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O bocejo da jovem em Roland Garros: o que isso tem a ver com o tempo no esporte

Atualizado: 14 de jun.

Carmen Rial


Pode parecer estranho um blog dedicado ao futebol, como é o Bate-Pronto, ter como título de um dos seus textos o nome de um torneio de tênis, o Roland Garros, disputado nas margens do Bois de Boulogne, não muito distante do estádio Parc de Princes, este sim uma casa de futebol. Casa essa que já viu brilhar muitos brasileiros, um dos quais ainda atua por lá – mas isso é outra história. Voltemos ao Roland Garros.


De fato, falar do torneio é só uma desculpa para tocar em um tema mais abrangente no esporte, e que inclui o futebol. A predominância do imperativo televisivo e o desprezo atual pelo tempo. Eram três horas da manhã (sic!) em Paris, e Djokovic e Musetti ainda trocavam bolas na quadra Philippe-Chatrier, diante de alguns torcedores entusiasmados e outros tantos bastante sonolentos. Eu vi uma jovem bocejar em pleno tiebreak. Não havia lance emocionante que conseguisse vencer nela a letargia daquele adiantado da hora.


Esse desprezo pelo tempo reflete uma tendência maior no mundo dos esportes, em que o calendário e os horários dos eventos são muitas vezes definidos sem levar em consideração o bem-estar dos atletas e dos torcedores presenciais. Partidas de futebol que começam ao meio-dia em pleno verão, jogos de basquete que se estendem até altas horas e torneios de tênis que avançam madrugada adentro são exemplos de como o espetáculo, a audiência televisiva e os patrocínios frequentemente prevalecem sobre a saúde e a experiência dos envolvidos. Os imperativos da audiência da televisão cada vez mais dominam o calendário esportivo, passando o público presencial a ser acessório.


Não lembro de ter visto uma audiência presencial tão pequena em um jogo envolvendo um número 1 do tênis no mundo, ainda mais jogando na quadra central Philippe-Chatrier, com capacidade para 18 mil espectadores. Fosse um jogo em um horário (digamos) normal, estaria lotado o pequeno estádio[1], e duvido que alguém ali bocejasse durante as 4 horas e 29 minutos da partida. Sim, foi uma partida longa, mas essa duração não é algo excepcional no tênis em torneios de Grand Slam masculino, em que as disputas podem ter até cinco sets, como foi o caso. Excepcional foi ter terminado às três horas da manhã. Como assinalou um contrariado Djokovic na entrevista final, apontando para as crianças e adolescentes da plateia: “Isso é hora de vocês estarem na cama. O que estão fazendo aqui?”


Essa revolução nos horários esportivos parece ter se iniciado no México, na Copa do Mundo de Futebol de 1970, a primeira televisionada ao vivo globalmente. Apesar das altas temperaturas por lá, muitos jogos foram agendados para o calor do meio-dia, para alcançar uma plateia matinal na Europa e noturna na Ásia. De lá para cá, só cresceu o poder da televisão de determinar horários para os jogos. Sem dúvida, isso pode beneficiar quem assiste pela TV. Não me queixo de, aos sábados pela manhã, iniciar assistindo a Premier League, em seguida as ligas alemãs, italianas ou francesas e terminar com a liga espanhola e a brasileira, tudo bem orquestrado, num domínio total do tempo que, assim, é transnacionalizado em acordos não oficiais. No Brasil, houve uma tentativa de agendar jogos do Brasileirão para as 11h da manhã – e, em alguns lugares, como no Rio Grande do Sul, com sucesso entre o público dos estádios. Mas parece que, neste ano, desistiu-se da ideia.


No caso de Djokovic e Musetti, a persistência dos jogadores e a resistência dos torcedores podem ser vistas como um testemunho do que se faz pelo esporte -– seja por paixão ou por interesse econômico ou de carreira. No entanto, também levanta questões sobre limites. O cansaço inevitável afeta o desempenho dos atletas, a atenção dos espectadores e, em última análise, a qualidade do espetáculo. A jovem bocejando durante o tiebreak simboliza essa tensão: mesmo os momentos mais emocionantes perdem o brilho quando confrontados com a exaustão.


Fala-se muito de calendários sobrecarregados, mas há outros fatores que podem ter implicação na saúde dos atletas. E a flexibilidade de horários, que faz com que se almoce no café da manhã ou que se durma quando o sol já está no alto, bagunçando a rotina alimentar e o sono, pode comprometer o desempenho físico e mental dos futebolistas, levando a lesões e desgaste precoce.


Em outro texto, no qual abordei a retórica esportiva da mídia televisiva[2], previa que, depois de dominar o espaço, seria o tempo que a televisão dominaria. Porém, não antecipei ali que esse domínio se daria na distribuição escalonada das partidas e no desrespeito pelas altas horas da noite no agendamento dos jogos como hoje começamos a ver.


O tempo (como o espaço) é uma representação coletiva, como diria Durkheim. Para Fabien, na sua crítica à visão colonialista/evolucionista na Antropologia – que coloca o “outro” num tempo (e num espaço) diferente do nosso –, tempo é uma categoria política. Por sua vez, estudando em Bali, Geertz afirmou que tempo é uma categoria relativa. Para ser mais próxima, DaMatta também nos indica isso, quando nos conta que, na região dos Andes, o tempo já teve como unidade “o tempo de uma mijada”.


Entre eles, só DaMatta pensou o tempo nos esportes. Para ele, os torneios esportivos têm um tempo próprio, diferente do nosso tempo cotidiano. Porém, a ideia de DaMatta de que essa diferenciação se dava pela prevalência de outra lógica que a utilitária parece não mais estar valendo.


Em torneios esportivos, a regra de ouro da vida burguesa que utilitariamente submete o tempo ao mundo prático dos negócios, afirmando que não se pode perder tempo e que o tempo é uma mercadoria – “tempo é dinheiro” –, podendo ser vendido e comprado, é subvertida, pois nos torneios esportivos, o tempo não tem como medida nenhum objetivo prático, exceto servir como moldura para as ações contidas pelo evento esportivo que o engendra. Com isso, o espaço e o tempo podem ser expandidos ou reduzidos, sendo agora contados em jardas, metros, centímetros e até mesmo em milímetros, segundos e seus décimos, o que os torna portentosos aliados ou temíveis adversários nas provas atléticas, quando uma fração de segundo ou de centímetro pode decidir um campeonato mundial ou um recorde. Ou seja: no campo do esporte, tempo e espaço surgem como aliados ou adversários dos competidores que tentam superá-los numa dramatização bastante próxima do que acontece nas fábricas e nos escritórios, onde uma noção de tempo impessoal, burocrático, autônomo e independente das atividades sociais é um inimigo do empregado e um parceiro do patrão, conforme revelou, entre outros, o historiador social E. P. Thompson num estudo clássico. Mas com a diferença básica de que, no esporte, esse tempo não pertence exclusivamente ao patrão, mas ao jogo. (DaMatta, 2006, p. 148-149)

Olhando noutra perspectiva, podemos dizer que o que nos revela o bocejo da jovem em Roland Garros é que, sim, e cada vez mais, o tempo é dinheiro no esporte e que, sim, e cada vez mais, ele pode ser um inimigo dos atletas e um parceiro do patrão.


Referencias:

DAMATTA, Roberto. A bola corre mais que os homens. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

FABIAN, J. Time and the Other: how anthropology makes its object. New York: Columbia University Press, 1983.



[1] Digo “pequeno” pois essa foi a sensação que tive ao entrar pela primeira vez ali (e também no Court Suzanne Lenglen): parecia um estádio de futebol em miniatura! Eram tempos do reinado de Guga Kuerten.

[2] Rial, Carmen. Le Football et la rhétorique des médias sportifs télévisuels. Vibrant, Brasília, v. 6, n. 2, p.186-201, 2009. “A televisão nos fez dominar o espaço através da multiplicação dos canais (atualmente podemos viajar do Japão para a Alemanha, da França para a Inglaterra, mudando os canais a cabo) e agora se prepara para nos fazer dominar o tempo (por meio de programas que nos levam a anos específicos, pois já existem canais que escolheram o passado como terreno: aqueles que transmitem apenas filmes antigos – como o Ciné Classic – e aqueles cuja grade de programação é centrada na repetição: a repetição diária do jornal televisivo de 30 anos atrás). Isso significa que, em breve, provavelmente teremos canais que repetem a programação de uma certa década (os anos 1950, 60, 70 e assim por diante). Poderemos escolher o ano em que gostaríamos de nos encontrar, exatamente como escolhemos o país.”


Ah, porque a imagem de um aviador? O torneio homenageia com o nome o aviador Roland Garros (São Dinis, 6 de outubro de 1888Ardenas, 5 de outubro de 1918) foi um pioneiro da aviação francesa.


 

SOBRE A AUTORA:

Carmen Rial (UFSC) Coordenadora do INCT Futebol.


COMO CITAR:

RIAL, Carmen. O bocejo da jovem em Roland Garros: o que isso tem a ver com o tempo no esporte. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.11, 2024.


DOI: 10.13140/RG.2.2.28512.70407



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