedes e Marcio Almeida, histórias como a do atacante brasileiro podem servir para uma tentativa de “dessequestro” da camisa amarela da seleção brasileira, como ocorreu durante a Copa do Catar. Os próximos anos vão nos reservar novos capítulos, e a figura de Richarlison certamente reaparecerá em algum momento. Se haverá sucesso no “dessequestro”, devolvendo a camisa ao povo brasileiro e desvinculando-a do fascismo, ou numa reaproximação entre povo e seleção brasileira, não sabemos. Mas que o Richarlison é um prato cheio para as narrativas midiáticas, isso é possível afirmar.



Recebido em 5/04/2024


SOBRE OS AUTORES:


Ronaldo Helal: Professor Titular da UERJ

Leda Maria da Costa: Professora da UERJ

Marcelo Resende: Doutorando do PPGCOM da UERJ


COMO CITAR:


HELAL, Ronaldo. DA COSTA, Leda Maria. RESENDE, Marcelo. Richarlison, o jogador humano. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.3, 2024.






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