Depois do vira-virou, uma análise tática sobre o que foi, é e virá
Fábio Machado Pinto (UFPel/INCT Futebol)
No texto abaixo, o autor faz uma leitura do resultado das eleições presidenciais de 2026 a partir de lógicas do futebol, mostrando como as viradas esportivas e políticas, bem como o contexto atual e esse esporte, guardam elementos em comum

No esporte, especialmente no futebol, o gostinho de uma virada heroica é algo muito prestigiado. Na política, não é diferente. Assim como no esporte, explicar uma virada na política nem sempre é algo fácil. O próprio presidente Lula é adepto da linguagem do futebol em seus pronunciamentos. No discurso da vitória, Lula fez menção ao Corinthians, seu time do coração e representante maior do movimento pela democracia, mas que se encontra em situação de rebaixamento, assim como Bolsonaro – disse Lula.
A virada deste domingo foi grande, enorme, mas não foram mais de 10 milhões de votos líquidos que passaram de Flávio para Lula. A virada exigiu nova estratégia, mudanças no elenco e o brilho do talento da juventude. Os números representam uma mudança de perspectiva no jogo que coroou o quarto mandato e coloca uma outra possibilidade de futuro para a nação brasileira. O time voltou a acreditar em si mesmo!
Na totalização final do TSE, Lula subiu de 53.879.538 votos no primeiro turno¹ para 64.256.232 no segundo²: +10.376.694. Flávio também cresceu, de 56.104.503 para 59.826.041: +3.721.538. A vantagem de 2.224.965 votos de Flávio virou uma vantagem de 4.430.191 para Lula – uma oscilação de 6.655.156 votos na margem. A conta ajuda a entender o tamanho da mudança, mas não mostra com exatidão o que se passou em cada município, estado ou região, em cada momento desta experiência do eleitor em face da urna. O jogo foi jogado e exigiu um esforço coletivo em todos os setores do campo.
No primeiro turno, 9.316.747 votos válidos foram para candidatos que não chegaram ao segundo. Entre os turnos, houve 2.960.239 comparecimentos a mais e 1.821.246 votos brancos e nulos a menos. Somados, esses números equivalem aos 14.098.232 votos adicionais recebidos pelos dois finalistas. A abstenção caiu de 33.469.244 para 30.509.005. A torcida entrou com o entusiasmo e a alegria, os jogadores com a garra e a disciplina tática, a comissão técnica com as estratégias. No final, o saldo do jogo foi de arrepiar.
Esta decomposição aritmética não prova que os mesmos ausentes voltaram, nem que os votos dos candidatos eliminados foram para Lula. Porém, podemos supor que um grande contingente de eleitores do Lula se mobilizara para votar e que isso não se deu na mesma proporção no outro lado, talvez por um clima artificial de “já ganhou”. No fim, ter perdido o primeiro turno de forma retumbante pode ter sido o fermento para a vitória lulista no segundo turno. Um time machucado entrou em campo com uma sede enorme de vitória.
Os resultados por estado apontam para uma mudança ampla, não restrita a um único sentido. Lula aumentou sua participação nos votos válidos em todas as UFs, mas Minas Gerais foi decisiva: foi o único estado em que o vencedor mudou, e isso contribuiu muito para a vitória de Lula. Em São Paulo, Lula teve o maior aumento absoluto, mas Flávio continuou à frente. Isso também é compatível com uma combinação de votos de eleitores dos candidatos eliminados, maior comparecimento e mudanças de preferência. Uma pesquisa Quaest antes do segundo turno indicava que, entre eleitores de outros candidatos, havia mais intenção declarada de votar em Flávio do que em Lula³; eram intenções, não votos efetivamente acompanhados. E, como previsão não decide jogo, na hora do “vamos ver”, fez valer o time com “sangue nos olhos”.⁴ A Futura foi mais precisa e cravou uma margem menor de votos e um resultado próximo do empate numérico, com vantagem para Lula⁵.
O efeito exato de cada variável sobre estes resultados é difícil de mensurar, mas eles não são inexplicáveis. Até mesmo no futebol, esporte com infinitas variáveis, é possível fazer a leitura de um resultado. Os eleitores de Lula enfrentaram problemas de ônibus em Salvador e São Paulo, e a votação precisou ser estendida até as 19h, por decisão da Suprema Corte, para atender às seções que ainda não tinham encerrado a votação. Houve cancelamentos de voos da Gol e da Azul, que ainda precisam ser averiguados e punidos, caso se confirmem como crimes eleitorais. Não faltaram denúncias de blitzes seletivas no Rio de Janeiro, entre outras tentativas de tumulto para dificultar o voto, especialmente nos grandes centros ou onde as pesquisas indicavam vantagem para o líder da esquerda. Tudo isso reproduziu um protocolo semelhante ao ocorrido em 2022, eleição em que o mandatário controlava a Polícia Rodoviária Federal, entre outras forças da ordem, em diferentes cidades. Mais uma vez a criatividade do povo fez a diferença, e a equipe não se reduziu à denúncia: foi para o contra-ataque com criatividade e entrega, providenciando carona coletiva, carregando a avó no colo... houve de tudo!
As dificuldades, que já eram enormes antes mesmo do pleito, pareciam se complicar ainda mais. Mas o jogo só termina com o apito final. Lula enfrentou adversidades internas, como a baixa popularidade entre evangélicos e homens brancos de classe média/alta, especialmente da região Sul do país. A religião, com o apoio das redes, foi amplamente utilizada como estratégia para formar, informar e deformar a opinião. Lula também enfrentou adversidades externas, por exemplo, com o governo Trump, que adotou inúmeras medidas de pressão contra o Brasil, e isso também mobilizou uma reação política e nacionalista em defesa da soberania nacional. O bolsonarismo raiz adotou uma postura diferente, abraçando a bandeira norte-americana e o trumpismo, além de apoiar iniciativas de dominação e controle dos Estados Unidos sobre a América do Sul.
A disputa algorítmica também mobilizou as massas e protagonizou o maior movimento no mundo virtual, além de proporcionar um aprendizado que ficará marcado na história: a importância e o impacto das Big Techs na circulação da informação e na formação de opiniões e subjetividades. O tratamento dos conteúdos políticos pelas plataformas, os movimentos de mercado e a cobertura crítica da imprensa tiveram papel crucial nesta eleição. A campanha de Lula não se deixou intimidar pelo enfrentamento contra uma equipe das mais fortes, truculenta, considerada a dona do pedaço. Reativou sua “transição ofensiva” e formou o Exército do Lula, liderado pelo deputado Janones, que fez história, movimentando mais de 10 milhões de pessoas por meio de tarefas simples realizadas a cada hora, como a retomada dos símbolos nacionais pela esquerda vanguardista, entre elas, a volta do uso da “amarelinha”.
O time adversário também colaborou para sua própria derrota. O próprio bolsonarismo foi determinante para seu fracasso ao expor artimanhas de campanha, como no caso de Nikolas Ferreira, cujo vídeo lamentável sobre o Nordeste editou um contexto absurdo para fazer crer que a região sofria com o governo Lula. A resposta foi imediata: a manobra foi desmascarada, e a reação veio retumbante. As ligações com o caso Vorcaro, com os crimes do INSS e com o filme Dark Horse ficaram sem explicação. Aliás, todo um histórico de denúncias de rachadinhas e de ligações com milícias tornou a campanha de segundo turno pouco atraente para o eleitor indeciso. Inúmeras questões sem resposta, a adoção de pautas lulistas (como o Bolsa Família, que sempre foi escrachado pelo bolsonarismo, mas passou a ser defendido por seu candidato) e a quantidade de mentiras durante os debates, desmascaradas simultaneamente pelas ferramentas de verificação, balançaram parte do voto em seu próprio território. Tivemos, inclusive, uma parte da direita que passou a declarar voto em Lula, a favor da democracia e contra a barbárie. Isso mesmo, parte da sua torcida mudou de lado, isso que, no futebol, é inadmissível.
O caso Ana Clara diminuiu as chances de avanço da campanha de quem liderava, e a resposta de FB no último debate escancarou o descompromisso com a ética, a empatia e a solidariedade. Creio que a “pá de cal” da campanha bolsonarista veio com o sarcasmo e a forma desrespeitosa com que tratou a perda de um dos dedos de Lula, ocorrida aos 17 anos, em situação de trabalho. O capacitismo e o etarismo escancarados em sua fala somaram-se aos atos racistas, xenofóbicos, machistas etc., presentes em muitos grupos de WhatsApp, Facebook etc., veiculados há anos e que ainda se encontram por lá, a exemplo de um militante bolsonarista caminhando com um homem negro acorrentado – conforme matéria do G1⁶ – simulando ser o demônio ou o Lula, segundo suas próprias palavras. Até tentaram explicar o inexplicável, mas já era tarde. As redes foram inundadas com imagens como esta e com registros de toda espécie de crimes, delitos e comportamentos inadequados, nada civilizados ou antidemocráticos. Houve muito pouca regulação e limitação, e até complacência de quem deveria fiscalizar e denunciar (cito aqui até nós mesmos). Com isso, tivemos um efeito bumerangue, que acionou a revolta imediata e os movimentos de rua e nas redes, que inundaram o país nos últimos dias, sem os quais uma virada histórica jamais se realizaria.
Neste momento, o jogo parecia estar virando, afinal, o time com maior recurso, com maior capital, com as Big Techs e com a maior potência mundial não jogava limpo há tempos, tampouco praticava o fair play, e isso começava a ficar claro para todos que assistiam. O TSE, gerenciado provisoriamente por um ministro indicado por Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão temporária do principal canal de apoiadores de Lula, mas outros ministros interromperam os efeitos da ordem. Nesse caso, a “transição defensiva” foi eficiente, para impedir que o contra-ataque adversário surpreendesse.
Isso também foi combustível para as massas indignadas, que não apenas mantiveram seu canal de comunicação, como o fizeram chegar a mais de 10 milhões de pessoas. Muitas delas eram jovens estudantes que assumiram as redes com o mesmo entusiasmo com que invadiram as ruas, levando, segundo os cálculos, algo perto de 2 milhões de pessoas à Paulista no último ato, além da carreata de Lula e de centenas de milhares de pessoas marchando por todo o Brasil. E Lula – um senhor de 80 anos, que perdeu seu dedo aos 17 anos em situação de trabalho, filho de mãe solteira, retirante, operário e líder sindical desde sempre... um ser incansável, admirável... acusado de todas as formas pelos seus inimigos... – seguia firme à frente do pelotão, apontando o caminho, a direção, o sentido. Sozinho, nada faria, mas conseguiu mobilizar forças que jamais imaginou. O jogo coletivo fez a diferença.
A explicação responsável pela vitória retumbante de Lula para um quarto mandato foi a união de muitas forças, na qual os estudantes tiveram papel central. Mas o conjunto da sociedade, especialmente os mais pobres, os idosos, as mulheres, os professores, os artistas e intelectuais, os povos originários e os periféricos, fez a diferença. Foi uma combinação provável em defesa da democracia, da soberania nacional e de uma perspectiva mais humanista, ética e igualitária de sociedade e vida. A transferência dos votos dos candidatos eliminados no pleito para Lula, o maior comparecimento de votantes, a redução dos votos brancos e nulos e uma mudança real de preferência entre eleitores foram as variáveis numéricas que consolidaram a vantagem incontestável de Lula no segundo turno. A correlação de diferentes variáveis contribuiu para uma mobilização sem precedentes na campanha de Luiz Inácio Lula da Silva e para o aumento da rejeição ao candidato bolsonarista, que, mesmo assim, alcançou perto de 60 milhões de votos. O time do povo, da raça, da alegria e do fair play fez por merecer um resultado que, para alguns, foi inexplicável.
Os próximos atos sinalizam para um futuro nebuloso pela frente. Os próximos jogos não serão nada fáceis. Um país que continua dividido. Os Três Poderes estão mais equilibrados, com ampla maioria do Congresso em oposição ao presidente, reflexo da polarização nacional, o que implica negociação, articulação política e mobilização de forças. A isso somam-se as mudanças climáticas, que vieram para ficar, e seus efeitos em nossas vidas, além da crise política e econômica internacional e da disputa geopolítica entre as principais potências mundiais. “Vem pedreira pela frente”. Esses fatores demarcam o contexto em que este quarto governo Lula busca viabilizar suas promessas de campanha, com destaque para uma revolução na educação e para o compromisso de cuidar mais e melhor dos idosos, das crianças e dos jovens, das mulheres, dos povos originários, dos mais pobres, do meio ambiente e da vida em todos os seus sentidos... O time precisará de reforços, de novas estratégias, ânimo e espírito de equipe. Um desafio e tanto para um país endividado, polarizado, com boa parte da população ressentida e convencida de que seu “time” é o melhor...
Aqui, a política se conecta diretamente ao esporte... Mas não para aproveitar aquilo que há de bom e que o esporte pode emprestar à política, como a possibilidade de igualdade de oportunidades e de chances... a união para vencer obstáculos; a paixão pelo seu time e pelo país; a beleza e a emoção do jogo; uma identidade nacional miscigenada que nunca desiste etc. – mas, sim, para se aproximar de seu lado sombrio (conforme nos lembra Eduardo Galeano em Futebol ao sol e à sombra, de 1995): o mundo das falcatruagens, dos negócios obscuros e do favorecimento de poucos em detrimento da maioria... A política pode mais e, neste campo, ainda temos muito o que aprender. O desafio é ainda maior: criar novas formas de coletivizar as lutas, sem rancores ou ressentimentos, com muito amor, esperança e uma pitada de rebeldia. Vamos precisar de muito mais do que o “jogo bonito”: também serão necessárias a disciplina, a estratégia e um compromisso incondicional com a verdade, a honestidade, a lealdade e a reciprocidade entre os coletivos que lutam por um mundo melhor.
Viva a democracia!
Texto recebido em 26/10/2026 e publicado em 27/10/2026.
Sobre o autor:
Fábio Machado Pinto é pesquisador e coordenador de eventos internacionais do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Futebol Brasileiro (INCT Futebol) e Professor Titular da ESEF/UFPel. É coordenador do projeto InterPeriferias do Futebol, promovendo pesquisa sobre formação de atletas em contextos periféricos. Seus interesses de pesquisa incluem sociologia do esporte, educação do corpo e questões relacionadas à cultura popular.
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
PINTO, Fábio Machado. Depois do vira-virou, uma análise tática sobre o que foi, é e virá. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 52, 2026.
Recentemente, o Bate-Pronto publicou outro texto que faz uma relação entre a disputa presidencial deste ano e o futebol. Para lê-lo, acesse: Futebol, Lula e Flávio: torcedores na política.
¹ Ver: https://resultados.tse.jus.br/oficial/ele2026/6257/dados/br/br-c0001-e006257-u.json. Acesso em: 26 out. 2026.
² Ver: https://resultados.tse.jus.br/oficial/ele2026/6258/dados/br/br-c0001-e006258-u.json. Acesso em: 26 out. 2026.
³ Ver: https://g1.globo.com/politica/eleicoes/2026/pesquisa-eleitoral/noticia/2026/10/21/quaest-presidente-21-outubro.ghtml. Acesso em: 26 out. 2026.
⁴ Ver: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cqe8rekpg9lxo. Acesso em: 26 out. 2026.
⁵ Ver: https://veja.abril.com.br/politica/a-ultima-pesquisa-futura-sobre-disputa-lula-x-flavio-antes-do-2o-turno/. Acesso em: 26 out. 2026.
⁶ Ver: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2026/noticia/2026/10/26/investigacao-acorrentado-barra.ghtml. Acesso em: 26 out. 2026.
Depois do vira-virou, uma análise tática sobre o que foi, é e virá © 2026 by Fábio Machado Pinto is licensed under CC BY-NC 4.0




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