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Exposição “Acervo MIS – Retratos do Futebol Brasileiro”: com a chegada da Copa do Mundo de 2026, a energia social do futebol vai se manifestando

 

Cristiano Mezzaroba (UFS)


No texto abaixo, o autor nos apresenta um relato sobre a exposição “Acervos MIS – Retratos do Futebol Brasileiro”, do Museu da Imagem e do Som. A partir dela, ele reflete sobre o futebol contemporâneo e sobre como ele tem se apresentado no Brasil.


A exposição ocorreu em maio, no Museu da Imagem e do Som. Imagem: Cristiano Mezzaroba
A exposição ocorreu em maio, no Museu da Imagem e do Som. Imagem: Cristiano Mezzaroba

 Com a chegada do mês de junho de 2026, começamos a ver o mundo com todas as suas atenções voltadas para mais uma edição da Copa do Mundo de Futebol masculina. A sua vigésima terceira edição está sendo tratada pelos veículos midiáticos como a “maior copa da história”. Tanto porque está sendo disputada, pela primeira vez, com sedes em três países diferentes – México, Estados Unidos da América e Canadá –, como também porque conta com 48 (quarenta e oito) seleções participantes. Prefiro deixar para outro momento a reflexão e crítica sobre o fato de os Estados Unidos da América estarem sediando uma versão da Copa, apesar da intensa produção de guerras com outros países em outros territórios (Palestina, Venezuela, Irã...), sem sofrerem punição, como a Rússia sofreu e sofre pela invasão à Ucrânia.

 

Lembro-me de que, em 2014, em meu primeiro ano de doutoramento, refleti e escrevi sobre o que estava percebendo em torno da preparação da Copa de 2014 no Brasil, observando uma “energia social” em torno do esporte, mais especificamente, do futebol (Mezzaroba, 2017a). Como seria realizada no Brasil, obviamente as estratégias de agendamento midiático, a onipresença do tema da Copa na publicidade, na rotina comum das pessoas e tudo mais que ocorre em período de Copas do Mundo de futebol eram algo que chamava a atenção.

 

Em períodos assim, vamos vendo uma intensa produção de imagens, de produtos publicitários, de audiovisuais, de manifestação midiática opinativa (a famosa “falação esportiva”) e também posições que evidenciam a relação entre esporte/futebol, mercado/economia e sociedade.

 

Na publicidade, certamente um dos campos mais evidentes, é comum a figura dos jogadores de futebol, mas, em momentos de Copa do Mundo, há uma intensa profusão de circulação de peças publicitárias que veiculam marcas esportivas, bebidas, aparelhos televisores cada vez mais tecnológicos, produtos de higiene, instituições bancárias, carros dos mais variados estilos etc.

 

Na mídia, de forma geral, o futebol, que já é a modalidade com maior visibilidade (ao menos no Brasil), passa a ocupar com maior tempo os programas jornalísticos para além da noticiabilidade dos programas esportivos. Novos quadros são criados; mais humor é misturado à cobertura (configurando o infotenimento); novos e novas comentaristas são mobilizados (mesmo sem conhecimento técnico, porque hoje há a penetração da figura dos influenciadores digitais nas coberturas esportivas); enfim, um intenso movimento que coloca a Copa como assunto para a opinião pública.

 

No popular streaming Netflix, temos à disposição a série “Brasil 70: A saga do Tri”, com cinco episódios, que aborda o tricampeonato brasileiro no México, com direção de Paulo e Pedro Morelli e Quico Meirelles. Jogadores como Pelé, Tostão, Rivelino e Gérson, e também Zagallo e João Saldanha, recebem centralidade na produção. Não se trata de uma série documental 100% factual, como afirma Alonso (2026), mas “[...] o ponto alto da série é a fidelidade na recriação das jogadas clássicas da Copa. Estão todas lá. Dos gols históricos concretizados aos famosos gols não marcados por Pelé, como o chute do meio de campo no jogo de estreia contra a Tchecoslováquia, e o drible da vaca no goleiro uruguaio na semifinal.”

 

Também em espaços culturais, vemos o futebol e a Copa receberem atenção, como no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, que exibiu, em maio, a Exposição “Acervo MIS – Retratos do futebol brasileiro”.

 

Em uma única sala, tivemos à disposição um lindo conjunto de fotos em preto e branco com uma seleção de imagens das Copas de 1958, 1970 e 1974, além de imagens relacionadas à torcida e um espaço para celebrar fotógrafos e fotografias premiadas.

 

Além disso, em uma das paredes, havia à disposição bancos para sentar e fones de ouvido para acompanhar entrevistas curtas realizadas pelo próprio MIS (e que constam no Acervo MIS, a partir de um belíssimo trabalho denominado “Memória do Futebol”, com ênfase na história oral, capitaneado por José Sebastião Witter, especialista em cultura do futebol, falecido em 2014) com Leônidas, Pelé, Rivelino, Gilmar, Djalma, Leivinha e Bellini. Uma oportunidade singular para escutar as vozes de nossos atletas históricos.


A exposição permitiu ouvir a voz de grandes ídolos do futebol. Imagem: Cristiano Mezzaroba
A exposição permitiu ouvir a voz de grandes ídolos do futebol. Imagem: Cristiano Mezzaroba

Independentemente de o visitante ser ou não um profundo conhecedor (ou amante) do futebol e dos fatos brasileiros, a Mostra se configurou como um importante espaço para conhecer e desfrutar um tempo histórico ali registrado, que ensina sobre a representatividade da dimensão do futebol naquilo que costumamos definir como sendo a identidade brasileira.

 

As imagens, conforme o francês Didi-Huberman (2010), historiador da arte, podem ser consideradas como parte da “pedagogia do ver-ter”, isto é, uma maneira comum de construção de um imagético histórico humano que se caracteriza por oferecer um pedaço da história (no caso, a fotografia, as imagens) como algo que representa aquilo que realmente aconteceu. É assim que as descrições históricas e narrativas vão se tornando homogêneas em relação aos acontecimentos do passado.

 

Que tipos de memórias as fotos e os produtos audiovisuais nos trazem e nos provocam, em especial essas imagens de jogadores, momentos e personagens históricos relacionados ao futebol brasileiro? A associação entre ver e reter a imagem, quando estamos diante desses materiais culturais, pode ter como propósito o conhecimento inicial ou o aprofundado de informações históricas, sociais, culturais, geopolíticas, geracionais etc., provocando emoções, questionamentos, mobilizando afetos e pertencimentos. Quando estamos diante de uma fonte histórica – uma fotografia, um documento, um audiovisual – nesses espaços culturais, passamos a ter parte daquela história conosco.

 

Essas experiências de frequentação, como diria o sociólogo francês Pierre Bourdieu (2013), auxiliam na ampliação de repertórios informacionais e culturais. Neste caso, o conhecimento sobre futebol, história, memória, política e sociedade, tendo em vista que as imagens e os depoimentos que podemos ver na tela constituem a história que vamos conhecendo. Períodos como este estimulam instituições culturais, educativas e formativas a oferecer fragmentos de histórias que costumeiramente não acessamos.

 

Imagens da Copa de 1970. Imagem: Cristiano Mezzaroba
Imagens da Copa de 1970. Imagem: Cristiano Mezzaroba

Voltando à exposição, no conjunto fotográfico que compõe a seção da Copa de 1970, temos uma fotografia que chama muita atenção, referente a um cartaz mexicano com a frase “hoy no trabajamos porque vamos a ver a Pelé” (foto abaixo). Apresentam-se fotos de Pelé, Jairzinho e Tostão comemorando gol nessa Copa do tricampeonato. Também de Pelé e Tostão nas eliminatórias dessa edição da Copa; de Pelé de costas com a sua camisa 10, tirada em 13 de junho de 1969 na Ilha do Retiro, em Recife/PE; e, claro, a famosa comemoração do tricampeonato mundial no Estádio Azteca em 1970; além da imagem do capitão Carlos Alberto Torres erguendo a Taça Jules Rimet.


“Hoy no trabajamos porque vamos a ver a Pelé”. Imagem: Cristiano Mezzaroba
“Hoy no trabajamos porque vamos a ver a Pelé”. Imagem: Cristiano Mezzaroba

 Saí da exposição provocado a pensar o Brasil a partir do futebol (o que já faço há algum tempo, sem me dedicar com profundidade, como em Mezzaroba, 2017b), algo que desde a leitura de “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, de José Miguel Wisnik (2008), me encanta, ou seja, a dimensão dual e ambígua que o futebol representa em nossa cultura e em nosso cotidiano.

 

Não restam dúvidas que os momentos de Copa do Mundo ajudam a mobilizar tais reflexões: fico pensando em que valores atuais nossos ídolos conseguem subjetivar em crianças e jovens, ainda mais em relação à figura de Neymar e à falsa meritocracia (tendo em vista que o técnico Ancelotti argumentava que só levaria à Copa quem estivesse no seu auge físico e técnico); fico pensando se lá nos anos 1950 e 1970 a dimensão mercadológica e da fama era tão preponderante para aqueles jovens que hoje chamamos de Pelé, Rivelino, Garrincha, Tostão, Gerson etc. E, em ano de eleições, em que ainda temos que lidar com a extrema-direita que se sujeita aos EUA, fico pensando que país queremos com o futebol que temos. E o que ele diz sobre nós!

 

Referências:

 

ALONSO, Gustavo. O futebol não é o ópio do povo, e a Netflix acaba de provar isso. Folha de São Paulo, São Paulo, 30 mai. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/gustavo-alonso/2026/05/o-futebol-nao-e-o-opio-do-povo-e-a-netflix-acaba-de-provar-isso.shtml. Acesso em: 31 mai. 2026.

 

BOURDIEU, Pierre. Homo academicus. 2. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2013.

 

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 2010.

 

MEZZAROBA, Cristiano. A “energia social” do esporte: aproximações e experimentações possíveis a partir de um conceito. Revista Kinesis, Santa Maria, v. 35, n. 2, p. 50-60, 2017a. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/kinesis/article/view/26904.  Acesso em: 20 fev. 2026.

 

MEZZAROBA, Cristiano. O esporte como elemento para se pensar o Brasil, sua formação e sua contemporaneidade. Motrivivência, Florianópolis, v. 29, n. especial, p. 197-217, 2017b. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/motrivivencia/article/view/2175-8042.2017v29nespp197. Acesso em: 14 mar. 2026.

 

WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

 

Sobre o autor:

 

Cristiano Mezzaroba é doutor em Educação (UFSC), professor no Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe (DEF/CCBS/UFS) e também Professor Permanente no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/UFS). Coordena a Linha de Pesquisa “Mídias, torcidas e movimentos antirracistas”, do INCT Futebol.

 

As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.

 

Se você gosta de exposições sobre futebol, leia também outro texto de Cristiano Mezzaroba publicado no Bate-Pronto: Museus de futebol, memória e aprendizado: uma passagem pelo Mâs Monumental, do River Plate.



 
 
 

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