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O Caribe do “menino Neymar” e os marinheiros russos

Atualizado: 5 de jun.

Carmen Rial



Ele já apoiou o 17 e o 22, votando no candidato da extrema-direita nas duas últimas eleições presidenciais no Brasil. Portanto, não deveríamos nos surpreender ao vê-lo ao lado daqueles que querem privatizar as praias brasileiras, acabando com uma legislação criada no século XIX que até hoje garantiu o livre acesso de todos a esse bem da Humanidade que é o mar.


Seu apoio à Proposta de Emenda da Constituição (PEC) n.º 3, de 2022, tem um interesse claro: ele é sócio de um empreendimento no nordeste (sul de Pernambuco, praia dos Carneiros, e norte de Alagoas) que ganharia milhões com essa privatização. Em uma postagem no Instagram, explicou de viva voz:


“Estou junto com a Due na criação da Rota Due Caribe Brasileiro. Vamos transformar o litoral nordestino e trazer muito desenvolvimento social e econômico para a região. Em breve, mais novidades.”

E acrescentou nos comentários:


“Em parceria inédita, a @due.inc e @nrsports se unem para criar a Rota DUE - Caribe Brasileiro! Com inicialmente 28 empreendimentos no litoral de Pernambuco e Alagoas, estamos transformando e impulsionando o desenvolvimento socioeconômico no Nordeste. Juntos, vamos além do turismo, gerando empregos, promovendo inclusão social e valorizando a cultura local. Vamos construir um legado de prosperidade para as próximas gerações! TMJ DUE! Novidades em breve.”

A PEC da privatização das praias tem como relator ninguém menos que o senador Flávio Bolsonaro. O texto acaba com a taxa de 5% paga à União, o chamado laudêmio, cobrada sempre que um imóvel considerado “de marinha” é vendido de uma pessoa para outra. Embora esses imóveis sejam ocupados e comercializados por particulares, a propriedade formal é da União, que perderia esse direito, abrindo a possibilidade de grandes resorts ameaçarem o meio-ambiente, comunidades de pescadores e o acesso livre de todos aos mais de 6 mil quilômetros de litoral que fazem do Brasil o país com a maior costa marítima democrática no mundo.


Que Neymar defenda essa proposta não chega a assombrar. Tentativas assim de privatização do espaço à beira-mar têm sido feitas, por exemplo, em Jurerê Internacional, em Florianópolis – onde ele costumava passar o réveillon, antes de migrar as suas festas para Itapema e Camboriú. A Justiça teve que agir para acabar com a farra dos bares chiques de Jurerê, que alugavam o espaço na areia por até 6 mil reais. A aprovação da PEC significaria a extensão dessa farra por todo o litoral do país.


As opiniões socialmente nocivas de Neymar não teriam grande importância, não fosse ele um “influencer” com milhões de fiéis seguidores. Estes assistiram, por exemplo, a pegadinha que fez com o filho em um Natal, lhe dando um pacote grande cheio de livros com a intenção de “trolar o menino”, para depois lhe dar o verdadeiro presente: um patinete[1]. Livros são motivo de risada, ensina Neymar ao filho.


Minha experiência na pesquisa que tenho realizado com os futebolistas brasileiros homens é de um distanciamento das questões políticas, inclusive das questões que dizem respeito ao futebol (a posição das mulheres é bem diversa, trataremos disso em outra ocasião). Claro que já tivemos, no passado, quem expunha especialmente suas opiniões e ousava rebelar-se, mesmo vivendo os “anos de chumbo”: a democracia corinthiana de Sócrates, Casagrande, Wladimir e Zenon é sempre lembrada. No entanto, poderíamos falar também de Afonsinho, do Botafogo, que nos anos setenta deixou crescer uma barba. O clube não permitiu, pois ela era considerada subversiva, e ele teve que ficar muito tempo na reserva por isso. Ali já estava a defesa da ideia de que os jogadores deveriam poder controlar seu próprio corpo. Ou poderíamos lembrar das comemorações do Reinado, do Atlético Mineiro: o punho erguido no gesto antirracista dos Black Panthers, o que provavelmente lhe custou um posto na seleção brasileira. 


Pelé nunca foi político no sentido de posições diretamente de direita ou esquerda, como Neymar. Pelé foi político quando, depois de fazer o milésimo gol de sua carreira, implorou por educação para a infância e proteção às crianças no Brasil. E foi político quando, em seu início nos Estados Unidos como jogador do Cosmos, fez o estádio gritar “love, love, love”, no mesmo sentido de um John Lennon, pedindo paz. Mas essas manifestações não foram entendidas assim na época, na qual se cobrava um engajamento mais explícito e não uma política do cuidado ou do afeto. Pelé foi muito útil para a FIFA e para os governantes da ditadura no Brasil. Em muitos eventos, era o escolhido como representante oficial, o jogador bonzinho, ao contrário de Maradona, que era (e é) símbolo de rebeldia.


Mas há alguma política-do-bem entre os jogadores atuais? A luta de Vini Jr contra os racistas destaca-se e teve reconhecimento oficial com o Prêmio Sócrates da FIFA. Se for indicado como melhor jogador do mundo, como pediu em coro a torcida do Madrid na semana passada, terá maior repercussão ainda – e já há quem diga que, pela importância que manifestações assim têm no mundo, deveria ser considerado para o prêmio Nobel da Paz[2]! Mas Vini Jr é, senão uma exceção, um caso raro que, de algum modo, confirma um dos meus achados de pesquisa. Encontrei uma maior conscientização entre os jogadores que têm circulado pelo mundo – e que chamei de “marinheiros russos”. Antes de Vini Jr, Taison já erguia o braço denunciando o racismo nas comemorações de gol, por exemplo. 


Do mesmo modo, foram os que já estiveram no estrangeiro que lideraram, durante o governo de Dilma Rousseff, um movimento político no Brasil chamado Bom Senso FC (2013-2016). A iniciativa buscava melhores condições de trabalho no futebol brasileiro, e apresentava  reivindicações que impactavam especialmente os futebolistas atuando em divisões inferiores, para lhes proporcionar um calendário durante o ano todo e assim garantir seus empregos. O lema era: “Bom Senso F.C., por um futebol melhor para quem joga, para quem torce, para quem transmite, para quem patrocina, para quem apita”. O movimento conseguiu obter mais de 300 assinaturas de atletas dos principais clubes brasileiros no manifesto lançado no dia 30 de setembro de 2013, com cinco pontos principais a serem discutidos com a CBF: o calendário do futebol nacional, as férias dos atletas, um período adequado de pré-temporada, o fair-play financeiro (abordando as dívidas dos clubes com os atletas) e a participação nos conselhos técnicos das entidades que regem o futebol. Ronaldo Fenômeno, em matéria publicada no Estadão, o elogiou e pediu que fossem incluídas menções ao futebol feminino e à situação dos jogadores que já se aposentaram.


Por que “marinheiros russos”? Trotsky, ao estudar a revolução na Rússia[3], explicou que ela começou com os marinheiros. Esses marinheiros eram originalmente camponeses (e, na teoria marxista, essa não é uma classe particularmente favorável às mudanças). No entanto, ao saíram do campo e viajarem, eles adquiriram uma nova consciência, alterando sua visão sobre a sociedade, as condições de trabalho e as relações de poder. Da mesma forma, penso que os futebolistas que circularam pelo mundo passaram por uma transformação semelhante. Por mais que vivam em uma bolha protetora – especialmente densa quando são celebridades e atuam em clubes globais[4] –, essa exposição a diferentes culturas e realidades tem o potencial de expandir sua compreensão do mundo e influenciar suas perspectivas sociais e políticas. Mais diretamente, veem como se organizam colegas de profissão em outras ligas. Em uma palavra, crescem. Não todos, pois há os que permaneçam “meninos”, sem a inocência que a palavra evoca.



[2] Quem primeiro defendeu essa indicação foi o jornalista José Alberto Andrade, da Rádio Gaúcha.

[3] Trotsky, Leon. História da Revolução Russa. Brasília: Ed. do Senado Federal, 2017.

[4] Rial, Carmen. Circulation, bubbles, returns: the mobility of Brazilians in the football system. In: Eliot, Richard; Harris, John (Orgs.). Football and migration. London; New York, 2015. p. 61-75.



 

SOBRE A AUTORA:

Carmen Rial (UFSC) Coordenadora do INCT Futebol.


COMO CITAR:

RIAL, Carmen. O Caribe do “menino Neymar” e os marinheiros russos. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.10, 2024.


DOI: 10.13140/RG.2.2.29081.22886

 


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