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Fotografia de época e futebol: em encontro com um passado desconhecido

Atualizado: 26 de abr.

Larissa Miranda Domingos



Este trabalho foi produzido durante o primeiro semestre de 2023 para a disciplina Antropologia e Esporte, do curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina, ministrada pela professora Dr.a Carmen Silva de Moraes Rial.


A pergunta-problema do texto se deu através de uma experiência pessoal da autora, discente de graduação. A investigação do texto compõe-se de imagens resgatadas do passado de um parente falecido. A narrativa familiar era de que esse parente foi um jogador de futebol. Para entender melhor essa história e muito inspirada pelas pesquisas da professora Carmen, decidiu-se fazer o trabalho sobre essas fotografias.


As fotografias remetem a uma narrativa que confirma as histórias contadas pelos familiares da autora. Além disso, foi analisada cuidadosamente cada imagem, para entender seu contexto, na tentativa de traçar uma linha do tempo. E também identificar possíveis times que esse jogador participou. Até o momento, há familiares que relembram essa história e dizem que seu personagem foi um grande jogador do time Inter de Lages, em Santa Catarina. Há muito o que se investigar sobre esse jogador, e este trabalho é só a ponta do iceberg.


É necessário entender que a experiência pessoal e a teoria, tanto quanto a história oral e a fotografia, são elementos primordiais neste trabalho. Que seu legado, embora incompleto biográficamente, esteja próximo de uma lembrança de alguém que gostava de jogar futebol e que, um dia, seguindo os boatos familiares, já teria jogado com o fenomenal Pelé.


A tentativa de escrever sobre algo pessoal e particular, na Antropologia, se torna um desafio quanto à impessoalidade de fazer ciência e da pontualidade quanto à imparcialidade do objeto de estudo. Nesse sentido, pesquisar a ancestralidade muitas vezes pode ser um jogo às avessas, isso quer dizer que muitas vezes podemos cair em algumas histórias que se baseiam apenas na memória coletiva dos sujeitos participantes da pesquisa, ou no imaginário coletivo de uma família, por exemplo. Extrair isso em forma de história oral demanda permanecer com os pés no chão quanto às narrativas que nos são ouvidas e a conexão com a realidade.


A partir disso, podemos entender que a narrativa de uma história oral, conhecida por certos membros de uma família, grupo ou sociedade, pode persistir e ser transmitida para outras gerações, o que abre um caminho para o que filhos ou educandos que recebam e escutem tal história possam fazer com ela: se simplesmente a escutam e concordam, se indagam e investigam a veracidade de tal afirmação, ou se até mesmo desacreditam e não possuem vontade de ir atrás de verificar tal ocorrência. Ainda assim, tentamos não escrever em primeira pessoa, no sentido de relatar apenas o momento no qual são descobertas tais fotografias e no sentido de divulgar o resultado de uma possível pesquisa ou conversa com os clubes nos quais este personagem participou.


A seguir, as imagens elucidam uma trajetória muito antiga de um jogador a partir do qual podermos discutir as questões de classe, raça e parentesco no futebol. Embora muito dos temas sejam vistos através de jogadores reconhecidos ou pelo menos falados na atualidade, essa é uma tentativa de resgatar o passado de uma personagem de uma família na qual o sustento de sete filhos provinha do chefe de família, com sua carreira no futebol que, embora singela, rendeu memórias a partir das quais, até o momento, filhos e netos narram suas visões de um falecido avô que alguns  não tiveram a oportunidade de conhecer. Na tentativa de trazer através da história oral o que compõe as imagens e como esses familiares as interpretam, o estudo das teorias sobre História Oral e de Antropologia e Esporte são essenciais para demarcar a linha da pesquisa.


A linha do tempo


Fonte: Acervo pessoal da autora


Nestas primeiras imagens, gostaria de representar a linha do tempo na qual meu avô foi jogador. Podemos perceber que, na primeira imagem, há uma data, escrita à caneta: “12 de fevereiro de 1945”, sendo este o primeiro ano registrado em que ele participou de um  time de futebol. Há nomes escritos a lápis, mas não conseguimos reconhecer ou decifrar muitos deles, e me contenho a não relatá-los, pois não possuo conhecimento de quais seriam. Na segunda imagem, sendo esta a frente da foto digitalizada, podemos observar que existe uma espécie de “escada” de meninos, do maior para o menor.  Meu avô seria o quarto do menor para o maior. Algo que me chamou muito a atenção foi  o destaque de apenas um jogador negro e meu avô, sendo o segundo com a pele mais escura da imagem. Aqui, então, quando perguntei à minha mãe sobre meu avô, ela me disse  que sua mãe era indígena, e fiquei à procura de saber de qual etnia seria, visto que ambos moravam em um município do Rio Grande do Sul. Quando pesquisei a cidade, vi que em seu histórico teria aldeias da etnia Kaingang, embora não possa confirmar esta afirmação ou constatação.


Nesse sentido, podemos tentar desenvolver hipóteses do que pode ser empreendido nessa relação quanto à migração para outro estado, pois ele nasceu em uma cidade (a consultar) no Rio Grande do Sul em que, durante o século XVII, período de colonização, houve migração de homens indígenas entre os estados do sul brasileiros. Perto da cidade de Canela (RS), havia aldeias indígenas da etnia Kaingaing.


Studio Universal Erechim (verso)


Fonte: Acervo pessoal da autora


Studio Universal Erechim (frente)


Fonte: Acervo pessoal da autora


Nesta seção, a frente e o verso da foto estão digitalizadas pois representam a entrada do meu avô em um clube de futebol em Erechim. Mas ainda não sabemos  exatamente o nome do clube ou do time. Temos apenas a referência de que seria na cidade de Erechim (RS). Nessa imagem, apenas podemos observar as camisetas do time, que parecem ser compostas de cores claras e escuras. Meu avô está posicionado na primeira  fileira, em pé, em terceiro lugar da esquerda para a direita.


“Atlântido de Erechi” (verso)


Fonte: Acervo pessoal da autora


“Atlântido de Erechi” (frente)


Fonte: Acervo pessoal da autora


Nesta seção de duas imagens, frente e verso, podemos ver, no verso, as palavras escritas à caneta: “Atlântido de Erechi”. Percebemos que, hoje em dia, a forma correta de escrita seria “Atlântico de Erechim”. Meu avô está na segunda fileira, agachado, o primeiro da direita. Todos os jogadores estão sem camisa.


Jogadores “GE”


Fonte: Acervo pessoal da autora


Nesta fotografia, na tentativa de observar a camiseta do time para podermos identificar e comparar com algum time de futebol da época, vemos que a imagem não está tão aproximada ou focada, o que novamente dificulta os detalhes da trajetória de meu avô nos clubes  de futebol nas cidades onde jogou e de quais são os times e seus respectivos nomes. Um detalhe apenas é apontado para siglas “GE”, embora possa parecer um “F”, no lado esquerdo inferior da imagem. Meu avô está agachado, o terceiro da esquerda para a direita usando um tipo de “touca” na cabeça.


FLUMINENSE!


Fonte: Acervo pessoal da autora


Para esta fotografia, podemos destacar a camiseta do time Fluminense. Podemos perceber que a atuação deste jogador em específico, meu avô, no time do Fluminense, deve ter sido entre as décadas de 1950-1960, logo na primeira fase de fundação do time. Quanto a seu local de atuação, meu avô jogava no Rio Grande do Sul, perto de Erechim ou arredores. A situação de explorar e descobrir através da fotografia a pesquisa ou os detalhes que a imagem nos mostra leva a todos os tipos de questionamentos que relato. Mas, apesar de tudo isso, ainda assim é evidente a falta de informações que são possíveis de encontrar na internet, ou na Wikipédia, como  o histórico de todos os jogadores que passaram pelo time, desde o ano de sua fundação até  os dias de hoje. Esse seria um banco de dados enorme, se fosse coletada tal informação.


Sobre sua localização na fotografia, meu avô é o primeiro da esquerda para a direita, da primeira fileira dos jogadores em pé. Eu separei as imagens conforme os critérios de aparência do jogador da pesquisa, que aparenta, nesta imagem, ser um pouco mais velho do que nas imagens anteriores. E por assim segue-se. Também podemos perceber a presença de três jogadores negros no time.


Campos e florestas


Fonte: Acervo pessoal da autora


Nesta outra imagem, a camiseta do time é padronizada, não há escritos ou estampas, apenas uma camisa do tipo polo é vista na imagem. Meu avô é o último da primeira fileira, da esquerda para a direita.


GFC Guarani Futebol Clube


Fonte: Acervo pessoal da autora


Nesta imagem, meu avô está localizado no último lugar da primeira fileira, da esquerda para a direita. Reparamos então o uniforme deste time e, ao pesquisar a sigla GFC, temos o resultado de ser o Guarani Futebol Clube, fundado em 1911.


Última fotografia


Fonte: Acervo pessoal da autora


Podemos perceber que o estado de conservação desta foto está um pouco comprometido. A borda de papel está um pouco rasgada ou dobrada, há também um pequeno desenho à caneta, que, ao ser visto de longe, parece o de um ratinho. Por coincidência ou não, ele está ao lado do meu avô. Talvez alguém da família o tenha feito para identificá-lo na imagem. Por isso, seu Placides está na última posição da segunda fileira, com os jogadores agachados, da esqueda para a direita.


Outro detalhe que persiste em todas as fotografias é a presença de um homem ao lado dos jogadores, com outro tipo de vestimenta, caracterizada pelo uso de roupa formal, ou terno, gravata e paletó. Historicamente, essa é a posição de donos de clubes de futebol, técnicos ou empresários dos jogadores, estando, então, em uma posição privilegiada para aparecer na fotografia com os demais membros do time.


Fotografia misteriosa


Fonte: Acervo pessoal da autora


Esta última imagem nos intriga, pois, ao olhá-la na presença de minha mãe, e ao lembrar de que já havíamos visto esta mesma fotografia junto com outros membros da família, em Lages, podemos perceber que meu avô não está nesta imagem. Então, surge a questão: quem tirou esta fotografia? Por quais motivos esta fotografia faz parte do acervo? Eram amigos de meu avô? Ele guardou a foto sem querer ou foi proposital? Perguntas para exercitar a curiosidade do leitor.


Outras profissões (Placides)


Fonte: Acervo pessoal da autora



Outras profissões (Almerentina)


Fonte: Acervo pessoal da autora


Esta pesquisa foi iniciado quando minha mãe fez uma viagem a Lages durante o ano passado, e pedi para ela trazer este acervo de fotografias para que eu pudesse fazer este trabalho. Para terminar nossa análise deste acervo, trago, então, um dos documentos que ela trouxe. Este documento em específico é uma carteira fornecida pelo Instituto Nacional de Previdência Social, que, na época, deve ter sido utilizada para garantir a aposentadoria de meu falecido avô.


Gostaria de destacar duas informações que considero importantes: 1) Na primeira imagem, então, temos seu nome completo: Placides Dasmião Miranda. 2) Na categoria de profissão, ele consta como servente na Prefeitura do Município de   Lages.


Por fim, para que compreendamos também outro aspecto de sua vida, devemos observar que ele foi trabalhar na Prefeitura de Lages, onde, então, morou com a família de sete filhos mais sua esposa, Etelvina Miranda. Segundo relatos da família, meu avô faleceu decorrente de uma complicação de um câncer na garganta, durante a década de 1990. Um pouco antes da autora (que vos escreve) nascer, meu avô teria partido deste mundo deixando, então, esse legado familiar a partir do qual, humildemente, tento prestar singelas homenagens a um membro perdido da família. Com isso, tivemos que desenterrar certos documentos para que sua memória, que sempre é lembrada, pudesse ser, então, compartilhada com demais colegas e professoras.


Há também boatos de que este jogador teria realizado uma pequena partida de futebol com grandes nomes como Pelé e Mané Garrincha, mas, infelizmente, não conseguimos encontrar um dos recortes de jornais que eu havia visto quando era criança, o que, então, pode permanecer um mistério, ou então, uma pequena charada.



SOBRE A AUTORA:


Larissa Miranda Domingos é graduanda do curso de Ciências Sociais, bacharelado, na Universidade Federal de Santa Catarina. Residente de Florianópolis, Santa Catarina e natural de Lages. Atualmente está cursando a última fase de Licenciatura, no mesmo curso e é bolsista PIBID. Pretende ingressar no mestrado para continuar suas pesquisas.


COMO CITAR:


DOMINGOS, Larissa M. Fotografia de época e futebol: em encontro com um passado desconhecido. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.4, 2024.










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