Futebol e mídia em revistas brasileiras de Educação Física: mapeamento e análises preliminares
Darwin de Oliveira Martins (UFS)
Cristiano Mezzaroba (UFS/INCT Futebol)
No texto abaixo, os autores apresentam os resultados preliminares de uma pesquisa de levantamento bibliográfico sobre futebol e mídia em revistas de Educação Física brasileiras.

Apresentando o contexto da pesquisa e seus objetivos
Este texto traz os resultados preliminares de uma investigação que tem por objetivo mapear os artigos sobre futebol e mídia publicados em revistas brasileiras de Educação Física (EF) enquadradas nas categorias A1 a B4 (Qualis/CAPES), nos últimos 25 anos (2000 a 2025). Trata-se de uma pesquisa de iniciação científica com bolsa CNPq/UFS, de 2025/2026. Ela faz parte das pesquisas vinculadas à linha “Mídias, torcidas e movimentos antirracistas no futebol”, do INCT Futebol. Iniciada em setembro de 2025, a investigação já se encaminha para as análises finais.
O futebol, como sabemos, é um elemento que caracteriza fortemente a cultura brasileira. Toledo (2000) aponta comparações entre o futebol brasileiro e a sociedade tupiniquim, evidenciando que o esporte é reflexo e formador da identidade nacional do país. Guterman (2010) explica que o futebol começa a se popularizar no Brasil no início do século XX, a partir do surgimento de times em todo o país, dentre eles, o Sport Club Corinthians Paulista, que tinha como objetivo a inclusão de pessoas das classes populares. Tanto Guterman (2010) quanto Toledo (2000) traçam uma analogia do futebol com a sociedade do século XX, mostrando como esse esporte também foi marcado pelas transformações sociais e políticas do país.
Como sabemos, o futebol é um dos produtos preferenciais da mídia em seu conjunto, seja enquanto transmissões ao vivo ou em relação às mais diversas formas pelas quais ele é abordado: informações sobre jogos, atletas, competições, histórias diversas, polêmicas, enfim: a “falação esportiva”. Gastaldo (2009) informa que o termo “mídia”, oriundo do latim media, é o plural do termo médium, que significa “meio”. No dia a dia, é comum associarmos a palavra mídia a meios de comunicação (televisão, jornais, filmes, séries, revistas, entre outros), expressão que é oriunda da expressão mass media, que quer dizer “meios de comunicação de massa”, os quais são responsáveis por produzir e transmitir os seus produtos de forma massificada.
O campo acadêmico da EF brasileira vem dando atenção ao futebol enquanto objeto de estudo em anos recentes, principalmente com a existência daquilo que Mezzaroba e Bassani (2023) denominaram como sendo o “subcampo das mídias e tecnologias” no campo da EF, com a aproximação dos saberes das Ciências Humanas e Sociais às questões da EF. Mezzaroba (2020) aponta que a chegada da televisão, do videocassete e das salas de vídeos na escola impulsionou pesquisas relacionadas às mídias no campo da EF. Pires et al. (2008) apontam que o tema esporte é o mais pesquisado na EF brasileira, com investigações em jornais, mídias diversas e televisão.
Observando a forte presença do futebol na sociedade brasileira, especialmente nos espaços midiáticos, o problema desta pesquisa está assim formulado: que panorama pode ser elaborado sobre mídia e futebol diante da produção brasileira do campo da EF nos últimos vinte e cinco anos?
O que o mapeamento nos mostra até agora?
Considerando-se a classificação de A1 a B4, investigamos 17 revistas de EF brasileiras, a partir dos descritores “futebol e mídia”. Com isso, chegamos ao número de 111 textos pertinentes aos objetivos da pesquisa, a partir da leitura dos títulos, resumos e palavras-chave, os quais estão organizados no Anexo 1.
A partir desses dados, é possível observar uma alta concentração de produções em quatro revistas: Movimento (24 publicações), Revista Brasileira de Ciência do Esporte (16 publicações), Esporte e Sociedade (14 publicações) e Recorde – Revista de História do Esporte (12 publicações). Outro ponto a ser observado é o número de publicações estrangeiras, ou de um autor estrangeiro publicando sobre o tema futebol e mídia no Brasil. O conjunto dos textos evidencia que as revistas de EF possuem relevância no cenário acadêmico quando o objeto em discussão é o futebol.
Outra constatação diante dos dados acima se refere à concentração de artigos em anos de megaeventos esportivos (Copa do Mundo de futebol e Olimpíadas), mostrando que os(as) agentes produtores deste conhecimento sobre futebol e mídia em contexto brasileiro têm uma maior mobilização para produzir sobre aspectos do futebol na mídia em anos cuja visibilidade passa a ser maior nos meios de comunicação, o que pode sugerir um movimento acadêmico em se ocupar do ponto de vista investigativo sobre as questões e implicações da relação entre futebol e mídia na sociedade brasileira.
Ao analisar os(as) agentes que mais produzem sobre o tema no campo da EF brasileira, é possível visualizar, pelo quantitativo encontrado, o destaque aos seguintes nomes: André Mendes Capraro (10 publicações), Everton de Alburquerque Cavalcanti (7 publicações) e Heloisa Helena Baldy dos Reis (4 publicações).
Neste momento, observando mais atentamente o conjunto de textos e lendo-os por completo, estamos em processo de elaboração de quatro categorias de análise, assim esboçadas até o momento: a) simbiose entre futebol e mídia; b) futebol, mídia e representações sociais; c) futebol, mídia e ídolos; e d) futebol, marketing e economia.
Considerações finais preliminares
Diante da imersão investigativa e do total de textos encontrados, constatamos que o futebol é intimamente atravessado por questões relacionadas às produções e difusões midiáticas, além dos aspectos que se referem a gênero, raça, classe social, aspectos históricos, culturais e pedagógicos.
Ao acionar uma lupa sobre as produções de artigos a respeito do tema “futebol e mídia” nas revistas de EF brasileiras, é possível ver um elevado número de produções no recorte temporal dos últimos vinte e cinco anos (2000 a 2025), o que nos ajuda a constatar que os(as) agentes que compõem o campo acadêmico da EF também dão atenção ao que a mídia está produzindo e influenciando no futebol.
Como ainda está em andamento, nossa pesquisa buscará analisar outros aspectos relacionados ao tema, como, por exemplo, identificar redes de interação e participação que se manifestam nos grupos de estudos aos quais as pesquisas sobre mídia e futebol são realizadas, os principais conceitos que aparecem nos artigos e os desenhos metodológicos de cada uma das investigações, evidenciando modos específicos de pesquisa sobre a relação futebol e mídia.
Ao final, espera-se que o mapeamento contribua com os estudos sobre mídia e futebol, promovendo a aproximação entre os campos da EF e Ciências Humanas e Sociais, ao observar o futebol na articulação desses dois contextos acadêmicos.
Referências
GASTALDO, Édison. “O país do futebol” mediatizado: mídia e copa do mundo no Brasil. Sociologias, Porto Alegre, ano 11, n. 22, p. 352-369, jul/dez. 2009.
GUTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: uma história da maior expressão popular do país. São Paulo: Contexto, 2010.
MEZZAROBA, Cristiano. A mídia, as tecnologias e a Educação Física no Brasil: uma descrição genealógica. Rev. Tempo e Espaços em Educação, São Cristóvão, v. 13, n. 32, p. 1-23, jan./dez. 2020.
MEZZAROBA, Cristiano; BASSANI, Jaison José. O subcampo das mídias e tecnologias no campo da Educação Física brasileira: origem, conflitos, contemporaneidade. Debates em Educação, Maceió, v. 15, n. 37, p. 1-19, 2023.
PIRES, Giovani de Lorenzi; LISBÔA, Mariana Mendonça; ANTUNES, Scheila E.; MEZZAROBA, Cristiano; MENDES, Diego S.; SILVA, Karla C. Mathoso da; AZEVEDO, Victor Abreu de. A pesquisa em Educação Física e Mídia: pioneirismo, contribuições e críticas ao “Grupo de Santa Maria”. Movimento, Porto Alegre, v. 14, n. 3, p. 33-52. set./dez. 2008.
TOLEDO, Luiz Henrique de. No país do futebol. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
Sobre os autores:
Darwin de Oliveira Martins é discente do curso de Licenciatura em Educação Física na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e bolsista de iniciação científica pelo CNPq/UFS. E-mail: darwinmartins00@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/0575702635588449.
Cristiano Mezzaroba é Doutor em Educação (UFSC), professor do Departamento de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe (DEF/CCBS/UFS) e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGED/UFS). Coordena a linha de pesquisa “Mídia e racismo no futebol” no INCT Futebol. E-mail: cristiano_mezzaroba@yahoo.com.br. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1835801891069733.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
MARTINS, Darwin de Oliveira; MEZZAROBA, Cristiano. Futebol e mídia em revistas brasileiras de Educação Física: mapeamento e análises preliminares. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 53, 2026.
A pesquisa apresentada neste texto se insere em um esforço maior de investigação sobre a produção acadêmicas em torno de mídia e futebol no Brasil. Para ler mais sobre isso, acesse: Mapeando a produção acadêmica brasileira sobre futebol e mídia.




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