O voto envergonhado: o silêncio dos futebolistas que apoiam B.
Carmen Rial (UFSC/INCT Futebol)
No texto abaixo, a autora demonstra como houve uma diminuição dos posicionamentos públicos de jogadores de futebol homens em relação às suas intenções de voto, quando comparados aos posicionamentos a favor do bolsonarismo nas eleições anteriores.

Há alguns dias, um repórter da Deutsche Welle (DW) me procurou pedindo uma entrevista sobre as próximas eleições. Inicialmente, estranhei. Não por ser um veículo estrangeiro. Como muitos de nós, já falei com jornalistas no exterior: com jornais da França, da Irlanda e dos Estados Unidos; com a TV Al Jazeera; com a própria Deutsche Welle e com a BBC de Londres. Para a BBC, inclusive, dei uma entrevista especial. Eu estava em Amsterdã, onde ela locou um estúdio de gravação. Lá fui eu, na hora marcada, sentar-me numa grande mesa redonda em frente a ninguém, com técnicos de som do outro lado do vidro, além de um microfone e fones de ouvido que me colocavam na Inglaterra. Ultimamente, no entanto, são mais frequentes as entrevistas para jornalistas freelancers, que têm seus próprios canais. De um modo ou de outro, assim como outras pesquisadoras e pesquisadores de futebol, eu normalmente dou entrevistas nas vésperas de (ou após) grandes eventos futebolísticos, não em época de escolha presidencial.
O simpático e bem-informado repórter da DW queria confirmar se os futebolistas homens brasileiros têm apoiado B., enquanto as futebolistas mulheres têm apoiado Lula, e queria uma explicação para isso. Falamos por Zoom por cerca de meia hora. Eu nos jardins da Casa do Professor Visitante, em Campinas, e ele em Berlim. De cara, falei que (ainda) não há pesquisas sobre isso. Portanto, o que eu lhe diria seria baseado na etnografia com os jogadores brasileiros no exterior (homens e mulheres) que venho realizando há décadas e, especialmente, na etnografia de tela que faço acompanhando postagens nas mídias sociais. Disse também que sim: no geral, e baseado no que tinha ocorrido em eleições passadas, os futebolistas homens celebridades vinham apoiando B. E as mulheres, ao contrário das eleições passadas, estão mais vocais a favor de Lula na eleição atual.
Comecei relativizando: não seriam todos os futebolistas célebres. Havia (honrosas) exceções: Raí, Juninho Pernambucano, Paulinho (Palmeiras), Caio Paulista (Palmeiras), Igor Julião (Fluminense), Artur (Bragantino), entre outros. E, talvez, pudéssemos acrescentar Raphinha (Barcelona), se considerarmos o seu post em favor dos mais pobres como um apoio à política proposta por Lula. Ou os vários futebolistas do Vasco que comemoraram uma vitória “fazendo o L” em um post que vi no Instagram, mas que não pude averiguar com outros dados.
Mas é verdade que, se levarmos em conta as manifestações de 2018 e 2022, uma grande parte vinha apoiando B. A lista é encabeçada por Neymar – que postou um vídeo em favor do candidato para os seus 250 milhões de seguidores – e tem na escalação: Thiago Silva, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Ricardo Oliveira. Desses, apenas Neymar se vinculou mais diretamente à campanha de Flávio. As razões de Neymar, se diz, são de ordem econômica e lhe trariam substantivos lucros. Nas campanhas de 2018 e 2022, o apoio político do jogador a B. estava relacionado com a sua disputa fiscal com o Estado brasileiro. Atualmente, seu envolvimento estaria ligado à possibilidade de um grande projeto imobiliário na costa nordestina.
No passado, a sua bem documentada reunião com B., depois de eleito, visava à liberação de um imposto bem alto que estava na Justiça, e que ele deveria ter pago ao se transferir para o Barcelona. Depois do encontro com B., um tribunal federal decidiu a favor de Neymar no processo tributário envolvendo impostos pagos na Espanha e anulou uma multa que, inicialmente, chegava a R$ 188 milhões. Em 2022, Lula associou publicamente o posicionamento político de Neymar à possibilidade de obter vantagens fiscais e ganhar a disputa fiscal com as autoridades tributárias brasileiras.
Agora, o apoio a Flávio foi menos explícito. Ele foi fotografado assinando uma camiseta para o candidato da extrema-direita, depois de um jogo do Santos contra o Vasco, no vestiário de São Januário. E, embora tenha justificado seu voto, no passado, por conta de valores relacionados à família, a verdade é que provavelmente lucrou e teria muito a lucrar agora. Com F.B. no poder, certamente se desarquivaria a famigerada PEC 3/2022, popularmente conhecida como “PEC das Praias”, cuja proposta visa transferir a titularidade de certos terrenos de marinha da União para estados, municípios e ocupantes privados. Como se sabe, Neymar se associou ao que tem sido comercializado como o “Caribe Brasileiro” – um empreendimento imobiliário e de turismo de luxo anunciado para uma faixa de cerca de 100 km do litoral entre Pernambuco e Alagoas. A proposta de emenda à Constituição aprovada na Câmara acabou envolvida em polêmicas e foi arquivada no Senado, apesar do apoio de F.B., que teve a ideia de propô-la após uma viagem aos Estados Unidos financiada por um rico empresário estadunidense. Este, além de apoiar o empreendimento, também investiria em um projeto de cassinos, que também tramitou no Congresso. Luana Piovani apresentou um post baseado em dados bem documentados sobre tudo isso na conta do Instagram de Revelando – uma série especial produzida pelo canal Calma Urgente em parceria com veículos como o ICL Notícia, o Mídia Ninja e o Intercept Brasil.
As razões para que os outros futebolistas homens tenham apoiado B. parecem menos ligadas a ganhos econômicos diretos. Como detalhei em um capítulo do livro Ciências sociais e futebol – intercâmbio e perspectivas franco-brasileiras, as razões estavam relacionadas ao que consideravam como valores fundamentais, como a família – dentro de uma estrutura patriarcal heteronormativa (Butler, 2019) –, a pátria e a fé.
A Bíblia passa a orientar suas escolhas, oferece-lhes um sentimento de ordem, reforça hierarquias – particularmente em um universo tão estruturado hierarquicamente como o futebol – e sustenta uma visão heteronormativa de gênero, alinhada à masculinidade hegemônica (Connell, 1995) [...] Seus discursos expressam a necessidade de ordem, de uma hierarquia clara, e a defesa de um modelo familiar tradicional. Em outras palavras, um repúdio às pautas identitárias, vistas como fontes de desestabilização da ordem estabelecida, de ansiedade e de angústia (Soares, 2023). Como diversos autores mostraram (Manso, 2023; Pinheiro-Machado, 2019), foi justamente esse sistema de valores que levou muitos evangélicos oriundos das classes populares a votar em Bolsonaro. (Rial, 2025, 246-248)
E quanto às jogadoras, muitas também neopentecostais? As mulheres, em eleições passadas, foram mais discretas: preferiram não declarar voto, mas não apoiaram B. Andressa Alves foi uma das que declarou publicamente que nunca votaria em B. Em geral, porém, foi preciso ler nas entrelinhas. Como no caso de Marta, que raramente se manifesta politicamente, mas deu um “like” num post de Lula.
Tudo mudou nesta eleição. Tivemos mais futebolistas homens se manifestando em favor de Lula do que vimos apoios a B. Renato Gaúcho, agora técnico do Grêmio, finalizou a entrevista após o empate no Grenal de 11 de outubro dizendo: “é por isso que eu voto em B.” Mas foi uma manifestação isolada. Não encontrei nada nos posts dos jogadores que tinham apoiado B. em 2018 e 2022.
O cenário mudou também entre as futebolistas mulheres, que, nesta eleição, estão mais vocais. A entrevista à Globo, em rede nacional, de Carlinha, goleira do São Paulo, declarando, ao final da fala, “nunca mais B. no poder”, e o apoio de muitas de suas companheiras a Lula na celebração de comemoração do título do Campeonato Brasileiro Feminino no Morumbi foram alguns dos momentos em que Lula e o futebol de mulheres se associaram. Outro momento? Na arquibancada do Beira-Rio, no amistoso do Brasil contra a Argentina, quando, após os hinos nacionais, se gritou: “olê, olê, olá! Lula, Lula!”
Isso significa que Neymar, Thiago Silva, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká ou Ricardo Oliveira tenham mudado seu voto? Não acredito. O que acontece com eles, e foi o que disse ao jornalista da Deutsch Welle, é que sabem quem é Flávio Bolsonaro, sabem dos escândalos em que esteve e está envolvido. Continuam votando, mas em silêncio, um voto envergonhado.
Referências
BUTLER, Judith. Notas para uma teoria performativa do gênero. São Paulo: Annablume, 2019.
CONNELL, Raewyn. Masculinities. Berkeley; Los Angeles: University of California Press, 1995.
MANSO, Bruno Paes. A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI. São Paulo: Todavia, 2023.
PINHEIROMACHADO, Rosana. Amanhã vai ser maior: o que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual. Barcelona: Planeta, 2019.
RIAL, Carmen. Fé, gênero e futebol: por que os jogadores votaram na extrema direita? In: RIAL, Carmen; PINTO, Fábio Machado; MARTINACHE, Igor. Ciências sociais e futebol – intercâmbio e perspectivas franco-brasileiras. Brasília: ABA Publicações, 2025. Disponível em: https://portal.abant.org.br/publicacoes/publicacao/355017. Acesso em: 12 out. 2026.
SOARES, Luis Eduardo. Dentro da noite feroz: o fascismo no Brasil. São Paulo: Boitempo Editorial, 2020.
Sobre a autora:
Carmen Rial é professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde atua como docente no Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas. É coordenadora-geral do INCT Futebol e do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC).
As perspectivas presentes nos artigos veiculados no blog Bate-Pronto não necessariamente refletem as posições institucionais do INCT Futebol.
Como citar?
RIAL, Carmen. O voto envergonhado: o silêncio dos futebolistas que apoiam B. Bate-Pronto – INCT Futebol, Florianópolis, v. 3, n. 50, 2026.
Carmen Rial publicou, na última semana, um texto no Bate-Pronto sobre os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais. Para lê-lo, acesse: Futebol, Lula e Flávio: torcedores na política.
O voto envergonhado: o silêncio dos futebolistas que apoiam B © 2026 by Carmen Rial is licensed under CC BY-NC 4.0




Análise perfeita!
Professora Rial, excelente texto. Mas só uma ressalva: Caio Paulista (Grêmio).