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O gênero do ressentimento

Luís Guilherme Resende de Assis


“Com respeito aos árbitros, não podemos falar muito. Na última partida, o VAR foi uma senhorita, uma mulher, e foi pênalti. Me parece complicado que no VAR quem tenha que decidir seja uma mulher. Porque o futebol é tão dinâmico, com ações tão rápidas. Hoje não sei se o árbitro também não viu o lance, que me pareceu pênalti”  (Ramón Diaz, técnico de futebol, 17 de abril de 2024)

Ordinariamente, os jogos do Campeonato Brasileiro ocorrem no meio e no final de semana. O discurso acima foi proferido por Ramón Diaz, então técnico do Vasco, na rodada de meio de semana (Bragantino x Vasco); mas rememorava lance de jogo ocorrido no final de semana anterior (Vasco x Grêmio). As razões da evocação de lance de jogo anterior para comentar o jogo “atual” justificam o título e são aqui abordadas.


A etnografia lança luz sobre as motivações das ações e discursos, focalizando elementos dispersos nos contextos de prática ou enunciação. As afirmações machistas acima, por exemplo, ocorreram após a derrota do Vasco para o Bragantino, em 17 de abril. No entanto, remetem a um lance de pênalti para o Vasco marcado, e depois desmarcado, na rodada anterior, contra o Grêmio, em 14 de abril. Por isso, trata-se de qualificação negativa da hesitação arbitral, ocorrida nos dois jogos. Ao que tudo indica, o passado fora evocado no presente de uma coletiva de imprensa para dar conta de uma preocupação legítima com a regularidade avaliativa do corpo arbitral do campeonato, no melhor estilo: “se continuar assim, o Brasileirão será bastante problemático”. Um modo típico do meio futebolístico tupiniquim de imprimir pressão sobre a arbitragem para “parar de errar contra meu time”. 


Até aí tudo bem: quando juízes “voltam atrás” em suas decisões, ou quando hesitam em julgar, na exigente expectativa de objetividade sobre a performance do apito, as reclamações são quase certas. O problema autoevidente consiste em justificar o reclamo passado, e o receio futuro, partindo de alguma carência inata das mulheres sobre os elementos indispensáveis à arte de julgar. Nesse caso, o contexto das afirmações se reveste da dualidade cisgenérica homem/mulher, dando cores – rosa e azul? – aos mecanismos de seleção de memórias afetivas aptas a balizar um natimorto argumento sobre irregularidades arbitrais em casos de pênalti. Como se diz popularmente, o técnico “perdeu a razão” – no mínimo. 


Obviamente, a gravidade irresponsável da afirmação desloca o foco do reclamo para as razões conducentes ao passado em razão do “gênero da hesitação”. Assim foi que uma pretensa análise, com base em evidências de erros anteriores, transformou-se em uma manifestação de ressentimento masculino sobre a impossibilidade de o futebol conviver com a hesitação substancialmente “feminina”. Repiso: a hesitação e a mudança de parecer sobre um julgado qualquer foram tipificadas como comportamento inato feminino. Hesitar, então, converteu-se em atributo feminino e, em consonância com a lógica argumentativa de Ramón, isso não caberia no futebol “moderno”, “dinâmico, com ações tão rápidas”. O encadeamento propositivo é simples: ou banem as mulheres da arbitragem, banindo também a hesitação, ou continuaremos assistindo erros interpretativos de lances “dinâmicos”. Em suma, consignou-se que hesitar é feminino e, no futebol contemporâneo, os árbitros preparados, invariavelmente homens, não hesitam – ou não deveriam. Ao contrário das juízas, os juízes conseguiriam capturar a dinâmica em seu curso dinâmico, sem retroação [sic]. E se – ou quando – alguma retroação for observada, terão sido homens, digamos, com comportamentos arbitrais “afeminados” ou femininos. Para Ramón, isso é temerário.


Note-se: o ainda técnico do Vasco estava, de fato, a reclamar de um pênalti não marcado em favor de seu time na derrota para o Bragantino. Os árbitros eram homens. Para justificar a reclamação, evocou o que considera lance correlato no jogo anterior, na vitória contra o Grêmio. Naquela oportunidade, a árbitra do VAR primeiro marcou o pênalti, e, depois, voltou atrás, desmarcando-o. Conclusão: os árbitros de jogo contra o Bragantino reproduziram um comportamento feminino de hesitação observado no jogo contra o Grêmio. E chamar meninos de meninas, na perspectiva do técnico, parece ser uma ofensa suficiente para encerrar o assunto. Não é isso que quer dizer a pérola: “Hoje não sei se o árbitro também não viu o lance, que me pareceu pênalti”? Ao que tudo indica, sim. E esse é o absurdo grotesco da situação.


Transformada em ressentimento de gênero – masculino –, francamente dependente de uma condição feminina da hesitação arbitral, a justificativa técnica da incapacidade de julgar um “futebol dinâmico” com “ações rápidas” merece ser abordada, já que seus desdobramentos também adquirem gênero exclusivo. Está dito por Ramón que a dinâmica e a velocidade de ocorrência de uma falta dentro da área ensejam levantamentos probatórios masculinos na captura fenomênica, trasladados, na forma de imagens manuseáveis, para o VAR. Também o traslado, a habilidade de produzir e, depois, interpretar imagens com outras durações ou motions, ao melhor estilo bergsoniano, são “coisas de homem”.


Perceba: uma falta é uma interrupção tática insuportável aos elementos envolvidos em um jogo de mútua tentativa de condução de entropias. Admitindo o paradigma tático termodinâmico de Garganta, emprestado de Prigogine e Stengers, o sucesso consiste em conduzir o adversário a se comportar para aquilo que se treinou. O adversário deve ser manipulado para a ocupação de espaços e abertura de vazios típicos das estratégias ensaiadas no Centro de Treinamento reiteradas vezes. Jogar futebol é lidar com a rebeldia do adversário em não se conformar com o “modelo de jogo” imposto, apresentando, em contrapartida, ininterruptas “solucionáticas dadaístas”. No exercício de responder com soluções e obstáculos às propostas rebeldias dos adversários, o limite tático é transgredido: o corpo de outrem e as regras gerais. Falta! Tal é o fenômeno “dinâmico e veloz” que, para Ramón, somente juízes homens [sic] conseguiriam habilmente, i.e., objetiva e rapidamente, capturar, instanciando o sopro do apito. 


Sim, há que ser homem – o suficiente? – para interromper a dinâmica tática, acusando falta. Esse era o pensamento furioso de Havelange ao negar muitas vezes a diplomação de Léa Campos como a primeira árbitra futebolística da FIFA nos anos 70. Ramón mostra que a ideologia de gênero misógina segue viva em tempos do VAR, quando “dinâmica e velocidade” transbordam o campo, chegando às telas de uma salinha. Com o VAR, as habilidades para manuseio dos equipamentos passaram a compor as expectativas sobre a performance da objetividade arbitral. Um bom árbitro do VAR é aquele que dirime o tempo de hesitação geral, agora institucionalizado como etapa de julgamento: foi gol, pênalti, impedimento? Logo saberemos... quão “logo” é a questão posta. Então o árbitro do VAR precisa coordenar visão e mãos, premindo botões, traçando linhas num transcurso de tempo quase insuportável para torcida e agentes de TV. 


Ora, o que se passou com a implementação desse recurso foi necessidade de hesitar em favor da “verdade dos fatos”. Como dito, a ancestral hesitação da arte de julgar uma partida de futebol deixou de ser uma caixa-preta cognitiva “de campo”, rumo à institucionalização de captura e análises imagéticas: hesitar é preciso. E como as imagens de VAR agora ocupam a TV e as análises pós-jogo da programação, mais do que nunca, “somos todos juízes”. Os fatos, retirados de sua dinâmica e velocidade, são decupáveis em frames, dispondo o julgado futebolístico brasileiro como verdadeiro processo kafkiano. As cenas e áudios de julgamento constituem, hoje, entretenimento – esportivo? – à parte. O que se julga são fotos, não fatos. 


Mas as fotos passam à condição de fatos quando adequadamente triadas pelos operadores das máquinas, animando o debate sobre a qualidade ou correção da arbitragem na sala do VAR, não no campo. A “dinâmica e velocidade” dos acontecimentos se traduz em “dinâmica e velocidade” de transdução de provas de vídeo. Para Ramón, as mulheres, no nascedouro, são inaptas a esse exercício técnico, donde o gênero do ressentimento; inseparável do gênero da hesitação. O futebol se feminilizou. E disso, dirá o técnico, “temos” que reclamar.



SOBRE O AUTOR:

Luís Guilherme Resende de Assis. Antropologia – UnDF. INCT Futebol. NAVI/UFSC


COMO CITAR:

RESENDE, Luís. O gênero do ressentimento. Bate-pronto, INCTFUTEBOL, Florianópolis, V.1, n.6, 2024.




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