E a bola puniu... Toffoli
- INCT Futebol
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Carmen Rial (INCT Futebol/UFSC)
A partir da descoberta de relações entre Toffoli e Vorcaro por meio da forma suspeita como o ministro foi assistir à final da Libertadores, a autora discute como os estádios de futebol têm se transformado em espaços marcados por megaestruturas de segurança e reconhecimento de seus(suas) frequentadores(as).

Toffoli não foi o primeiro, e provavelmente não será o último, a escorregar por conta de uma paixão futebolística. Como resistir ao convite de ir ver o seu time preferido na final da Libertadores em Lima, no Peru, de jatinho? O que seria uma simples carona, oferecida pelo empresário e ex-senador Luiz Osvaldo Pastore a um dos juízes do Supremo, acabou sendo o chute inicial para a imprensa começar uma investigação sobre relações perigosas entre Toffoli e Vorcaro, o dono do banco Master, responsável pela maior fraude financeira do país. O caso já foi suficientemente analisado para que me detenha nele aqui, onde o foco é futebol. A tentação é grande, pois há detalhes de um realismo fantástico que merecem páginas e páginas: um juiz da mais alta corte, dono de um resort chamado Tayayá (sim, esse era o nome), localizado no interior do Paraná (o que pode ser atração em um resort em frente a uma represa no interior do Paraná? Alguma deve ter, porque importantes políticos aparecem em vídeo sendo recebidos pelo Sr. Juiz. Políticos, empresários, jatinho... resort... inevitável não pensar na ilha de horrores do Epstein). Toffoli vendeu sua parte no Tayayá para a empresa ligada a um banco, o Master, com dívidas na casa dos bilhões. E, meses depois, por sorteio (vai ter sorte assim...), fica responsável no STF pelo processo da liquidação do Master e passa a colocar em dúvida a ação do Banco Central (que bloqueou as operações do banco Master), a questionar as ações da Polícia Federal (que descobriu no celular do Vorcaro muitas menções a ele), e por aí vai. Em nenhum momento, renunciou à relatoria do processo.
O importante, retomando o foco no futebol, é que a carona no jatinho de Pastore para ver Flamengo x Palmeiras o colocou lado a lado com o advogado do banco Master, Augusto de Arruda Botelho, numa situação que se imagina bem amigável (será que torcem pelo mesmo time?). A viagem foi no dia 29 de novembro. Ora, um dia antes, Toffoli havia sido sorteado para ser o juiz do caso Master. Pode isso, Arnaldo? Juiz e advogado no mesmo jatinho, indo ver o mesmo jogo?
A viagem levantou a suspeita do jornalista Lauro Jardim (2025), que a revelou no seu blog do O Globo. E foi a porta de entrada para as investigações da imprensa que levaram a outra relação entre o banqueiro Vorcaro e o juiz Toffoli: a da venda do resort Tayayá – bem mais complicada, pois envolvia dinheiro².
É possível que as relações promíscuas – ainda que até o momento não tenham sido consideradas ilegais – entre Toffoli e Vorcaro viessem à tona cedo ou tarde. Mas foi o jogo entre Palmeiras e Flamengo que acelerou a descoberta. E, nesse caso, nem foi preciso utilizar os sistemas de reconhecimento facial, como foi o caso em outro encontro entre Flamengo e Palmeiras, em 2019, quando um homem e uma mulher foram detidos nos arredores do estádio (G1, 2019) graças às câmeras de alta definição acionadas em dias de grandes jogos ao redor do Maracanã.
Antes disso, em 2018, durante a Copa do Mundo na Rússia, vários outros torcedores acabaram nas grades, sendo identificados e detidos durante o torneio. Inclusive pela Polícia Federal brasileira, que prendeu, no Estádio Krestovsky, em São Petersburgo, um homem acusado de participar, junto com dois comparsas, do roubo de 26 mil reais em uma agência dos Correios no município de Itarana (ES) no ano anterior e que estava no estádio para ver o Brasil derrotar a Costa Rica (Vilela, 2018). A quantia roubada parece irrisória para merecer tal operação, mas revela a eficácia do sistema que resultou em diversas prisões na Rússia durante essa Copa.
O cinema também explorou esses deslizes movidos pela paixão futebolística que resultaram em identificações de foragidos. No filme argentino El secreto de sus ojos, dirigido por Juan José Campanella (2009), o suspeito de assassinato Isidoro Gómez é localizado pela polícia durante uma partida de futebol no estádio do Racing Club, em Buenos Aires. Na cena, o investigador Benjamín Espósito (interpretado por Ricardo Darín) descobre que Gómez é fanático pelo Racing e convence a polícia a procurá-lo no estádio durante um jogo. Gómez é identificado na arquibancada e perseguido até ser capturado, com um plano-sequência de cinco minutos, que percorre o estádio lotado e termina com sua captura dentro do gramado do Racing.

E olha que o futebol não detém o monopólio dessas prisões. Foi por ter sido visto na tela da Globo em um jogo de vôlei da seleção brasileira nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992, que o engenheiro Miguel Orofino foi detido (em Portugal) e extraditado ao Brasil, depois de ter permanecido foragido por cinco anos, sem contato sequer com a sua família (Zanine, 1997). Se podemos nos regozijar com essas conquistas policiais graças às novas tecnologias, não deixa de ser assustador que os estádios tenham se transformado em espaços ultrassecurizados, em verdadeiros laboratórios para um controle social extremo. E não precisa nem ser o Maracanã. Se vou ao Beira-Rio, em Porto Alegre, serei filmada por uma das 286 câmeras que são monitoradas em tempo real pelo Centro de Comando Operacional do estádio. Minha imagem ficará armazenada por 30 dias, e os 600 seguranças que trabalham lá também me observarão. O site do clube alerta os torcedores que “qualquer atitude suspeita é rapidamente identificada, e um grupo de seguranças é enviado para verificar o ocorrido” (Rial, 2019).
O que exatamente é uma “atitude suspeita” em um estádio de futebol? Isso não está claro; assim como não está claro em outros ambientes de segurança, como aeroportos, onde a movimentação humana é acompanhada por câmeras com softwares informados por algoritmos para detectar “comportamento anormal” (Maguire, 2014).
Sendo um esporte global sob a égide da FIFA, o futebol está conectado a outros lugares (distantes) por um sistema que regulamenta a arquitetura dos estádios e os aparatos de segurança empregados. Apesar das especificidades locais, tanto a arquitetura quanto a segurança sofreram grandes transformações nas últimas décadas, com a redução da capacidade dos grandes estádios e a instalação de sistemas de segurança de alta tecnologia. O projeto arquitetônico, as ferramentas tecnológicas e o controle inteligente de identidade, mesmo quando replicavam dispositivos existentes, foram disseminados e utilizados em um grande número de instalações esportivas, servindo como teste e antecipando seu uso em outros espaços públicos ou privados. Em nome da segurança, a vigilância por circuito fechado de TV (CCTV) e outras medidas foram implantadas na Europa e, posteriormente, em todo o mundo. Com o tempo, os sistemas de CCTV, antes totalmente independentes, foram integrados em uma megarrede. Houve, portanto, uma transição de formas de baixa tecnologia (por exemplo, controle do fluxo de pedestres por meio da melhoria da visibilidade, remoção ou criação de obstáculos como cercas vivas) para formas mais sofisticadas (como CCTV, detectores mecânicos ou escudos antidrone, reconhecimento por biometria). Em algum momento da história, a segurança em megaeventos esportivos tornou-se a “maior operação de segurança em tempos de paz” (Thompson, 1999), moldando a estratégia de segurança global.
Os estádios estão começando a se preocupar mais com quem está presente no evento, e não apenas se um ingresso está sendo vendido. Como já ocorre em outros espaços públicos estratégicos, como aeroportos, ou em certos espaços privados, como condomínios fechados que exigem identificação na entrada dos visitantes, as atuais estratégias de segurança implementadas em estádios implicam o fim do anonimato para os espectadores. Será cada vez mais difícil comprar ingressos para eventos esportivos anonimamente.
A vigilância tecnológica dos estádios de futebol tem sido constante desde a tragédia do Estádio de Hillsborough, em 1985, e emprega mecanismos que vão além daqueles usados em espaços anteriormente fortificados. De fato, “os torcedores de futebol provavelmente estão mais acostumados a serem submetidos à vigilância por câmeras do que a maioria dos outros grupos da sociedade” (Middleham, 1993). Os Jogos Olímpicos de Londres de 2012 trouxeram novas inovações na forma de tecnologias biométricas e sem fio, incluindo CCTV com reconhecimento facial, controle monitorado de comportamento e “vigilância inteligente de pedestres”, bem como abordagens de segunda geração projetadas para filtrar e evitar ruídos provenientes do excesso de dados. Mais recentemente, uma grande melhoria no controle de imagens foi implementada: “câmeras com recursos analíticos que permitem discernir certos comportamentos. A busca computadorizada também tornou possível encontrar informações quase instantaneamente em horas de gravação” (Schwarz; Hal; Shibli, 2015, p. 308).
O monitoramento de postagens no Facebook e no Twitter também são estratégias de inteligência que fornecem informações sobre ameaças à segurança. Em São Paulo, a polícia, já há algum tempo, monitora as mídias sociais antes, durante e depois de clássicos do futebol, para localizar locais de conflito entre “hooligans” – antecipando em anos a ação da polícia de fronteira estadunidense. Os dispositivos de segurança estão sendo continuamente aprimorados e o mercado global de biometria cresce em um ritmo surpreendente
Em suas aulas de 1978, que se seguiram a Vigiar e Punir (1991), Foucault apontou outra grande mudança no controle social com a ascensão de uma forma mais flexível, baseada na segurança e não na disciplina, no controle dos movimentos da população em vez de seu confinamento. “Podemos dizer que em nossas sociedades a economia geral do poder está se tornando a ordem da segurança?” (Foucault, 2004, p. 12). Entramos numa era dominada pelo biopoder.
De acordo com Foucault, enquanto a disciplina opera em um espaço artificial construído, um meio ou “realidade” no qual agir, o biopoder se baseia nos conceitos de segurança. A segurança consiste em responder a uma realidade confrontando o perigo e os dados materiais existentes. A disciplina regula tudo, enquanto a segurança monitora as atividades, permitindo que continuem, porque existe um nível em que uma atitude de laissez-faire é essencial – a circulação, em aeroportos, estádios, ruas, permanece crucial.
Foucault revelou como a punição direta do corpo – tortura em prisões e masmorras, incluindo privação de alimentos, expiação física e diversas formas de crueldade – deu lugar a uma internalização do autocontrole. Hoje, a tendência parece ser a “prevenção” de desvios imagináveis, mantendo corpos indesejados à distância por meio de diversos mecanismos restritivos, sendo a fronteira um dos mais comuns. Os objetivos mudaram. Em vez de prender infratores, o objetivo agora é impedir a entrada de supostos transgressores da lei, e os atalhos utilizados para atingir esse objetivo envolvem fichas policiais pregressas. Assim, o reconhecimento facial, o controle biométrico de ingressos, o monitoramento por câmeras de alta definição e a integração com bancos de dados policiais fazem com que os estádios contemporâneos operem como espaços de hipervigilância, como dispositivos privilegiados de controle e identificação – algo que dialoga diretamente com debates sobre segurança e biopolítica.
Se é impossível viajar no anonimato em um jatinho para ver seu time preferido perder na Libertadores – Toffoli que o diga –, também o é entrar em quase todos os estádios das grandes ligas de futebol.
Referências
CAMPANELLA, J. J. Plano sequência de El Secreto de sus Ojos. YouTube, 2009. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=0p9oxE3Zqpg.
FOUCAULT, M. Discipline and Punish: the Birth of the Prison. Londres: Penguin, 1991.
FOUCAULT, M. Sécurité, Territoire, Population. Paris: Gallimard, 2004.
G1. PM prende dois foragidos no entorno do Maracanã usando sistema de reconhecimento facial. G1, 2019. Disponível em https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/09/01/mulher-e-presa-na-entrada-do-estadio-do-maracana-apos-ser-flagrada-por-sistema-de-reconhecimento-facial.ghtml.
JARDIM, L. Toffoli foi a Lima em jato privado com advogado do caso Master para ver o Palmeiras perder. O Globo, 2025.
MAGUIRE, M. et al. (Orgs.). The Anthropology of Security. Londres: Pluto Press, 2014.
MIDDLEHAM, N. Football: Policing the Supporters. Home Office Police Research Group, 1993.
RIAL, C. From Panopticon to Panasonic: the Architecture of Fear in Mega-Events. In: Spaces of Security Ethnographies of Securityscapes, Suveillance, and Control. v. 1. New York: New York University Press, 2019. p. 99-121.
SCHWARZ, E. C.; HAL, S. A.; SHIBLI, S. Sport Facilities Operation Management: a Global Perspective, Londres, NY: Routledge, 2015.
THOMPSON, A. Security. In: CASHMAN, R; HUGHES, A. (Orgs.). Staging the Olympics – the Events and Its Impact. Sydney: University of New South Walles Press, 1999. p.106-20.
VILELA, P. PF prende brasileiro foragido em estádio de São Petersburgo na Rússia. Agência Brasil, 2018. Disponível em https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2018-06/pf-prende-brasileiro-foragido-em-estadio-de-sao-petersburgo-na-russia.
ZANINE, F. Engenheiro chega a Florianópolis. Folha de S.Paulo, 1997. Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff151130.htm.
Sobre a autora
Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em que atua no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).
A relação dos(as) torcedores(as) com os estádios de futebol é tema de outros textos do Bate-Pronto. Se você se interessa por esse tópico, leia também o nosso artigo: Torcidas no estádio: deleites, seduções, violências.
¹ Licença de uso CC BY-AS 2.0.
² A história do caso Master não terminou ainda, e, na hora em que escrevo, teve uma reviravolta de algum modo previsível, com o afastamento do Sr. Juiz do caso no STF, e a indicação, por um novo sorteio, de André Mendonça como novo responsável pelo processo.
E a bola puniu... Toffoli © 2026 by Carmen Rial is licensed under CC BY-NC 4.0




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