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Jogar como uma mulher

Atualizado: há 5 dias


Laura Esteves


O artigo 54 do Decreto-Lei que criou o Conselho Nacional de Desporto (CND), no ano de 1941, declarava: “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. Isso levou à proibição das mulheres de jogar  futebol, no início da era Vargas. Esse decreto ficou vigente até o ano de 1983. Antes, durante e até nos dias de hoje, lutamos para que possamos ser vistas e valorizadas dentro de campo. Isso também sendo olhado pelas perspectivas de investimento dos clubes nas equipes femininas, as publicidades de marcas, ou até nos reconhecimentos de títulos, nos quais superamos o futebol masculino. 


Lembrei durante uma aula de uma conversa com a minha avó e do álbum de fotos dela. Acabei descobrindo que, durante essa proibição, a sala dela fez uma partida de futebol para arrecadar dinheiro para a formatura. Pensando já no trabalho final da matéria de Antropologia e Esporte, fiz uma entrevista com ela, para entender melhor como foi realizado esse evento e, até mesmo, quais foram os empecilhos que tiveram, entre outras questões. 


O ano era  1962, mais especificamente em Caçador, Santa Catarina. O primeiro ginasial (hoje mais conhecido como magistério), na época, o último ano antes de se formar.


Principalmente uma das causas na qual levou a essa partida era arrecadar algum dinheiro para nossa formatura. Mas, naquele tempo, também as formaturas não são como hoje, então nem era tanto dinheiro. E o que a gente arrecadou para a época foi suficiente e, então, o dinheiro que a gente precisava acabou sendo arrecadado com essas partes de futebol. (Vó Filomena)


Foto do dia 15 de agosto de 1962, em Caçador, Santa Catarina. Nome  das integrantes da foto: Galla,  Neide, Nais, Nilve (em pé). Tânia, Kátia, Sheylla, Gladis, Leida, Filomena (minha vó), Silvete (agachadas)




Essa primeira fala dela me levou a perguntar se, de fato, ela sabia da lei supracitada, e como esse tema era visto por elas. E, então, se, de fato, essa lei era eficaz ou se era direcionada aos clubes maiores da época.


E a gente também não sabia, né? Até fiquei surpresa de que era proibido que as mulheres jogassem futebol, foi realmente uma surpresa. Fiquei sabendo agora. E,  se cometemos alguma falta, ninguém sabia. Realmente nunca se falou que mulher não podia jogar futebol. (Vó Filomena) 



Foto do dia 15 de agosto de 1962, em Caçador, Santa Catarina. Primeiro jogo da partida com o resultado de 1x1 (Turma do Caçadorenses). Nome das integrantes da foto: Gladis, Sheila, Kátia, Tânia, Galba, Neide, Nair, Nilve, Filomena, Odete, Silvete, Leida e Lia




Após ela esclarecer isso, perguntei, então, como de fato chegou ao ponto de o porquê de um jogo de futebol.


Foi em Caçador, e a gente conversando com a turma lá de repente surgiu. Alguém falou e todo mundo se animou e resolveram realmente formar um time de futebol. Na realidade, dois porque não tinha outro ali pela região, então se nós tivéssemos jogar teríamos que ter dois times. Então, os dois times eram alunas do colégio. (Vó Filomena)



Foto do dia 15 de agosto de 1962, em Caçador, Santa Catarina. Primeiro jogo da partida com o resultado de 1x1 (Turma do Caçadorenses contra o Vasco). Nome das integrantes da foto: Elisa, Terezinha, Darci, Gladis, Ivone, Glorinha, Terezinha, Inês, Angelina, Luci, Dalila, Elia, Matilde (em pé, Vasco). Filomena, Leida, Sheila, Odete, Ivete, Kátia, Neide, Gladis, Tânia, Mary Lia, Galba, Nair, Nilve (agachadas, Caçadorenses)



Muito me admirei, tanto pelo fato de ela não saber que o futebol feminino era criminalizado, como também que na época isso não era popular. O que me leva a ter a impressão de ser algo muito mais nichado da época, como nas capitais e também dentro dos grandes clubes, ou mesmo nessa comunidade esportiva.


Enquanto ela me contava, lembrei-me que uma das fotos tem um homem no meio do campo. Vendo na legenda atrás da foto, identifiquei que o homem que estava no meio do campo era o prefeito de Caçador. Então perguntei o porquê de ele estar ali, como chegou à interação com a prática e o porquê de ele chutar a primeira bola da partida. 


Agora, quanto à ideia do prefeito participar desse primeiro jogo, uma das alunas era muito amiga dele. Aí, ela perguntou o que a gente achava da ideia de convidá-lo para que ele desse o primeiro chute na bola. Todo mundo já topou, e ela falou com ele, ele aceitou. E realmente, no dia do jogo, ele estava lá preparado para dar o primeiro chute na nossa partida de futebol. (Vó Filomena)



Presentes na fotos: José Kurtz (Prefeito), Marcos Soares e Epaminondas (juízes), Maria Elisa  (número 10), Mary Lisa, Filomena, Terezinha





Presentes nas fotos: José Kurtz (Prefeito), Marcos Soares e Epaminondas (juízes), Maria Elisa  (número 10), Mary Lisa, Filomena, Terezinha




A participação do prefeito da cidade nas partidas só reforça o meu entendimento anteriormente apresentado em relação a Caçador, cidade do interior de Santa Catarina. A prática de mulheres em esportes declarados na época como “incompatíveis com as condições de sua natureza” não tinha o peso e o estigma que possuía nas cidades grandes onde mulheres, de fato, chegaram a serem presas, como é possível ver em reportagens: “Nos anos 1940, mulheres foram presas por jogar futebol nas ruas de Belo Horizonte”. O site Futebol Mineiro relata um caso específico que aconteceu em 1940 com algumas mulheres e um guarda.  


[...] na noite de 19 de abril de 1940, por volta das 21h40, um guarda estava  a serviço na esquina da Rua Tomaz Gonzaga com Curitiba, quando foi avisado que algumas mulheres estavam jogando futebol na Rua Santa Catarina, ao fim do bonde de Lourdes. O guarda, segundo a reportagem, considerou o fato um escândalo, “ainda mais no meio da rua”, e partiu rumo ao local da peleja. Ao chegar, o jogo foi interrompido, e o guarda conseguiu prender duas jogadoras, Arletina e Enedina, além de um homem que participava do jogo. Uma das jogadoras, Noêmia, que era empregada doméstica, conseguiu fugir e trancar-se no quarto. “O guarda teve ordens dos patrões para entrar na residência. Mas Noemi não quis abrir a porta e o guarda resolveu ir-se embora”, descrevia o DT, que tachou o guarda como “severo e antidesportivo”. (22/03/19)

Diante desse relato e pensando no que a minha vó fala, qual seria a diferença? Por que em um as mulheres tiveram que fugir e em outro o prefeito da cidade deu o primeiro chute da partida? Por que, além desse primeiro jogo, elas tiveram abertura para jogar em Videira e depois em Porto União, com torcidas, juízes, estruturas que teoricamente não seriam acessíveis?


Durante a entrevista, cheguei a perguntar como era o esporte, como ele havia chegado a elas e, até mesmo, como o uniforme foi desenvolvido. A resposta foi simples: “usamos os uniformes que já estavam ali”. O uniforme era o mesmo do desfile do evento do dia sete de setembro, que também era o mesmo do vôlei. O tênis era especial porque na época não se usava tênis como hoje (como diz ela: “o famoso Botinha que hoje equivale ao All Star”). E sobre a escolha de ser o futebol, ela conta que o vôlei era comum, e elas precisavam chamar a atenção com algo mais incomum para a época e encontraram isso no futebol.


Mas, voltando às questões de o porquê de elas terem tido essa oportunidade, isso me faz pensar em quem eram essas mulheres: brancas, de classe média alta, em uma cidade do interior, protegidas por um colégio católico (sendo que a grande maioria foi mandada para estudar longe da família), com o contato de pessoas influentes na época, em um jogo que não seria noticiado e no qual ninguém pretendia se tornar profissional.


A luta pelo espaço não é o suficiente. Precisamos permanecer. O machismo e o sexismo são apenas a borda de um grande problema que envolve racismo e desigualdade de classes. E, durante o semestre, tudo isso foi passado de diferentes perspectivas e origens. Aprendemos que a interdisciplina é muito importante principalmente quando falamos de trabalhos acadêmicos. Mas não só paramos aí, pois também devemos colocar isso em prática. Como na hora de identificar os casos que envolvam os esportes em ação.




Este texto foi produzido para a disciplina Antropologia e Esporte, da Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina. A disciplina foi ministrada pelos professores Dr.a Carmen Rial e Dr. Luiz Rigo.



REFERÊNCIAS:


ALMEIDA, C. S.; ALMEIDA, T. R. “Deve ou não deve o football invadir os domínios das saias?”: histórias do futebol de mulheres no Brasil. CSOnline - Revista Eletrônica de Ciências Sociais, n. 31, 2020.

RIAL, Carmen. Déjala trabajar: el fútbol y el feminismo en Brasil. In: FISCHER, Thomas; KÔLHER, Romy; REITH Stefan. (Org.). Fútbol y Sociedad en América Latina. Frankfurt: Editorial Vervuert, 2021.

RIGO, Luiz Carlos et al. Notas acerca do futebol feminino pelotense em 1950: um estudo genealógico. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas, v. 29, n. 3, p. 173-188, mai. 2008.


SOBRE A AUTORA:


Graduanda em Antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina, nascida na cidade de São Joaquim, Santa Catarina. A minha experiência com o esporte, vem de família. As mulheres do meu lado paterno sempre praticaram esporte, então sempre tive incentivo à prática. Comecei jogando futsal, nas horas vagas das aulas do fundamental. Nas aulas de Educação Física, infelizmente não tinha um time feminino, e nem meninas para fazer parte. Segui praticando o esporte em um programa de aulas feito pela prefeitura da cidade, competi pela minha escola durante o ensino fundamental e médio.


O esporte na minha vida sempre foi muito importante, e estar neste lugar e lutar para permanecer e persistir fez com que eu tivesse pessoas que foram e são muito importantes para minha vida, mas também me fez entender que há um machismo estrutural e um sexismo por vários lados. Hoje, isso me incentiva a entender melhor as relações dentro do esporte e tentar fazer alguma mudança. Por isso tenho interesse em Antropologia do Esporte dentro da área de pesquisa.


COMO CITAR:


ESTEVES, Laura. Jogar como uma mulher. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.1, 2024.




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