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Futebol, tragédias e hipocrisias: o tabuleiro da sociedade se movimenta!


Cristiano Mezzaroba

Gustavo Roese Sanfelice



Desde que boa parte do estado do Rio Grande do Sul passou a sofrer com fortes e intensas chuvas, no final de abril de 2024, a catástrofe enfrentada pelos gaúchos ganhou proporções midiáticas que não conseguimos ficar indiferentes ao acontecimento. 


A tragédia ambiental – e todas mais decorrentes dela: social, sanitária, humanitária, econômica; e também geradoras dela: política, negacionista, da ganância capitalista da exploração do “agro” – vivida neste momento no estado do Rio Grande do Sul, demonstra a nossa fragilidade enquanto sociedade no que se refere ao entendimento da própria coletividade humana. Uma grande extensão territorial e uma grande parcela populacional do Rio Grande do Sul vive, há dias, um colapso brutal e assustador em relação à “normalidade” em sua forma de vida, com muitas cidades submersas, estradas bloqueadas, pontes destruídas ou levadas pela força das águas, deslizamentos de encostas, risco de ruptura de barragens, cadeia de suprimentos comprometida e, obviamente, milhares de pessoas sem a mínima condição de vida.


Você que começou a ler este texto, talvez provocado pelo seu título, deve estar pensando: cliquei no link do texto errado, era para eu estar lendo sobre futebol! Pois bem, é nossa intenção analisar algo que está acontecendo, no perigo sempre existente de analisar o presente enquanto ele acontece, neste caso, a discussão sobre a suspensão dos jogos das várias séries do Campeonato Brasileiro de Futebol devido à situação gaúcha.


Fomos tocados – provocados? – a colocar nossas ideias neste texto a partir de três materiais que circularam em nossos aplicativos de mensagens, entre os dias 10 a 16 de maio. 


No dia 10 de maio, em uma roda de conversas entre jornalistas e cronistas esportivos do UOL Esporte, discutiu-se: “Brasileirão deve parar? Mauro Cezar e Trajano divertem em debate!”





O comentarista Mauro Cezar Pereira defende a continuação do campeonato brasileiro, argumentando que a discussão sobre o futebol seria secundária, sendo a discussão principal, a dimensão política e ambiental (no que concordamos com ele). Também exemplifica o ocorrido na Turquia, e os efeitos daquele terrível terremoto, em que a solução que o futebol encontrou naquele momento, foi não rebaixar nenhuma equipe, mesmo que perdesse os jogos por WO (não comparecimento). A preocupação do referido jornalista seria: de que maneira o futebol pode ajudar? Para ele, não seria suspendendo ou parando o campeonato que o futebol conseguiria “ajudar” na tragédia.


Depois, no dia 14 de maio, no UOL News Esporte, novamente a temática é tratada por Mauro Cezar Pereira. O jornalista lança a pergunta:

Pára o campeonato e vai fazer o quê? O que que vai ser feito nessa paralisação?” E argumenta: “Seria mais lógico você continuar jogando, dando contribuições [...] envolvendo clubes, torcedores etc., usando o canhão que é o futebol para não deixar o povo que está longe esquecer o que tá acontecendo, porque continua o problema... o futebol ajuda nisso também. [...] E no momento que já puder jogar Grêmio, Inter, Juventude [...] você ajusta o calendário. [...] Agora, parar agora por nada...”



O último fragmento que apresentamos nessas nossas reflexões, a partir do que circulou nos nossos aplicativos de mensagens, refere-se a uma fala do jornalista esportivo Renato Maurício Prado, no dia 16 de maio. Frase dele: “É a popular demagogia”, crítica dele quanto aos pedidos de paralisação do Campeonato Brasileiro.


Enquanto escrevemos o texto, entre os dias 17 a 19 de maio, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul confirma 155 (cento e cinquenta e cinco) mortes decorrentes das enchentes, com 94 (noventa e quatro) desaparecidos. Em números, as fortes chuvas e as enchentes afetaram mais de 2,3 milhões de gaúchos em 461 dos 497 municípios do estado. O impacto recente da tragédia ainda não permite números certeiros em relação a pessoas feridas, desalojadas e desabrigados.


Em meio a isso, temos a discussão envolvendo o futebol. O nosso esporte mais midiático e popular do país, mais uma vez margeia a realidade vivida pelo povo gaúcho. Como torcedores que somos – um colorado, o outro gremista – mas também como professores e pesquisadores da EF em contexto das Humanidades, vemos os agentes responsáveis pela configuração do espetáculo futebolístico na mídia levantarem suas bandeiras e vozes para dizer que o futebol, oras, não pode parar! Triste coincidência: com a pandemia de covid-19, recém passada, vimos essa mesma discussão: lembremos que o futebol foi a primeira modalidade a voltar (no Brasil). Naquela falaciosa discussão, entre vida versus economia, jornalistas, cronistas, apresentadores (os agentes do campo midiático) defendiam a importância da volta do futebol inclusive para o bem dos cidadãos, porque seria uma forma de “entretê-los” enquanto estariam fechados em suas casas se cuidando do novo corornavírus...


Agora a discussão é: parar ou não parar o Brasileirão, em função das condições precárias (para não dizer sem a menor condição) em que as equipes gaúchas da Série A, Grêmio, Internacional e Juventude, se encontram. A discussão também é válida para as equipes do estado que disputam as séries C e D do Campeonato Brasileiro, Caxias, Ypiranga, São José, Novo Hamburgo, Brasil de Pelotas, Avenida.


Não se pode comparar acontecimentos como o ocorrido em Brumadinho e Mariana, ambos em Minas Gerais, ou mesmo os deslizamentos em Teresópolis, na serra fluminense – ambos vitimando muitos brasileiros também – com este de agora em terras gaúchas, argumentar isso é desconsiderar a amplitude territorial da catástrofe, bem como, ignorar a localização e estrutura dos clubes fortemente impactos com as enchentes.


Lembremos, também, que não há aeroporto capaz de transportar Grêmio e Internacional para outros estados brasileiros. Ambos estádios da dupla GreNal, bem como seus centros de treinamento, ainda estão debaixo d’água (a Arena do Grêmio no dia 19 de maio continua com muita água; o Estádio Beira Rio com muita lama e destruição).


Interessante também, que a própria mídia esportiva brasileira enaltece a dimensão das torcidas, como parte do espetáculo futebolístico. Lembremos que na pandemia, com os jogos acontecendo sem torcida, quem acompanhava pela televisão sentia que faltava “alguma coisa”. Mesmo jogando em outros lugares, o que parece ser a solução encontrada (com Grêmio treinando no CT do Corinthians, em São Paulo, e jogando em Curitiba; e o Inter treinará em Itu/SP, ainda sem definição de onde levará seus jogos), a “magia” da torcida local dessas equipes não existirá. 


Sim, é preciso falar em isonomia, em condições mínimas de igualdade de condições. Se a tragédia teve essas proporções, o grande mercado do futebol não pode esconder condições desfavoráveis e desiguais. Não seria isso, então, a hipocrisia, ou seja, desconsiderar a lógica humanitária de valorização da vida e o foco na reconstrução, com discursos de que doações em dias de treinamentos e jogos? Será que a hipocrisia não está na defesa de seu trabalho (no contexto midiático) mesmo quando uma situação catastrófica exige outras ações?


A resposta humanitária que alguns cronistas esportivos e alguns dirigentes de clubes da Série A do Campeonato Brasileiro comentam remete a um outro lugar que não a realidade vivida pelos gaúchos e gaúchas. Transferir os jogos da dupla GreNal e do Juventude para outro estado seria uma ação que explicita a não equidade do ponto de vista esportivo. O olhar apenas mercadológico do futebol (tendo a mídia e seus agentes como “corpo” dessas ações) traduz-se em um apagamento do maior desastre da história do Rio Grande do Sul, desconsiderando-se, neste momento, o sofrimento dos gaúchos.


Não sejamos hipócritas em afirmar que o Rio Grande do Sul, precisando de toda ajuda neste momento, poderá tê-la a partir de doações vindas em contextos de treinamento e de jogos, e que, por isso, o Brasileirão não pode parar! Não pode parar por quê? Por causa de quem? Encaixes em datas e cronogramas? Dias existem e existirão... As saídas existem, mas é preciso olhar para o todo e não apenas para o “umbigo”.


Em 1993, a banda gaúcha Engenheiros do Hawaii lançou a música “Quanto vale a vida”, e com ela fechamos nosso texto:


“[...] Quanto vale a vida de qualquer um de nós? 

Quanto vale a vida em qualquer situação? 

Quanto valia a vida perdida sem razão? 

[...] 

São segredos que a gente não conta

São contas que a gente não faz

Quanto vale a vida quando vale a pena?

Quanto vale quando dói?

São coisas que o dinheiro não compra

Perguntas que a gente não faz: Quanto vale a vida?”



SOBRE OS AUTORES:


Cristiano Mezzaroba, Doutor em Educação (UFSC), Professor do Departamento de Educação Física da UFS e do Programa de Pós-graduação em Educação (PPGED/UFS), Coordenador da Linha Mídias, Torcidas e movimentos antirracistas do INCT.


Gustavo Roese Sanfelice, Doutor em Ciências da Comunicação (Unisinos), Professor Titular da FEEVALE - Novo Hamburgo/RS, Pesquisador INCT - Linha Mídias, torcidas e movimentos antirracistas.


COMO CITAR:


MEZZAROBA, Cristiano. SANFELICE, Gustavo. Futebol, tragédias e hipocrisias: o tabuleiro da sociedade se movimenta! Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.8, 2024.





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