A Copa de 2026 ao sol e à sombra
- INCT Futebol
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Édison Gastaldo (CEP/FDC)
No texto abaixo, o autor faz uma análise detalhada dos aspectos a serem celebrados e dos que preocupam em relação ao desenvolvimento da Copa do Mundo de 2026 até aqui.

Texto recebido em 26/06/2026.
O título deste artigo homenageia uma pequena obra-prima: Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano (L&PM, 1995). Essa coletânea de verbetes concisos e mordazes sobre a história do futebol é um dos meus livros favoritos em nosso campo. A metáfora do título de Galeano refere-se ao estatuto ambíguo do universo do futebol. Existe um futebol “do sol”, feito de craques, jogadas, gols, títulos e festas. Mas também existe um futebol “das sombras”, feito de cartolas, negociatas, malas pretas, fármacos, direitos de transmissão e variadas formas de violência. Luz e sombra futebolísticas coexistem dentro e fora do estádio, em bares, nas torcidas organizadas, nas emissoras de TV, federações e confederações, incluindo a própria FIFA.
A Copa de 2026 exemplifica à perfeição esta metáfora. Gostaria de usar esta distinção metafórica entre luz e sombra para pensar sobre esse evento no calor da hora. São minhas primeiras impressões. A Copa ainda está na primeira fase. Só hoje (25 de junho), seis partidas acontecerão.
Vou iniciar falando do que vi de luz neste Mundial. Até agora, só dentro de campo.
a) a média de gols por jogo: A média de 2,93 gols por partida (até agora) é a maior desde 1970. É um alento ver que os esquemas táticos do futebol voltem a produzir resultado expresso no placar. Mas é desanimador pensar que a última vez em que houve média de gols acima de 3 foi na Copa de 1958 (com 3,60). E que a maior média foi na Copa de 1954, com inacreditáveis 5,38 gols em média por jogo – mas isso foi há mais de 70 anos.
b) o Sul Global entra em campo: Quando criança, aprendi que, na Copa do Mundo, existem dois tipos de países (e na Copa do Mundo, as seleções são os países): os “bons”, que ganham os jogos e disputam o título, e os “ruins”, que servem de sparring para os países “bons”, perdem por goleada e são eliminados na primeira fase. Em minhas Copas do Mundo quando criança (lembro particularmente da Copa de 1974, quando eu tinha 9 anos), times como o Haiti ou o Zaire eram motivo de chacota nas rodas de conversa de crianças e adultos. Afinal, o Brasil era o único tricampeão do mundo, e com brasileiro não havia quem pudesse. Pessoalmente, essa arrogância imperial do futebol brasileiro nunca me agradou. Mas em 2026, vários times das periferias do sistema-mundo do futebol sustentaram resultados heroicos contra times “bons”, incluindo vários ex-campeões do mundo. Marrocos, Gana, Cabo Verde, Egito, Japão e Irã são bons exemplos. Em cada um desses times, há vários jogadores que disputam campeonatos no futebol europeu, compartilhando esquemas táticos, treinamentos e tecnologias de recuperação e acompanhamento de desempenho. Ou seja, hoje, é impossível falar em “escola” brasileira, sul-americana ou alemã. Hoje, futebol é jogado do mesmo modo em qualquer parte do mundo. E o Sul Global chegou chegando.
c) os protagonistas: alguns jogadores que marcaram a história recente do futebol mundial têm, nesta Copa, a última oportunidade de exibir seu gênio. E eles estão exibindo. Messi fez cinco gols em duas partidas, e Cristiano Ronaldo, após um primeiro jogo muito criticado, foi impecável contra o Uzbequistão, superando o legendário Eusébio e se tornando o maior goleador de Portugal na história das Copas. No Brasil, Vinicius Jr. está tendo uma atuação exuberante, disputando gol a gol a artilharia da competição. Essas “lendas vivas” são importantes marcadores de memória para os torcedores e elementos fundamentais na manutenção de uma cultura futebolística.
Sobre a dimensão sombria da Copa de 2026, há muito mais o que falar, infelizmente.
a) A Copa da xenofobia: a Copa do Mundo, quando concebida nos anos 1920, emulava o “espírito olímpico”, o ideal de congraçamento das nações por meio do esporte. No espírito olímpico original (refiro-me à Grécia Antiga), tudo começava com uma “trégua sagrada”: as guerras eram interrompidas para que os jogos pudessem acontecer. Em 2026, a Copa foi inaugurada durante uma guerra! Pior, a Copa foi sediada por um dos países em guerra, e seu inimigo estava inscrito para participar. As mesquinhas sanções dos Estados Unidos (país) contra a equipe do Irã (time) serão vistas como um dos momentos mais abjetos da história do esporte. Impedida sequer de pernoitar nos Estados Unidos, a equipe do Irã precisou hospedar-se em Tijuana, no norte do México, viajando para as partidas no dia do jogo e devendo voltar ao México no mesmo dia. Seu principal jogador teve visto somente para uma entrada, ficando retido e separado do time no aeroporto. Uma covardia, uma vergonha. O mesmo pode ser dito do tratamento dispensado a jogadores, jornalistas e torcedores de todos os países do Sul Global. Os escândalos se acumularam: uma repórter brasileira negra teve seu cabelo revistado pela polícia, um árbitro da Somália foi preso e deportado; agentes do ICE fizeram buscas e prisões de torcedores no entorno dos estádios. A FIFA, como de praxe, foi conivente com os abusos, declarando seu irrestrito apoio às autoridades americanas. A hipocrisia da FIFA não vem de hoje: na Copa de 1938, a mesma FIFA deu razão aos nazistas. A Áustria estava classificada para a Copa, mas como foi “anexada” por Hitler pouco antes, foi desclassificada. Os jogadores da seleção desclassificada, entretanto, foram obrigados a jogar pela seleção alemã. E a FIFA concordou com tudo. Quase 90 anos depois, em 2026, a camisa do Haiti mostrava uma cena em homenagem à Batalha de Vertières, ocorrida em 1803, na qual as tropas coloniais de Napoleão foram derrotadas por um exército de escravos libertos. Foi a única revolução de escravos permanentemente vitoriosa do período colonial, e um orgulho para o povo haitiano. Mas a FIFA vetou o uniforme, declarando que ele era uma “manifestação política”. E assim, com dois pesos e duas medidas, sempre pendendo a favor dos poderosos da vez, segue a FIFA em sua jornada infame.
b) uma arquibancada de burgueses brancos: Desde pelo menos a Copa do Brasil 2014, uma combinação perversa de opções da organização da Copa do Mundo levou a uma extrema elitização do público presente nos estádios. Não foram apenas os preços dos ingressos que se elevaram. Por conta do “padrão FIFA”, os estádios tradicionais foram reduzidos em mais de 50% de sua capacidade original. O Maracanã, por exemplo, recebeu mais de 200.000 espectadores na legendária final de 1950. Hoje, sua capacidade é de cerca de 70.000 pessoas, 35% da capacidade original. Por mais de 60 anos, entre 1930 e 1994, a Copa foi organizada por “cidades-sede”. Nessas cidades, as seleções (e torcedores) de um mesmo grupo ficavam hospedados e jogavam todas as partidas da primeira fase. Isso criava empatia e vínculos afetivos entre equipes, torcedores e a população local. Em 1970, a seleção do Brasil ficou em Guadalajara. E criou um vínculo eterno com aquela cidade. Na Copa de 1986, a CBF pediu à FIFA – e conseguiu – para ficar sediada novamente em Guadalajara, o que reforçou esse vínculo. Porém, a mudança do tradicional conceito de “cidade-sede” acabou com isso e ainda trouxe uma série de problemas: o custo de deslocamento para um torcedor acompanhar a “sua” seleção é muito majorado quando, ao invés de assistir três jogos na mesma cidade, ele precisa pegar três voos, reservar três hotéis e pagar três traslados em locais diferentes. Isso não é só contraproducente para os consumidores. Também aumenta a “pegada de carbono” do evento, ao deslocar para lá e para cá multidões de turistas, jogadores, jornalistas, comissões técnicas, etc. Isso sem mencionar a queda no ritmo da preparação física dos atletas, que perdem concentração e horas preciosas de treino por conta dos frequentes deslocamentos. Ou seja, não há lógica nesse modelo, a não ser tornar o evento o mais caro possível para os participantes (“movimentar a economia”, dirão os executivos da FIFA). Quando esses deslocamentos se dão em países gigantescos como o Brasil (2014) ou a Rússia (2018), o custo, a distância e o tempo envolvidos também aumentam consideravelmente. Para se ter uma ideia: um torcedor da Holanda que veio ao Brasil e acompanhou todas as partidas de seu time em 2014 chegou ao Brasil em Salvador (BA). Para o segundo jogo, foi a Porto Alegre (RS). Em seguida, viajou a São Paulo (SP) para o terceiro jogo. Nas oitavas de final, foi a Fortaleza (CE), nas quartas voltou a Salvador, na semifinal voltou a São Paulo e finalmente foi ver a disputa de 3º lugar em Brasília (DF). Em linha reta, nosso torcedor holandês percorreu cerca de 10.800 km em um mês, sem sair de dentro do Brasil.
Na Copa de 2026, para piorar, os ingressos foram colocados à venda sob o esquema de “preço flutuante”, uma espécie de leilão no qual o aumento da procura causa uma elevação nos preços. Assim, antes de começar a Copa, um bilhete para a final estava sendo vendido a 10.000 dólares, mais de 50.000 reais. Como consequência desse objetivo de obter a maior quantidade de dinheiro pelo maior número de meios, as arquibancadas nos exibem a cada jogo um retrato da burguesia do país sede e de cada país visitante: em sua maioria, a câmera nos apresenta personagens brancos, bem vestidos, de meia idade, com camisetas “oficiais” ou fantasias e maquiagens bem produzidas e um notável descompromisso com o jogo em curso. Na Copa de 2014, houve muitos comentários na imprensa contra a “torcida brasileira” que não sabia apoiar o time. O próprio Galvão Bueno, então locutor oficial da Rede Globo, narrando a derrota do Brasil para a Alemanha, reclamou da apatia dos torcedores que lotaram o Mineirão. Reclamou com motivo, apenas poderíamos fazer a ressalva de que quem estava nas arquibancadas não era a “torcida brasileira”: eram aqueles que conseguiram pagar pelo ingresso, independentemente dos custos. Em 2026, meus amigos mexicanos que pesquisam o esporte relataram exatamente o mesmo em seu país: nas arquibancadas, está uma torcida que não sabe como se faz para torcer, porque não frequenta estádios de futebol.
c) a metástase de jogos: Nesta lógica de maximização dos lucros, a Copa de 2026 assistiu a uma espécie de “metástase” de produtos esportivos à venda. Ao passar de 32 para 48 equipes, a competição não apenas aumentou em 50% o número de equipes. Aumentou em mais de 60% o número de jogos, passando de 64 para 104. Se considerarmos que a audiência midiática é tanto um “mercado” (para os produtos anunciados) quanto uma mercadoria (para os anunciantes), a lógica se torna simples: cada equipe participante a mais significa mais audiência para os anunciantes e mais mercados para os produtos. Como a FIFA vende “direitos de transmissão”, 104 jogos para vender rendem 60% mais dinheiro do que 64, e incrementam a audiência global para números acima de um bilhão de pessoas. O problema é a sobrecarga sensorial. Com quatro ou seis jogos todos os dias, já ouvi muitos relatos de fadiga mental de colegas que gostam de futebol, mas que subitamente se dão conta de que não sabem mais quem está jogando. Acredito que esse excesso de informação possa ser deletério ao envolvimento afetivo dos torcedores com o torneio. Em um ou dois dias sem contato com a Copa, se perdem quase dez partidas, o suficiente para alguém “desplugar” dos acontecimentos de vez. O mesmo se passa com o álbum de figurinhas da Copa. Com uma Copa do Mundo de 16 times, o álbum de figurinhas estava completo com 300 figurinhas. A versão do álbum 2026 tem 930 figurinhas, mais de três vezes o original. Acresce-se a isso que o período normal de se fazer o álbum é de cerca de dois meses (antes e durante a Copa). É virtualmente impossível completar um álbum com quase 1000 figurinhas em menos de dois meses (estima-se que, para fazê-lo, seria preciso gastar cerca de R$ 10.000 a R$ 14.000 em figurinhas). É virtualmente impossível também assistir a 104 jogos em 39 dias. Assim, a Copa de 2026 traz consigo uma frustração estrutural: o evento é maior que nossa capacidade de acompanhá-lo; nunca seremos capazes de ver tudo.
d) o futebol de quatro tempos: Nesta lógica midiática extrativista, o que a audiência reunida por um megaevento esportivo em TV aberta tem a oferecer para os patrocinadores do evento? Ora, a atenção dessa audiência quando forem exibidos os anúncios publicitários desses patrocinadores. O jogo de futebol, desde que foi criado em 1863, dura 90 minutos, divididos em dois tempos de 45 minutos e um intervalo de 15 minutos (Regra 7, “Da Duração do Jogo”). Recentemente, a FIFA criou uma inusitada “pausa para hidratação” no meio de cada tempo. Na prática, o jogo foi dividido em 4 tempos de 22 minutos. O pretexto de “hidratação dos atletas” parece um deboche quando pensamos que, na Copa de 1994, Brasil e Estados Unidos jogaram na Califórnia (clima desértico) no dia 4 de julho (auge do verão) ao meio dia e meio, no sol, a 33ºC. A FIFA escolheu esse horário para que a transmissão dos jogos na Europa ocorresse no horário nobre, valorizando os pontos da audiência europeia. Nessa ocasião, a FIFA não pensou na saúde dos atletas, nem na qualidade das imagens da TV (geradas com uma terrível sombra a pino), nem no melhor espetáculo futebolístico. Não será surpreendente se, em breve, o “International Board” da FIFA alterar a regra 7, “inventando” o futebol de quatro tempos (como no basquete e no futebol americano) para ganhar em uma só tacada um aumento de 200% nos intervalos comerciais a cada jogo.
e) a festa popular corporativa: A partir da Copa de 2006, paralelamente aos jogos nos estádios, a FIFA passou a produzir espaços controlados ao ar livre para que os torcedores pudessem assistir aos jogos em telões. Para o Brasil, nenhuma novidade. Iniciativas populares como o estádio de rua “Alzirão”, na Zona Norte do Rio de Janeiro, reúnem mais de 30.000 torcedores a cada Copa do Mundo desde 1978. O mesmo ocorre em todas as grandes cidades brasileiras. As chamadas “Fifa Fan Fest” (FFF), a pretexto de emular uma forma de apropriação popular da Copa do Mundo, criaram um espaço de distinção dentro da própria torcida. Para entrar, é preciso um smartphone, preencher um cadastro pela internet (abastecendo o mailing list e as bases de dados dos patrocinadores), acessar QR Code, reconhecimento facial, revista pessoal, etc., o que impede/dificulta muitas pessoas de entrar. Além disso, uma vez dentro da FFF, só é permitida a comercialização dos produtos dos patrocinadores, o que limita as opções dos torcedores (além de gerar uma imensa fila no caixa do bar). Estive em duas FFF: em Copacabana, no Rio de Janeiro, na Copa 2010, e na Cidade do México, na Copa 2022. Nas duas vezes, a mesma sensação de estranhamento, de presenciar algo artificial, uma “torcida” que não se parece com a torcida do Flamengo, do Inter ou de qualquer clube. Os frequentadores mais à vontade parecem estar em um shopping center, desfrutando a experiência de um jogo “gourmet”. Vários brindes são distribuídos nesses espaços: invariavelmente, anúncios publicitários dos patrocinadores em formato de leque, corneta, viseira, etc., distribuídos por animados profissionais uniformizados para divulgação comercial. Tudo tão natural quanto um suco de caixinha.
Para terminar: a Copa do Mundo é nossa!
Deixei muitas coisas sombrias de fora desta reflexão, como a invasão das bets, a Economia Política do VAR, a estética das cerimônias de abertura, etc. Vamos voltar a isso em outro momento. Mas, por agora, gostaria de terminar enfatizando um raio de sol neste vale de trevas: as apropriações populares da Copa do Mundo. As festas, churrascos, rodas de samba, jantares, botecos e encontros em casas de amigos no Brasil e em várias partes do mundo com o mote de “assistir o jogo da seleção” são apropriações privadas desse megaevento, que não pagam royalties para a FIFA, nem para a CBF, nem para ninguém. São as pessoas comuns – milhões delas – usando uma quinta-feira à tarde para encontrar amigos, comer juntos, rir, beber, conversar – e, ainda por cima, assistir a um jogo. Para mim, este é o fato social mais importante em uma Copa do Mundo: as pessoas, por sua própria vontade, usam o raro recurso disponível naquela ocasião – o tempo livre que se oferece uma vez a cada quatro anos – para se organizar e produzir uma ocasião de sociabilidade mediada pelo esporte: uma festa inteira torcendo para o mesmo time, uma arquibancada animada em cada bar, praça e casa. Conversando, criticando, sugerindo, reclamando, gritando, chorando, rindo e abraçando. Um raro momento de felicidade coletivamente construída. Não é pouco.
E, no final, quando acabar a Copa, que todos possamos ter boas lembranças desse tempo raro. Como cantavam os meninos que inspiraram o livro de Galeano: Ganamos, perdimos, igual nos divertimos!
Sobre o autor:
Édison Gastaldo é antropólogo, fotógrafo e realizador audiovisual. Pesquisador e docente no CEP/FDC, no Rio de Janeiro. Autor de dezenas de livros, capítulos e artigos científicos nas áreas de antropologia dos esportes, teoria social e metodologia de pesquisa.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
A Copa do Mundo de 2026 ainda está no seu início, mas já gerou diversos textos aqui no Bate-Pronto. Se você se interessa por esse tema, leia também: A nação, o humano e Afan Cizmic.
A Copa de 2026 ao sol e à sombra © 2026 by Édison Gastaldo is licensed under CC BY-NC 4.0




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