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Pelé presente

João Batista Freire (Unicamp)

 

No texto abaixo, o autor compartilha um momento em que se viu frente a frente com o Rei Pelé, nos contando tudo o que se passou na sua cabeça a partir desse encontro


Para o autor, a presença de Pelé ofuscava o que estava ao seu redor. Imagem: Agência Brasil/Wikimedia Commons¹
Para o autor, a presença de Pelé ofuscava o que estava ao seu redor. Imagem: Agência Brasil/Wikimedia Commons¹

E, de repente, estávamos os dois ali, frente a frente, eu e Pelé. Sim, ele mesmo, Pelé. Eu era o preparador físico da Seleção Brasileira de Sêniores (mais tarde chamada de Masters). Era início de 1990, e estávamos concentrados no Hotel Transamérica, em São Paulo, nos preparando para o Mundial da categoria (jogadores com mais de 34 anos). Pelé, que havia disputado o mundial no ano anterior, foi nos visitar e ficou para o almoço. Calhou que se sentou exatamente em frente a mim e ao lado de Luciano do Valle e do Professor Medina. Foram uns quarenta minutos de conversa, eu e o Rei. O conteúdo da conversa? Não sei, não lembro, e não importa. Não era o que Pelé falava, era o que ele era. O que causava impacto não era sua fala, mas sua presença. Eu me senti como se ele se dirigisse somente a mim, como se sua atenção fosse toda para mim, mas percebi que os demais, ao lado, também sentiam sua atenção do mesmo jeito. Ele a distribuía para todos, e todos nos sentíamos acolhidos e bem com isso.

 

Nesse dia, no hotel, um acontecimento me chamou especialmente a atenção. Falcão, o magnífico meio-campista gaúcho, participava de uma promoção de confecções de jeans, um de seus investimentos. Modelos desfilariam com as roupas. O hotel estava repleto de empresários e modelos, mulheres e homens lindas e lindos. Monopolizavam a atenção junto com o ex-jogador gaúcho. De repente, chegou Pelé... e tudo parou. Não havia mais modelos, não havia mais empresários e outros hóspedes do hotel. Tudo convergiu para Ele, a única atração a partir daí.

 

A presença de Pelé era magnética. Sou nascido em Santos, e o primeiro jogo que assisti na vida foi na Vila Belmiro, junto com meu pai. Jogavam Santos e São Paulo. Meu pai era são-paulino e me influenciava. Naquela tarde, o São Paulo venceu por seis a dois. Virei são-paulino. E, pelos próximos dez ou doze anos, amarguei sucessivas derrotas para o Santos. Eu tinha por Pelé um ódio de menino. Como ele podia fazer aquilo com meu time! Eu via muitos jogos do Santos na Vila. Eu não queria, mas era obrigado a nutrir profunda admiração por Pelé. Acho que fui seu verdadeiro admirador, pois, por um lado, eu o odiava, mas, por outro, me deslumbrava com a magia que ele desfilava no campo. Vê-lo sem ser torcedor me permitia vê-lo melhor.

 

Naquele almoço, eu e Pelé frente a frente, lembrei da minha infância, da primeira vitória que assisti do São Paulo, das derrotas que meu time sofreu frente ao grande Santos, das jogadas estupendas do Rei, das bolas que ele soltava na esquerda para o Pepe arrebentar as redes, das tabelas incríveis entre ele e Coutinho, até hoje perseguidas por equipes do mundo inteiro. Naquele almoço, Pelé brilhava como brilhou nos campos, sempre magnético, sempre monopolizando as atenções, sempre distribuindo-as igualmente para todos.

 

Não guardei uma palavra das que trocamos no almoço. Nem lembro o que comemos. E isso não importa. Pelé não precisava falar. Forte era sua presença, sua imagem, o modo como ele se distribuía. Pelé apenas era, e era muito mais que jogador de futebol. Tudo que queríamos que ele fosse, ele foi apenas por existir, sem precisar falar. Em campo, os adversários o temiam por sua presença, e não só por suas técnicas. Os companheiros se sentiam acolhidos e seguros com ele por perto.

 

Quando o almoço terminou, continuei com fome. Dessa vez, uma fome diferente. Não era de comida, mas de presença, de querer estar sempre com aquele tipo de pessoa, diante daquela mágica, daquele magnetismo, eu queria Pelé para sempre.

 

E, por isso, quando ele morreu, eu chorei, temeroso de que aquela presença desaparecesse de minha vida. Agora, escrevendo estas linhas, percebo que ela continua, e continuará. Obrigado, Pelé!

 

Sobre o autor

 

João Batista Freire é graduado em Educação Física (1973), mestre pela Universidade de São Paulo (1982) e doutor em Psicologia Educacional pela Universidade de São Paulo (1991). Livre Docente em Pedagogia do Movimento pela Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (1991). Atualmente é professor aposentado pela Unicamp. Coordena o grupo de estudos Oficinas do Jogo em Florianópolis.

 

A nossa relação com os nossos ídolos é perpassada por muitas emoções e afetos. Se quiser ler sobre outro grande esportista brasileiro, acesse o nosso texto: Senna: o nascimento de um herói brasileiro.




Pelé presente © 2026 by João Batista Freire is licensed under CC BY-NC 4.0

 
 
 

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