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A política na Copa e a expansão do futebol de mulheres

Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)


No texto abaixo, a autora reflete sobre as tensões políticas na relação entre a FIFA e o governo Trump na realização da Copa do Mundo de 2026, bem como sobre o movimento de expansão do alcance do esporte que a FIFA tem tentado realizar.


A capa do jornal francês L’Équipe satiriza a relação entre Trump e a FIFA. Imagem: L’Équipe
A capa do jornal francês L’Équipe satiriza a relação entre Trump e a FIFA. Imagem: L’Équipe

A Copa do Mundo de 2026 reflete bem a enorme expansão do futebol no mundo e o crescimento de seu organismo máximo, a FIFA, que alargou fronteiras, especialmente sob a presidência de Havelange (Burlamaqui, 2021). Se a primeira Copa, de 1930, realizada no Uruguai, teve apenas 13 seleções participantes (7 sul-americanas, 4 europeias e 2 norte-americanas); a de 2014, realizada no Brasil, teve 32; e a de agora terá 48, alterando um formato vigente desde 1998. Também entre as mulheres, notamos um crescimento quase geométrico: a de 1991, realizada na China, teve 12 seleções; passou a 16 em 2003 (Estados Unidos); e terá 32 no próximo ano, no Brasil. Além disso, a FIFA já aprovou a ampliação para 48 seleções a partir de 2031. A expansão do futebol, como vemos, foi muito mais rápida e aguda no torneio das mulheres.

 

Costuma-se dizer que a FIFA tem mais países membros do que a ONU. Porém, o seu alcance geográfico no futebol de homens parece estar próximo de atingir um teto, com o ingresso dos países do Oriente Médio e seus petrodólares, com a conquista dos mercados asiáticos – primeiro Japão e Coreia, depois China – e, por fim, com a conquista em andamento de Estados Unidos e Canadá – com o crescimento da MLS (Major League Soccer). A nova fronteira para a FIFA tornou-se o futebol de mulheres.

 

Excluídas do jogo desde o final da Segunda Guerra na Europa e na América Latina, numa interdição que durou até por volta dos anos 1980, e interditadas desta e de outras práticas esportivas em muitos outros países, elas são o lócus do interesse mercadológico atual. A mudança tem sido impulsionada pela FIFA, que, por meio de suas confederações, tem condicionado a participação dos clubes e seleções de homens em torneios por eles organizados à existência de departamentos de futebol feminino. Uma demanda que tem tido um sucesso relativo, pois o comprometimento dos clubes com esses departamentos de futebol “feminino” é pequeno, não apenas pelo abismo salarial entre as modalidades, como também pela infraestrutura oferecida às atletas e pela duração de vida do departamento¹

 

Do ponto de vista político, passamos de um contexto em que a FIFA mantinha com os países organizadores das Copas do Mundo uma posição de dominação para o seu inverso em 2026, se curvando diante do todo poderoso presidente dos Estados Unidos. Essa inversão é bem exemplificada quando lembramos da frase que ficou famosa do secretário-geral da FIFA Jérôme Valcke, em 2014. Descontente com o andamento dos procedimentos para a organização da Copa do Mundo no Brasil, Valcke afirmou que os brasileiros precisavam tomar “um pé no traseiro”². A frase em inglês “kick your arse” causou uma crise diplomática entre a FIFA e o governo brasileiro. Na época, o ex-Ministro do Esporte, Aldo Rebelo, chegou a declarar Jérôme Valcke “persona non grata”, o que é, de fato, uma condenação veemente em termos diplomáticos. Embora Valcke tenha tentado se justificar alegando um mal-entendido, a frase revelava bem a posição desigual dos parceiros, no caso, do governo Dilma Rousseff e da FIFA. As exigências da entidade máxima do futebol iam ao ponto de se impor ante a Constituição brasileira, como ocorreu com a aprovação da chamada Lei Geral da Copa. O caso brasileiro suscitou debates sobre soberania, governança global do esporte e os limites da autonomia estatal diante de organizações transnacionais com elevado poder econômico e simbólico.

 

Comparemos agora a frase de Jérôme Valcke com a subserviência demonstrada diante de Donald Trump pelo atual presidente da entidade, o ítalo-suíço Gianni Infantino. Vemos que essa desigualdade se inverteu. A capa do tradicional jornal esportivo francês L’Équipe retratando Infantino como um fantoche de Trump sintetiza bem a situação³. Exemplos não faltam: por anos, a FIFA afirmou a nominação futebol/football. Hoje, em praticamente toda a Europa, América do Sul, África e grande parte da Ásia, o esporte é chamado de football (futebol, fútbol, Fußball, etc.)4. Ainda que Canadá, Nova Zelândia e Austrália usem às vezes soccer e às vezes football, é só nos Estados Unidos que soccer é nome oficial. Pois, agora, o Presidente da FIFA acrescenta “soccer” nas suas falas: “football or soccer”, ele diz. Uma piscadela a Trump? O nome importa, sabemos. E sabe bem Trump, que, numa ousadia narcisística, acrescentou o seu nome no John F. Kennedy Center, o mais conhecido centro cultural de Washington D.C., com seus palcos de teatro, música e exposições5.

 

Há outros casos em que a subserviência fica ainda mais notável. Bastou o presidente norte-americano “sugerir” a criação de um Prêmio FIFA da Paz (vejam a ironia: ele, que planta guerras, derruba governos, conspira abertamente, ameaça e mata, sugere um prêmio da paz) para ser imediatamente atendido pela FIFA. E, alguma surpresa? Trump foi ele mesmo o primeiro ganhador do primeiro Prêmio FIFA da Paz, o que foi considerado por muitos como uma compensação para o Nobel da Paz que ele tanto queria. Talvez esse prêmio evite que se repita o roubo de medalhas, caso ele seja designado para entregá-las aos vencedores6.

 

Uma intervenção norte-americana na Copa mais grave ainda: o somaliano Omar Abdulkadir Artan, tido como o melhor árbitro da África, teve sua entrada nos EUA negada devido às alegações do governo Trump de “associação com supostos membros de organizações terroristas”. Nenhuma outra explicação foi dada e a manifestação de Infantino sobre o caso poderia ser resumida em um humilhante “Tentamos, mas...”. Artan foi recebido como herói no seu retorno à Somália.

 

A delegação do Irã foi impedida de dormir em solo americano. Mesmo depois de ter sido assinado um acordo entre os dois países que estavam em guerra, os iranianos têm que sair apressadamente do estádio após os seus jogos da fase de grupos que serão disputados nos Estados Unidos, com duas partidas na região de Los Angeles (Inglewood) e uma em Seattle, e voltar para sua base em Tijuana, no México. A seleção terá como torcedores apenas os imigrantes iranianos estabelecidos nos EUA, pois, claro, foi negado visto de entrada a todos os cidadãos do Irã. Para outros países, os vistos foram condicionados ao pagamento de altas taxas. Vozinha, o heroico goleiro de Cabo Verde, não pôde ter no estádio seus pais assistindo o inimaginável empate com a Espanha, campeã europeia, por não ter como pagar o caríssimo visa de entrada cobrado aos cabo-verdianos. O mesmo ocorre com torcedores de muitos outros países da África, sem falar nos do Haiti, da Costa do Marfim e do Senegal, que, mesmo pagando, não podem entrar, por conta do “travel ban”.

 

As delegações estrangeiras de muitos países participantes, quando na entrada no país, têm sido humilhadas com revistas bem além do normal, com obrigação de retirada de calçados, presença de cães do ICE, a polícia anti-imigrantista, e uma vigilância constante nas proximidades das concentrações.

 

Há ingerências mercadológicas e de outros esportes no campo futebolístico, muito além do ocorrido em outras Copas do Mundo. Foram introduzidos intervalos no jogo, os chamados cooling breaks, de modo a permitir spots publicitários televisivos na metade de cada um dos dois tempos. E foi introduzido um show de intervalo na abertura, como é comum nos jogos de futebol americano. A BBC de Londres não transmitiu esse show, mantendo a análise dos comentaristas e a reprodução dos principais lances da partida, como tradicionalmente se faz no jornalismo esportivo televisivo.

 

Pelo menos não se repetiu a entrada dos futebolistas em campo um a um, com luzes e efeitos especiais, imitando a dos esportes americanos, como ocorreu no Mundial de Clubes de 2025. Foi mantida a entrada coletiva, tradicional e praticada em todo o mundo, e a novidade foi a inclusão de todos os reservas nessa abertura dos jogos, incluindo o perfilar para os hinos e a saudação aos adversários.

 

O preço dos ingressos está sendo calculado por algoritmos, emulando as companhias aéreas. E os lucros auferidos pela FIFA e pelos EUA são enormes – a Copa vai gerar 50,4 bilhões de reais (Fofana, 2026) com receitas comerciais – direitos televisivos, patrocínios, hotelaria e bilheteria –, e a FIFA deve lucrar 13 bilhões de reais; Trump não se sabe exatamente quanto, mas se sabe que a FIFA alugou um andar inteiro na Trump Tower de Nova York, mantida vazia a maior parte do tempo. Um exemplo do preço exorbitante dos ingressos vimos na cobertura da rádio Gaúcha no pré-jogo inaugural da seleção brasileira, quando a repórter Kelly Matos perguntou para um conterrâneo, vindo do Pará, quanto tinha pagado pelo ingresso. Ele respondeu com tranquilidade: “26 mil reais”, deixando-a sem palavras. Provavelmente, ele estava se referindo ao total gasto, mas vá saber. De fato, o ingresso mais em conta para Brasil e Marrocos foi de 1.862 dólares, quase seis meses de salário-mínimo no Brasil.

 

De acordo com a InfoMoney, enquanto um ingresso para a final da Copa do Mundo na França, em 1988, custou R$ 51, assistir à decisão da Copa em 2026 requer um investimento de no mínimo R$ 22.7027. E pode subir, pois a tarifa é dinâmica e oscila segundo a demanda. Vivemos um momento em que a assistência presencial aos esportes de alta performance – como a Copa do Mundo, os torneios do Grand Slam de tênis e outros grandes espetáculos midiáticos – tornou-se um item de luxo, acessível a uma elite globalizada que viaja o mundo com esse objetivo.

 

Alguém se opôs a isso? Com muito esforço, o prefeito de centro-esquerda de Nova York, Zohran Mamdani, conseguiu da FIFA uma cota de mil ingressos a 50 dólares exclusivamente para moradores locais. Os ingressos foram distribuídos por sorteio. Lembrando: 50 dólares correspondem a cerca de 255 reais; o preço de uma arquibancada no Maracanã é de 100 a 200 reais.

 

Num esporte cada vez mais midiático, algo do modo americano de cobri-lo já se exportou para a Copa. Comum nos Estados Unidos, o “jornalismo de entretenimento” (será que se pode falar em jornalismo quando qualificado de entretenimento?) é uma tendência também no Brasil e suscitou uma polêmica pela contratação da criadora de conteúdo Virginia, ex-namorada de Vinicius Jr., pela Rede Globo de TV, para participar da cobertura da Copa do Mundo 2026. E temos a briga das marcas: Adidas x Nike. E a marca alemã sai na frente, não apenas numericamente – 14 seleções vestem Adidas, 12 vestem a Nike –, mas porque tem sob sua esfera Lionel Messi e Lamine Yamal, as duas maiores estrelas. Os comerciais da Adidas, no país de Hollywood, incluem celebridades como Trinity Rodman (jogadora do Washington Spirit), Bad Bunny (compositor e cantor, fez um memorável show de intervalo no último Super Bowl) ou Timothée Chalamet (ator), reforçando a articulação entre entretenimento, cultura pop e futebol. A Nike optou por uma pub localizada, com astros dos países – por exemplo, no caso da França, associando a marca ao cinema e ao luxo, com Kylian Mbappé. A Puma teria sido muito prejudicada, não fosse a campanha nacional que se fez para a presença de Neymar Jr. na Copa.

 

Mas as ingerências comerciais e políticas também têm limites. O campo futebolista ainda guarda alguma autonomia. Trump conseguiu um prêmio, mas não conseguiu colocar a Itália na Copa, como queria. Por conta da guerra com o Irã, ele sugeriu que a seleção iraniana fosse excluída da Copa e, no seu lugar, entrasse a Itália – que tinha sido eliminada da Copa. O próprio governo italiano rejeitou a ideia; o ministro do Esporte declarou que a classificação deve ser conquistada em campo. E dirigentes italianos consideraram a proposta inadequada e contrária ao mérito esportivo. Também a proposta de Trump de excluir as cidades governadas por democratas de serem sedes da Copa não teve êxito. Ele teve que assistir à ampla repercussão nas redes sociais de um discurso de Zohran Mamdani, que associava o futebol a conquistas no campo político. Em sua fala, Mamdani evocou a experiência de Sócrates e da Democracia Corinthiana como símbolos da resistência à ditadura civil-militar no Brasil. Com humor, militantes em defesa do direito à imigração criaram o slogan “No ICE in the Cup” e organizaram brigadas para prevenir eventuais prisões e garantir “fan zones” seguras para os torcedores de comunidades de imigrantes que não puderam arcar com os preços exorbitantes da Copa FIFA 2026.

 

Referências

 

BURLAMAQUI, Luiz Guilherme. A dança das cadeiras: a eleição de João Havelange à presidência da Fifa (1950-1974). São Paulo: Intermeios, 2021.

 

FOFANA, Balla. Marketing: Adidas contre Nike, L’autre match. Libération, 9 jun. 2026. p. 5.

 

Sobre a autora

 

Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).


¹ O Fortaleza Futebol Clube, por exemplo, resolveu extinguir o Departamento de Futebol Feminino ao ser rebaixado para a série B, em 2026, por decisão da SAF. “Vale destacar que as Leoas, em 2025, conquistaram o título do Campeonato Cearense em cima de seu maior rival, o Ceará, e ainda garantiram a vaga inédita para a Série A1 do Campeonato Brasileiro.” Disponível em: https://ge.globo.com/ce/futebol/times/fortaleza/noticia/2025/12/29/fortaleza-anuncia-fim-atividades-do-futebol-feminino.ghtml. Acesso em: 11 jun. 2026.

² A declaração de Jérôme Valcke ocorreu durante uma coletiva de imprensa em Londres, na qual ele expressou sua frustração com os atrasos na construção dos estádios e obras de infraestrutura no Brasil.

4 Trump, tempos depois, voltou em mais um episódio do chamado TACO (Trump Always Chickens Out) e afirmou que o soccer deveria ser chamado de football. Sugeriu em tom provocativo que a NFL buscasse outro nome para o seu esporte.

5. Durou apenas alguns meses essa profanação, pois um juiz determinou a retirada do nome de Trump do Kennedy Center.

6 Só para lembrar, a história do “roubo de medalhas por Trump” foi um rumor que surgiu após a final da Copa do Mundo de Clubes da FIFA de 2025, quando o Chelsea venceu o PSG por 3 a 0. Os vídeos mostraram o presidente dos EUA colocando uma medalha no bolso durante a cerimônia de premiação. As imagens viralizaram nas redes sociais, e muitos usuários afirmaram que ele teria “roubado” uma medalha destinada a um jogador. O episódio gerou ainda mais repercussão porque Trump também declarou que o troféu original da Copa do Mundo de Clubes estava sendo guardado na Casa Branca e que a FIFA teria produzido outra versão para o Chelsea.

7 Segundo a InfoMoney, em 1998 (FR), o preço para assistir à final era de R$ 51. Em 2002 (Japão/Coréia), de R$ 608; em 2006 (Alemanha), R$ 643; em 2010 (África do Sul), R$ 688; em 2014 (BR), R$ 1.055; em 2018 (Rússia), R$ 1.484; em 2022 (Qatar), R$ 3.428. Ainda que se leve em conta a inflação e a cotação do dólar, a subida para R$ 22.702 é enorme. Agradeço ao Sílvio Ricardo da Silva, coordenador da Linha de Pesquisa Infraestrutura, Estádio, Museu e Memória do Futebol do INCT Futebol, por ter repassado um post do Instagram com esses números.


 
 
 

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