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À Daiane Muniz – e a todas as mulheres que não sabem ver

Carmen Rial

Miriam Grossi



Que o futebol é hoje no Brasil uma das mais importantes arenas para debates antirracistas e antimachistas, sabemos. Que uma parte significativa da mídia esportiva brasileira tem tentado mudar as práticas misóginas, homofóbicas e racistas, também sabemos. Mas o caminho ainda é longo para vermos o futebol como o espaço inclusivo e igualitário que desejamos. E isso lamentavelmente vimos na recente manifestação misógina do treinador Ramón Díaz contra uma “senhorita” árbitra do Video Assistant Referee, o chamado VAR. Disse Ramón Díaz:


“Com respeito aos árbitros, não podemos falar muito. Na última partida, o VAR foi uma senhorita, uma mulher, e foi pênalti. Me parece complicado que no VAR quem tenha que decidir seja uma mulher. Porque o futebol é tão dinâmico, com ações tão rápidas.”

Para Ramón, portanto, as mulheres não parecem ter as capacidades inatas requeridas para a função. São dotadas de um olhar mais lento, incapaz de captar as ações dinâmicas do jogo. Ora, em apenas três frases, com esta singela declaração, retornamos mais de um século ao debate dos médicos e higienistas sobre as faculdades diferenciadas de homens e mulheres, que as tornavam inaptas a algumas práticas, entre as quais as do futebol (Almeida e Rial, 2024; Almeida, 2019). 


Uma fala machista, que reforça os valores discriminatórios e extrapola o espaço futebolístico ao reafirmar a superioridade do olhar do homem sobre o da mulher. Uma superioridade que não é apenas física, pois observar é também pensar, analisar, discernir, avaliar (Resende de Assis, 2019), ou seja, usar a razão. Para Ramón Díaz – podemos inferir a partir de sua fala – há ações sociais (observar) e espaços sociais (a sala do VAR e, quem sabe, os vestiários, o campo de jogo, o estádio) onde as mulheres, se presentes, estarão  em uma condição menor. Melhor que não estejam lá, pois podem atrapalhar e até prejudicar gravemente, como no caso da “senhorita” em questão – que, aliás, tem nome: Daiane Muniz.


Trata-se de uma reedição do “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, como quer uma parte da nossa sociedade. O VAR, azul, não pode ser vestido por uma “senhorita”. Mas não é apenas isso. A exclusão de certos lugares, que seria um expurgo social e político – uma opção, portanto – é justificada por algo mais além do social e do político: a natureza. As mulheres não podem estar nesse lugar porque são “naturalmente mal dotadas”. Há aqui uma naturalização semelhante à dos que afirmam uma relação direta entre corpo e sexualidade e que faz com que a anatomia seja tida como destino.


Imaginamos que, para muitos homens – e muitas mulheres – educados na sociedade patriarcal e racista – onde, sim, anatomia é destino e os que se desviam dela estão fadados ao fracasso, à morte social (e, em muitos casos, à morte física) – deva ser angustiante e intolerável a desestabilização que os ventos do feminismo, dos movimentos LGBTQIA+, das pessoas com deficiência, das lutas antirracistas e de indígenas têm provocado. O que era sólido desmanchou-se no ar. Do medo que essa desestabilização tão necessária causa é que decorre a necessidade de se afirmarem como mais capazes. De construírem fronteiras entre os que podem ou não estar neste ou naquele espaço, dos que podem ou não ver, podem ou não ser. Queimam-se os livros que ousam desconstruir categorias tidas como prefixadas desde sempre. E se mata – e não apenas simbolicamente, como no caso da Daiane – as mulheres que ousam dizer não, os negros que não se mantêm nos seus lugares, os/as/es trans... 


É assim que se constrói como Outro o que difere deste “nós, os homens; nós, as mulheres”. Distancia-o, torna-o inferior, exclui-o e, em último caso, aniquila-o. Isso é grave. Estamos vendo nas expressões dos extremistas a construção desse Outro como um inimigo a ser aniquilado. Até quando a misoginia de declarações assim será tolerada? Até quando a violência do essencialismo de gênero será passível de punição branda, na esfera desportiva apenas? Até quando serão aceitas desculpas posteriores estultas como a de Ramón: “Fui mal interpretado, quis dizer uma pessoa decidir sozinha” – quando ele sabe bem que há sempre mais de uma pessoa na sala do VAR?


No futebol, as maiores protagonistas dessas batalhas por igualdade hoje são as futebolistas mulheres, sejam elas heterossexuais, lésbicas, cis ou trans. São elas quem tem se posicionado com coragem contra as possíveis contratações pelos clubes de indivíduos envolvidos em casos de estupros ou outras violências contra mulheres. E, desde 2018, têm exposto publicamente suas famílias queers, dividindo nas redes sociais os seus cotidianos com as namoradas, esposas, filhos e filhas, com o mesmo orgulho das que mostram seus maridos, filhos e filhas. A eloquência de suas vozes contrasta com o silêncio dos futebolistas homens – não todos, pois são louváveis as demonstrações antirracistas lideradas por Taison e Vini Jr. 


Já passou da hora de criminalizarmos falas como a de Ramón.


Referencias:


ALMEIDA, Caroline S. 2019. Mulheres futebolistas: debates sobre violência e moral durante o Estado Novo brasileiro. Lusotopie, 18, p.  95-118. 


RESENDE DE ASSIS, Luis Guilherme. 2019. A Proa Pressentida: táticas oceanográficas brasileiras para atravessar a duração e avistar baleias no Estreito de Gerlache, Península Antártica. Tese de doutorado, PPGAS, UFSC.


RIAL, Carmen. ALMEIDA, Caroline S. 2024. O “gênero da bola”: mulheres e futebol na mídia. Alceu: Revista de Comunicação, Arte e Cultura, Rio de Janeiro, v. 24, 2024.


SOBRE AS AUTORAS:

Carmen Rial (Georgetown/UFSC) e Miriam Grossi (UFSC)


COMO CITAR:


RIAL, Carmen. GROSSI, Miriam. À Daiane Muniz – e a todas as mulheres que não sabem ver. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.5, 2024.




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