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Das sombras à ascensão: estaríamos, finalmente, vivendo uma “era de protagonismo” no futebol de mulheres?

Gabriela Primeiro Goia (UFPel/INCT Futebol)


No texto a seguir, a autora discute o atual momento do futebol praticado por mulheres, questionando-se sobre o alcance das conquistas já realizadas por essa categoria.


O caminho está aberto para que a próxima geração de meninas tenha mais protagonismo no futebol? Imagem ilustrativa gerada com Lovart AI
O caminho está aberto para que a próxima geração de meninas tenha mais protagonismo no futebol? Imagem ilustrativa gerada com Lovart AI

Por décadas, o futebol de mulheres foi mantido nas sombras: invisibilizado, ridicularizado e até proibido por lei. Sob o estereótipo da fragilidade, às mulheres foi negado o direito de jogar aquilo que era visto como “esporte de homens”. Hoje, o cenário parece outro: estádios cheios, transmissões em TV aberta e uma Copa do Mundo de 2027 que promete ser histórica. Mas não deixa de ser irônico: a mesma sociedade que outrora achava cômico ver mulheres em campo agora aplaude as disputas. Surge, então, a pergunta: essa ascensão representa uma mudança estrutural ou ainda vivemos vitórias pontuais que mascaram velhas desigualdades?


Não é de hoje que assistimos à caminhada dura das jogadoras – e uso “caminhada” no sentido mais realista. A passos lentos e cansados, elas ainda lutam por espaço não apenas no campo, mas também na mídia, nos patrocínios, nos salários, nas condições de treinamento e no reconhecimento esportivo. A cobertura midiática, embora maior, ainda é desigual: jogadoras aparecem em manchetes quando recebem prêmios ou conquistam títulos, mas permanecem invisíveis ao longo da temporada.


Os números não mentem. A Copa de 2023 bateu recordes de audiência: foram cerca de 2 bilhões de telespectadores em todo o mundo, um marco histórico no futebol de mulheres, provando que há público, engajamento e interesse. Ainda assim, o abismo entre o futebol praticado por mulheres e por homens persiste. Essa discrepância não é obra do acaso, mas resultado de escolhas históricas, políticas e econômicas que relegaram as mulheres ao papel de coadjuvantes em um espetáculo que elas também transformaram.


Apesar disso, nunca se falou tanto em futebol de mulheres como agora. A expectativa pela Copa de 2027 alimenta um olhar de esperança: de que o caminho trilhado por Formiga, Marta, Cristiane e tantas outras esteja finalmente frutificando, inspirando novas gerações e fortalecendo o sentimento de representatividade.


Se, por um lado, as dificuldades estruturais e simbólicas ainda marcam a trajetória feminina no esporte, por outro, vivemos um momento inédito de ascensão. A Copa de 2023 consolidou jogadoras como referências globais, deu visibilidade a talentos emergentes e mostrou que o protagonismo é possível. Então, o que mais falta?


Talvez não seja apenas uma questão de reconhecimento institucional, mas de consolidação cultural. Precisamos enxergar o futebol de mulheres como parte intrínseca da nossa sociedade. Não é a falta de público ou de qualidade técnica que explica a desigualdade, mas a ausência de investimentos contínuos. O futebol masculino só se consolidou porque recebeu décadas de recursos massivos. Por que esperar que o futebol de mulheres alcance o mesmo patamar apenas pela paixão das atletas e da torcida? Não basta celebrar feitos em campo: é preciso sustentar essa ascensão fora dele.


Arrisco ir além: a ascensão já começou, mas o protagonismo só se consolida quando se torna irreversível. Esse futuro pode estar mais perto do que imaginamos: uma nova geração de meninas sonhando em ser jogadoras, ídolas, treinadoras. Elas já não pedem licença para jogar: elas ocupam o campo. Cabe a nós, enquanto sociedade, garantir que essa conquista não seja passageira. Afinal, talvez não estejamos esperando uma “era de protagonismo”: talvez nós já estejamos começando a vivê-la.


Sobre a autora:


Gabriela Primeiro Goia é aluna do curso de bacharelado em Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). É bolsista de iniciação científica do INCT Futebol. Tem interesse pelos estudos sobre prevenção/reabilitação de lesões esportivas, desigualdade de gênero, além de esporte e comunidade.


As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.


O futebol de mulheres é um tema tratado por outros textos no Bate-Pronto. Se você se interessa por essa discussão, irá gostar também do nosso artigo: Esporte Seguro no futebol de mulheres brasileiro: uma utopia ou há um caminho?


Como citar:


GOIA, Gabriela Primeiro. Das sombras à ascensão: estaríamos, finalmente, vivendo uma “era de protagonismo” no futebol de mulheres? Bate-Pronto, INCT Futebol, Florianópolis, v. 2, n. 39, 2025.


 
 
 

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